Mostrar mensagens com a etiqueta História das Ciências. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História das Ciências. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de março de 2009

I Curso Livre sobre História das Ciências da Saúde

Aproveito por fazer a seguinte divulgação:
"I Curso Livre sobre História das Ciências da Saúde:
Corpo, Saúde e Práticas Médicas ao longo dos séculos.
Organização: Centro de História da Universidade de Lisboa (CHUL) e Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência (CEHFCi)
Coordenação: Ana Maria S. A. Rodrigues (FLUL, CHUL) e José Pedro Sousa Dias (FFUL, CEFHCi)
Horário: 18h00-20h00 (Sessões de 2h00, com 1h30 de exposição e 30mn de discussão)
Calendário: De 14 de Abril a 30 de Junho (12 sessões às 3ªs feiras)
PROGRAMA
14 Abril – Cristina Pimentel (FLUL), Práticas médicas, superstições e mezinhas na Antiguidade romana
21 Abril – Luís Manuel de Araújo (FLUL), Saúde e bem-estar no antigo Egipto
28 Abril – Filomena Barros (U. Évora), Corpo, medicina e saúde pública no Islão clássico (sécs. VIII-XII)
5 Maio – Ana Maria Rodrigues (FLUL), Os receituários medievais, entre magia e ciência
12 Maio – Francisco Contente Domingues (FLUL), Nos Navios dos Descobrimentos: salubridade, alimentação e saúde
19 Maio – Laurinda Abreu (U. Évora), Políticas de caridade, assistência e saúde no Portugal Moderno
26 Maio – Cristiana Bastos (ICS-UL), Medicina e Império: biopoder colonial, doenças, feiticeiros, sangue e vampiros
2 Junho – Madalena Esperança Pina (UNL-FCM), Azulejaria e Medicina – Dos quatro elementos primordiais à decoração hospitalar.
9 Junho – Clara Pinto Correia (U. Lusófona), A Biologia do Demónio
16 Junho – Ricardo Lopes Coelho (FCUL), Os «Physicos» da Física (1842-1851)
23 Junho – Teresa Avelar (U. Lusófona), Medicina Darwiniana ou Porque é que a evolução é importante para a nossa saúde
30 Junho – José Pedro Sousa Dias (FFUL), A Introdução da medicina laboratorial em Portugal"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

"Como nos tornámos humanos?"

Para o Luís

Pretendo com este texto, deixar um breve resumo do que foi falado na conferência que ocorreu no dia 21 de Janeiro de 2009,na Fundação Calouste Gulbenkian, com o título “Como nos tornámos humanos?”, proferida pela professora Eugénia Cunha da Universidade de Coimbra.
Contributo de Darwin para o estudo da evolução.
A ideia de que os animais não são imutáveis já era discutida no século XVIII, mas ganha maior importância no século XIX com Charles Darwin (1809-1882) e uma das suas mais importantes obras A Origem das Espécies[1] (1859), em que explica que a evolução das espécies ocorre através de um processo designado de Selecção Natural. Aqui, apesar de ser discutida a evolução não só das espécies animais como também das plantas, Darwin evita abordar a temática da evolução humana, apesar de possuir dois cadernos de apontamentos referentes ao assunto. Este motivo viria a ser tratado posteriormente em Descent of man (1871).
Humanos e outros símios.
Darwin já afirmara que os humanos eram uns dos muitos símios. Mas então coloca-se a questão: o que nos distingue dos outros símios? Somos bípedes, temos grandes cérebros e colonizámos todo o Mundo. Mas esta resposta não é suficiente.
Somos de facto os únicos primatas bípedes. O Bonobo, por mais que se estique, não consegue ficar em pé, e com o bipedismo conseguiu poupar-se energia. Temos cérebros maiores (cerca de três vezes maiores) do que seria de esperar num primata de igual tamanho corporal. Mas sabendo que o cérebro é muito caro em termos energéticos, é necessário obter energia, que será conseguida através da comida (dieta), que é obtida através da locomoção. Está tudo interligado! Ingerir carne e alimentos cozinhados na dieta também possibilitou o aumento cerebral, mas este factor não é suficiente por si só. São várias as causas, como vamos ver, a actuarem para o aumento do cérebro. “O aumento do cérebro parece ter sido contrabalançado por uma concomitante redução do aparelho gastrointestinal”, também ele responsável por um enorme gasto de energia. Assim se explica que uma mudança na dieta poderá ter possibilitado o aumento do cérebro. Recentemente, foi descoberto um gene responsável pelo crescimento do cérebro. No entanto, o mais provável é que tenham havido várias alterações em muitos genes. Para este caso, um grande avanço foi dado com a sequenciação do genoma do chimpazé, que é o nosso parente mais próximo, como retratado num dos números da Nature em 2005. Estas alterações terão levado a que os nossos ancestrais com cérebros maiores, terão tido vantagens selectivas. No entanto, para além do genoma, bipedismo e tamanho do cérebro, há um outro factor que permite-nos distinguir dos outros símios, que é a linguagem. Não é possível exercer um pensamento estruturado sem uma linguagem mais complexa, o que leva a uma maior socialização. O gene FOXP2, ligado à linguagem, terá sofrido duas mutações sucessivas há 2 milhões de anos. Apesar de este gene também estar presente nos chimpazés, acontece que é expresso de maneira diferente.
Evolução Humana
Durante a palestra, muito tempo foi dedicado a esta temática, mas não pretendo alongar-me muito mais neste texto, tentando apenas realizar uma breve síntese das várias espécies humanas tratadas, juntamente com algumas informações.
África é considerada o berço da humanidade, e de facto, já havia sido proposto por Darwin, devido à proximidade com gorilas e chimpazés.
Os primeiros hominídeos apareceram a oriente do rifte africano. Toumai (siginfica esperança de vida – Hope of life); do Homem do Milénio (por ter sido encontrado em 2001) não se encontrou nenhum crânio, só peças craniais e fósseis de ossos que revelam bipedismo; Ardipithecus; Australopithecus afarensis (Lucy, é o exemplar mais conhecido) teria a estrutura de uma criança normal, 3,3M.A.; Australopithecus africanus, fóssil de uma criança com cerca de três anos; Paranthropus robustus, 2M.A.; Homo habilis (significa habilidoso, devido ao fabrico de utensílios de pedra) e Homo rudolfensis; Homo ergaster, realizam a primeira saída de África de um modo natural, pois sendo caçadores-recolectores, seguiram as rotas migratórias dos animais de que se alimentavam; Homo erectus (colonização da Europa); Homo antecessor, há mais de 750 000 anos, descobertos em Espanha e Itália; Homo heidelbergensis, descobertos na Alemanha esqueletos completos de 35 indivíduos, os ossos estavam dispersos e não estavam enterrados; Homem de Neandertal, nasceu na Europa e habitou também o próximo Oriente, praticavam enterramentos, o que revela consciência da morte e consciência do Eu. Sequenciação de ADN mitocondrial de vários Neandertais revela que estes não são nossos “avós”, separámo-nos há mais tempo. Convivemos muito tempo, ao mesmo tempo, e há a possibilidade de ter havido cruzamentos ocasionais. O Homo sapiens sapiens aparece no Quénia e na Etiópia, só chegando à Europa há aproximadamente 36000 anos, e já os Neandertais lá existiam.
E assim fica uma simples lista dos antepassados humanos. Contudo, nunca é de mais esclarecer (ou relembrar) que a evolução não é um processo linear, isto é, uma espécie não se extingue para originar outra. Pelo contrário, a evolução é ramificada, como os ramos de uma árvore, em que várias espécies podem coexistir, como foi o caso dos Neandertais e do Homo sapiens.

[1] De título completo: Sobre a Origem das Espécies através da Selecção Natural, ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida

sábado, 19 de abril de 2008

Voltaire, história das ciências e o ... LIDL?!

Num artigo intitulado “History of science and historical novels”(1), é comentada a relação existente entre história das ciências e romances ou novelas. O autor do artigo, refere que há cientistas que escrevem com base nas suas experiências em laboratório, designado de “Lablit”(1), e há escritores que olham para obras de historiadores da ciência como ponto de partida, ou inspiração, para romances de ficção. Na realidade há uma procura por romances históricos, mas por vezes faltam factos nestes.
Esta é uma oportunidade para os historiadores da ciência poderem abordar temas estudados, mas agora com recurso à ficção. “Por ser ficção permite explorar assuntos de moralidade e interpretação com uma liberdade normalmente negada aos historiadores”(1).
Em boa verdade, são vários os países com historiadores da ciência, que escrevem romances históricos, e Portugal não é excepção. Um bom exemplo da minha afirmação é a doutora Clara Pinto Correia com inúmeros trabalhos escritos, entre eles obras de divulgação científica e romances. Para o que pretendo expor vou referir duas das suas obras: “Os Mensageiros Secundários” e “A Primeira Luz da Madrugada”.
Em “Os Mensageiros Secundários”, cativante obra que nos prende do início ao fim, Clara Pinto Correia conta-nos a história através de dois narradores complementares, Chuck (personagem principal) e de uma misteriosa personagem que vamos conhecendo à medida que se desenrola o novelo da história. Como fio condutor temos uma investigadora portuguesa, a Ana Maria, que vive nos Estados Unidos da América e está a fazer uma pesquisa sobre descrições de monstros observados no Mundo com base em escritos portugueses do século XVIII. Entre diversos acontecimentos importantes que ocorreram em Portugal nesse século, podemos referir o colossal terramoto de 1755. Tal foi a magnitude deste sismo, que para além de Portugal foi sentido em muitos outros países, até no Norte da Europa. Este evento teve também particular destaque em “Cândido”, uma obra de François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778).
Foi a pesquisar para o seu estudo das teorias da reprodução, “O Ovário de Eva”, que a autora dos “mensageiros” encontrou numa biblioteca referências a relatos de visões de monstros escritos em português do século XVIII, em folhetos anónimos de dez páginas que costumavam ser avidamente lidos pelas massas.
Em “A Primeira Luz da Madrugada”, temos o prazer de reencontrar Ana Maria, que vê-se agora envolta no mito de Ashverus, o judeu errante. Ao ir passear o seu cão na praia encontra cinco indivíduos, aparentemente meros arrumadores do LIDL do Dafundo. Enquanto as personagens aguardam o há muito esperado Segundo Regresso, o leitor é convidado a conhecer a história deste mito e a reencontrar referências a personagens como o homúnculo de Paracelso, Matteo Ricci, Eleazar de Worms e até a criação do Golem de acordo com o misticismo judaico.
Está claro que no caso desta obra, a autora terá recorrido a informação recolhida para os seus trabalhos como “O Ovário de Eva” ou “O Mistério dos Mistérios”.
Tenho assim demonstrado, como de obras de história da ciência podem resultar bons romances com recurso a factos históricos, que contribuem para o enriquecimento cultural de quem tem o prazer de os ler.


(1) Golinsky, J.; “History of Science and Historical Novels”, Isis, 2007, 98:755-759
Bibliografia:

- Voltaire, “Cândido”, Abril Controljornal, Biblioteca Visão, 2000, tradução de Maria Archer

- Clara Pinto Correia, “O Mistério dos Mistérios – Uma história breve das teorias de reprodução animal”, Relógio D’Água Editores, 1999

- Clara Pinto Correia, “Os Mensageiros Secundários”, Relógio D’Água Editores, 2000

- Clara Pinto Correia, “A Primeira Luz da Madrugada”, Oficina do Livro, 2006

sábado, 5 de abril de 2008

"O Ovário de Eva" - A obra e a autora


Clara Pinto-Correia, no livro “O Ovário de Eva”, fala-nos de uma das teorias da reprodução, a Preformação, levando-nos numa viagem ao passado de modo a conhecer os intervenientes que defendiam e os que se opunham a esta teoria, juntamente com os seus argumentos.
A Preformação consiste na ideia de que “o organismo primordial já contém dentro de si todos os outros organismos da mesma espécie, perfeitamente preformados, por mais minúsculos que possam ser”.(1)
Foi o fascínio pela beleza desta doutrina, da qual tomou conhecimento através de um livro de embriologia, que terá levado a autora a interessar-se por este tema. Havia também o interesse em tentar compreender “como é que uma teoria tida como ridícula e obscurantista por vários escritores modernos dominaram as ideias da reprodução desenvolvidas durante a Revolução Científica”.(1)
O preformacionismo divide-se em duas vertentes, o ovismo e o espermismo. Os defensores do ovismo defendiam que todas as gerações se encontravam enclausuradas no interior dos ovos, enquanto que os espermistas defendiam que eram os animálculos(2) que continham todas as gerações já preformadas.
Quando há diferentes opiniões para um mesmo tema podemos esperar um entusiasmaste esgrimir de ideias e argumentos, principalmente quando proferidos por pessoas cultas que foram os cientistas que nos antecederam, assim como maravilhosas, e por vezes até mesmo assombrosas, experiências realizadas para tentarem lançar alguma luz sobre esta temática.
Há dois nomes que não posso deixar de mencionar, são eles o de Charles Bonnet que acabou por perder a visão ainda novo em prol do conhecimento científico, e Lazaro Spallanzani pelas suas engenhosas experiências para refutar a teoria da geração espontânea, assim como por demonstrar ser necessário o contacto do esperma com os ovos para que haja fertilização, mesmo que para isso seja necessário vestir rãs com calções.

(1) Conforme o prefácio.
(2) Animálculos era a designação atribuída aos espermatozóides no início das observações microscópicas. O termo espermatozóide apareceu mais tarde.


Sobre a autora:
Clara Pinto Correia licenciou-se em Biologia pela Universidade de Lisboa e doutorou-se pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto. Deslocou-se para os Estados Unidos da América, onde prosseguiu uma carreira universitária e de investigação com um pós-doutoramento na área da clonagem de mamíferos. Foi também aí que realizou uma especialização em História das Ciências, na Universidade de Harvard, sob a orientação de Stephen Jay Gould, da qual resultou o livro “The Ovary of Eve” (Un. Of Chicago Press, 1997).
Actualmente lecciona no curso de Biologia (do qual é coordenadora), na Pós-Graduação em Ciência Biológicas e Sociedade e no Mestrado em Biologia do Desenvolvimento, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.


Versão em Inglês: Clara Pinto-Correia, "The Ovary of Eve - Egg and Sperm and Preformation", Un. of Chicago Press, 1997.


Versão em Portugês: Clara Pinto-Correia, "O Ovário de Eva - Ovo e esperma e Preformação", Relógio d'Água Editores, 1998 - tradução de Miguel D'Abreu.