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terça-feira, 20 de junho de 2017

Livro "Não se deixe enganar"

Foi recentemente publicado o livro de divulgação científica "Não se deixe enganar", em cuja autoria se encontram alguns dos colaboradores deste blogue. O livro, editado pela Contraponto, uma chancela do grupo Bertrand, foi escrito por quatro membros da associação COMCEPT - Diana Barbosa, João Lourenço Monteiro, Leonor Abrantes e Marco Filipe - e conta com um prefácio da autoria do professor de física Carlos Fiolhais e do bioquímico David Marçal. 



Para conhecer o nosso primeiro livro, partilhamos algumas ligações:
[irão ser atualizadas à medida que surjam novidades]

Pré-publicação em que se fala da bandolete quântica -  jornal Público (imprensa escrita)

Pulseiras, homeopatia e dietas milagrosas? - jornal Diário de Notícias (imprensa escrita)

O livro do dia - TSF (rádio)


Entrevistados pelo Fernando Alvim - Prova Oral (rádio)

Entrevistados pelo Edgar Canelas - Os dias do Futuro (rádio)

Entrevistados pela Joana Marques - As Donas da Casa (rádio)

Homeopatia e Detox? Não se deixe enganar - Observador (imprensa escrita)

Entrevistados por João Gobern e Pedro Rolo Duarte - Hotel Babilónia (rádio)

Entrevistados por Ana Daniela Soares - À volta dos livros (rádio)


Os 10 melhores conselhos do livro - revista GQ Portugal (imprensa escrita)

Desconfiados, este livro é para vocês - revista Notícias Magazine (imprensa escrita)

Sugestões de livros, por Marco Neves - Sapo24 (imprensa digital)

Comentando teorias da conspiração - Notícias ao Minuto (imprensa digital)

O livro é mencionado a nível internacional - The Europeans Skeptics Podcast (rádio)

Entrevistados para a rádio galega, em Espanha - Efervesciência (rádio)

Outras entrevistas: revistas Activa e Saber Viver (imprensa escrita)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

"As Montanhas de São Francisco"


Convite para a apresentação do livro "As Montanhas de São Francisco", de Walter Alvarez.
Quando: 22 de Maio. 17h30
Onde: Auditório da Fundação de Serralves, Porto.




terça-feira, 23 de abril de 2013

"Toda a Ciência" com muito humor


Dá-se a conhecer a publicação de um novo livro de divulgação científica, intitulado Toda a Ciência (menos as partes chatas), escrito por vários autores e coordenado por David Marçal.  A sessão de lançamento do livro terá lugar na próxima semana, e será apresentado pelo professor Carlos Fiolhais.

Informações:
Local: FNAC Colombo
Data: 30 de Abril, 21h30
Entrada Livre


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Bioética para Jovens



Por  me parecer uma iniciativa relevante, divulga-se:

Apresentação do livro "MANUAL DE BIOÉTICA PARA JOVENS"


Na próxima 3ª feira, dia 22 de Janeiro, pelas 18:00h, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso térreo do Departamento de Física da FCTUC, vai ser apresentado o livro "Manual de Bioética para Jovens", da Fondation Jérôme Lejeune. Contará com a presença dos Profs. Doutores Henrique Vilaça Ramos e Ana Ramalheira. A entrada é livre.

ara qualquer esclarecimento adicional, poderá contactar-nos pelo telefona 239 410 699 ou por mail ccvromulocarvalho-at-gmail.com.

QuandoTer, 22 de Janeiro, 18:00 – 19:30 GMT+00:00
OndeRÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Edições de Autor



Recentemente deparei-me com a obra "Sofia e o Mestre" do escritor António dos Santos. Trata-se de um conto do quotidiano, que retrata a vida e as relações de um grupo de amigos. O relato centra-se na vida do Mestre, o personagem principal, e gira à volta de encontros e desencontros, do que se toma como garantido e do que se perde. Enfim, trata da correria frenética do dia-a-dia e das conquistas voláteis da vida. 

Mas não me quero centrar tanto no tema nem na análise da obra, mas sim no facto de estar perante uma edição de autor. Nas últimas semanas, tenho-me deparado com algumas obras deste teor, pelo que aproveito para abordar rapidamente esta questão.

A Edição de Autor apresenta-se como uma alternativa à edição convencional, em que o autor conta com  uma editora para ver o seu trabalho publicado. 

Como em tudo, há vantagens e desvantagens, de ambos os lados. No caso da edição convencional, entrega-se a obra à editora, que irá aprovar ou não a publicação, normalmente faz uma revisão técnica, fica responsável pela distribuição, e o autor recebe, em média, cerca de 7 a 10% sobre o preço de capa. Pelo contrário, na edição de autor, a obra é entregue a uma gráfica que trata da impressão, de acordo com as indicações fornecidas previamente num formulário, e entrega ao autor; o escritor é responsável pela distribuição; os lucros são definidos pelo autor. No entanto, algumas empresas que se dedicam às edições de autor também fornecem  serviços de distribuição (com custos acrescentados) ou colocam os livros à venda nos seus sites. 

Deixo alguns links que podem ser consultados:
- a Lulu é uma empresa estrangeira
- A Várzea da Rainha é uma empresa portuguesa
Site com algumas dicas em inglês  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Contos e Histórias, de Luís de Araújo

Na continuidade do que há tempos deixámos aqui comentado sobre a obra de Júlio César Machado (Os Teatros de Lisboa), damos hoje a conhecer outro autor popular do século XIX: Luís António de Araújo (1833-1908). Jornalista e funcionário do Ministério das Obras Públicas, grande observador do quotidiano, colaborou em vários periódicos, escreveu diversas comédias e até manteve um almanaque humorístico com o seu nome. Quem actualmente procurar as obras de Luís de Araújo, deparar-se-á imediatamente com os Contos e Histórias (1871), especialmente por ter uma edição moderna (1984). Este livro é uma sucessão de frescos, em que os costumes oitocentistas são captados nos seus traços fundamentais. São cenas do dia-a-dia, como a chegada das lavadeiras com as roupas dadas aos rol, intrigas de criadas, práticas religiosas, festas e serões familiares, sem esquecer a descrição de alguns tipos fundamentais, como o Galego e a Saloia, cujas formas de falar são reproduzidas, embora sem depreciar. Em alguns casos, poucos, dado o ano de nascimento de Luís Araújo, recua-se ao século XVIII ou ao tempo dos franceses, para descrever as vidas de personagens com que conviveu.

Excerto:

"Eu tive um tio médico.

Já lá está na terra da verdade. O dia em que se finou, foi um dia de luto para toda aquela boa gente de Odivelas.
Meu tio chamava-se Maurício José dos Santos. Era o filho mais velho de meu avô materno, o Dr. Gregório Taumaturgo dos Santos, jurisconsulto bem conhecido e respeitado no seu tempo.
(...)
Meu tio médico, por ter bebido os conselhos do pai, e sair ele tal qual em índole e carácter, eis a razão porque foi tão chorada a sua perda.
Foi em Coimbra premiado vários anos, serviu no exército como físico-mor, foi condecorado pelo Sr. Rei D. João VI, e abandonando a política, em Maio de 1840, foi morar para Odivelas.
Ali, pelas boas acções que praticava, chamavam-lhe O pai dos pobres.
Um dia de manhã cedo procurou-o uma saloia:
seu doutor médeco, eu tenho uma dor aqui, salvo seja, na boca do estamâgo, e vai com o lidar passa-me aos rinzes e apanha-me ós pois as costelas desta banda de riba a baixo. Tenho frementado com enxúndia de galinha; mas a dor é fixa... e então se V. S.ª entender que me purgue, que eu já tomi uns pozes que me deu o seu Silva do Lumiar.
-Cale-se aí vossemecê, e deixe-me ver o pulso. Isso não é nada... tome esta receita e há-de achar-se boa.
A saloia, quando ia a retirar-se, pôs-lhe doze vinténs sobre a carteira.
-Para que é isto?
-É a paga a V.ª S.ª, e se não dou mais, Deus me salve a minh'alma como não tenho ni mais um real de meu.
-Pois guarde Vossa Mercê os seus doze vinténs e compre com eles uma galinha.
Por estas e outras é que todos o adoravam."

Referência: Luís de Araújo, Contos e Histórias, Porto, Lello&Irmão Editores, 1984, pp. 181-182.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Naturalista britânico aos tiros em Portugal


Reproduz-se aqui um texto da minha autoria, publicado hoje no Diário de Coimbra, no âmbito do projecto "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva". Trata-se de uma apreciação do livro "Darwin aos tiros... e outras histórias de ciência". Actualmente encontra-se no Top10 da FNAC (8º lugar), comprovando que o público interessa-se cada vez mais por ciência.


“Darwin aos Tiros”

Por João Lourenço Monteiro (Biólogo)

"Foi muito recentemente publicado o livro de divulgação científica “Darwin aos Tiros e outras Histórias de Ciência”, da autoria do professor de Física da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais e do Bioquímico David Marçal.

Se o leitor é um ávido curioso pela Ciência e pela História, então vai encontrar aqui o melhor dos dois mundos, desvendando os segredos da História de várias disciplinas como a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química, a Geologia, a Biologia, a Medicina e ainda um alerta para as pseudociências. As pseudociências são crenças que se pretendem valorizar alegando basear-se em factos científicos, mas que na realidade não têm qualquer apoio por parte da ciência, sendo os exemplos mais conhecidos a astrologia ou a homeopatia.

Na apresentação do livro, que teve lugar em Lisboa, o editor Guilherme Valente relatava um telefonema que havia recebido do professor Fiolhais, em que o lente afirmara que estava a preparar um novo livro que seria um tiro; qual não foi o espanto do editor quando recebeu um esboço do livro intitulado “Darwin aos Tiros”. Afinal o professor de Física, a brincar, falava a sério.

Importa esclarecer a origem do título: Charles Darwin foi um importante cientista britânico do século XIX, que realizou uma circum-navegação ao globo na qual aproveitou para estudar várias espécies da fauna e flora mundiais. Como a viagem demorou cinco anos e a tripulação não levava mantimentos suficientes, era necessário capturar algumas das espécies que iam encontrando, para servirem de alimento. Nessas situações, Darwin demonstrou que não era apenas um cientista curioso e atento, mas também um exímio caçador. E mais não revelo, para não estragar o prazer da descoberta.

De salientar que a ciência relatada no livro também teve origem em Portugal, com cientistas do calibre de Pedro Nunes, Amato Lusitano, Diogo de Carvalho Sampayo, Garcia de Orta, sem esquecer, como recordam os autores, o importante papel que tem tido a Universidade de Coimbra, formando ou acolhendo muitos dos notáveis aqui mencionados.

Neste livro, a História das Ciências é contada aos leitores em jeito de breves estórias, e com uma certa dose de sentido de humor, o que tornará a leitura desta obra, creio, bastante agradável. Nestes dias frios e chuvosos, em que nos vemos forçados a permanecer grande parte do tempo na clausura do nosso lar, este livro promete ser uma companhia prazenteira. Boas leituras."

O Incansável Investigador de Coimbra


Já tive a oportunidade de escrever neste blog sobre o António Piedade, investigador em Coimbra. Para além da investigação desenvolvida no ramo da Bioquímica, o António é também comunicador de ciência, estando a coordenar um projecto da Ciência Viva - "Ciência na Imprensa Regional", como também já mencionámos aqui por várias ocasiões.
Para se ser um bom cientista não basta calçar as botas e ir para o campo, ou vestir a bata e permanecer no laboratório; esta é apenas uma parte visível da profissão. Para se ser um bom cientista, é preciso ter paixão pelo que se faz, e, quando isso acontece, a Ciência acompanha-nos 24h por dia. São muitas horas de entrega à Ciência, e o António é um bom exemplo disto. Como quem pretende comprovar o ditado popular "Quem corre por gosto não cansa", António desdobra-se para levar a Ciência a todos, principalmente àqueles a quem não chegaria de outro modo. Vou dar três exemplos (e poderiam até ser mais):

1) Escreveu um conto que enviou para o concurso "Conte Connosco (2ª edição)" e que está agora sujeito a votação dos leitores (pode ser consultado em http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=706#_= ). Sugiro a leitura porque o autor consegue, de um modo simples, explicar certos conceitos da biologia molecular, com recurso a um diálogo passado em família. A opinião fica à consideração de cada leitor. (nota: pode votar 1 vez por dia).

2) Ainda no domínio da escrita, é co-autor no livro "Palavras Nossas" que irá ser recentemente apresentado na FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, no dia 3 de Dezembro 2011 (Sábado).
3) Já neste sábado, dia 19 de Novembro, vai coordenar as apresentações de divulgação de ciência que irão decorrer no auditório da Bertrand do Centro Comercial Dolce Vita, em Coimbra. Este ciclo de eventos que tem vindo a ser desenvolvido pelo investigador, é designado de "Sábados com Ciência", e é dirigido a um público geral. Esta semana será dedicada à Física (ver imagem seguinte).

Para além de tudo isto ser um bom exemplo da dedicação dos cientistas nacionais, fica também como sugestão para um programa de fim-de-semana cultural.


sábado, 15 de outubro de 2011

O Lince e o Acordo Ortográfico


Quer se goste, quer se odeie, o Acordo Ortográfico (AO) está aí para ficar. Para ajudar nesta fase de transição, relembramos que existe um conversor oficial de textos, intitulado "O Lince". Esta ferramenta aceita ficheiros em vários formatos (Word, PDF, etc.), como poderá consultar no site. Para fazer download, clique no link:


É de fácil uso. Escreva o seu texto, grave o trabalho e feche o documento. De seguida, abra o conversor (previamente instalado no computador), pesquise pelo documento, e clique em converter. O documento surgirá com o mesmo título do ficheiro inicial e com a informação de "convertido". Por exemplo, se o ficheiro inicial chamar-se "Ensaio", após a conversão no Lince chamar-se-á automaticamente "Ensaio_convertido". Boa escrita.



domingo, 2 de outubro de 2011

"Não podemos ver o vento" - breve análise


No livro “Não podemos ver o vento”, Clara Pinto Correia usa o tema dos Grupos Especiais como fio condutor do enredo. A personagem principal é Mariana Mindelo, uma psicóloga que decide estudar o comportamento de um grupo restrito de homens que esteve na Guerra do Ultramar, os Grupos Especiais (GEs) e Grupos Especiais Pára-quedistas (GEPs), homens treinados arduamente para fazer frente às guerrilhas, mas que foram esquecidos pelo Estado no Pós-Guerra. A definição e a história dos GEs podem ser encontradas, com mais detalhe, nos capítulos 6 e 21 do livro. A maioria destes homens ficou sem qualquer tipo de acompanhamento psicológico após o regresso a Portugal, isto depois de tudo o que presenciaram em clima de guerra (incluindo formatação psicológica e assassínios que foram forçados a cometer), trazendo sequelas não só físicas mas também de foro mental, manifestadas por comportamentos de isolamento ou de agressividade, por exemplo. Assim, Mariana pretende desenvolver um estudo académico do crescimento pós-traumático (ao invés do stress pós-traumático) seguindo uma linha de investigação enquadrada na actual “Psicologia do Optimismo”, de modo a compreender também de que modo estes acontecimentos contribuíram para a actividade criadora ou empreendedora de alguns destes indivíduos (por exemplo, o caso de Guilherme que administra a estância turística).

Mas à medida que se desenrola o fio deste novelo, conhecemos outras facetas da personagem principal, para além do seu interesse académico. Mariana é mãe de duas gémeas adolescentes e tem de lidar com os problemas da juventude actual, é uma mulher separada que continua em busca da sua paixão. Ou seja, não é mais que uma mulher comum que, como tal, divide-se em múltiplas tarefas tentando ter sucesso em todas elas, quer seja a nível profissional, pessoal ou familiar, com todo o desgaste que isso implica. Trata-se de uma personagem muito humana, com quem facilmente se estabelecem laços de empatia.

O livro trata de vários mistérios: a vida actual dos GEs, a vida de Mariana Mindelo e da sua família, os segredos das várias personagens com quem Mariana estabelece contacto, e quando pensamos que estamos prestes a entender tudo, eis que a história se prepara para dar uma tremenda reviravolta. Tudo isto, descrito em capítulos que não seguem uma sequência temporal, que são como peças de um puzzle que tentaremos montar de modo a visualizar o panorama geral.

Para escrever este livro, a autora entrevistou ex-membros dos GEs, conversou com psicólogos e estudou o tema da Psicologia do Optimismo, de modo a elaborar uma obra não só fascinante do ponto de vista literário, como também interessante do ponto de vista académico.

Brevíssima nota sobre a autora:

Clara Pinto Correia é bióloga e escritora, autora de inúmeras obras sobre diferentes áreas como literatura, biologia, história das ciências e divulgação científica.

Bibliografia:
Clara Pinto Correia, "Não podemos ver o vento", Clube de Autor, Lisboa, 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

"Não podemos ver o vento"


Hoje estive no lançamento do livro "Não podemos ver o vento", da Professora Clara Pinto Correia, nossa colaboradora noutros blogues. Esta sessão decorreu na livraria Bertrand, do Shopping das Amoreiras, e a apresentação esteve a cargo do escritor Mário de Carvalho. De seguida, a autora falou do conteúdo do seu livro e do percurso da criação do mesmo. Vou ler o livro e, brevemente, darei a minha opinião neste blog.
De salientar que conheci o Mário Zambujal, um escritor que admiro e autor do livro "Crónica dos Bons Malandros" - um livro cuja leitura é um autêntico prazer e que está entre um dos meus favoritos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"Brave New World"

Aldous Huxley
“Admirável Mundo Novo” (1932) é um livro da autoria do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), podendo ser enquadrado dentro das temáticas ficção científica e ficção distópica (1). Esta ligação de A. Huxley à Ciência não se dá por mero acaso. De facto, o autor cresceu num meio em contacto com esta área do saber: Era neto do famoso cientista Thomas Henry Huxley (1825-1895), evolucionista convicto, conhecido como “Bulldog de Darwin”, por ser defensor acérrimo do naturalista britânico; irmão do biólogo Julian Huxley (1887-1975) (2); e meio irmão de Andrew Huxley (n. 1917), Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina (1963).

Nesta obra, Huxley descreve uma sociedade futura bem organizada, em que os habitantes vivem em paz e felizes, mas à custa de um Estado controlador. A sociedade encontra-se dividida em castas, em que os indivíduos das castas inferiores são feios e estão destinados à realização de trabalhos menores, e os das castas superiores, os Alfa mais, estão destinados a colaborar na organização da sociedade. Os indivíduos das diferentes castas são condicionados física e psicologicamente à nascença e nos primeiros anos de desenvolvimento: todos os habitantes são criados em laboratório como bebés-proveta, muitos deles são clones, e condicionados geneticamente através de diferentes procedimentos ao longo da cadeia de produção; enquanto crianças são educados por meio de um processo hipnopédico, em que ouvem ensinamentos morais repetidas vezes (ensinamentos esses, diferentes para as várias castas). A maior parte da ciência, a arte e a religião foram abolidas. Mas no meio de tanta regulamentação e diferenças sociais porque é que não há revoltas? Porque todas as pessoas foram condicionadas a gostar do que fazem, e, além disso, tomam “soma”, uma droga que as ajuda a relaxar. No entanto, alguns cidadãos ocasionalmente questionam este modo de vida, e o personagem Bernard Marx é disso exemplo.

Marx, psicólogo, viaja para uma reserva histórica em que as pessoas desse local vivem de acordo com os costumes antigos. Aí conhece um índio, de nome John, mais conhecido como o “Selvagem”, que nascera na Reserva, mas tem uma ligação misteriosa com a sociedade civilizada. Ao descobrir o segredo de John, Marx decide dá-lo a conhecer à sua sociedade. O interessante é saber como John vai reagir a uma realidade assaz diferente da sua, e como a sociedade vai conseguir lidar com o Selvagem. Decerto poderemos esperar, à partida, um choque de culturas, mas o confronto irá ainda mais longe: John é um selvagem que conhece bastante bem a obra de William Shakespeare e depara-se com uma sociedade que ignora a literatura clássica, é um ser que tem dificuldade em aceitar que sejam todos iguais e que pensem e actuem de maneira igual (de acordo com a sua casta), o que o leva a indignar-se com o “Admirável Mundo Novo” (3) que encontra.

Este é um livro que analisa o risco de ausência de espaço para a individualidade numa sociedade, mais do que através de uma pressão social para todos agirem do mesmo modo, através de um condicionamento de desenvolvimento, realizado por quem governa, e da provável irreversibilidade deste processo. O enredo deste livro e o de “1984” de Orwell partem da intenção de criar uma sociedade melhor (utopia), mas que devido à falta de ética (possível explicação) na acção humana, esse pressuposto acaba por degenerar numa realidade opressora e perturbadora (distopia). Talvez a mensagem dos autores seja: “A favor da criação de uma sociedade melhor, mas com cautela.”

Notas:
(1) – Quando se descreve um lugar demasiado perfeito quando comparado com a nossa realidade, designamo-lo de Utopia, mas quando esse lugar é demasiado perturbador ou horrível quando comparado com a realidade, então, designamo-lo de distopia. Obras como “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, ou do aqui já mencionado “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell, são consideradas distópicas.

(2) – Julian Huxley era amigo do escritor de ficção científica H. G. Wells, também já mencionado neste blog (Julho 2011).

(3) – Alusão à obra “Tempestade” (V, 1), de William Shakespeare. Aliás, o livro está repleto de referências a diversos textos deste autor.

Bibliografia:
Aldous Huxley, "Admirável Mundo Novo", Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2006 - Tradução: Mário Henrique Leiria

sábado, 20 de agosto de 2011

António Piedade a divulgar ciência

António Piedade é cientista e divulgador de Ciência. No seu percurso académico, conta com uma licenciatura em Bioquímica, mestrado em Biologia Celular e encontra-se prestes a terminar o doutoramento em Tecnologia Bioquímica; a nível de divulgação, colabora num dos blogs de ciência mais lidos em Portugal, o “De Rerum Natura”, escreve crónicas semanais para o jornal Diário de Coimbra, e escreveu dois livros de divulgação de ciência que vou de seguida mencionar.

Apesar da sua formação base em Bioquímica, Piedade escreve de um modo claro e sucinto sobre diferentes temas da ciência. Pela maneira como explana as suas ideias ao longo das páginas dos seus livros, apercebemo-nos que o autor está à vontade nas várias temáticas que aborda, desde a biologia celular, passando pela química e viajando até à física aeroespacial. O autor consegue, assim, levar o conhecimento científico, aparentemente complexo, ao grande público de um modo acessível. Como António Piedade defende, “a Ciência deve voltar a ocupar o seu lugar no senso comum”, junto a todas as pessoas e não apenas dirigida a uns quantos (1).

Desta sua missão resultou o livro “Íris Científica” (2005), abordando as áreas da química, física e biologia. A estas temáticas junta-se o interesse pela história das ciências, o que originou o seu novo livro intitulado “Caminhos de Ciência” (2011), que inclui ainda pinturas da autoria da artista e ilustradora científica Diana Marques. De mencionar que o primeiro livro encontra-se incluído no Plano Nacional de Leitura (Ler +), com interesse para o 2º ciclo e para o desenvolvimento de trabalhos escolares no âmbito das disciplinas científicas.

Planeio abordar aqui temas mais concretos destes livros, num futuro próximo, assim como continuar a acompanhar o percurso deste autor. Antecipo que Piedade tem um projecto em andamento sobre “Comunicação de Ciência na Imprensa Regional”, e que conta a colaboração da equipa deste blog.

Sobre os livros e como podem ser adquiridos:
- "Íris Científica": Associação Viver a Ciência
- "Caminhos de Ciência": Wook
Notas:
(1) – António Piedade passou esta ideia no “I Atelier de Escrita Científica”, realizado em Coimbra (Junho de 2011)

1984 - Big Brother

Retrato do autor, George Orwell
“Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” (por vezes simplificado por “1984”), publicado em 1949, é um dos livros mais conhecidos do jornalista e escritor inglês George Orwell (1903-1950). Aí, G. Orwell (1), retrata uma sociedade governada por um partido político, conhecido simplesmente por “Partido”, de acordo com um sistema oligárquico. A sociedade encontra-se disposta num sistema piramidal, com os “proles” (ou o povo) na base, o que corresponde a cerca de 85% da população, seguido do partido externo, depois o partido interno (a elite governativa) e no vértice da pirâmide encontra-se o Grande Irmão que todos vigia. É, pois, neste livro que tem origem a expressão Big Brother e a relação com vigilância omnipresente.

Após a Segunda Guerra Mundial, formam-se três superpotências, que estão constantemente em guerra entre si: a Oceânia (engloba Austrália, Reino Unido, Estados Unidos da América e uma parte de África), a Eurásia (Europa e Ásia) e a Lestásia (China e arredores). A governação da Oceânia encontra-se organizada em quatro ministérios: o da Verdade (que altera a história), da Paz (que trata da guerra), do Amor (responsável pela tortura) e da Riqueza (que trata da fome).

O personagem principal é Winston Smith, que habita na cidade de Londres devastada por bombardeamentos ocasionais, e que trabalha no Ministério da Verdade. A sua missão é reescrever a história. Este regime SocIng (Socialismo Inglês), tem a seguinte máxima: “Quem controla o Passado, controla o futuro. Quem controla o Presente, controla o Passado”. Ou seja, quando um acontecimento presente é discordante de outro acontecimento relacionado mas do passado, os jornais anteriores são rescritos para a informação bater certo com a actual; ou quando algum opositor do regime é “evaporado” (2), apagam-se todas as informações passadas sobre essa pessoa – é como se nunca tivesse existido.

Todas as pessoas importantes (3) estão sobre constante vigilância, através de câmaras e de microfones, e qualquer comportamento considerado estranho deve ser denunciado por colegas, amigos ou família. De facto, as crianças são educadas desde novas a denunciar os seus pais caso manifestem algum comportamento contra o regime. Os crimes mais graves são o uso da memória e a reflexão. O “Partido” pretende que as pessoas não se questionem, não pensem, que não coloquem em causa as notícias actuais que divergem de outras notícias de um passado recente.

Winston Smith que tem de alterar as notícias começa a pôr em causa este modo de actuar e indigna-se com o facto de os seus compatriotas não acharem estranho a redução de alimentos quando saem notícias do aumento da produtividade; ou não estranharem estarem desde sempre em guerra com a Lestásia, quando semanas antes dizia-se estarem em guerra desde sempre com a Eurásia (exemplos de “verdades” alteradas). É por se questionar, por se interrogar, por se apaixonar pela sua colega Júlia, por escrever num caderno, por se interessar pela história do seu país – tudo o que é inato ao humano - que poderá ser perseguido, caso alguém o denuncie, acontecimento bastante provável uma vez que a vigilância é constante. Este regime, cujo único intento é a busca por poder, pretende governar uma sociedade de pessoas desumanizadas, promovendo a degradação e o desrespeito pela condição humana, incitando ao ódio, eliminando tudo o que o Homem tem de melhor. Até a língua oficial, a Novilíngua, favorece o acto de não pensar através das palavras abreviadas e compostas, e através da eliminação de expressões nocivas ao regime, como Liberdade ou Igualdade.

As ditaduras podem surgir em clima de pós-guerra, ou em momentos de conflito social, e este livro vem lembrar-nos que temos de estar vigilantes, de modo a não permitir que a nossa civilização degenere numa sociedade semelhante à aqui descrita.

Notas:
(1) - George Orwell é o pseudónimo de Eric Arthur Blair.
(2) - Opositores que eram assassinados e todas as provas da sua existência eliminadas.
(3) - Os “proles” não eram vigiados, pois eram considerados pessoas sem importância, sendo vistos como meros animais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Darwinismo na Literatura II

Parte 1 - O livro "Fragmento"

Uma equipa de biólogos participa num reality show, o Sea Life, que pretende dar a conhecer a vida dos investigadores numa missão científica por ilhas que, embora conhecidas, envolvem um certo encanto e fascínio, seja por estarem envoltas em misticismo, seja por serem associadas a importantes contributos históricos para a ciência, como a ilha da Páscoa e as Galápagos.

O programa que foi um enorme sucesso no início, tal era a expectativa, rapidamente começou a perder audiências porque os cientistas recusavam-se a fazer números de espectáculo para as câmaras, dedicando-se a realizar o seu trabalho. Mas tudo isto parece mudar quando o navio recebe um pedido de ajuda, sendo necessário alterar a rota para tentar socorrer uma embarcação em perigo. Assim, dirigem-se à ilha de Henders, uma enorme fortaleza rochosa, que havia sido descoberta pelo capitão Henders mas da qual existia pouca informação, para além de estar assinalada no mapa e dos parcos registos do diário de bordo do capitão.

Enquanto se tentava descobrir mais informações sobre a embarcação em perigo, alguns cientistas aventuraram-se no interior da ilha, tendo sido inesperadamente atacados e selvaticamente chacinados por criaturas misteriosas. Muito poucos foram os sobreviventes que conseguiram regressar ao navio, o programa foi retirado do ar e as autoridades cercaram o local para tentar descobrir o que realmente se havia passado.

Passados uns dias foi enviada uma nova equipa de cientistas ao local, cépticos do que tinham visto passar na televisão, acreditando que tudo aquilo não passara de uma manobra televisiva para aumentar audiências. Este novo conjunto de cientistas juntou-se aos militares que já tinham desembarcado na ilha e que os aguardavam num laboratório com a mais recente tecnologia. Após terem sido colocados a par do que realmente havia acontecido, formaram-se diferentes grupos de trabalho.

Um desses grupos analisou no laboratório o comportamento de algumas espécies capturadas, e constatou que a vida naquela ilha era extremamente diferente da que se conhece. Mesmo as mais básicas regras de ecologia não eram verificadas naquele local: normalmente na natureza encontra-se um grupo de seres vivos classificados como produtores (e. g. plantas) que servem de alimento a outros animais, que serão as presas, e estes servirão de alimento a outros seres, os predadores. Mas o que se observava na ilha contrariava esta lógica, ali as criaturas eram simbiontes de plantas, fungos e animais, e todos esses seres alimentavam-se belicamente uns dos outros, e até de indivíduos da mesma espécie.

Os cientistas e os militares tentaram colocar os mais ferozes predadores que podiam ser encontrados na nossa natureza naquele meio hostil, mas a verdade é que duravam poucos minutos em confrontos com aquelas criaturas sanguinárias. Cedo, os governantes que acompanhavam a situação aperceberam-se que se uma daquelas criaturas entrasse em contacto com o nosso mundo, verificar-se-ia a uma alteração drástica da natureza tal como a conhecemos. Tornava-se então necessário destruir imediatamente toda a vida naquela ilha. Esta solução imediatista parecia reunir consenso entre governantes, mas não tanto entre cientistas devido às questões éticas levantadas. E toda a situação se tornou mais complicada, quando se descobre vida inteligente.

Trata-se de um livro com humor, que aborda questões ambientais e ecológicas, e também de valor moral e ético. Encontramos questões como: Em que circunstâncias temos direito de extinguir vida diferente da que conhecemos? O facto de serem prejudiciais para nós ou para a natureza que nos rodeia é justificação? Não será também essa vida parte da natureza, apesar de possuir um ecossistema diferente? E no caso de vida inteligente? Podemos matar todas as espécies menos as espécies inteligentes? Só por ser inteligente é justificação? Só por isso terá mais direitos? É também um livro que trata da temática da liberdade de escolha, como essas escolhas influenciam a vida dos outros, e de como por trás de qualquer opção se encontra uma elevada dose de responsabilidade. As diferentes personagens revelam o que há de melhor e o pior na humanidade.

Bibliografia:
Warren Fahy, “Fragmento”, Porto Editora, Porto, 2010 – Tradução: Fernando Dias Antunes

Darwinismo na Literatura II

Parte 2 - As ideias Darwinistas em "Fragmento", de Warren Fahy.

O naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), deu particular atenção ao estudo das ilhas, pois estas são consideradas autênticos laboratórios naturais, e, uma vez que as espécies estão isoladas geograficamente, torna-se mais fácil observar as alterações que se vão manifestando ao longo do tempo, comparando-as com as espécies originárias dos continentes. Assim, a premissa de “Fragmento” é que à medida que os continentes se afastavam, devido ao movimento das placas tectónicas, um fragmento de terra foi ficando cada vez mais isolado, acabando por tornar-se uma ilha perdida no imenso oceano, cuja geografia impedia que os seres vivos que lá habitavam abandonassem o seu território. Deste modo, ligeiras diferenças foram-se acumulando, formando não só espécies diferentes entre si, como cada vez mais divergentes das originárias do continente. Como as condições ambientais não eram as melhores, sobreviveram as criaturas que eram capazes de viver em simbiose, aparentando ser uma mistura de plantas, fungos e animais. Devido à ausência de recursos, os seres daquela ilha necessitavam de se alimentar uns dos outros. Para contrariar as consequências do intenso efeito da predação, estes seres tinham uma grande quantidade de descendentes e possuíam um ciclo de vida curto. Isto levava a que a especiação (formação de novas espécies) se desse a um ritmo acelerado.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Figura Gigante e reflexão sobre o valor do Homem

O livro Figura Gigante, de Nico Orengo (Lisboa, Quetzal Editores, 1987) conta a história dos dois irmãos italianos Ugo (1876-1916) e Antonio Battista (f.1914), que no início do século XX fizeram as delícias dos públicos ignorantes, irracionais e curiosos e a fortuna dos oportunistas que souberam explorar o seu valor financeiro. De facto, tiveram a desdita de nascer gigantes; e numa época em que a diferença parecia ser ou degeneração ou espectáculo. Ugo Battista, descoberto por um empresário, exibia o seu gigantismo, por vezes acompanhado de anões, fazendo sucesso em Paris. "...o empresário era um comerciante de cerveja antes de ser um empresário de atracções. Até àquele momento tivera um chimpanzé, um anão e um malabarista. O chimpanzé morrera de febre em Cannes, o anão fugira com um Lorde inglês, o malabarista, por amor, começara a beber vinho e já não conseguia apanhar um único anel. O empresário vira o seu sonho ruir diante das fraquezas humanas." (p.17) No entanto, apareceram-lhe os dois rapazes, como por milagre. Ugo Battista não tardou a envolver um irmão, também gigante (Antonio), nesse modo de vida. Ugo ainda conseguirá trabalhar em Nova Iorque, mas o irmão morre-lhe em 1914. Para trás ficava a terra de que sempre terá saudades - Vinadio. O público atraído pela invulgar estatura de Ugo, acorre a vê-lo. É uma figura fascinante, cuja morte, com uma persistente frieza, alguns cirurgiões - mais ou menos autorizados a sê-lo - vão aguardando para se poderem apoderar do cadáver e dos seus segredos. O gigantismo de Battista e de seu irmão, naturalmente encarado na terra em que nasceram, torna-se na sua única característica face às plateias: nada mais têm, nem pensamentos nem ódios nem afectos, são apenas gigantes. "Em Roviera, na terceira classe da escola primária, a professora mostrara as figuras de todos os mamíferos do Universo. O maior de todos chamava-se Baleia. Ugo desenhara-a no quadro com o dorso alto e forte e dissera: «Grande como é, não deve ter medo de ninguém». Também ele, naquela altura, não tinha medo de ninguém. (...) Agora, vinte e nove anos volvidos, tinha medo de todos e sentia-se sem força. Parecia-lhe ser uma velha baleia arrastada para uma praça, debaixo dos olhos de demasiada gente" (p.21). Não era, porém, a única atracção: "No mundo, para além dos Gigantes, existiam homens-animais: como Zip, o Macaco-humano, rapazes com cara de cão, como Jo-Jo; Homens-cobra e Homens-lagarto; Grace McDaniels, a Mulher-mula e John Merrick, o Homem-elefante" (p.34). Ugo Battista acabará por morrer nos EUA, um tanto ingloriamente e sem regressar à sua terra. A leitura deste livro, mais próximo, no estilo, da Literatura do que da História, fez-nos lembrar o que há poucos dias escrevemos sobre o Perdidos na Tribo. Poderíamos referir igualmente as diversas modalidades de Big Brother que já passaram na televisão ou ainda o Peso Pesado. Passaram 100 anos sobre as exibições dos irmãos Battista (referimos só este exemplo) e continuamos a dar audiência a estes espectáculos de degradação humana que nos oferecem as televisões. De que servirá combater a barbárie da tourada, se as pessoas ainda se deixam explorar da mesma forma - quer assumindo a posição de títeres anormais, quer deslumbrando-se com diferenças facilmente explicáveis pela Ciência? A Biologia e a Medicina, felizmente, já conseguem explicar o gigantismo dos Battista, tal como a obesidade dos concorrentes do Peso Pesado. A Antropologia e a História disponibilizam muitos milhões de quilómentros de prateleiras com monografias que igualmente explicam as culturas de quaisquer povos, por muito isolados que vivam (caso do Perdidos na Tribo). Se a informação já existe e se é livremente consultável, não conseguimos perceber a razão pela qual persiste o fascínio degradante pelas diferenças, quer culturais, quer físicas dos Seres Humanos. Ser Homem é precisamente ser único dentro de uma espécie igual, ser diferente numa pátria comum. É, pois, necessário que as pessoas decidam alargar os seus horizontes mentais - começando pelas televisões e terminando na população - para que percebam que se anda a tratar com excepção aquilo que constitui a nossa regra.

sábado, 11 de junho de 2011

Darwinismo na Literatura I


O conto “A Máquina do Tempo” (1), do autor britânico H. G. Wells (1866-1946), tem início com um debate filosófico entre uma personagem cujo nome não é revelado, sendo apenas conhecido como o viajante do tempo, e os seus convidados. Discursam sobre as três dimensões que os rodeiam – comprimento, largura e espessura – e sobre uma quarta, o tempo. Esta conversa serve de mote para a pergunta lançada pelo anfitrião: crêem os convidados na possibilidade de viajar no tempo? Perante a questão levantada, a audiência responde com um acentuado cepticismo.

Na semana seguinte a casa do viajante do tempo recebe novamente convidados para um jantar mas, uma vez que o proprietário tarda a aparecer, os presentes iniciam a refeição. Entretanto, chega o anfitrião, ferido, a coxear, cansado e esfomeado. Curiosos, os convidados, que já estavam à mesa, quiseram saber o que se tinha passado, mas primeiro o viajante alimenta-se e, só depois, dirige-se para a poltrona e descreve o que acontecera: finalmente, tinha terminado a construção da sua máquina do tempo e viajara milhares de anos para o futuro. Aí, conhecera uma nova espécie humana, muito mais bonita e alegre, mas que revelava poucos traços de inteligência e um acentuado medo do escuro. Esta era a raça dos Elóis que habitava uma paisagem idílica, num colossal jardim sem ervas daninhas, com plantas de uma incrível beleza, e com frutos suculentos dos quais se alimentava, era uma natureza que havia sido aperfeiçoada pelo homem, no passado, com recurso à tecnologia.

No entanto, esta espécie humana não vive sozinha, e cedo o viajante encontra uma raça antagónica constituída por criaturas horrendas, que receiam a luz e vivem nas trevas do subsolo – era a raça dos Morlocks.

Ao longo do conto, a personagem principal vai reflectindo sobre como estas duas espécies se teriam originado, concluindo, com base na teoria evolucionista proposta pelo naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882), que ambas teriam tido um ancestral comum (o homem moderno), e que devido às condições sociais que se viviam no século XIX (estas condições corresponderiam à pressão selectiva) a classe trabalhadora ficou isolada da classe alta – os trabalhadores passaram a viver nas fábricas do subsolo, enquanto os ricos habitavam a superfície da Terra, onde existiam jardins melhorados através da tecnologia - levando a um acentuado acumular de diferenças, acabando por originar, com o tempo, duas espécies diferentes: “Gradualmente, a verdade fez-se luz: o Homem não permanecera uma espécie única, mas diferenciara-se em dois ramos distintos (…)”(2). Mas se dúvidas houvesse quanto à influência darwinista na obra de Wells, dissipar-se-iam ao ler a secção em que o autor comenta que “(…) pessoas pouco familiarizadas com especulações como as do jovem Darwin (…)” esquecer-se-iam de explicações da física do sistema solar, ou seja, o autor afirma que desconhecer as ideias de Darwin é também desconhecer outras ideias científicas (no caso, a Física) que estavam em voga na época, atribuindo ao Darwinismo uma enorme importância para a compreensão dos fenómenos naturais que nos rodeiam.

(1) Outras obras do mesmo autor são "O Homem Invisível" e "A Guerra dos Mundos".
(2) H. G. Wells, “A Máquina do Tempo”, pp. 102-103

Bibliografia:
H. G. Wells, A Máquina do Tempo, editorial estúdios cor, tradução Rosa Canelas

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fotografias Antigas (4): Cesário Verde, c. 1871




Na imagem, José Joaquim Cesário Verde (1855-1886), poeta português e talvez o nosso único poeta notável da Escola Realista. Comerciante de profissão e estabelecido em Lisboa, trabalhou na loja de seu pai, alternando com estadias na quinta familiar de Linda-a-Pastora. Praticamente desconhecido no seu tempo, foi graças ao amigo António José da Silva Pinto (1848-1911) que a sua obra permaneceu, para ser, no início do século XX, recuperada como inspiração pelos Modernistas, já que a sua estética descritiva de impressões antecipa, na Literatura, até as experiências pictóricas dos novos artistas. Recorde-se a admiração que Fernando Pessoa/Alberto Caeiro tinha por Cesário Verde.



Fonte: A imagem veio de Luís Amaro de Oliveira, Cesário Verde (novos subsídios para o estudo da sua personalidade), Coimbra, Editorial Nobel, 1944, p.3; sobre a vida do poeta, pode ver-se também o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol.2, coord. de Eugénio Lisboa, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d., pp. 379-386, s.v. "Verde, José Joaquim Cesário".

A Poesia de João Xavier de Matos (1730-1789)

Na senda de alguns anteriores textos de divulgação, aproveitamos para recordar aqui um poeta português do século XVIII, hoje completamente esquecido. João Xavier de Matos (1730-1789), provavelmente natural de Lisboa, terá estudado ou Leis ou Cânones em Coimbra e foi ouvidor na Vidigueira. Pertenceu à Arcádia Portuense, uma das muitas sociedades literárias aparecidas em Portugal nos séculos XVII e XVIII, com o nome Albano Erythreo. Publicou as suas Rimas em três volumes, reeditados juntos em 1800. Deixam-se dois seus sonetos, muito belos, reforçando a injustiça que constitui o desconhecimento deste autor. (Veja-se em especial o segundo poema, com um tom já romântico, a fazer lembrar o locus horrendus de Bocage.)





1.Eu vi uma pastora em certo dia
Pelas praias do Tejo andar brincando,
Os redondos seixinhos apanhando,
Que no puro regaço recolhia.

Eu vi nela tal graça, que faria
Inveja a quantas há; e o gesto brando
Com que o sereno rosto levantando,
Parece namorava quanto via.

Eu vi o passo airoso, a compostura,
Com que depois me pareceu mais bela,
Guiando os cordeirinhos na espessura.

Eu o digo de todo: vi a Estela.
De graça, de candor, de formusura
Só poderei ver mais tornando a vê-la.





2.Se eu vira num bosque onde não desse
Sinal, vestígio humano de habitado,
De verdenegras ramas tão fechado
Que inda ali de dia anoitecesse;

Se então lá de uma balça ao longe houvesse
Gemendo um mocho, e tudo o mais calado;
Só dentre alguns rochedos pendurado,
Com som medonho, um rio ali corresse;

Enfim num lugar tal onde os meus dias
Consumindo-se fossem na certeza
De não tornarem mais as alegrias;

Faminta ainda a triste natureza,
Cercada ali de tantas agonias,
Nem então se fartara de tristeza.



Fonte: Poesia Portuguesa - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto, Porto Editora, 2009, p. 640