As fábulas, normalmente matéria do interesse infantil, são muito mais antigas do que parece. Até a lição moral que costuma vir no fim pode trair este facto, tal é ainda a adequação dos seus valores aos nossos. O fabulário português que José Leite de Vasconcellos encontrou em manuscrito na Biblioteca Nacional de Viena de Áustria em 1900, era do século XV e continha uma série de breves histórias com as referidas lições morais no final. O título original era “Fabulae Aesopi in Lingua Lusitana”, mas o etnógrafo substituiu-o por “Livro de Esopo” e terá feito publicar a obra em 1906. Uma fábula pode definir-se como uma composição literária, em prosa ou verso, que dá corpo a “uma ideia abstracta, e sobretudo a uma verdade moral.”[1] Tem, todavia, a característica peculiar de o fazer recorrendo a factos fantasiosos. Dá-se vida a objectos inanimados, dão-se sentimentos e pensamentos humanos a animais e atribui-se vida autónoma a coisas que a não têm. Sem discutir a origem das fábulas, lembramos aqui as célebres compilações de Esopo, autor grego de cuja vida nada se sabe ao certo, de La Fontaine e Perrault, ambos franceses e, entre nós, as de Almeida Garrett, de Curvo Semedo e de Bocage, todos poetas e todos influenciados pelo Iluminismo. Para defender a antiguidade das fábulas e a sua quase perfeita recepção pela nossa cultura, apresentamos aqui uma do referido Livro de Esopo, que também aparecia há cerca de 20 anos num livro de leitura da Primária de então. A grafia medieval não foi alterada, pois pensamos que um texto, por difícil que seja, deve ser saboreado puro. O que não exclui a necessidade de informação adicional que auxilie a sua leitura.
“Comta este poeta este emxemplo e diz que os pees e as mãaos acusarom o uentre, dizendo:
-Nos ssempre ssosteemos grande afam em andando de ca e de lla em muytos trabalhos; e todos nos este uentre come e nunca sse farta, nem comtenta; e elle esta ocçioso e nom faz nem dura trabalho. Nom lhe demos de comer!
E assy o fezerom. Ho uentre começou a auer fame e disse aas mãaos e aos pees:
-Amygos, dade-me de comer e ajudade-me, ca eu mouro com ffame.
As mãaos e os pees disereom que lh’o nom queriam dar, e diziam-lhe:
-Sse tu queres comer, toma affam, assy como nos fazemos; d’outra guysa, nom queremos que comas quanto nos trabalhamos.
Em esta perfia esteuerom per espaço de dias, tanto que os pees começarom de enfraquecer e outrossy as mãaos.
E os pees diserom:
-Nom podemos andar.
E as mãaos diserom:
-Nom podemos trabalhar.
Vendo esto, as mãaos tomarom do pam para dal-o aa boca; e a boca e o corpo eram ja postos em tamta fraqueza que os demtes da boca nom sse poderom abrir. E per esta perfia o corpo morreo: e, elle morto, morrerom os pees e as mãaos com todolos outros membros.
Pom este poeta emxemplo per nosso amaestramento e diz, rreprehendendo os auaros, os quaaes nom querem ajudar o sseu proximo nas ssuas neçessidades. Ajnda diz que nhũu homem sse deue rreputar d’atanto, por muy poderoso e rrico que sseia, que algũas vezes nom lhe faça mester o seruiço d’outrem e d’outros que ssom de muy mays pequena condiçom que elle, por que hũu amyguo ssempre lhe conpre seruiço d’outros: hũu amyguo serue o outro amyguo. Outrossy diz que, bem que o homem sseja tanto maao que nom queyra perdoar a outrem, deue perdoar a ssy medes, por nom sseer rreputado cruell e maao.”[2]
A moral continua a ser a mesma e está relacionada com a importância da coesão social, independentemente do estatuto dos Homens na mesma sociedade. E a verdade é que continua actual e perfeitamente ensinável às pessoas de hoje, como o era no século XV e no tempo dos gregos antigos.
[1] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, vol.10, p.803.
[2] “O Livro de Esopo”, Leite de Vasconcellos, pp.38-39, cit. em “Textos Medievais Portugueses”, Corrêa de Oliveira e Saavedra Machado, Atlântida – Livraria Editora, Coimbra, 1959.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Nota sobre a antiguidade das fábulas
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Fora os Dinossauros. Apenas sobre Sexo e Darwin.
O primeiro livro que aqui trago, é da autoria da Doutora Clara Pinto Correia, com o título “A maravilhosa aventura da vida”. O tema abordado, já carecia de divulgação e peca por tardia. Este é um livro dirigido a todo o público, e de um modo simples e directo, ao bom estilo que a professora Clara nos tem habituado nos seus livros de divulgação científica, explica muitos dos conceitos da Biologia do Desenvolvimento, disciplina que me é particularmente querida, por ser essa a minha especialização.
O que poderão encontrar neste livro? Formação de embriões a partir dos gâmetas (células sexuais), alguns eventos genéticos que ocorrem após a fertilização, formação de novos organismos, e muitas curiosidades sobre o mundo vivo e a história das ciências. Para quem é da área, é sempre bom relembrar a teoria.
O segundo livro que proponho divulgar, é o mesmo referido anteriormente pelo Rui. Da autoria de Charles Darwin (1809-1882), foi recentemente traduzido um dos seus mais importantes livros “A Origem do Homem e a Selecção Sexual”.
Apesar de em “A Origem das Espécies” (1859) Darwin estudar a temática da evolução, ele não aborda a evolução humana, dizendo apenas que mais tarde será feita luz sobre este tema. Com o passar dos anos, outros cientistas influenciados pelo estudo da evolução, querem debruçar-se sobre a evolução humana. Darwin já tinha muitos dados sobre este assunto, que havia recolhido ao longo de vários anos, e achando esta uma altura propícia, publica o livro em 1871 (Inicialmente em dois volumes. Em 1874 o trabalho foi reunido num só volume).
O livro encontra-se dividido em três partes: “A genealogia ou a origem do Homem”, “A selecção sexual” e “A selecção sexual relativamente ao Homem e conclusão”.
Esta é uma obra traduzida, em jeito de celebração dos 200 anos do nascimento do naturalista britânico Charles Darwin. Um grande obrigado à nossa colega Doutora Susana Varela, pela dedicação e empenho na tradução desta majestosa obra.
Referências:
Clara Pinto Correia, “A maravilhosa aventura da vida”, Editorial Presença, Lisboa, 2009
quarta-feira, 17 de junho de 2009
"Lord of the Flies"
O livro “O Deus das Moscas”[1], de William Golding, retrata a vida de um grupo de jovens que se encontra numa ilha. Sendo eles os únicos sobreviventes de um desastre de avião, sem a presença de qualquer adulto, como será que irão sobreviver? Esta é apenas uma das inúmeras questões que se colocam à medida que vamos desvendando o enredo, página após página.
Perante o livro, o leitor é remetido para a mesma realidade daqueles jovens. Estão juntos numa ilha isolada. À sua volta só existe um infinito oceano. Não possuem meios de fuga. Alimentam-se do que a natureza tem para oferecer. Como se sentirá uma criança ou um jovem numa situação destas? Como confrontará os seus medos? E se o medo se tornar generalizado? Como enfrentar esse terror ao cair da noite, quando só as trevas são perceptíveis e de pouco servem os sentidos, em particular a visão? Questão importante: conseguirão manter a ordem social, ou aproximar-se-ão de um estado selvagem? Qual a ordem que irá prevalecer quando é o medo que governa?
Este é um livro rico em símbolos e metáforas. Desafio o leitor, enquanto estiver a ler o livro, a associar alguns valores sociais e morais às personagens. O que representarão o Ralph, o Piggy e o Jack? Quais os significados que poderão ser atribuídos ao búzio e aos óculos? E os diversos elementos naturais que iremos encontrar ao longo do texto?
Creio que já muitos leitores, pensadores ou académicos se debruçaram sobre esta obra. No entanto, acredito que continua a ser um bom tema de debate, pois, como diria a minha antiga professora de filosofia: “É um tema que dá pano para mangas”.
Após ter realizado uma ligeira pesquisa sobre este livro, encontrei várias referências que afirmavam que temas semelhantes se podiam encontrar noutros livros ou filmes. Fui indagar. Terminei de assistir a um desses filmes, intitulado em português “Nevoeiro Misterioso”[2]. Nesta película, conhecemos a estória de uma neblina pouco comum que, após uma tempestade, se vai aproximando da cidade. Na manhã a seguir à tempestade, a população acorre ao supermercado para adquirir os bens necessários. Enquanto as pessoas fazem as suas compras e colocam a conversa em dia, a misteriosa neblina envolve o exterior do estabelecimento. O suspense inicia-se quando um homem, a sangrar, entra no supermercado, vindo da neblina, e afirma que existe algo monstruoso lá fora. É aqui que começam as semelhanças com o livro. A população encontra-se isolada no supermercado, como os jovens encontram-se isolados na ilha. O exterior do supermercado está rodeado de nevoeiro, assim como a ilha está rodeada de mar até onde a vista alcança. Os adultos sentem-se vulneráveis por a visão não lhes ser útil no nevoeiro, assim como os jovens se sentem vulneráveis por a visão não lhes ser útil quando anoitece. Colocam-se questões semelhantes às do livro: conseguirão controlar-se ou aproximar-se-ão de um estado primitivo?, como irão reagir perante um medo generalizado? Este é, pois, um filme que se vê melhor após a leitura do livro da autoria de Golding. Como nota final, tema semelhante pode encontrar-se também, entre outras obras, no “Ensaio sobre a Cegueira”, do português José Saramago.

Sobre o autor:
William Golding (1911-1993) estudou Literatura Inglesa, em Oxford, e após isso tornou-se professor. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na Royal Navy. Antes da Guerra havia publicado um livro de poemas, mas só após o seu regresso é que se afirma como grande romancista aquando do seu primeiro romance, “O Deus das Moscas”, que foi considerado um gigantesco sucesso pela crítica internacional, tendo-lhe valido o Prémio Nobel da Literatura. Outras obras do mesmo autor: “Os Herdeiros” (1955), “Pincher Martin” (1956), “Borboleta de Latão” (1958), “Queda Livre” (1959) e a trilogia: “Ritos de Passagem” (1980), “Abordagem” (1987) e “Fogo no Porão” (1989).
Como curiosidade, Golding conheceu o cientista James Lovelock, e juntos discutiram a hipótese que Lovelock andava a trabalhar de que a matéria viva do planeta Terra poderia funcionar como um ser único, e foi Golding que sugeriu a designação de Hipótese Gaia, baseado na deusa da Terra encontrada na mitologia Grega.
[1] No original “Lord of the Flies”, publicado originalmente em 1954.
[2] No original “The Mist”, baseado numa obra com o mesmo nome, do escritor, considerado o mestre do terror, Stephen King.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Sobre como poupar
Até à década de 90, Portugal era dos países da OCDE[1] que mais poupava, tendo sido nessa altura que se deu uma inversão de paradigma.
A tese defendida por Camilo Lourenço, no primeiro capítulo, é a de que é necessário voltar a poupar, e que para isso é preciso desenvolver uma cultura de poupança[2] e uma cultura financeira. Para isto, diz o autor, é necessário admitir que se pode poupar e fazer contas. Como refere, os analistas esforçam-se por divulgar esta necessidade de poupança, junto dos mais variados meios de comunicação, de modo a alertar as pessoas para que estas se consciencializem de que têm de fazer as contas relativas à sua economia familiar para, que se ficarem em dificuldades financeiras, não esperarem por auxílio do Estado. “É que os primeiros e últimos responsáveis pelo nosso Destino somos nós; não o Estado.”[3]
O autor dá algumas dicas: Comece por poupar (por vezes é necessário cortar em algumas despesas para conseguir colocar algum dinheiro de lado. Cortar no número de cafés diários, no tabaco, levar refeições de casa em vez de ir ao restaurante, etc); de seguida, coloque diariamente os euros poupados num mealheiro; pratique a cultura financeira registando tudo; prevendo as receitas e despesas, garanta que sobra dinheiro para poupar e parte dessa poupança deve ser canalizada para aplicações financeiras (depósitos a prazo, fundos de investimento, acções, etc.).
Mas não são só os adultos que devem poupar. Para vermos alterações significativas no futuro, no que toca à poupança, temos de envolver os mais jovens. De facto, é este o tema abordado no segundo capítulo.
Os capítulos seguintes continuam com informação interessante e importante sobre onde poupar, a saber: crédito ao consumo, alimentação e bebidas, despesas com as crianças, habitação, transportes, energia e telecomunicações. Dedica ainda um capítulo a explicar a análise das taxas de juro.
Conclui observando que a maioria destes conselhos é conhecido de quem anda pela casa dos cinquenta, e que é necessário reeducar a população portuguesa para uma cultura de poupança, algo que é possível de se realizar atendendo a muitos das sugestões encontradas neste livro.
Bibliografia:
Camilo Lourenço, “Como esticar o salário e encurtar o mês” – 2ª edição, Livros d’Hoje, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2009
[1] Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.
[2] CL refere que quando se fala em “poupança” as pessoas afirmam que é impossível poupar nos dias de hoje. CL propõe-se, através deste livro, demonstrar que isso não é verdade, recorrendo a vários exemplos.
[3] Camilo Lourenço (2009), p.21
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Gervásio Lobato (1850-1895)

Gervásio Lobato faleceu a 26 de Maio de 1895.[2]
“O Sr. Justino Antunes tinha um grande desgosto de não ser pai.
Casara havia quatro anos, no Algarve, com uma menina de dezoito anos, filha do administrador do concelho, uma menina muito interessante, muito prendada, que tocava piano que era um encanto, bordava a oiro, e cantava a Traviata em italiano. Era muito feliz com sua mulher, dava-se muito bem com ela, fora por intermédio do seu sogro que alcançara o diploma de membro honorário da Associação dos Arqueólogos e Arquitectos Portugueses, tinham-lhe prometido um lugar de segundo oficial no ministério das obras públicas, e o ser sócio correspondente da Academia de Ciências, mas a respeito de filhos nada.
(...)
O Sr. Antunes alojou-se, pois, com sua família, a mulher, a irmã, o sobrinho e uma criada velha e antiga, a Alexandrina, num quarto andar, do lado dos pares, da rua dos Fanqueiros, portas fronteiras com o conselheiro Torres, que tinha muitas filhas, muito divertidas, que se começaram logo a dar muito com a Angélica e com a D. Josefina.
Tomou posse do seu emprego e, e às Quintas-feiras e aos Domingos, para distrair a família, levava-a ao Museu do Carmo, de que, já dissemos era sócio.
Ali, havia uma coisa que o fazia cismar. Onde demónio estariam umas pedras muito antigas, que ele mandara do Algarve, e que lhe tinham valido o seu diploma?
-Já sei, disse ele um dia, tocado de uma ideia súbita, sorrindo, triunfante, a sua mulher e às meninas Torres, a quem mais uma vez arrastara ao museu à procura das suas pedras, já sei, naturalmente os monumentos que mandei, como eram muito preciosos foram para o paço.
A menina Sabina Torres, a filha mais nova do conselheiro, que não tinha papas na língua, e que ganhara fama de espirituosa descompondo toda a gente, já farta do museu até aos olhos, disse enfastiada ao sr. Antunes:
-Mas que monumentos mandou o senhor, algumas pirâmides?
-Não senhora, monumentos chamam-se a todas as pedras que...
-Ora adeus! Pedras são boas para fazer paredes.
-Exactamente, mas com as pedras que eu mandei, fazem-se os alicerces de um palácio sublime – a história.
E Antunes, achando lá dentro esta bela frase, teve o cuidado de se ir chegando para junto de um guarda, e de a dizer quase a gritar para que ele a ouvisse bem.
(...)
Antunes, adivinhando a admiração no rosto inteligente do guarda, atreveu-se a perguntar-lhe com um sorriso:
-O meu amigo está aqui há muito tempo?
-Há três horas, a porta abriu-se às dez, ainda não é uma.
-Não é isso: se está aqui empregado há muito tempo.
-Há sete anos...
-Então deve lembrar-se de umas pedras que vieram do Algarve... há cinco anos.
E começou a fazer uma larga e minuciosa descrição das suas pedras.
-Vinham também uns quinze ou vinte tijolos muito queimados, coisa que tinha servido de fornalha.
-Exactamente, exactamente, eram os tijolos, decerto, em que os árabes invocavam...
-Lembro-me perfeitamente... estiveram aí a um canto muito tempo.
-Ah! murmurou todo lisonjeado o Antunes, olhando com uns ares superiores para a Sabina.
-E depois foram...
-Para o paço, é o que eu dizia...
-Nada: quando se fez a escada nova, foi preciso pedras, e elas lá foram; olhe, estão ali por debaixo daqueles degraus.
Antunes fez-se pálido.
-Não foram para os alicerces da história, disse, com grandes gargalhadas trocistas, a menina Torres, foram para os alicerces da escada.
Antunes lembrou que nesse dia tocava a charanga de lanceiros no Passeio Público, e que não havia nada mais bonito que uma charanga.
E nunca mais levou a família ao Museu do Carmo.”
In, Lisboa em Camisa, Vega, 1997, pp.15-19.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Rodrigo Paganino (1835-1863)

É infelizmente uma verdadeira multidão a dos escritores portugueses esquecidos e cujo interesse se não esgotou no seu tempo. Outras figuras de grande mérito e relevo acabaram por eclipsar os seus contemporâneos, quiçá menos profundos ou habilidosos, mas de grande valor para compreender o panorama histórico da literatura do país. Almeida Garrett (1799-1854), Eça de Queiroz (1845-1900), Camilo Castelo Branco (1825-1890), Cesário Verde (1855-1886) e outros notáveis monopolizaram os gostos contemporâneos e até no ensino secundário da Literatura Portuguesa se verificava há uns anos o curioso paradoxo de estes escritores relegarem para a sombra outros de primeira categoria, como Alexandre Herculano (1810-1877) e António Nobre (1867-1900). A propósito do caso particular dos autores secundários do Pré-Romantismo, disse a Doutora Zenóbia C. Moreira: “... alguns estudiosos do Pré-Romantismo, como Edmond Estève e Paul von Thieghem são unânimes na defesa da importância das obras secundárias para o melhor conhecimento dessa parcela da literatura. Este último declara, no prefácio de uma de suas obras acerca do assunto, que para melhor se compreender este estilo literário não se pode negligenciar o testemunho de um escritor secundário, visto que este «é precioso para identificar um estado de espírito colectivo»[1]. Edmond Estève vai mais longe em sua defesa ao estudo das obras secundárias, na convicção de que, «se não as conhecermos, será mais difícil perceber o que virá depois»[2], visto que os escritores românticos «se alimentaram de toda uma literatura inferior, esquecida desde há muito, e de que se encontra a influência, o rasto e por vezes retalhos nas obras dos maiores deles»[3].”[4]
É neste sentido que aqui vamos falar de Rodrigo Paganino. Nascido em Lisboa a 2 de Agosto de 1835, frequentou a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e em 1857 foi nomeado subdelegado técnico do Conselho de Saúde, “em que prestou relevantes serviços por ocasião da epidemia da febre amarela e foi condecorado com o grau de cavaleiro da Ordem da Torre-e-Espada pela coragem e dedicação com que assistira aos doentes.”[5] A Câmara Municipal de Lisboa também lhe atribuiu uma medalha por estes trabalhos. Dedicou uma boa parte do seu tempo à escrita e colaborou em muitos periódicos, como “O Progresso”, “A Opinião”, “O Panorama”, “A Revista de Lisboa”, “Arquivo Pitoresco”, “A Ilustração Luso-Brasileira”, “A Gazeta Médica de Lisboa”, etc. Foi fundador do “Jornal de Belas Artes”, em 1857, com Sequeira Barreto, e do “Arquivo Universal – Revista Hebdomadária”, com Silveira da Mota e António Pedro de Carvalho, e aqui publicou alguns artigos sob o nome “Pedro Botelho”. Diz João Gaspar Simões, estudioso da literatura portuguesa e biógrafo de E. De Queiroz: “Muito pobre, não limitava a sua actividade ao exercício da profissão médica: escrevia também, colaborando nas gazetas, traduzindo peças e inclusivamente fundando o citado “Arquivo Universal”, a revista onde publicará os seus contos.”[6]
Entre o que publicou, encontram-se os seguintes escritos:
Relatório Apresentado ao Conselho de Saúde Pública (este publicado na “Gazeta Médica de Lisboa, na qualidade de subdelegado técnico e clínico desse Conselho no bairro de Alfama, por altura da epidemia de febre amarela), 1858;
Contos do Tio Joaquim (de que falaremos adiante), 1861;
Os Dois Irmãos (drama em 4 actos, representado no Teatro D. Maria II em 1862), 1862;
Colaboração vária em periódicos e traduções de peças de teatro.
Paganino conviveu com os literatos da sua época, nomeadamente com Alexandre Herculano e com Bulhão Pato (1829-1912), que lhe dedica uma parte do seu livro de memórias “Sob os Ciprestes”.
Uma doença nos pulmões, provavelmente o início da tuberculose, fá-lo mudar-se para os arredores de Lisboa, à procura de um local saudável. “A doença levara o escritor para o Poço do Bispo, nessa altura nos arredores da cidade, e nos arredores da cidade, em Carnide, onde acaba por falecer, localiza ele, possivelmente, a quinta onde priva com o Tio Joaquim.”[7] Pode ser autobiográfico o primeiro parágrafo dos “Contos do Tio Joaquim”: “Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta, pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida, se não mudasse de ares quanto antes. O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição, differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade.”[8]
É esta, de resto, a mais conhecida obra de Rodrigo Paganino: a simpática colectânea de histórias “Contos do Tio Joaquim”. O narrador, à distância de 10 anos, conta como foi que conheceu o Tio Joaquim, trabalhador no campo e exímio contador de histórias, a que saborosamente e sem aborrecer acrescentava uma moral, uma lição para a vida, que todos ouviam, por vir de um ancião[9].
João Gaspar Simões liga estes contos a uma tradição europeia e também portuguesa de contar histórias. Segundo esta teoria, Paganino, dizendo-se seguidor de Souvestre e Lamartine[10], vai também pegar na tradição contista portuguesa onde ela tinha ficado há 200 anos atrás, em Fernandes Trancoso e nos seus “Contos e Histórias de Proveito e Exemplo”[11]. “Embora, realmente, vindos a lume numa das muitas revistas que então se publicavam no nosso país, os contos que constituem o recheio do referido livro pertencem mais ao género da narrativa oral que ao género da narrativa escrita, sobretudo ao género de narrativa que nessa altura maior número de adeptos contava no País: o folhetim. (...) Embora de acordo com o pendor então corrente em certo tipo de literatura particularmente cultivada em França (...) o certo é que a obra do autor de “Os Contos do Tio Joaquim” retoma uma tradição portuguesa muito antiga. Para nós, Paganino, neste seu livro, está mais perto de Trancoso que do autor de “Au Coin du Feu”. Porque não dizê-lo? Está mesmo mais perto do “Decameron”[12] que de qualquer outra obra moderna. Aliás, tanto os Contos e Histórias de Proveito e Exemplo do nosso Boccaccio quinhentista[13], como o “Patrañuelo” de espanhol Timoneda[14], obedecendo ao mesmo esquema – a oralidade das histórias contadas por uma ou mais personagens da própria ficção em que se englobavam os contos compendiados –, fazem remontar a arte do conto à suas mais antigas origens.”[15]
A singeleza dos temas e do estilo, caros a um romantismo “etnográfico” que procurava no povo e no seu imaginário as origens da nacionalidade[16] fazem de Paganino ainda um escritor do Romantismo, mas também o aproximam de experiências posteriores, que aliás terá influenciado[17], já a entrar no Realismo, nos assuntos do quotidiano, nas preocupações e problemas que sem grandezas constituem o cerne dos problemas humanos.
Rodrigo Paganino faleceria a 22 de Setembro de 1863, em Carnide.
Dos “Contos do Tio Joaquim” há uma edição moderna (2003), da Planeta Editora.
[1] Em francês no original. A cit. vem da obra «Le Préromantisme ».
[2] Em francês no original.
[3] Em francês no original.
[4] “O Lirismo Pré-Romântico da Viscondessa de Balsemão”, Edições Colibri, 2000, pp.13-14.
[5] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 19, p.957.
[6] Perspectiva Histórica da Ficção Portuguesa das origens ao século XX, Publicações D. Quixote, 1987, p.547.
[7] Ibidem, p.549.
[8] António Maria Pereira (ed.), p.13. É desta edição (2ª) que vem a imagem do escritor, acima reproduzida.
[9] João Gaspar Simões, ibidem.
[10] Alphonse de Prât de Lamartine (1790-1869), escritor francês do Romantismo.
[11] Gonçalo Fernandes Trancoso, escritor português do século XVI, publicou a referida obra pela primeira vez c.1575-76. Já devia ter falecido por 1596.
[12] O "Decameron" é um conjunto de contos do italiano Gionanni Boccaccio (1313-1375), que descrevem a vida no século XIV, com humor.
[13] O Boccaccio quinhentista é o referido Gonçalo Fernandes Trancoso. São de evitar estas comparações, ainda que expressivas, porque todos os escritores são únicos e mesmo os que adaptam estilos de outros não podem ser conhecidos senão pelo seu nome.
[14] Juan de Timoneda (c.1490-1583), escritor e livreiro espanhol, compilou contos com base nos italianos.
[15] Ibidem, pp.545-546.
[16] Recorde-se o trabalho de Almeida Garrett, no “Romanceiro”.
[17] Referimo-nos a Júlio Dinis, que ficou encantado com os “Contos do Tio Joaquim”, João Gaspar Simões, ibidem, p.549.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Sobre Evolução
O armariumlibri, como prometido em posts anteriores, actualizou a sua lista de sugestões de leitura sobre o tema da EVOLUÇÃO.
Livros técnicos:
D. J. Futuyma, Evolutionary Biology, Sunderland, Massachusetts, Sinauer
Divulgação:
Augusta Gaspar (Coordenação), Clara Pinto Correia (Prefácio), Teresa Avelar, Frederico Almada, Augusta Gaspar, Octávio Mateus (Colaboração), Evolução e Criacionismo – Uma relação impossível, Edições Quasi, 2007
Janet Browne, A Origem das Espécies de Charles Darwin, Gradiva, 2008 – Tradução: Ana Falcão Bastos e Cláudia Brito, Revisão Científica: Filipa Vala
Matt Ridley, A Rainha de Copas, Gradiva, «Ciência Aberta», 2004 – Tradução: Carla Rego
Richard Dawkins, O Relojoeiro Cego, Gradiva, «Ciência Aberta», 2007
Teresa Avelar, Padre Carreira das Neves, Evolução a duas vozes, Bertrand Editora, 2009
Teresa Avelar, Margarida Matos, Carla Rego, Quem tem medo de Charles Darwin?, Relógio D’Água, 2004
Fontes:
Charles Darwin, A Origem das Espécies, tradução de D. Batista, Publicações Europa-América, 2005
Charles Darwin, Autobiografia, Relógio d’Água, 2004 – Introdução, tradução e notas de T. Avelar
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Soeiro Pereira Gomes - 100 anos de memória
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Policiais II - Edgar Allan Poe
A Guimarães editores, para além da publicação dos famosos livros de ensaios e filosofia, tem também publicado traduções de novelas de reconhecidos autores como E. A. Poe, Franz Kafka ou Hermann Hesse. Hoje debruçar-me-ei sobre a obra Contos Policiais, de Edgar Allan Poe[1].
Este livro é constitído por quatro novelas. Na primeira, initulada Os crimes da Rue Morgue, o narrador conta como o seu amigo e personagem principal, o detective C. Auguste Dupin, deslinda o macabro crime do assassínio da Sra. L’Espanaye e da sua filha. Através de relatos de testemunhas e de uma curta visita ao local do acontecimento em demanda de pistas, Dupin, recorrendo ao uso da razão e do seu característico poder de análise, desvenda quem foi o surpreendente culpado de tal barbárie.
Em A carta roubada, Dupin recebe a visita do prefeito da polícia que, desesperado, pede-lhe ajuda para descobrir o paradeiro de uma carta desaparecida. Neste caso, o culpado é conhecido tanto da vítima como da polícia, mas a carta trata importantes assuntos que podem ser usados como chantagem política. Após várias incessantes buscas, a polícia tem a certeza que a carta está em casa do ladrão, mas não é capaz de a encontrar, nem mesmo nos mais recônditos compartimentos do lar. Cabe então ao detective Dupin solucionar este caso.
Segue-se O Mistério de Marie Rogêt, estória esta, que é baseada num acontecimento real que aconteceu na América do Norte, embora aqui retratada com diferentes personagens e noutros locais. O prefeito da polícia recorre, uma vez mais, ao detective Dupin para o ajudar a desvendar mais um misterioso caso. Uma jovem rapariga que já havia desaparecido no passado (mas entretanto regressara a casa) tornara a desaparecer, e após ter sido encontrado um corpo a boiar no rio Sena com roupas idênticas às da jovem, começa-se a pensar se não será ela. Dupin tem de descobrir se é ou não ela; caso seja tem de descobrir qual a causa da morte, assassínio ou suicídio; e se foi assassínio, terá havido apenas um, ou vários responsáveis. Todas estas eram questões que estavam a dar que fazer à polícia, e para as quais as investigações apontavam em diferentes sentidos.
O último conto intitula-se És tu o homem!. Este é o mais breve dos contos, onde se relata como foi descoberto o verdadeiro assassino de Mr. Barnabas Shuttleworthy, e quais terão sido as suas motivações. Com recurso a um engenhoso plano que surpreende o verdadeiro assassino, este voluntariamente acaba por confessar o seu crime.
Edgar Allan Poe (1809 – 1849), foi um poeta, escritor, editor e crítico literário norte-americano, sendo considerado parte do movimento do Romantismo americano. Nasceu em Boston, Massachusetts. Tendo perdido os pais em tenra idade, foi acolhido, apesar de não formalmente adoptado, por John e Frances Allan. Após ter frequentado por pouco tempo a Universidade de Virginia, e servido por um breve período na carreira militar, Poe distanciou-se dos Allans. Em 1835, casa-se com a sua prima de 13 anos, Virginia Clemm. Conhecido pelos seus contos de mistério e do macabro, foi também impulsionador do género de ficção científica, e considerado o inventor do género de contos de detectives[2]. De facto, na contracapa do livro Contos Policiais de Edgar Allan Poe pode ler-se o seguinte: “nestas novelas assiste-se à invenção do primeiro detective, Dupin, que mais tarde serviu de modelo aos grandes mestres para a criação de personagens tão célebres como Sherlock Holmes ou mesmo Poirot”. Poe e as suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e um pouco por todo o Mundo.
[1] Edgar Allan Poe, Contos Policiais, Guimarães Editores Lda, Lisboa, 2003
[2] Informação retirada de: http://en.wikipedia.org/wiki/Edgar_Allan_Poe, site no qual podem encontrar-se mais informações sobre este autor.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Policiais I – Moita Flores e o Carteirista
Este post poderia também ter sido intitulado de Tesouros Esquecidos.
Tesouros esquecidos porque numa biblioteca há livros pelos quais passamos e neles nunca pegamos. Alguém os leu e lá os colocou, em repouso, aguardando nova visita. É exemplo deste livro de que falarei.
A biblioteca é a do meu avô. Biblioteca é uma hipérbole que uso para descrever uma fila de prateleiras, numa apertada casa, onde descansam os livros que o meu avô já só a muito custo é capaz de ler. O livro, que me acompanhou neste dia chuvoso de Fevereiro, até nem estava escondido. Destacado de todos os outros, esperara pacientemente por alguém que se recordasse da sua existência.
Da autoria de Francisco Moita Flores, O Carteirista que fugiu a tempo[1] conta a estória de um conjunto de indivíduos, do mais baixo estrato social, que descontentes com a vida que levam, ousam aventurar-se numa ambiciosa escalada até ao nível das elites do país. Fred Astaire, conhecido por esse nome devido ao seu talento para a dança, recorda os áureos tempos em que praticava a arte de fazer sumir as carteiras dos “otários” que encontrava na rua ou nos transporte públicos. Com o advento das caixas multibanco, as pessoas deixaram de carregar quantias consideráveis de dinheiro consigo, tornando-se assim o carteirismo uma profissão (ou arte) com os dias contados. Como resultado do avanço das tecnologias, Fred vê-se forçado a abandonar a sua outrora recompensadora profissão, para mendigar nas ruas de Lisboa. É aqui que conhece casualmente uma prostituta, Gabriela, que ulteriormente o apresenta a um drogado, o “Doses”, a um ex-polícia, o Messias, e a um ex-bancário, o “Porcalhão”. Juntos, sob a liderança de Fred formam uma quadrilha. Após um assalto gorado a um banco, arranjam um estratagema para subir na vida, através de concursos televisivos e várias tramóias à mistura.
Cabe agora ao leitor descobrir, mergulhando neste enredo, se as personagens conseguirão atingir o seu propósito. Permanecerão juntos? Terão conseguido enriquecer? De que modo usarão o dinheiro?
F. Moita Flores é licenciado em História, autor de diversos livros, presidente da Câmara Municipal de Santarém. No entanto, foi a sua experiência enquanto investigador na Polícia Judiciária, que lhe terá permitido conhecer a fundo, a vida dos marginais da sociedade. Essa experiência encontra-se reflectida nesta obra, podendo ser facilmente encontrada na gíria utilizada pelas personagens.
[1] Francisco Moita Flores, O Carteirista que fugiu a tempo, 5ª edição, Editorial Notícias, Lisboa, 2002
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
As Pupilas do Senhor Reitor
Mediante estas características que adjectivam a compleição da prole, o pai prevê que Pedro tem todas as condições para seguir o seu trabalho nos terrenos, mas cuida do que poderá ser o futuro do seu outro filho. Com receio de que o franzino possa sucumbir ao trabalho do campo, entrega-o ao senhor Reitor, António de nome, para que lhe dê educação de modo a torná-lo um futuro padre.
De início, Daniel dá-se bem com as lições e revela uma enorme capacidade de aprendizagem, mas cedo se percebe que este não é o melhor caminho para um jovem, que já de novo, pretende passar o tempo com uma rapariga, Margarida. De modo a que o filho não perdesse o rumo aos estudos, o pai decide enviá-lo para o Porto, com o intento de ingressar no curso de Medicina.
O tempo passa e os filhos crescem. Pedro, com vinte e muitos anos, finalmente decide casar-se, com Clara, irmã da Margarida. Por essa altura, Daniel, seu irmão, regressa do Porto, já licenciado, e com ideias novas, que são estranhas para os da terra.
O pai comenta com um dos vizinhos, as ideias que o filho defendera na tese. Uma delas, que muita estranheza causa, é a dos homens serem macacos. O pai tentara explicar a evolução humana, conceito estranho para as gentes da terra, que não tinham tido acesso a uma educação digna, nem qualquer contacto com alguma iniciativa de divulgação científica. De facto, vivendo no interior, longe das grandes cidades, numa pequena terriola em que todos se conhecem, sem contacto com as novas ideias do exterior, o pouco conhecimento de que se alimentam é o dos evangelhos e da superstição. Devido a estas condicionantes, nem o pai consegue explicar, nem o receptor tem abertura de espírito para entender tais ideias. Segue o excerto:
“- [...] Mas o sr. João admira-se? E então se eu lhe disser que ele provou também que um homem é a mesma coisa que um macaco?
João da Esquina fechou com impetuosidade o livro dos assentos.
- Irra! Está a caçoar comigo, sr. José? Ele podia lá dizer semelhante coisa!
- Pergunte-o ao sr. Reitor, que assim o explicou; pergunte, se não acredita.
- Eu não, pois... Macaco! Então eu sou macaco? Então vocemessê é macaco? Então ele é macaco? Então nós somos... ora, isso não pode ser.”[1]
João Semana, o velho cirurgião da aldeia, mesmo esse tem contendas com Daniel acerca dos preceitos de exercer a profissão. É a medicina moderna, contra a medicina do velho cirurgião, a teoria contra a prática.
Um dia, Pedro leva Daniel a conhecer sua futura mulher, Clara, de quem está noivo. Daniel, após tantos anos de ausência, não reconhece que Margarida, irmã de Clara, é a mesma rapariga por quem nutriu sentimento de paixão durante a sua infância.
Este irmão mais novo, jovem sempre apaixonado, encanta-se com tantas raparigas, e por supérfluos sentimentos se deixa levar. Até por Clara, noiva de seu irmão Pedro se julga apaixonado. Como terminará esta história? Estará mesmo Daniel destinado à sua Margarida? Será que desposará Clara? De que modo esta confusão de sentimentos irá afectar a relação dos dois irmãos? Aproximar-se-á uma desgraça junto desta família?
Coíbo-me, neste momento, de mais revelar sobre a obra, deixando entregue ao leitor o prazer de mais saber sobre a estória.
[1] Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor, Obras Completas de Júlio Dinis, nono volume, Círculo de Leitores, 1980
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Washington Irving
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Significados I
Pediatria – s. f. medicina das crianças[2]
Escrevo este post como reflexão sobre como podemos, por vezes, ser iludidos pelo senso comum. Atendendo ao substantivo pediatria, acima mencionado, sabemos que recorrendo ao mesmo prefixo pedo – criança – é possível chegar à palavra pedofilia – s. f. atracção sexual mórbida do adulto pelas crianças[3].
Noutro dia, numa conversa, alguém tentou achar o oposto de pedofilia e definiu-o como "gerofilia", o que parece fazer sentido. Parece... mas está errado. Recorrendo a um dicionário conclui-se que, de facto, o termo correcto é gerontofilia – s. f. apetência sexual patológica por velhos[4].
Olhemos agora para um exemplo prático da literatura, em que se aplica este exemplo:
“ [...] circulam entre nós histórias igualmente derivadas dessa mesma solidão, mas estas relativas a escândalos sexuais diversos, homo e hetero, pedófilo e gerontófilo, não interessa, isso é tudo abafado.”[5]
[1] Dicionários “Editora” - Dicionário da Língua Portuguesa – 5ª edição, Porto Editora
[2] Idem
[3] Ibidem
[4] Ibidem
[5] Clara Pinto Correia, A Arma dos Juízes, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2002 – pp. 241-242
A Arma dos Juízes
Leninha, estranha a ausência no trabalho de sua colega Manuela, esposa de um poderoso Juiz. Assim, decide chamar Sebastião e procurar a sua amiga em casa. Ao chegarem, e ao aperceberem-se da calma que assola o local, Sebastião decide entrar na casa e descobre que fora cometido um crime macabro. Sendo fotógrafo, automaticamente recolhe imagens do sucedido e posteriormente convida o seu amigo jornalista Joaquim Peixoto para investigar e escrever sobre o horrível acontecimento.
Ao longo do enredo, conhecemos as razões do sucedido e as complicações que daí advêm. Com o desenrolar da estória, a trama adensa-se, com muito mistério e conspirações à mistura. Os capítulos intercalam-se simultaneamente entre o presente e o passado, permitindo-nos conhecer melhor a história das personagens principais.
Além disso, esta obra é também um produto da reflexão sobre o estado do jornalismo, a dependência de fármacos pela população, o frenesim que vivemos em sociedade e suas consequências.
Sugestão:
Clara Pinto Correia, A Arma dos Juizes, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2002
domingo, 16 de novembro de 2008
Jules Verne - Volta ao Mundo
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Recordando Soeiro Pereira Gomes - autor de "Esteiros" III
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Leitura em Férias IV- "O Melhor dos Meus Erros"
Após terminada a leitura de “O melhor dos meus erros”, fiquei com a sensação de que mais que ter lido um conjunto de crónicas, li um conjunto de reflexões (algumas profundas) sobre os mais variados temas. Mais do que uma simples e serena leitura, foi também para mim uma reflexão. Devido a opiniões divergentes, pensei e repensei, observando as duas faces da mesma moeda.
Estes “erros” recomendam-se.
Referência:
Clara Pinto Correia, “O melhor dos meus erros”, Oficina do Livro, Lisboa, 2003
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Aqui há Gato
Este título foi um entre os diversos aconselhados pela docente da disciplina de Estratégias Sexuais. Foi numa das aulas, em que a professora explicava em que é que consistia a hipótese da red queen, que comecei a franzir o sobrolho.
Como em breve se vai entender, o conceito da red queen é baseado num dos contos de Lewis Carroll, e a ideia subjacente a esta personagem é que quando uma espécie evolui, outras espécies que mantêm relações com a espécie inicial terão de acompanhar essa evolução. As relações que refiro podem ser de predação ou parasitismo. Deste modo, se uma presa adquire uma habilidade ao longo da escala de tempo evolutiva para escapar a um predador, este terá de arranjar maneira de acompanhar essa evolução.[1] É por esta razão que também se designa este conceito de corrida ao armamento.
Fazendo uso do livro para melhor me explicar, segue o seguinte excerto:
“Em biologia, este conceito de que todo o progresso é relativo passou a ser conhecido pelo nome de «Rainha de Copas», baseado numa peça de xadrez que a Alice conhece em Through the Looking Glass (Do Outro Lado do Espelho) que corre perpetuamente sem avançar muito porque a paisagem se move com ela [...] Quanto mais depressa o leitor correr, mais o mundo se move consigo e menos o leitor progride.”[2]
E acrescenta-se:
“O significado da Rainha de Copas é que ela corre, mas fica no mesmo lugar. O mundo continua a chegar ao ponto de partida, existe alteração, mas não existe progresso.”[3]
Explicado o conceito da red queen, resta-me apenas explicar o porquê de ter franzido o sobrolho, como acima descrevi. A minha desconfiança não se prende com o conceito em si, mas com a designação. Ou melhor, com a tradução para português da designação. Creio que o leitor mais atento já entendeu onde eu quero chegar, atendendo à explicação dada até agora e recorrendo aos posts anteriores referentes às duas obras de Lewis Carroll. Acontece que a tradução correcta será de Red Queen para Rainha Vermelha, que é a tal peça de xadrez que encontramos em O Outro Lado do Espelho. A Rainha de Copas (Queen of Hearts) é a personagem que é parte integrante de um baralho de cartas, que se encontra em Alice no País das Maravilhas. O mesmo autor, diferentes obras, diferentes personagens.
Não sei se a tradução do conceito deste modo foi intencional ou acidental, mas também não pretendo ajuizar sobre o assunto. Fica feita a chamada da atenção.
Fontes:
Matt Ridley, A Rainha de Copas – O Sexo e a Evolução da Natureza Humana, Gradiva, Lisboa, 2004 – Tradução de Carla Rego
Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, Abril Controljornal, Biblioteca Visão, Colecção Novis, Linda-a-Velha, Portugal, 2000 – Tradução: Vera Azancot.
Lewis Carroll, Alice do Outro Lado do Espelho, Biblioteca Editores Independentes, Relógio D’Água Editores, 2007 – Tradução: Margarida Vale de Gato
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Curtas - Eça
Não são esquecidas as conferências do casino e a Questão Coimbrã.
As suas obras foram traduzidas para mais de vinte línguas.
O artigo em questão, intitulado Eça de Queirós - Giant of Portuguese Literature, foi escrito por Nuno Mendes e traduzido por Fiona Perris in Get Real, Edition no. 81, August 12, 2008
Leitura em Férias III - "Alice do Outro Lado do Espelho"
Na continuação das aventuras de Alice, segue-se Alice no Outro Lado do Espelho[1], em que a jovem menina decide atravessar para o lado de lá do espelho, após se questionar como seria a vida desse outro lado.
O nonsense literário continua presente neste reino de fantasia. Após atravessar o espelho para outra realidade, a personagem principal vê-se novamente envolvida em situações disparatadas. Se na estória anterior, Alice, desceu para uma toca subterrânea, desta vez a estória passa-se à superfície. Continuam presentes as personagens antropomórficas, mas em vez de estar rodeada de baralhos de cartas humanizados, encontra-se com peças brancas e vermelhas de um jogo de xadrez. O objectivo da menina é jogar o jogo, sendo ela um peão branco, chegar à oitava casa e tornar-se rainha. Para que tal possa acontecer, vai passar por várias peripécias e conhecer novas personagens como Tuidledum e Tuidleduim; o carpinteiro e a morsa, ambos possuidores de um voraz apetite por ostras; Humpty Dumpty, o ovo; o Leão e o Unicórnio; e o cavaleiro branco, com enorme imaginação para invenções. Reaparece a Lebre de Março e o Chapeleiro Maluco, se bem que ambos e Alice parecem não se reconhecer.
Sendo o autor, Lewis Carroll, matemático, aparecem várias referências a essa disciplina, como as inversões, pois no outro lado do espelho tudo se passa ao contrário. As personagens não se recordam apenas do passado, mas também do futuro. Outro fenómeno que ocorre neste mundo de fantasia é que por mais rápido que se corra nunca se abandona o local inicial, pois a terra aí também gira a grande velocidade.
Na minha opinião, este conto, Alice no outro lado do espelho, é mais interessante que o anterior, Alice no País das Maravilhas, pois os diálogos conseguem remeter-nos para reflexões na área da ciência, quase tocando a ficção-científica.
Deixo agora alguns excertos do livro, de modo a entusiasmar a leitura desta esplêndida obra:
« - Bem, na nossa terra – disse Alice, ainda um pouco ofegante, - é costume chegar-se a outro sítio quando corremos muito depressa durante muito tempo como nós fizemos.
- Que terra tão lenta! – exclamou a rainha. – Aqui, como vês, é preciso corrermos o mais depressa possível para ficarmos sempre no mesmo lugar. Se quiseres chegar a outro sítio, tens de correr pelo menos ao dobro desta velocidade!»[2]
Eis a conversa entre Alice e Tuidledim e Tuidledum, quando encontraram o rei vermelho a dormir:
« - Ora, está a sonhar contigo! – exclamou Tuidledim, batendo as palmas de contente. – E para onde pensas que ias se ele deixasse de sonhar contigo?
- Ficava onde estou. – disse Alice, convictamente.
- Não ficavas nada! – replicou Tuidledim num tom de desprezo. – Não ficavas em lado nenhum, porque não passas de um sonho dele!
- Se aquele Rei ali acordasse tu apagavas-te logo... puf!... que nem uma vela! – acrescentou Tuidledum.
[...]
- Bem, não merece a pena falares em acordá-lo, se tu é só um sonho dele – explicou Tuidledum. – Sabes perfeitamente que não és real.»[3]
Diálogo entre Alice e a Rainha Branca:
« - Fraca memória a tua que só funciona às arrecuas. – acusou a Rainha.
- De que espécie de coisas se lembra melhor? – perguntou Alice, um pouco baralhada.
- Oh, das coisas que aconteceram na semana que vem. – respondeu a Rainha, como quem achasse isso normal. [...]»[4]
E que dizer desta conversa que até figurou como flavor text, numa carta antiga, do conhecido jogo Magic, The Gathering:
« Alice não pôde evitar um sorriso, ao dizer:
- Sabes, eu também pensava que os Unicórnios eram monstros fabulosos! Nunca tinha visto um vivo!
- Bem, agora já nos vimos um ao outro – constatou o Unicórnio. – Se acreditares em mim, eu acredito em ti. De acordo?»[5]
Referência: Lewis Carroll, Alice do Outro Lado do Espelho, Biblioteca Editores Independentes, Relógio D’Água Editores, 2007 – Tradução: Margarida Vale de Gato