Está já aberta a 78ª Feira do Livro no Parque Eduardo VII até 15 de Junho. De 2ª a 6ª feira às 16h (às 15h aos sábados, domingos e feriados) até às 23h de domingo a 5ªfeira (às 24h às 6ª feiras, sábados, vésperas de feriado e último dia). O Armarium Libri visitará também a Feira e em breve publicará um comentário.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
78ª Feira do Livro de Lisboa
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Compostagem III - Vermicompostagem
A vermicompostagem é um processo de formação de fertilizante (vermicomposto) com recurso a vermes e outros invertebrados.
As minhocas vermelhas (Eisenia foetida) são as mais usadas pois preferem meios ricos em matéria orgânica, toleram uma larga gama de factores ambientais, processam rapidamente grandes quantidades de resíduos biodegradáveis e dão-se bem em populações numerosas. São usadas para decompor resíduos alimentares, de jardim, agrícolas e lamas.
Há certos cuidados a ter com estes tipos de minhocas, tais como fornecer-lhes grandes quantidades de humidade, pouca luz devido à sua sensibilidade, níveis de pH entre 5 e 9, temperatura entre os 15 e 25ºC e arejamento pois elas são aeróbias.
Para quem mora em apartamentos e não tem acesso a solo, pode realizar vermicompostagem doméstica, de modo a processar restos de comida e também de plantas.
O contentor deste tipo de compostagem é denominado de vermicompostor, e sendo de reduzidas dimensões ocupa pouco espaço. Juntando a isto o facto de não libertar odores, possibilita a localização dentro de casa. Pode ser uma caixa de plástico ou madeira, com pequenos orifícios.
As minhocas vermelhas (Eisenia foetida) são as mais usadas pois preferem meios ricos em matéria orgânica, toleram uma larga gama de factores ambientais, processam rapidamente grandes quantidades de resíduos biodegradáveis e dão-se bem em populações numerosas. São usadas para decompor resíduos alimentares, de jardim, agrícolas e lamas.
Há certos cuidados a ter com estes tipos de minhocas, tais como fornecer-lhes grandes quantidades de humidade, pouca luz devido à sua sensibilidade, níveis de pH entre 5 e 9, temperatura entre os 15 e 25ºC e arejamento pois elas são aeróbias.
Para quem mora em apartamentos e não tem acesso a solo, pode realizar vermicompostagem doméstica, de modo a processar restos de comida e também de plantas.
O contentor deste tipo de compostagem é denominado de vermicompostor, e sendo de reduzidas dimensões ocupa pouco espaço. Juntando a isto o facto de não libertar odores, possibilita a localização dentro de casa. Pode ser uma caixa de plástico ou madeira, com pequenos orifícios.
Referências:
Texto adaptado de: http://www.zeroresiduos.info/
Compostagem II - O que está ao nosso alcance?
Quem habita em zonas rurais ou moradias com espaço, tem a possibilidade de realizar compostagem doméstica com o intuito de transformar restos orgânicos em composto.
Para quem está interessado há que começar por escolher um local. Convém que o compostor esteja próximo de casa e com fácil acesso à água para facilitar a rega. Se habitar num clima seco coloque a pilha de compostagem debaixo de uma árvore, o que proporciona sombra e evita que seque. Se habitar num local extremamente húmido, então convém resguardar o compostor, pois água em excesso atrasa o processo de decomposição.
O compostor deve ser, de preferência, colocado sobre terra em vez de um solo impermeabilizado, pois deste modo, permite a drenagem de água e facilita a entrada de microorganismos do solo benéficos para a pilha de composto.
Qual o melhor compostor?
Se tiver um quintal não precisa de compostor. Coloque os restos orgânicos empilhados em pirâmide, ou alternativamente, após cavar um buraco na terra (25 a 40 cm de profundidade e 60 cm de diâmetro), deposite aí o seu material.
Se for pretendido recorrer a um compostor, pode fazer o seu próprio ou adquiri-lo comercialmente. São diversos os tipos de compostores a ter em casa: compostor duplo, de madeira, de rede, ninho ou pilha.
O que se pode compostar?
Os materiais orgânicos a compostar dividem-se em verdes e castanhos. Os verdes possuem elevados níveis de azoto, e os castanhos elevados níveis de carbono. Para que a compostagem decorra da melhor forma, sugere-se igual mistura dos dois componentes (ver tabela 1).
Não se deve juntar nem peixe, nem carnes, nem derivados, de modo a não atrair animais indesejáveis.
Para quem está interessado há que começar por escolher um local. Convém que o compostor esteja próximo de casa e com fácil acesso à água para facilitar a rega. Se habitar num clima seco coloque a pilha de compostagem debaixo de uma árvore, o que proporciona sombra e evita que seque. Se habitar num local extremamente húmido, então convém resguardar o compostor, pois água em excesso atrasa o processo de decomposição.
O compostor deve ser, de preferência, colocado sobre terra em vez de um solo impermeabilizado, pois deste modo, permite a drenagem de água e facilita a entrada de microorganismos do solo benéficos para a pilha de composto.
Qual o melhor compostor?
Se tiver um quintal não precisa de compostor. Coloque os restos orgânicos empilhados em pirâmide, ou alternativamente, após cavar um buraco na terra (25 a 40 cm de profundidade e 60 cm de diâmetro), deposite aí o seu material.
Se for pretendido recorrer a um compostor, pode fazer o seu próprio ou adquiri-lo comercialmente. São diversos os tipos de compostores a ter em casa: compostor duplo, de madeira, de rede, ninho ou pilha.
O que se pode compostar?
Os materiais orgânicos a compostar dividem-se em verdes e castanhos. Os verdes possuem elevados níveis de azoto, e os castanhos elevados níveis de carbono. Para que a compostagem decorra da melhor forma, sugere-se igual mistura dos dois componentes (ver tabela 1).
Não se deve juntar nem peixe, nem carnes, nem derivados, de modo a não atrair animais indesejáveis.

Sobre como construir o seu próprio compostor:
http://www.zeroresiduos.info/images/stories/compostagem/tca_de_cons_compostor.pdf
Sobre como manter a sua pilha de compostagem:
http://www.zeroresiduos.info/images/stories/compostagem/manut__pilha.pdf
Referências:
Tabela 1 retirada de:
http://www.zeroresiduos.info/images/stories/compostagem/mat_podem_n_podem_comp.pdf
Texto adaptado de: www.zeroresiduos.info
Compostagem I - Resíduos Sólidos Urbanos
O crescimento dos níveis de consumo têm levado a um enorme aumento da quantidade de resíduos. Face a isto, a União Europeia estabeleceu uma hierarquia preferencial das opções de gestão de modo a por um lado maximizar a eficiência na utilização dos recursos naturais e por outro lado minimizar os negativos impactos ambientais associados aos resíduos. Para isso, os Estados-Membro da UE em vez de enviarem os Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) para o aterro, devem focar-se no topo da hierarquia da gestão sustentável . Dentre estas medidas encontramos a reciclagem da fracção orgânica dos RSU onde se incluem técnicas como a compostagem e a digestão anaeróbia.
Os RSU dividem-se em restos orgânicos (sobras de comida e aparas de jardins) e em resíduos perigosos (pilhas ou tintas). A proveniência destes resíduos vai desde a doméstica, passando por estações de tratamentos de águas (lamas), até indústrias e instalações agro-pecuárias.
Os restos orgânicos são de fácil degradação, e a sua reciclagem pode ser feita através de compostagem(com presença de oxigénio) ou digestão anaeróbia (em ausência de oxigénio).
Para que a reciclagem orgânica tenha sucesso é necessária uma correcta separação desses resíduos, de preferência que a separação tenha origem na fonte, isto é, na casa de cada um de nós. Se assim for, verificar-se-á a implantação da compostagem doméstica e em pequenas comunidades, redução considerável de RSU a recolher pelos sistemas de gestão, essa separação conduzirá à sensibilização dos cidadãos, contribuirá para o envolvimento social das comunidades, após a recolha o composto pode ser vendido como adubo na agricultura, trazendo claros benefícios ambientais e económicos.
São várias as alternativas para a recolha selectiva de resíduos: porta-a-porta, contentores de rua ou ecocentros.
Os RSU dividem-se em restos orgânicos (sobras de comida e aparas de jardins) e em resíduos perigosos (pilhas ou tintas). A proveniência destes resíduos vai desde a doméstica, passando por estações de tratamentos de águas (lamas), até indústrias e instalações agro-pecuárias.
Os restos orgânicos são de fácil degradação, e a sua reciclagem pode ser feita através de compostagem(com presença de oxigénio) ou digestão anaeróbia (em ausência de oxigénio).
Para que a reciclagem orgânica tenha sucesso é necessária uma correcta separação desses resíduos, de preferência que a separação tenha origem na fonte, isto é, na casa de cada um de nós. Se assim for, verificar-se-á a implantação da compostagem doméstica e em pequenas comunidades, redução considerável de RSU a recolher pelos sistemas de gestão, essa separação conduzirá à sensibilização dos cidadãos, contribuirá para o envolvimento social das comunidades, após a recolha o composto pode ser vendido como adubo na agricultura, trazendo claros benefícios ambientais e económicos.
São várias as alternativas para a recolha selectiva de resíduos: porta-a-porta, contentores de rua ou ecocentros.
Base de dados bibliográfica com centenas de publicações sobre compostagem, digestão anaeróbia e recolha selectiva de resíduos orgânicos:
Referências:
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Recordando Soeiro Pereira Gomes - autor de "Esteiros" II
Soeiro Pereira Gomes e Manuela Reis iam muito a Lisboa nos anos '30. Manuela Reis colaborava na Orquestra Ligeira da Emissora Nacional, como compositora de música popular. Pereira Gomes participava em tertúlias da capital, onde, entre outros, conviviam Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Alexandre Cabral e Alves Redol. Por essa altura despontava nas mentes de certos intelectuais portugueses a ideia de um novo realismo artístico que, lembrando vagamente (e talvez só pelo objectivo de descrever realidades vivas e actuais) as obras de uma geração de escritores falecidos há muito - Eça de Queiroz (1845-1900), Abel Botelho (1856-1917), Teixeira de Queiroz (1848-1919), Cesário Verde (1855-1886) - descrevesse a realidade das relações humanas no âmbito da economia industrial, ou seja, a exploração dos operários pelos patrões e dos camponeses pelos latifundiários. Mas sobretudo a exploração dos cidadãos pela Ditadura. Era uma Arte pela cidadania, um protesto político e social em romance, conto ou poesia. Em 1935, Pereira Gomes - que desde a juventude cultivava a poesia - envia o conto O Capataz ao semanário O Diabo. Em Maio de 1936, o director - o filólogo Rodrigues Lapa (1897-1989) - responde-lhe: "Comunico-lhe que a sua novela "O Capataz" foi cortada pela censura." (1) O conto, que descrevia as relações laborais numa fábrica, não podia vir a público. Era o primeiro contacto pessoal de Pereira Gomes com o Regime. De facto, numerosos cidadãos achavam-se há muito descontentes com os efeitos da Ditadura. Em Abril de 1931 sublevara-se a Madeira em peso; em Agosto do mesmo ano fora Lisboa; em 1934, a questão da Marinha Grande; os navios Afonso de Albuquerque e Dão rebelaram-se em 1936; 1943 e 1944 foram anos de greves. É neste contexto que surge o Neo-Realismo. Durante vários anos de oposição política ao regime, os seus adversários produziram algumas das mais dolorosas páginas da literatura portuguesa.
(1) Soeiro Pereira Gomes - Uma Biografia Literária, Giovanni Ricciardi, 1999, p.54.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Canção da Donzela Finlandesa
Oh!, se o meu Bem me volver,
Se quem dantes via, eu vejo,
Traga ele a boca a escorrer
De lobo em sangue lha beijo;
E a mão vou-lha apertar,
Cobras lha andem a enroscar.
Ah!, se o vento alma tivera,
Língua o ar da Primavera,
Fora a sua voz bastante:
Novas levara e trouxera
Entre um e outro amante.
Desprezo finos guisados,
Deixo ao cura os seus assados;
Só quero amar, ser constante
A quem o Verão me deu
E o Inverno afez a ser meu.
Almeida Garrett, Folhas Caídas
Nota: O poema original (Eyton Runo Suomalaisen) está escrito numa velha língua nórdica e é muito antigo. Faz parte de enraizadas tradições dos povos do Norte e é equivalente à nossas mais velhas obras literárias. A tradução é de Almeida Garrett (1799-1854), que se serviu de versões correntes no seu tempo, em várias línguas. O poema e a autoria da versão que se apresenta, fazem lembrar a preocupação em conservar a mais genuína tradição popular que resultou no Romanceiro português.
Se quem dantes via, eu vejo,
Traga ele a boca a escorrer
De lobo em sangue lha beijo;
E a mão vou-lha apertar,
Cobras lha andem a enroscar.
Ah!, se o vento alma tivera,
Língua o ar da Primavera,
Fora a sua voz bastante:
Novas levara e trouxera
Entre um e outro amante.
Desprezo finos guisados,
Deixo ao cura os seus assados;
Só quero amar, ser constante
A quem o Verão me deu
E o Inverno afez a ser meu.
Almeida Garrett, Folhas Caídas
Nota: O poema original (Eyton Runo Suomalaisen) está escrito numa velha língua nórdica e é muito antigo. Faz parte de enraizadas tradições dos povos do Norte e é equivalente à nossas mais velhas obras literárias. A tradução é de Almeida Garrett (1799-1854), que se serviu de versões correntes no seu tempo, em várias línguas. O poema e a autoria da versão que se apresenta, fazem lembrar a preocupação em conservar a mais genuína tradição popular que resultou no Romanceiro português.
domingo, 11 de maio de 2008
Uma História Oral do Nosso Tempo II
No Verão de 1917, folheando um livro de contos de W. Carleton num alfarrabista, Gould fixou uma frase de Yeats, que introduzia a obra com uma apresentação. Dizia Yeats que a História não era escrita nos locais a que normalmente se atribui a sua fonte principal, por serem aqueles onde se decide do destino de muitas pessoas - um parlamento, por exemplo. A História estava junto do povo, nas suas preocupações e nos seus diálogos. Foi nessa altura que Gould decidiu abandonar os seus hábitos para escrever a História Oral do Nosso Tempo. "Iria passar o resto da minha vida a andar pela cidade a ouvir as pessoas - às escondidas, se necessário - e passando a papel tudo o que dissessem e me parecesse revelador, por mais chato, idiota, ordinário ou obsceno que pudesse soar a outros. Estava já a ver como seria - longas conversas intermináveis e conversas curtas e vivas, conversas brilhantes e conversas parvas, insultos, frases batidas, pedaços de discussões, o balbuciar de bêbados e de loucos, os rogos dos mendigos e vagabundos, as propostas das prostitutas, o palavreado dos feirantes e dos vendedores ambulantes, os sermões dos pregadores de rua, gritos na noite, boatos incríveis, gritos do coração." (1) Para trabalhar numa tal obra, Gould decidiu deixar o emprego e reduzir as suas necessidades ao mínimo. Passaria agora a escutar a rua, os cafés, o metro, os albergues, todos os locais que pudessem produzir matéria digna de apontamento. "Aquilo que considerávamos ser história - reis e rainhas, tratados, invenções, grandes batalhas, decapitações, César, Napoleão, Pôncio Pilatos, Colombo, William Jennings Bryan - não passa de história formal e em grande parte falsa", diz Gould. "O que eu faço é registar a história informal da gente em mangas de camisa - o que têm para dizer sobre os empregos, amores, comidas, pândegas, apertos e penas". (2) "Num dos capítulos, «Os Homens Bons Estão a Morrer Como Moscas», Gould começa a escrever a biografia do dono de um restaurante e apostador em corridas de cavalos, chamado Side Bet Benny Altschuler, que morreu de tétano depois de se ter espetado na mão com um picador de gelo enferrujado; e ao fim de uns quantos parágrafos salta para a história que um marinheiro lhe contou sobre um grupo de leprosos que viu a beber, a dançar e a cantar numa Praia de Porto de Espanha, na Trindade; dali passa para uma história sobre uma manifestação em frente de um cinema de Boston em 1915 a protestar contra a exibição de «Nascimento de Uma Nação», durante a qual deu um pontapé a um polícia; dali passa para a descrição de uma visita que em tempos fez ao asilo de doentes mentais de Central Islip, em que uma mulher apontou para ele aos gritos de «Ali vai ele! Ladrão! Ladrão! Ali vai o homem que arrancou os meus gerânios e roubou a mula e a caleche da minha mãe»; dali passa para o relato que um vagabundo titubeante lhe fez de uma noite em que, sentado na soleira de uma porta de Great Jones Street, viu num vislumbre e sentiu as chamas ardentes do inferno e mais tarde nessa mesma noite viu duas sereias a brincar no East River mesmo a norte da lota de Fulton; dali passa para a explicação que lhe deu o Padre da Old St. Patrick's Cathedral, que fica na Mott Sreet, na parte mais antiga da Little Italy, sobre a razão por que tantas mulheres italianas vestem de preto («Estão de luto por Nosso Senhor»); para finalmente voltar a Side-Bet Benny, o dono do restaurante com tétano." (3) E talvez as conversas pudessem trazer consigo algo mais do que o que era dito. "Tudo dependia, dizia ele, da interpretação que se desse a tais conversas, o que não estava ao alcance de qualquer pessoa. «É verdade, tem toda a razão», disse uma vez a um detractor da História Oral. «São só coisas que ouvi dizer, mas talvez eu tenha alguma faculdade especial - talvez eu consiga compreender o significado daquilo que dizem as pessoas, talvez eu consiga ler o seu significado profundo. Pode ser que você, ao ouvir uma conversa entre dois velhotes num bar ou duas velhotas num banco de jardim, ache que são tretas sem nenhum interesse e que eu, ouvindo a mesma conversa, descubra nela um profundo sentido histórico.» «Um dia mais tarde», disse ele noutra ocasião, «pode ser que as pessoas leiam a História Oral de Joe Gould para ver onde é que falhámos, tal como hoje lemos "O Declínio e Queda" de Gibbon para ver porque caiu o Império Romano.» (4) Dizia às pessoas com quem falava que a História Oral já tinha onze vezes o tamanho da Bíblia, contando "nove milhões de palavras, escritas com todas as letras" (5) e que "era sem dúvida nehuma a mais longa obra literária inédita existente" (6). Joseph Gould foi boémio cerca de 40 anos, vivendo com o auxílio de amigos ou pessoas que se interessaram por ele e pelo seu curioso trabalho - como Mitchell -, acabando por falecer no Pilgrim State Hospital em 1957. Da História Oral do Nosso Tempo, o Armarium Libri quer reter a ideia de democratização - tanto quanto possível - do âmbito de trabalho dos historiadores. As Histórias gerais, nomeadamente as que servem de manuais escolares, são necessárias e têm a vantagem de introduzir o leitor num tema desconhecido. Todavia, para cumprir o seu objectivo, ficam-se pelo elementar dos factos, escolhendo os mais importantes e omitindo os que porventura o parecem menos; o mesmo acontece na omissão muitas figuras históricas que vão desaparecendo da memória colectiva. A Vida Quotidiana é um capítulo quase sempre sacrificado. Se na prática os costumes são naturalmente e obviamente inseparáveis das pessoas, a História - pretendendo descrever passado com rigor - não pode desconsiderar os temas da vida quotidiana, como se fossem menores. Se no estudo é possível proceder a tais omissões, a verdade é que estas são contra a natureza das vidas que intelectualmente se reconstroem - em qualquer classe, tempo e espaço.
(1) O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell, Publicações D. Quixote, 2002, p.65.
(2) Idem, p.25.
(3) Idem, pp.27-28.
(4) Idem, p.45.
(5) Idem, p.24.
(6) Idem, p.45.
Uma História Oral do Nosso Tempo I
"Joe Gould é um homenzinho jovial e emaciado que se tornou numa personagem conhecida nas cafetarias, snacks, bares e tascas de Greenwich Village ao longo de um quarto de século. Por vezes gaba-se um pouco a contragosto de ser o último dos boémios. «Todos os outros foram ficando pelo caminho», diz ele. «Uns debaixo da terra, outros no manicómio, e outros na publicidade.» A vida de Gould está longe de ser fácil; vive constantemente atormentado pela mesma trindade de males: fome, ressacas e sem-abrigo. Dorme em bancos do metro, no chão em ateliers de amigos, e em albergues nocturnos na Bowery. (...) Tem um metro e sessenta e raramente pesará mais do que quarenta e cinco quilos. Ainda há pouco tempo contou a um amigo que não comia uma refeição decente desde 1936, quando foi à boleia até Cambridge e participou no banquete da associação dos finalistas de Harvard de 1911, de que faz parte. «Sou a maior autoridade dos Estados Unidos», diz ele, «em matéria de viver sem nada.» (...) Os donos de café e baristas da Village falam dele como o Professor, o Gaivota, Professor Gaivota, Mangusto, Professor Mangusto, ou o Rapaz de Bellevue." (1) Começa deste modo um dos mais conhecidos perfis que o jornalista Joseph Mitchell escreveu para The New Yorker, em 1942. Joseph Ferdinand Gould tinha nascido em 1889 em Norwood, Massachusetts, numa família antiga e bem colocada na sociedade. O pai e o avô eram médicos e dele se esperava o mesmo, apesar de reconhecer-se inábil: "A verdade é que não tinha jeito para grande coisa - nem em casa, nem na escola, nem nas brincadeiras. (...) Ainda por cima era o que o meu pai chamava uma criança catarrosa - tinha o nariz sempre a pingar. Normalmente, quando devia estar a prestar atenção a alguma coisa, estava ocupado a assoar o nariz." (2) Quando acabou a escola em Norwood, formou-se em Harvard e, sem pistas sobre um futuro a obter, interessou-se por Eugenia - que estudou em Long Island - e partiu para North Dakota onde mediu os crânios de mais de um milhar de índios, até ter de regressar a casa, impossibilitado de prosseguir este trabalho, por causa de problemas finaceiros da família. O pai quis arranjar-lhe um emprego, mas Gould, que em Norwood não se sentia em casa, decidiu ir para Nova Iorque seguir uma carreira literária. "Vim para Nova Iorque com a ideia na cabeça de me tornar crítico teatral, por pensar que isso me deixaria tempo para escrever romances, peças, poemas, canções, artigos e um ou outro ensaio sobre eugenismo, e acabei por conseguir um lugar no Evening Mail, uma espécie de meio moço-de-recados e meio aprendiz de jornalista na esquadra central da polícia." (3)
(1) O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell, Publicações D. Quixote, 2002, pp. 19-20
(2)Idem, p.59.
(3)Idem, p.65.
terça-feira, 29 de abril de 2008
BioCafé - Dra. Joana Lobo Antunes

Informam-se todos os interessados, que no dia 30 de Abril de 2008, vai realizar-se mais um BioCafé, organizado pelo BioCEL. A palestra terá lugar na livraria Bulhosa, Campo Grande, nº10-B. A oradora convidada é a Dra. Joana Lobo Antunes com o tema "Fármacos anti-tumorais e outros demónios".
A entrada é livre.
Para Biólogos e não-biólogos.
Mais informações em: www.biocel-lusofona.blogspot.com
sexta-feira, 25 de abril de 2008
25/04 - O dia que se tornou todos os dias
A 25 de Abril de 1974, um grupo de militares vindo da Escola Prática de Cavalaria de Santarém chegou a Lisboa de madrugada com o objectivo de derrubar o Governo de Marcello Caetano. Face ao natural desmoronar da Ditadura, a revolução fez-se sem sangue e mudou-se o regime político em Portugal, ao fim de mais de 40 anos de oposição democrática. Os anos que se seguiram foram de instablidade política e social, com governos efémeros e descontinuidade nas reformas necessárias a um país livre, mas muito pobre. Só nos anos 80, a partir da primeira maioria de Cavaco Silva (1987), foi possível um duradouro período de tranquilidade. Muito se fez então para tentar compensar as décadas de atraso, de que ainda hoje Portugal se ressente. Entretanto, a entrada na comunidade política de países europeus, os posteriores auxílios financeiros e as reformas que tiveram lugar a um ritmo demasiado veloz, transformaram Portugal num país mais desenvolvido do que alguma vez tinha sido antes. Todavia, em 34 anos, quis-se converter numa sociedade moderna uma sociedade com sérios problemas estruturais, alguns situados antes de 1900. É nossa convicção que a democracia nunca está completamente realizada. Deve exercer-se todos os dias, não só exigindo aos governos as reformas necessárias mas também responsabilizando-se cada cidadão pelo seu âmbito de acção. Porque numa democracia moderna o cidadão já não é um elemento impotente. Com todos os meios legais ao seu dispor, não se espere que os direitos, liberdades e garantias se exerçam só por si. O cidadão também é um centro de decisão e de realização da sociedade. É por isso importante melhorar a nossa educação nas instituições próprias e estimular a curiosidade, a ousadia e o olhar crítico. Um cidadão indiferente é um número.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Ter ou não ter uma filosofia de vida
H.L., um amigo do Armarium Libri, cedeu-nos gentilmente o seguinte texto do seu Diário (8 de Julho de 2007):
"Havia um professor de Filosofia no Secundário (1998-1999) que afirmava não gostar de pessoas que dizem "eu tenho uma filosofia de vida". Durante os anos seguintes, pensei muito naquela frase. A razão é que não conseguia perceber o que é que o professor tinha contra as "filosofias de vida". Actualmente, penso ter entendido as suas razões; tenho uma ideia do que possa ser; ou então, como já me preveniram, estou a ser demasiado benevolente com o professor e a atribuir muita profundidade a uma embirração de passagem. Em todo o caso, boa ou má interpretação tenha feito, vai expor-se. Em duas palavras, a Filosofia é a interrogação racional sobre a Natureza (incluindo o Homem), com o fim de descobrir a causa primeira de todas as coisas, que vai responder sobre a origem e a essência de tudo. Num interessante texto em que compara a Filosofia com a Ciência, diz o Professor Braz Teixeira que a primeira, por meio de sucessivas questões e respostas, conduz à Verdade - um fundamento primeiro que determina não só a racionalidade e unidade do Mundo, mas também a sintonia em que o Homem está com ele, sendo ou não possível que intelectualmente o apreenda. (1) Sempre foi esta a ideia com que fiquei da Filosofia; aliás, a minha interpretação de Braz Teixeira só veio confirmar as minhas suspeitas conceptuais do Secundário. Quanto ao facto de se ter uma filosofia de vida, pessoalmente não vejo inconveniente filosófico. Se a Filosofia busca verdades primeiras que revelam a natureza e a essência das coisas, dizer-se que se tem uma filosofia de vida, significa que tal sujeito, está a procurar-se ao mais profundo nível da sua humanidade, para que possa, no Mundo, agir conforme a sua Natureza, ou, descontente com esta, contrariá-la no que for contrariável e reinventar-se, se de tal for capaz. Talvez o meu professor, que já não era novo, contemplasse com inquietação a falta de Filosofia frequente com que se diz "eu tenho uma filosofia de vida". Talvez um certo cepticismo atinja os filósofos com o andar da idade e estes percebam, com alguma amargura, que uma sociedade demasiado global, liberal e impessoal já não respeita a seriedade e a profundidade de um processo tão rico (e às vezes tão doloroso!) como este perguntar constante de onde veio tudo isto. Gostaria de reencontrar aquele professor, que saía do café pelo fim da tarde, embrulhado num capote e com o guarda-chuva pendurado no braço, e dizer-lhe, com propriedade: "Sr. Professor, eu tenho uma Filosofia de Vida!"
(1) António Braz Teixeira, Sentido e Valor do Direito, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2006, pp.21-23.
"Havia um professor de Filosofia no Secundário (1998-1999) que afirmava não gostar de pessoas que dizem "eu tenho uma filosofia de vida". Durante os anos seguintes, pensei muito naquela frase. A razão é que não conseguia perceber o que é que o professor tinha contra as "filosofias de vida". Actualmente, penso ter entendido as suas razões; tenho uma ideia do que possa ser; ou então, como já me preveniram, estou a ser demasiado benevolente com o professor e a atribuir muita profundidade a uma embirração de passagem. Em todo o caso, boa ou má interpretação tenha feito, vai expor-se. Em duas palavras, a Filosofia é a interrogação racional sobre a Natureza (incluindo o Homem), com o fim de descobrir a causa primeira de todas as coisas, que vai responder sobre a origem e a essência de tudo. Num interessante texto em que compara a Filosofia com a Ciência, diz o Professor Braz Teixeira que a primeira, por meio de sucessivas questões e respostas, conduz à Verdade - um fundamento primeiro que determina não só a racionalidade e unidade do Mundo, mas também a sintonia em que o Homem está com ele, sendo ou não possível que intelectualmente o apreenda. (1) Sempre foi esta a ideia com que fiquei da Filosofia; aliás, a minha interpretação de Braz Teixeira só veio confirmar as minhas suspeitas conceptuais do Secundário. Quanto ao facto de se ter uma filosofia de vida, pessoalmente não vejo inconveniente filosófico. Se a Filosofia busca verdades primeiras que revelam a natureza e a essência das coisas, dizer-se que se tem uma filosofia de vida, significa que tal sujeito, está a procurar-se ao mais profundo nível da sua humanidade, para que possa, no Mundo, agir conforme a sua Natureza, ou, descontente com esta, contrariá-la no que for contrariável e reinventar-se, se de tal for capaz. Talvez o meu professor, que já não era novo, contemplasse com inquietação a falta de Filosofia frequente com que se diz "eu tenho uma filosofia de vida". Talvez um certo cepticismo atinja os filósofos com o andar da idade e estes percebam, com alguma amargura, que uma sociedade demasiado global, liberal e impessoal já não respeita a seriedade e a profundidade de um processo tão rico (e às vezes tão doloroso!) como este perguntar constante de onde veio tudo isto. Gostaria de reencontrar aquele professor, que saía do café pelo fim da tarde, embrulhado num capote e com o guarda-chuva pendurado no braço, e dizer-lhe, com propriedade: "Sr. Professor, eu tenho uma Filosofia de Vida!"
(1) António Braz Teixeira, Sentido e Valor do Direito, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2006, pp.21-23.
sábado, 19 de abril de 2008
Voltaire, história das ciências e o ... LIDL?!
Num artigo intitulado “History of science and historical novels”(1), é comentada a relação existente entre história das ciências e romances ou novelas. O autor do artigo, refere que há cientistas que escrevem com base nas suas experiências em laboratório, designado de “Lablit”(1), e há escritores que olham para obras de historiadores da ciência como ponto de partida, ou inspiração, para romances de ficção. Na realidade há uma procura por romances históricos, mas por vezes faltam factos nestes.
Esta é uma oportunidade para os historiadores da ciência poderem abordar temas estudados, mas agora com recurso à ficção. “Por ser ficção permite explorar assuntos de moralidade e interpretação com uma liberdade normalmente negada aos historiadores”(1).
Em boa verdade, são vários os países com historiadores da ciência, que escrevem romances históricos, e Portugal não é excepção. Um bom exemplo da minha afirmação é a doutora Clara Pinto Correia com inúmeros trabalhos escritos, entre eles obras de divulgação científica e romances. Para o que pretendo expor vou referir duas das suas obras: “Os Mensageiros Secundários” e “A Primeira Luz da Madrugada”.
Em “Os Mensageiros Secundários”, cativante obra que nos prende do início ao fim, Clara Pinto Correia conta-nos a história através de dois narradores complementares, Chuck (personagem principal) e de uma misteriosa personagem que vamos conhecendo à medida que se desenrola o novelo da história. Como fio condutor temos uma investigadora portuguesa, a Ana Maria, que vive nos Estados Unidos da América e está a fazer uma pesquisa sobre descrições de monstros observados no Mundo com base em escritos portugueses do século XVIII. Entre diversos acontecimentos importantes que ocorreram em Portugal nesse século, podemos referir o colossal terramoto de 1755. Tal foi a magnitude deste sismo, que para além de Portugal foi sentido em muitos outros países, até no Norte da Europa. Este evento teve também particular destaque em “Cândido”, uma obra de François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778).
Foi a pesquisar para o seu estudo das teorias da reprodução, “O Ovário de Eva”, que a autora dos “mensageiros” encontrou numa biblioteca referências a relatos de visões de monstros escritos em português do século XVIII, em folhetos anónimos de dez páginas que costumavam ser avidamente lidos pelas massas.
Em “A Primeira Luz da Madrugada”, temos o prazer de reencontrar Ana Maria, que vê-se agora envolta no mito de Ashverus, o judeu errante. Ao ir passear o seu cão na praia encontra cinco indivíduos, aparentemente meros arrumadores do LIDL do Dafundo. Enquanto as personagens aguardam o há muito esperado Segundo Regresso, o leitor é convidado a conhecer a história deste mito e a reencontrar referências a personagens como o homúnculo de Paracelso, Matteo Ricci, Eleazar de Worms e até a criação do Golem de acordo com o misticismo judaico.
Está claro que no caso desta obra, a autora terá recorrido a informação recolhida para os seus trabalhos como “O Ovário de Eva” ou “O Mistério dos Mistérios”.
Tenho assim demonstrado, como de obras de história da ciência podem resultar bons romances com recurso a factos históricos, que contribuem para o enriquecimento cultural de quem tem o prazer de os ler.
(1) Golinsky, J.; “History of Science and Historical Novels”, Isis, 2007, 98:755-759
Esta é uma oportunidade para os historiadores da ciência poderem abordar temas estudados, mas agora com recurso à ficção. “Por ser ficção permite explorar assuntos de moralidade e interpretação com uma liberdade normalmente negada aos historiadores”(1).
Em boa verdade, são vários os países com historiadores da ciência, que escrevem romances históricos, e Portugal não é excepção. Um bom exemplo da minha afirmação é a doutora Clara Pinto Correia com inúmeros trabalhos escritos, entre eles obras de divulgação científica e romances. Para o que pretendo expor vou referir duas das suas obras: “Os Mensageiros Secundários” e “A Primeira Luz da Madrugada”.
Em “Os Mensageiros Secundários”, cativante obra que nos prende do início ao fim, Clara Pinto Correia conta-nos a história através de dois narradores complementares, Chuck (personagem principal) e de uma misteriosa personagem que vamos conhecendo à medida que se desenrola o novelo da história. Como fio condutor temos uma investigadora portuguesa, a Ana Maria, que vive nos Estados Unidos da América e está a fazer uma pesquisa sobre descrições de monstros observados no Mundo com base em escritos portugueses do século XVIII. Entre diversos acontecimentos importantes que ocorreram em Portugal nesse século, podemos referir o colossal terramoto de 1755. Tal foi a magnitude deste sismo, que para além de Portugal foi sentido em muitos outros países, até no Norte da Europa. Este evento teve também particular destaque em “Cândido”, uma obra de François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778).
Foi a pesquisar para o seu estudo das teorias da reprodução, “O Ovário de Eva”, que a autora dos “mensageiros” encontrou numa biblioteca referências a relatos de visões de monstros escritos em português do século XVIII, em folhetos anónimos de dez páginas que costumavam ser avidamente lidos pelas massas.
Em “A Primeira Luz da Madrugada”, temos o prazer de reencontrar Ana Maria, que vê-se agora envolta no mito de Ashverus, o judeu errante. Ao ir passear o seu cão na praia encontra cinco indivíduos, aparentemente meros arrumadores do LIDL do Dafundo. Enquanto as personagens aguardam o há muito esperado Segundo Regresso, o leitor é convidado a conhecer a história deste mito e a reencontrar referências a personagens como o homúnculo de Paracelso, Matteo Ricci, Eleazar de Worms e até a criação do Golem de acordo com o misticismo judaico.
Está claro que no caso desta obra, a autora terá recorrido a informação recolhida para os seus trabalhos como “O Ovário de Eva” ou “O Mistério dos Mistérios”.
Tenho assim demonstrado, como de obras de história da ciência podem resultar bons romances com recurso a factos históricos, que contribuem para o enriquecimento cultural de quem tem o prazer de os ler.
(1) Golinsky, J.; “History of Science and Historical Novels”, Isis, 2007, 98:755-759
Bibliografia:
- Voltaire, “Cândido”, Abril Controljornal, Biblioteca Visão, 2000, tradução de Maria Archer
- Clara Pinto Correia, “O Mistério dos Mistérios – Uma história breve das teorias de reprodução animal”, Relógio D’Água Editores, 1999
- Clara Pinto Correia, “Os Mensageiros Secundários”, Relógio D’Água Editores, 2000
- Clara Pinto Correia, “A Primeira Luz da Madrugada”, Oficina do Livro, 2006
Recordando Soeiro Pereira Gomes - autor de "Esteiros" I
Joaquim Soeiro Pereira Gomes, o primeiro de seis filhos, nasceu a 14 de Abril de 1909, em Gestaçô, concelho de Baião e distrito do Porto, numa família da burguesia rural, que aí tinha uma quinta - a Casa do Vilar. Fez os primeiros estudos em Espinho e, a partir de 1920, entrou na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra, donde saiu diplomado em 1928. Não tendo conseguido um emprego compatível com o curso (como administrador de explorações rurais ou encarregado de empresas agrícolas) e querendo casar, parte para Catumbela, Angola, respondendo a um anúncio da Companhia Agrícola de Cassequel, em 1930. (Dois anos antes, havia também viajado para Angola o futuro escritor Alves Redol, procurando uma vida melhor.) Porém, o trabalho e os ares de África obrigaram-no a voltar, doente e debilitado, em meados de 1931. Casou ainda nesse ano - com Manuela Câncio Reis -, começando também a trabalhar nos escritórios da Fábrica Cimentos Tejo, em Alhandra, colocado pelo sogro. "Vila de pescadores e camponeses até aos princípios do século XX, tendo o seu núcleo originário fixado no lugar hoje conhecido por Mirante, um morro de onde se goza uma larga vista do Tejo e dos seus mouchões, Alhandra, na década de Trinta, era, sem dúvida, o maior centro industrial do concelho e talvez da região." (1) Além da Fábrica Cimentos Tejo, havia outras indústrias: fiação e tecidos de algodão, cerâmica, fábrica de telha e tijolo, descasque de arroz, surração de peles, oficinas de reparação de máquinas, lavagem, cardação e penteação de lãs... Segundo o Boletim da Junta da Província do Ribatejo, de 1938, a Vila tinha 3471 habitantes, uma estação telégrafo-postal, uma rede urbana de telefone, iluminação pública, uma rede de esgotos e abastecimento por um poço e chafariz. Alhandra estava ligada a Lisboa por carreiras de camioneta e por linha de comboio. Se na Vila havia pobreza, aliás, como por todo o País durante o Estado Novo, havia também as costumadas associações em que a população se junta para se proteger da miséria: Associação do Hospital Civil e Misericórdia, Alhandra Sporting Club, uma delegação do Sindicato dos Descarregadores de Mar e Terra do Distrito de Lisboa, Associação dos Bombeiros Voluntários... (2) Foi neste ambiente, integrados depois em várias actividades culturais da Vila, que os recém-casados passaram a viver.
(1) Soeiro Pereira Gomes - Uma Biografia Literária, Giovanni Ricciardi, 1999, p.44.
(2) Para estas referências, v. idem, pp.45-46.
(1) Soeiro Pereira Gomes - Uma Biografia Literária, Giovanni Ricciardi, 1999, p.44.
(2) Para estas referências, v. idem, pp.45-46.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
A Paleta de Raul Brandão
Raul Brandão (1867-1930), natural da Foz do Douro, é um escritor difícil de classificar. Existe a legítima preocupação de classificar os artistas, pois facilita a organização e a divulgação dos conhecimentos que temos deles. Mas a Arte, como é livre, fica tão imprevisível que às vezes a classificação, como molde, não pode incluir toda a realidade. Raul Brandão, depois dos primeiros estudos, ingressou no Exército em 1888 e veio a reformar-se em major em 1912. Não tinha a vocação das armas, nem ao que parece, a disciplina requerida: as suas sensibilidade e inteligência ligavam-no à criação literária e jornalística, naturalmente avessas à mentalidade militar. Depois da reforma, passava muito tempo na sua quinta da Nespereira, em Guimarães, na companhia das árvores, que reverenciava, dos livros, que o inspiravam, e da esposa - D. Maria Angelina Brandão -, companhia de sempre. Vinha longamente a Lisboa, onde convivia com os artistas do seu tempo: Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes... e viajava pelo seu País. Do que viu em alguns desses passeios, escreveu Os Pescadores, um conjunto de paisagens - tão vivas hoje à leitura, como quando Brandão as registou - e de tipos - os pescadores. Os Pescadores são breves retratos da vida na costa portuguesa no início do século XX, tal como Brandão a viu, rica em cores, em trabalho, em perseverança e em sofrimento; na Póvoa de Varzim, em Aveiro, na Nazaré, em Sesimbra, na Costa da Caparica e noutros locais onde havia quem do mar vivia.
"Foz do Douro, Dezembro - 1900
Manhã. O traço do Cabedelo separa o azul do rio do pó verde do mar. O hálito salgado que respiro renova todas as tintas e a Outra Banda, como um biombo verde, emerge no fundo do quadro. Azul - mais azul ainda... Vejo agora que a viração do norte arrasta para o largo os últimos farrapos de neblina, os barcos da sardinha que há mais de um mês largam todas as noites para a pesca. A safra da sardinha começa no mês dos Santos e acaba na Senhora da Guia. O batel, três homens e outras tantas redes. São às centenas, é uma frota que distingo pelas velas para lá do areal e que, no azul desmaiado e na névoa a dissolver-se, parecem suspensos no ar. Todas as tardes entram a barra uns atrás dos outros, em fila, para despejarem nas linguetas viscosas o peixe miúdo que salta aos montões nos cavernames. Duas, três horas... É o momento em que as mulheres saem das tocas: as Bexigas, a Papeira, a Maria da Viela, que passam a vida pelas estradas com a canastra à cabeça e o pé descalço; as matosinheiras, as de Afurada, quase sempre de luto, porque o mar lhes leva os homens e os filhos. Conheço-as todas de pequeno."
"Foz do Douro, Dezembro - 1900
Manhã. O traço do Cabedelo separa o azul do rio do pó verde do mar. O hálito salgado que respiro renova todas as tintas e a Outra Banda, como um biombo verde, emerge no fundo do quadro. Azul - mais azul ainda... Vejo agora que a viração do norte arrasta para o largo os últimos farrapos de neblina, os barcos da sardinha que há mais de um mês largam todas as noites para a pesca. A safra da sardinha começa no mês dos Santos e acaba na Senhora da Guia. O batel, três homens e outras tantas redes. São às centenas, é uma frota que distingo pelas velas para lá do areal e que, no azul desmaiado e na névoa a dissolver-se, parecem suspensos no ar. Todas as tardes entram a barra uns atrás dos outros, em fila, para despejarem nas linguetas viscosas o peixe miúdo que salta aos montões nos cavernames. Duas, três horas... É o momento em que as mulheres saem das tocas: as Bexigas, a Papeira, a Maria da Viela, que passam a vida pelas estradas com a canastra à cabeça e o pé descalço; as matosinheiras, as de Afurada, quase sempre de luto, porque o mar lhes leva os homens e os filhos. Conheço-as todas de pequeno."
Os Pescadores, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, p.65
domingo, 13 de abril de 2008
História Regional de Portugal - os protagonistas menos visíveis II
No seguimento das considerações anteriores sobre os protagonistas da História Regional, vem a propósito falar de alguns portugueses da Bairrada. "A divisão administrativa que modernamente recebeu o nome de Beira Litoral, proposto já no século passado por Barros Gomes, inclui nas suas sub-regiões uma zona interior, fertilíssima, de pequeno relevo orográfico, limitada a Leste pelo Buçaco; constituem-na, essencialmente, os concelhos de Oliveira do Bairro, Anadia e Mealhada, mas ocupa ainda um pouco dos concelhos de Águeda e de Cantanhede, e uma pequena parcela do concelho de Coimbra, ao Norte, até a povoação de Souselas: a Bairrada." (1) No início do século XX, a Bairrada era uma zona de indústria cerâmica, já que era favorecida pela constituição argilosa do solo; aí se produziam igualmente bons vinhos, fortes, maduros, encorpados, taninosos, que eram exportados com sucesso para África e para o Brasil; nesse tempo, a abundância de pinheiros oferecia matéria-prima ao trabalho de algumas serrações e a oliveira inseria no mercado notáveis azeites. Isto, brevemente, quanto à caracterização física da região. (2) Quanto à sua riqueza humana, a Bairrada foi o local de nascimento e de trabalho de várias gerações de figuras notáveis. Lembremos, por exemplo, o poeta arcádico Francisco Joaquim Bingre (1763-1856), que viajou pela Bairrada, tendo morado em Ílhavo em 1801; o poeta António Feliciano de Castilho (1800-1875), que viveu em Águeda de 1826 a 1834 e escreveu influenciado pelo ambiente bairradino; António de Lima Fragoso (1897-1918), compositor, nascido em Cantanhede, notavelmente dotado, sem, porém, ter tido tempo de amadurecer a sua arte; Tomás da Fonseca (1877-1968), escritor republicano, que percorreu a Bairrada e divulgou um outro artista - o poeta popular Manuel Alves (1843-1901), de Anadia, cujos Versos dum Cavador fez publicar; a escritora e professora Ercília Pinto (1914-1980), que publicou poesia, crónicas, teatro, ensaios. Finalmente, relembramos o Padre Acúrsio Correia da Silva (1889-1925), um homem de ampla cultura, que organizou a Plêiade Bairradina (1918), um grupo cultural que colaborava no semanário Gente Nova e cujas obras literárias pessoais, ao que parece, estão infelizmente perdidas. Muitos mais haveria a recordar, mas receamos não ser aqui o espaço próprio para esse trabalho. Sobre estas e outras figuras da Bairrada, que enriqueceram o património humano da sua terra e de Portugal, existe uma obra recente: Figuras das Letras e Artes na Bairrada, Arsénio Mota, 2001. A ler e a aprofundar, a bem da nossa História.
(1) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.4, p.17.
(2) Para estas referências, idem, pp.17-18.
(1) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.4, p.17.
(2) Para estas referências, idem, pp.17-18.
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