terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Conferência - "Como nos tornámos humanos"

Pedido de divulgação:
"Realiza-se amanhã, dia 21 de Janeiro, às 18h00, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A) a conferência - COMO NOS TORNÁMOS HUMANOS - e será proferida pela Prof. EUGÉNIA CUNHA da Universidade de Coimbra.

O EVENTO TERÁ UMA COLECÇÃO DE CRÂNEOS DE HOMÍNIDEOS MORTOS E ENTERRADOS
HÁ MUITOS MILHARES DE ANOS AO VIVO E MUITA ANIMAÇÃO!

Poderá também assistir em directo através do site:
http://live.fccn.pt/fcg/ e enviar as suas questões(darwin@gulbenkian.pt) que o orador responderá no final da sessão"

Conferências "Darwin's Evolution"

Começam já no próximo mês, as palestras dedicadas à Evolução de Darwin, a realizarem-se na Fundação Gulbenkian, na Avenida de Berna, em Lisboa. Estas palestras serão proferidas pelos melhores cientistas na área da evolução, e terão tradução simultânea. Segue a agenda com as datas das conferências:
Série "A Evolução de Darwin" (c/ tradução simultânea)

13-Fevereiro Niles Eldredge, American Museum of Natural History US
Darwin: Discovering the Tree of Life

25-Fevereiro John Parker, Cambridge Univ UK
The Cambridge years: Henslows legacy, Darwin's inheritance

11-Março Olivia Judson, Imperial Colege UK
Glad to have evolved

25-Março Pietro Corsi, Oxford Univ UK
Just Before Darwin: the question of species during the 1850's

08-Abrl Lynn Margulis, Univ Massachussets US
Evolution on a Gaia Planet: Darwin's legacy

29-Abril Mark Stoneking, Max-Planck Inst. G
Human Evolution: The Molecular Perspective

13-Maio David Sloan-Wilson, Binghamton Univ. US
Evolution and Human Affairs

24-Maio Rosemary e Peter Grant, Princeton Univ. US
Evolution of Darwin's Finches

As Pupilas do Senhor Reitor

José das Dornas, velho agricultor, é pai de dois filhos, Pedro e Daniel. Pedro, o mais velho, é detentor de robusta figura, enquanto seu irmão mais novo, Daniel, em oposição, é uma frágil criatura de aparência.
Mediante estas características que adjectivam a compleição da prole, o pai prevê que Pedro tem todas as condições para seguir o seu trabalho nos terrenos, mas cuida do que poderá ser o futuro do seu outro filho. Com receio de que o franzino possa sucumbir ao trabalho do campo, entrega-o ao senhor Reitor, António de nome, para que lhe dê educação de modo a torná-lo um futuro padre.
De início, Daniel dá-se bem com as lições e revela uma enorme capacidade de aprendizagem, mas cedo se percebe que este não é o melhor caminho para um jovem, que já de novo, pretende passar o tempo com uma rapariga, Margarida. De modo a que o filho não perdesse o rumo aos estudos, o pai decide enviá-lo para o Porto, com o intento de ingressar no curso de Medicina.
O tempo passa e os filhos crescem. Pedro, com vinte e muitos anos, finalmente decide casar-se, com Clara, irmã da Margarida. Por essa altura, Daniel, seu irmão, regressa do Porto, já licenciado, e com ideias novas, que são estranhas para os da terra.
O pai comenta com um dos vizinhos, as ideias que o filho defendera na tese. Uma delas, que muita estranheza causa, é a dos homens serem macacos. O pai tentara explicar a evolução humana, conceito estranho para as gentes da terra, que não tinham tido acesso a uma educação digna, nem qualquer contacto com alguma iniciativa de divulgação científica. De facto, vivendo no interior, longe das grandes cidades, numa pequena terriola em que todos se conhecem, sem contacto com as novas ideias do exterior, o pouco conhecimento de que se alimentam é o dos evangelhos e da superstição. Devido a estas condicionantes, nem o pai consegue explicar, nem o receptor tem abertura de espírito para entender tais ideias. Segue o excerto:

“- [...] Mas o sr. João admira-se? E então se eu lhe disser que ele provou também que um homem é a mesma coisa que um macaco?
João da Esquina fechou com impetuosidade o livro dos assentos.
- Irra! Está a caçoar comigo, sr. José? Ele podia lá dizer semelhante coisa!
- Pergunte-o ao sr. Reitor, que assim o explicou; pergunte, se não acredita.
- Eu não, pois... Macaco! Então eu sou macaco? Então vocemessê é macaco? Então ele é macaco? Então nós somos... ora, isso não pode ser.”[1]

João Semana, o velho cirurgião da aldeia, mesmo esse tem contendas com Daniel acerca dos preceitos de exercer a profissão. É a medicina moderna, contra a medicina do velho cirurgião, a teoria contra a prática.
Um dia, Pedro leva Daniel a conhecer sua futura mulher, Clara, de quem está noivo. Daniel, após tantos anos de ausência, não reconhece que Margarida, irmã de Clara, é a mesma rapariga por quem nutriu sentimento de paixão durante a sua infância.

Este irmão mais novo, jovem sempre apaixonado, encanta-se com tantas raparigas, e por supérfluos sentimentos se deixa levar. Até por Clara, noiva de seu irmão Pedro se julga apaixonado. Como terminará esta história? Estará mesmo Daniel destinado à sua Margarida? Será que desposará Clara? De que modo esta confusão de sentimentos irá afectar a relação dos dois irmãos? Aproximar-se-á uma desgraça junto desta família?
Coíbo-me, neste momento, de mais revelar sobre a obra, deixando entregue ao leitor o prazer de mais saber sobre a estória.
Boas leituras.

[1] Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor, Obras Completas de Júlio Dinis, nono volume, Círculo de Leitores, 1980

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

História Regional de Portugal III - A Vida quotidiana na Ericeira de 26 de Setembro de 1909 a 31 de Agosto de 1916 (2ª parte)

Em 1898, a Mala da Europa levava até um subtítulo indentificativo da sua missão: "Semanário ilustrado destinado ao Brasil e colónias portuguesas" (idem, p.12). O seu objectivo, ao lado da qualidade dos textos e das imagens, terá concorrido para o seu sucesso. É preciso lembrar que não havia meios de comunicação como actualmente, pois nem o telefone era ainda comummente usado nas casas; por isso, a imprensa era um veículo privilegiado de notícias e meio de contactos à distância. No periódico chegaram a colaborar Lopes de Mendonça, Manuel Arriaga, Teófilo Braga, Ana de Castro Osório, Tomás Ribeiro, entre outros. Um desses outros colaboradores, conhecido sobretudo na sua terra natal, era Jaime Lobo e Silva, o correspondente da Ericeira para a Mala da Europa. As notícias das províncias portuguesas eram breves anotações dos acontecimentos actuais mais importantes, por onde se podia ver um vivo retrato do quotidiano. Nas notícias redigidas por Lobo e Silva há festas religiosas, corridas de touros, bailes, inaugurações de obras públicas, etc. A Mar de Letras Editora publicou em 1998 uma recolha da sua colaboração para a Mala da Europa, que é mais um contributo para a compreensão da vida regional no passado português. "A Vida Quotidiana na Ericeira nos Começos da I República", que inclui textos introdutórios sobre o periódico e o ericeirense, reúne as breves notícias da vila desde a edição de 26 de Setembro de 1909 até à de 31 de Outubro de 1916. Jaime d'Oliveira Lobo e Silva (09/11/1875 - 11/09/1943), natural da Ericeira, foi militar de 1895 a 1907, colaborou na Mala da Europa de 1909 a 1916, foi escriturário da Escola Académica de Lisboa de 1917 a 1922, em 1923 está na Santa Casa da Misericórdia da Ericeira, onde fica até à morte, e ainda ajudou a organizar o arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, nos anos '30. Dele disse Horácio Gorjão, um amigo, na edição d' O Concelho de Mafra, de Dezembro de 1956: "Vejo-o no seu escritório da Misericórdia da Ericeira, junto ao velho relógio inglês de pêndulos, rodeado de livros tocados pelos anos, ante o cinzeiro pejado de intermináveis pontas de cigarros. Oiço-o falar com aqueles que, na grandeza ou na miséria da vida, iam insensivelmente perpassando naquele ambiente calmo, como se o tempo houvesse ali parado (...). (...) E cá fora, ele era o Mestre Jaime, da Ericeira burocrática, o homem que registava as crianças e as vacinava, o procurador, o turismo, o cicerone, o homem que tudo resolvia e tudo simbolizava e naquela modesta banca da Santa Casa da Misericórdia insensivelmente fizera o centro da vida relativa e oficial. Mas tudo isto se escondia atrás de uma modestia teimosa, tão sincera que ao ouvi-lo falar-me da sua mocidade, dos seus amores, das coisas que gostava, daquilo que simplesmente o fazia feliz, com tão pouco e com tão grande contentamento, eu me sentia pequeno na vanglória quotidiana." (A Vida Quotidiana na Ericeira, p.19).

Excertos:

"Ericeira, 19 de Setembro [de 1909 e para a edição de 26 desse mês]
O Sr. António da Costa Gaspar está tratando com a companhia dos telefones para ver onde se pode organizar a ligação daqui com a rede geral de Lisboa. Oxalá se consiga tal melhoramento, de grande alcance para esta localidade. (p.29)
(...)

Ericeira, 1 de Novembro [de 1911 e para edição de 5 desse mês]
Realiza-se hoje, Dia de Todos os Santos a feira anual do Livramento (Azueira), partindo para ali, de passeio, algumas famílias desta vila.
Vai partir para Maceió (Brasil) o reverendo padre Sangreman Henriques, pároco nas Caldas da Rainha, e que há anos paroquiou tão bem a vizinha freguesia de Santo Isidoro.
Terminaram ontem na Igreja Paroquial desta vila as solenidades do Terço do Rosário que durante todo o mês ali se realizaram, sendo a parte musical desempenhada por um grupo de meninas da colónia balnear e desta vila, coadjuvadas por uma distinta organista.
Também ali se realizou, no dia 29 último, a Festa do Sagrado Coração de Jesus, havendo missa solene de Exposição, sermão e de tarde Te Deum.
Já regressou do Gerês o nosso amigo Henrique Franco Dias, que nos diz achar-se quase restabelecido. Hoje foi ele de automóvel do também nosso amigo José António Lopes, de passeio à Feira do Livramento, aproveitando a ocasião para ali comprar algumas juntas de bois, que tencionam remeter para a importante roça que o Sr. Lopes possui em S. Tomé; vai agora administar aquela roça o Sr. Barata, um encarregado que merece ao Sr. Lopes toda a confiança e simpatia. (p.84)

Ericeira, 3 de Setembro [de 1913 e para edição de 7 desse mês]
Realizou-se no dia 31 último a anunciada corrida na praça desta vila. O gado cumpriu e os amadores houveram-se relativamente bem, estando a praça à cunha. A corrida foi dirigida pelo nosso amigo José Fino, que mostrou bem a sua competência para tal cargo. (...) No próximo dia 14 deve realizar-se uma outra corrida, mas esta promovida por um grupo de toureiros profissionais de Lisboa. Espera-se também grande concorrência.
No dia 1 do corrente realizou-se a abertura da época da caça neste concelho. Organizaram-se vários grupos de caçadores desta vila, sendo abatido grande número de peças de caça. À noite alguns desses grupos reuniram-se em casa do nosso amigo Jaime Espáris Neves, onde este amador da arte venatória lhes forneceu um abundante jantar (...)." (p.123)

Fontes:
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, vol.9, pp.931-933 e vol.15, p.982;
  • Nova Enciclopédia Larousse, Círculo de Leitores, vol.9, p.2638;
  • Guia de Portugal - Lisboa e Arredores, Fundação Calouste Gulbenkian, pp.569-572;
  • A Vida Quotidiana na Ericeira nos Começos da I República - vista através da correspondência de Jaime Lobo e Silva para a "Mala da Europa", Mar de Letras, col. Lugares de Memória, 1998.
Nota: A imagem reproduzida acima vem da capa d' A Vida Quotidiana na Ericeira e é uma montagem de esboços de Joaquim Marrão com um quadro a óleo (representando Lobo e Silva) do Dr. António Bento Franco, do Arquivo Museu da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

História Regional de Portugal III - A vida quotidiana na Ericeira de 26 de Setembro de 1909 a 31 de Agosto de 1916

A Ericeira é uma vila marítima portuguesa pertencente ao concelho de Mafra e ao distrito de Lisboa. Tem praia, aliás muito conhecida, um pequeno porto de pesca, uma nascente de água mineral e alguns monumentos que, à semelhança de outros no nosso País, nos recorda a beleza do nosso passado - por exemplo, um pelourinho manuelino, a Igreja de S. Pedro - restaurada no tempo do Magnânimo -, um cruzeiro de 1782, a ermida de Santo António - com azulejos de 1789 representando este Santo e também a Nossa Senhora da Boa Viagem -, e um forte do tempo de D. Pedro II. Regista ainda a memória dessa terra alguns acontecimentos importantes como o embarque da família real para o exílio, após a revolução de Outubro de 1910 - que celebra um século no ano que vem -, o estabelecimento da corte de um D. Sebastião regressado, cujo verdadeiro nome era Mateus Álvares, morto no cadafalso em 1584, e o desembarque do Prior do Crato que vinha derrubar Filipe de Espanha. A vila, que em 1991 contava cerca de 4500 habitantes (N.E.L., v.9, p.2638), é muito antiga - data de 1129 um foral dado por D. Frei Fernando Rodrigues Monteiro, grão-mestre da ordem de Avis, depois confirmado por D. Dinis e renovado por D. Afonso IV e D. Manuel. Dela diz a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (c. 1940), v.9, p.932: "A Ericeira é uma praia fartamente concorrida no verão. A pov. fica apinhada no alto de uma arriba, num emaranhado de pequenas ruas, em volta de uma praça (Jôgo de Bola). Sobre o Oceano levantam-se alguns terraços. As praias de banhos são duas, a do Norte a do Sul, abrino-se entre elas o portinho da Ribeira, com os cais em declive, onde varam as embarcações pesqueiras. Sobranceiro à praia há um forte, que foi edificado por D. Pedro II. Na costa, entre os rochedos, há curiosas furnas, produzidas pelos desabamentos da costa e a erosão marítima." Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895) dedicou a esta terra um romance: Tristezas à Beira-Mar, 1866 e Raul Brandão faz-lhe uma descrição como colaborador do Guia de Portugal (1ºvol., 1924, pp.570-571, cujo animador principal era Raul Proença (1884-1941), director e coordenador). Arreliado, o poeta satírico Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811), desabafava: "Contra o mal que me têm feito/Raivosos caniculares/Me oferece a fresca Ericeira/Seus claros, sadios mares. (v. o mesmo Guia, p.569)". Apresentada ou recordada que está a vila da Ericeira, permitimo-nos avançar para o assunto principal. Uma das mais importantes fontes para o estudo das terras, e especialmente para quem se debruce sobre as mal-estudadas e pertinentes matérias da História Regional, é a imprensa. Divulgando acontecimentos nos vários locais do Mundo, quer fossem novas descobertas científicas, quer fossem novidades na Arte ou outras, ficaram-nos como o espírito das épocas passadas, reflexo das preocupações e sensibilidades dos nossos maiores, tal como nós nos nossos jornais e revistas estamos deixando as nossas. Neste contexto, o jornal semanário "Mala da Europa", fundado em Agosto de 1894, "com edição para o Brasil e possessões portuguesas" (G.E.P.B., vol. 15, p.982), tinha a função de dar a conhecer aos portugueses espalhados pelo Mundo notícias sobre os seus compatriotas. "A intenção era, agora, a de estreitar relações entre «Portugueses de todos os continentes». Mantinha-se, contudo, o essencial da anterior atitude perante a vida política: liberal, patriótica, independente e suprapartidária. (...) Desde o primeiro número, uma secção local referente à metrópole, com subtítulos de cidades e vilas portuguesas, e uma outra "Através da Europa", ocupavam lugar destacado em termos de espaço (...). À partida, a intencionalidade informativa (e não tanto interpretativa) era dominante: tratava-se de dar a conhecer aos Portugueses espalhados pelo mundo notícias dos seus compatriotas que viviam noutros lugares - com destaque, naturalmente, para os do Portugal metropolitano -, dos seus conterrâneos cujo contacto se perdera na distância. O estreitar de laços entre as comunidades portuguesas era conseguido pela fixação e difusão de fragmentos de memória local e regional, memória imediata dos homens , de pequenos eventos da vida quotidiana, de afectos - a alimentar a saudade da terra natal." (A Vida Quotidiana na Ericeira, pp.10-11). (Continua...)

Fontes:
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, vol.9, pp.931-933 e vol.15, p.982;
  • Nova Enciclopédia Larousse, Círculo de Leitores, vol.9, p.2638;
  • Guia de Portugal - Lisboa e Arredores, Fundação Calouste Gulbenkian, pp.569-572;
  • A Vida Quotidiana na Ericeira nos Começos da I República - vista através da correspondência de Jaime Lobo e Silva para a "Mala da Europa", Mar de Letras, col. Lugares de Memória, 1998.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Washington Irving

A editora Tinta da China publicou recentemente um conjunto de contos do autor norte-americano Washington Irving. A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e Outros Contos saíram em Novembro de 2008. Washington Irving nasceu em Nova Iorque a 3 de Abril de 1783 e faleceu na mesma cidade a 28 de Novembro de 1859. Foi advogado, mas deixou a profissão para se dedicar à escrita, após o sucesso de History of New York. A partir de 1819 e até 1820 publicou The Sketch Book of Geoffrey Crayon, Gent, que inclui os célebres contos Rip van Winkle e The Legend of Sleepy Hollow, este já publicado em português pela Europa-América. O mesmo conto foi transposto para o cinema em 1999, com Johnny Depp e Christina Ricci nos papéis principais. Estes contos são de todo o interesse não só por causa da sua originalidade, mas também por reflectirem uma modernização da narrativa operada pelos inícios do século XIX em todo o Mundo (lembre-se, por exemplo, o início do Romantismo) e também nos Estados Unidos. Para quem não quiser abdicar do estilo original do autor estrangeiro, a obra está também publicada pela Penguin Classics.
Para uma síntese biográfica, v. site das Edições Tinta da China: http://www.tintadachina.pt/author.php?code=d773f00f5734610b4a8c09716aff19e0.
Fonte: Lexicoteca - Moderna Enciclopédia Universal, Círculo de Leitores, vol.10, p.277.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Significados I

Geriatria – s. f. medicina da velhice[1]
Pediatria – s. f. medicina das crianças[2]

Escrevo este post como reflexão sobre como podemos, por vezes, ser iludidos pelo senso comum. Atendendo ao substantivo pediatria, acima mencionado, sabemos que recorrendo ao mesmo prefixo pedo – criança – é possível chegar à palavra pedofilia – s. f. atracção sexual mórbida do adulto pelas crianças[3].
Noutro dia, numa conversa, alguém tentou achar o oposto de pedofilia e definiu-o como "gerofilia", o que parece fazer sentido. Parece... mas está errado. Recorrendo a um dicionário conclui-se que, de facto, o termo correcto é gerontofilia – s. f. apetência sexual patológica por velhos[4].

Olhemos agora para um exemplo prático da literatura, em que se aplica este exemplo:
“ [...] circulam entre nós histórias igualmente derivadas dessa mesma solidão, mas estas relativas a escândalos sexuais diversos, homo e hetero, pedófilo e gerontófilo, não interessa, isso é tudo abafado.”[5]

[1] Dicionários “Editora” - Dicionário da Língua Portuguesa – 5ª edição, Porto Editora
[2] Idem
[3] Ibidem
[4] Ibidem
[5] Clara Pinto Correia, A Arma dos Juízes, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2002 – pp. 241-242

A Arma dos Juízes

Nesta obra de 2002, de Clara Pinto Correia, intitulada A Arma dos Juízes, reaparecem as personagens de uma outra obra anterior – Adeus, Princesa (1985). De facto, Joaquim Peixoto, Bárbara Emília Frutuoso e Sebastião Curto voltam a encontrar-se, agora em Lisboa.
Leninha, estranha a ausência no trabalho de sua colega Manuela, esposa de um poderoso Juiz. Assim, decide chamar Sebastião e procurar a sua amiga em casa. Ao chegarem, e ao aperceberem-se da calma que assola o local, Sebastião decide entrar na casa e descobre que fora cometido um crime macabro. Sendo fotógrafo, automaticamente recolhe imagens do sucedido e posteriormente convida o seu amigo jornalista Joaquim Peixoto para investigar e escrever sobre o horrível acontecimento.
Ao longo do enredo, conhecemos as razões do sucedido e as complicações que daí advêm. Com o desenrolar da estória, a trama adensa-se, com muito mistério e conspirações à mistura. Os capítulos intercalam-se simultaneamente entre o presente e o passado, permitindo-nos conhecer melhor a história das personagens principais.
Além disso, esta obra é também um produto da reflexão sobre o estado do jornalismo, a dependência de fármacos pela população, o frenesim que vivemos em sociedade e suas consequências.

Sugestão:
Clara Pinto Correia, A Arma dos Juizes, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2002

domingo, 16 de novembro de 2008

Jules Verne - Volta ao Mundo

Este ano comemoram-se os 180 anos do nascimento do escritor francês Jules Verne (1828-1905). Por esta razão, têm sido várias as iniciativas para celebrar este acontecimento. No blog http://jvernept.blogspot.com, ficamos a saber que alguns vernianos tiveram a ideia de fazer circular um exemplar do livro "A volta ao mundo em 80 dias", do autor francês, pelo nosso planeta, através de alguns locais por onde passou a personagem do livro. A viagem será documentada através de fotografias. Esta viagem teve início no Porto, Portugal, e aí deverá terminar. Pelas últimas notícias, o livro terá deixado a cidade holandesa de Zeist para chegar à Polónia.
Esperamos pelo retorno deste livro a terras lusas, e que cumpra o esperado objectivo de completar a viagem em 80 dias ou menos. Para que possa acompanhar esta viagem consulte:

Cultura: Da Livraria Bulhosa até à FNAC

Enquanto membro do BioCEL (núcleo de estudantes de Biologia da Lusófona), foi da minha responsabilidade a organização do BioCafé, que consistia em palestras dadas de um modo informal, por investigadores convidados sobre a sua área de pesquisa.
Estas conferências foram realizadas na Livraria Bulhosa, no Campo Grande. O responsável por este tipo de actividades na Bulhosa, o sr. A. D., tinha uma interessante visão da cultura. Dizia ele: "A livraria não deve ser somente um local de comércio de livros. É um lugar de cultura, que deverá manifestar-se nas suas diversas formas." Portanto, foi com a maior das amabilidades que acolheu o nosso projecto do BioCafé, como anteriormente acolhera pequenos concertos de jovens músicos, ou leitura de contos para crianças.
Esta ideia de algo mais que uma livraria agradou-me bastante. É uma diferente maneira de levar cultura às pessoas, cultura essa, nas suas mais diversas formas. Atitude semelhante, teve a FNAC, que para comemorar os seus 10 anos de existência em Portugal, ofereceu bilhetes para um concerto no dia 14 de Novembro no Pavilhão Atlântico, no parque das nações.
Neste concerto actuaram grupos como "Peixe: Avião", "Deolinda", passando por "Rita Redshoes", "Clã", até aos veteranos "Xutos & Pontapés".
Deixo como sugestão, a passagem pelo link http://br.youtube.com/watch?v=mb3Kh94XnLo, para ouvir uma nova interpretação do fado pelo grupo "Deolinda", uma revelação.

domingo, 9 de novembro de 2008

Manifestação Professores

Hoje, no dia 8 de Novembro do ano de 2008, vivemos mais um momento histórico em Portugal. Este foi o dia em que mais de cem mil professores voltaram a manifestar-se na capital portuguesa. Passados oito meses da anterior manifestação (8-3-2008), os docentes sentiram a necessidade de se fazerem ouvir, uma vez mais. E mais uma vez, ministra da educação e governo parecem não entender estes ecos de descontentamento da classe docente. Mais uma vez, para a ministra, os professores estão a ser manipulados pelos sindicatos, mais uma vez os professores não têm razão (cerca de 120.000 professores, mais de 2/3 dos professores nacionais), mais uma vez os professores são os maus profissionais que não querem avaliação.


Eu não sou professor, mas tenho familiares e amigos que o são. Por essa razão estou dentro do assunto, sinto o seu descontentamento, e, por essa razão, sinto-me apto para opinar. Para que se saiba, os professores querem ser avaliados, não o querem é desta maneira, não com tanta burocracia desnecessária. Ainda há pouco, numa entrevista no canal da sic notícias a Dra. Maria de Lurdes, afirmou que o processo de avaliação consiste na análise das aulas dadas pelos professores assim como através de umas folhas que "demoram cerca de duas horas, no máximo, a serem preenchidas, no total do ano lectivo", nas palavras da ministra. Sim, isso mesmo, a senhora ministra não percebe onde está a burocracia de que os professores falam, pois estes só têm de dispensar "2 horas de um ano lectivo" a preencher papéis, nem percebe a que se referem quando falam das dezenas de portfólios que têm de preencher.

A verdade é que há professores, como os meus familiares, que saem de casa perto das 7horas da manhã e tornam a casa cerca das 20 horas. Ficam no local de trabalho mais horas que o devido e sem receberem mais por isso. E o que ficam lá a fazer? A preencher a "papelada" e a terem reuniões seguidas de reuniões, algumas delas sobrepostas.
Seria benéfico para todos os intervenientes que houvesse entendimento com a mais breve celeridade, que voltem a dialogar.


Nota: Este texto reflecte uma opinião pessoal. Deixo também um abraço solidário a todos os docentes do nosso país, a quem todos devemos muito.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Escotismo e Escutismo - duas palavras para uma ideia

(Para o Bastos)


O movimento que em Portugal se chama Escotismo ou Escutismo foi idealizado por Robert Baden-Powell (1857-1941), militar britânico, depois de verificar a popularidade do seu livro Aids to Scouting – primeiramente destinado ao exército, mas depois usado como livro de leitura nas escolas[1] – e a utilidade de formar os jovens para uma cidadania participativa, patriótica e solidária. O acampamento experimental em Brownsea com 20 rapazes no verão de 1907 demonstrou o sucesso prático da ideia. O escotismo espalhar-se-ia muito para além dos cálculos de B.P., tendo chegado a todos os continentes do Mundo.
Na prática, o que pretende ser o Escotismo? Um movimento internacional, voluntário e pedagógico, que tem por fim ajudar os jovens a crescer saudavelmente, incutindo-lhes um sentido dinâmico de responsabilidade e de fraternidade; um movimento não político, aberto a todas as pessoas sem qualquer distinção (origem, raça, credo...), caracterizado pela participação na sociedade, em especial protegendo a Natureza e auxiliando os que precisam. O movimento tem um método próprio de educação centrado na aprendizagem pela prática e no contacto com a Natureza e com as Comunidades. Os escoteiros andam uniformizados e trazem um conjunto de símbolos próprios que expressam os princípios do movimento.
Os portugueses também adaptaram a ideia desde cedo, com os primeiros escoteiros lusos em Macau, em 1911, organizados por Álvaro Mello Machado, “oficial da Marinha e governador de Macau desde 17 de Dezembro de 1910”[2]. Mais tarde, seguidas de várias tentativas efémeras de escotismo, vêm a permanecer na Metrópole as duas principais associações que, com mais ou menos actualizações, ainda hoje existem – a Associação dos Escoteiros de Portugal (1913) e o Corpo Nacional de Escutas (1923)[3]. Estas associações têm algumas diferenças importantes, desde logo em relação à religião, já que o C.N.E. é um movimento católico e a A.E.P. tem carácter interconfessional. E existe ainda a curiosa questão das denominações. Em Portugal, para os jovens que aderem ao movimento, há duas palavras identificadoras: escoteiro e escuteiro. O que aqui queremos fazer é tentar explicar a origem da diferença e a competência destes vocábulos, segundo a nossa opinião.
Em inglês, as palavras escolhidas para designar o movimento e os seus membros foram scouting e scout. No Oxford Advanced Learner’s Dictionary, de scout diz-se que é um batedor ou um membro da organização escotista que tem como objectivo o desenvolvimento do carácter dos jovens através da disciplina, das actividades ao ar livre e do serviço para a comunidade[4].
Por scout Baden-Powell entendia explorador. “Creio bem que não há rapaz que não queira servir a sua Pátria de uma forma ou doutra. Tem um meio fácil de o conseguir: é fazer-se Escuteiro. O explorador do exército (o antigo escuta) é, geralmente, como sabeis, um soldado escolhido pela sua capacidade e coragem para seguir à frente do exército, descobrir onde se encontra o inimigo, e comunicar ao comandante tudo quanto puder averiguar a seu respeito. Mas, além de exploradores de guerra, há também exploradores pacíficos – gente que em tempo de paz realiza tarefas que exigem igual coragem e engenho. São os fronteiros da civilização. Os pioneiros e caçadores de peles da América do Norte, os colonos da América do Sul, o caçadores da África Central, os exploradores e missionários espalhados pela Ásia e por todas regiões selváticas do mundo, os sertanejos e pastores da Austrália, a polícia do Canadá Setentrional e da África do Sul – são todos escuteiros da Paz, verdadeiros homens em toda a acepção da palavra, peritos na arte de explorar. Sabem viver na selva, em toda a parte se sabem orientar e, dos vestígios ou sinais mais simples e pegadas mínimas, tiram conclusões muito exactas. Sabem cuidar da saúde quando andam longe dos médicos. São fortes e ousados, estão prontos a arrostar perigos e sempre dispostos a auxiliarem-se mutuamente. Estão acostumados a trazer a vida entre as mãos e a arriscá-la sem hesitação, se com ela podem servir a sua Pátria. Privam-se de todas as suas preferências e comodidades pessoais, para se desempenharem da sua missão. A vida do fronteiro é vida magnífica, mas ninguém se pode dedicar a ela de repente, se não estiver devidamente preparado. Os que melhor se dão nela são aqueles que aprenderam a arte de exploração enquanto rapazes. A exploração é útil para qualquer modo de vida que se queira seguir. Um célebre sábio afirmou que serve de muito àquele que pretenda dedicar-se aos estudos científicos. E um médico notável mostrou que é necessário ao médico ou ao cirurgião tomar nota de pequeninos nadas, como faz o explorador, e saber interpretá-los.”[5]
A citação é extensa, mas quisemos mostrar pelas palavras do próprio Fundador o significado de scout ou explorador. O explorador começa por ser um batedor (scout) do exército, aquele que espia o inimigo, servindo-se de técnicas que o ajudam a dominar o ambiente que o rodeia; é, depois, também, aquele que vive perto da Natureza e que, não estando em guerra, também se serve de um conjunto de técnicas de sobrevivência e convívio com meios não civilizados, não muito tocados pelos Homens, naturais. O que queria exprimir o criador do movimento era a importância de a juventude crescer em contacto com o seu Mundo, habituada a compreender a Natureza, a proteger esse precioso património, observando e aprendendo, ou seja, explorando. Isto explica, por exemplo, o facto de o Escotismo ser um dos mais precoces e entusiastas movimentos com preocupações ambientais. Assim, a palavra scout chega aqui ao seu terceiro significado: movimento educativo de jovens ao ar livre e ao serviço da comunidade. Um movimento voluntário com fins pedagógicos, que visa ajudar os mais novos a crescer saudável e responsavelmente, segundo um conjunto de práticas de vida em campo e de serviço às comunidades. Era assim que Baden-Powell entendia a sua mais célebre criação.
E a palavra (ou palavras) portuguesa(s)? Quando, no início do século XX, se quis oficializar por cá o original movimento de Baden-Powell, pediu-se à população, através de jornal, que desse sugestões de nomes que definissem o movimento, na altura embrião da Associação dos Escoteiros de Portugal. Muitas surgiram. Uma só serviu. Uma palavra portuguesa já existente, tal como o vocábulo scout, e que descrevia uma parte importante do que de facto era o movimento[6]. O termo era escoteiro. Escoteiro era o indivíduo que “que viaja ligeiro, com pouco fardo ou sem bagagem, pagando escote pelo caminho para comida e bebida”[7]; escote significa “aquilo que compete a cada um pagar numa despesa comum; quota-parte”[8], tendo origem numa antiga palavra franca: skot (contribuição)[9]. De facto, o vocábulo exprimia bem a aventura e o desprendimento em relação aos confortos da civilização, já que o escoteiro de pouco mais precisa em campo do que das suas imaginação e vivacidade.
Porém, a A.E.P. não está só no panorama escotista português. Em 1923, 10 anos depois, surgia um ramo católico do movimento – o Corpo Nacional de Escutas[10]. “Em Novembro de 1934 foi publicado o novo Regulamento Geral do CNS, no qual o nome de Corpo Nacional de Scouts foi substituído pela nova designação oficial: Corpo Nacional de Escutas. O termo português vinha, assim, após um longo debate no seio da associação, fazer vingar a opinião da corrente “mais nacionalista” ao impor a lusitanização do termo estrangeiro que o CNS usou desde a sua fundação.”[11] Assim, fazia-se derivar o nome português directamente do scout. Confirma o Dr. José Francisco dos Santos, escuteiro: “A nossa associação adoptou para si o vocabulário inglês scout. A meu ver, houve um pouco de precipitação na escolha desse vocabulário. Se fosse hoje, estou convencido que se optaria pelo seu correspondente português, escuta. Scouting já não achou tão bom terreno e hoje está generalizado ou vai-se generalizando a palavra Escutismo que de Escuta deriva. É pois razoável que se emende à mão e que recorramos ao termo português para designar a associação. Porque não há-de ela chamar-se Corpo Nacional de Escutas?”[12]
Uma vez que são duas associações portuguesas denominadas diferentemente, põe-se a questão de saber quais os termos correctos: se os usados pelo Corpo Nacional de Escutas – escuteiro, escutismo e escuta –, se os usados pela Associação dos Escoteiros de Portugal – escoteiro e escotismo, se ambos, cada um pelas suas razões.
O Dicionário Etimológico explica os significados antigos de escoteiro e escote (p.448) e refere que escutismo é a adaptação do inglês scouting, proveniente de scout, significando "batedor de campo; soldado avançado de qualquer corpo que corre o campo para saber o que faz o inimigo" (p.452). O Grande Dicionário da Língua Portuguesa refere escoteiro, escotismo, escuteiro e escutismo e valida todos[13]. A Nova Enciclopédia Larousse usa o termo escuteiro indistintamente para ambas as associações e numa das acepções de escuta diz que é o mesmo que escuteiro[14]. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira faz o mesmo (mas não reconhece escuta como sinónimo) e diz ainda ser escoteiro a “grafia errada de escuteiro”[15], o que não é exacto.
O vocábulo escoteiro e, por extensão, o vocábulo escotismo, estão correctos. A A.E.P. adoptou a palavra escoteiro por causa do seu significado já existente e conciliável com o carácter do movimento, fazendo daí derivar o escotismo, acrescentando o sufixo ismo, que exprime a ideia de sistema.
Por outro lado, o nome escolhido pelo C.N.E. tem uma história diferente. Tanto João Vasco Reis como José Francisco dos Santos, citados acima, dizem que a palavra é a adaptação portuguesa do termo inglês scout. Não conhecemos os termos do debate dentro da associação católica, pelo que apenas podemos supor, apoiados na lógica, como se chegou a escuta desde scout. A palavra escuta, ligando-se ao significado, ou a uma parte dele, de scout, parece ter uma evolução paralela à do termo inglês. De facto, uma das acepções de escuta e do seu verbo escutar é “observar, escutar e dar informações acerca das manifestações do inimigo”; uma patrulha de escuta é um “grupo de dois ou mais soldados que à frente de uma posição exercem vigilância, durante a noite, procurando recolher indicações acerca das intenções e actividade do inimigo.”[16] Parece-se com a noção de batedor ou scout e, sem dúvida, fará parte da exploração. O paralelo com o Scouting faz-se facilmente, podendo derivar do vocábulo inicial outros sentidos mais adaptados à vida civil – tal como pensou Baden-Powell – e até se coaduna com a divisa associativa do C.N.E., que é “Alerta”. A ser esta a explicação para a diferença vocabular, partiria daqui um suporte etimológico para as palavras escuta e escutismo. O escuta é o que pratica a exploração; o escutismo é o movimento a que pertence o escuta. Estas palavras, segundo a explicação, também estão correctas. Porém, podem exprimir-se algumas reservas. A palavra escuteiro não existe no Dicionário Etimológico, que traz a origem das palavras portuguesas, não tendo, portanto, nenhum suporte, pelo menos radical ou antigo, que lhe sustente a existência; fica, pois, parecendo uma cópia má de escoteiro e um vocábulo sem história, reinventado e inserido à força no vocabulário. Quanto ao termo escuta, não tem um passado ligado a nenhum significado em português que se identifique directa ou suficientemente com a natureza destas associações; não é como escoteiro e necessita um exercício intelectual de associação ao seu conteúdo pedagógico mais elaborado e demorado. Trata-se de rejeitar uma denominação que, pelo seu significado original suficientemente completo, podia servir para designar todo o movimento – escoteiro –, de pegar numa palavra que da exploração guarda uma pequena função e de tentar desenvolver-lhe uma história que daí derivaria, seguindo o exemplo da palavra scout, explicado acima. Podíamos admirar completamente este trabalho intelectual se não houvesse, de facto, já um vocábulo português antigo, a partir do qual mais facilmente se pode construir o significado do nosso scouting, o que, historicamente, precede a criação das palavras adaptadas escutismo e escuta.
Para explicar a razão das referências a escuteiro em vez de escoteiro, nas enciclopédias e nos dicionários, é preciso admitir certa falta de rigor dessas entradas, a que não deverá ser estranha a maior expansão do C.N.E. entre nós.
Para concluir, uma vez que ambas as associações são portuguesas e, logo, se movimentam no mesmo espaço, sujeitas às mesmas circunstâncias, não se deixa de pensar que mais lógico seria que nos fosse próprio um só termo. Que o mesmo, pelas razões expostas, fosse escoteiro, donde derivaria escotismo. A mudança de apenas uma letra nos vocábulos não é um capricho de antiguidade da A.E.P., nem uma evidência de modernidade do C.N.E., pois, como vimos, numa letra há uma história mais complexa do que parece. Apesar de se poder concluir pela correcção de ambas as denominações, as reservas que expusémos em relação às do C.N.E. fazem-nos pensar que se veio estabelecer uma divisão, formal é certo, mas desnecessária.



[1] Escutismo para Rapazes, Robert Baden-Powell, edição do Corpo Nacional de Escutas, 2002, p. 298.
[2] Corpo Nacional de Escutas – Uma História de Factos, João Vasco Reis, edição do Corpo Nacional de Escutas, 2007.
[3] Idem, p.164.
[4] Oxford Advanced Learner’s Dictionary, Oxford University Press, 5th edition, 13th impression, 1999, p.1054: “1) a person, an aircraft, etc sent ahead to get information about the enemy’s position, strength, etc. (…) 2) Scout (also esp dated boy scout) a member of a branch of the Scout Association, an organization which aims to develop boy’s characters through discipline, outdoor activities and public service”.
[5] Escutismo para Rapazes, pp.3-5.
[6] V. História dos Escoteiros de Portugal, Eduardo Ribeiro, Aliança Nacional das ACM de Portugal.
[7] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.10, Editorial Enciclopédia Limitada, p.61.
[8] Idem.
[9] Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado vol.2, Livros Horizonte, Lisboa, 1989, p.448.
[10] Que começou por se chamar Corpo de Scouts Católicos Portugueses – C.S.C.P. –, posteriormente Corpo Nacional de Scouts – C.N.S. e, por último, Corpo Nacional de Escutas, denominação que mantém.
[11] Corpo nacional de Escutas – Uma História de factos, pp.176-177.
[12] Flor de Lis, Dezembro de 1928, cit. em http://inkwebane.cne-escutismo.pt/Curiosidades/Outrashistórias/ScoutvsEscuta/tabid/277/Default.aspx; a Flor de Lis é a revista oficial do C.N.E.
[13] Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. de José Pedro Machado, vol.IV, Euro-Formação, 1989, p.577 e 587. É acrescentado o termo escoteirismo, raro entre nós.
[14] Nova Enciclopédia Larousse, vol.9, Círculo de Leitores, 1997, p.2685.
[15] V. vol. 10, p.115.
[16] Para ambas as citações, v. Grande Enciclopédia..., idem, p.114.

Nota: As imagens reproduzidas são ilustrações da autoria do próprio Baden-Powell e foram retiradas de Escotismo para Rapazes, p.32 e p.292.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Os Nok

Os Nok

Em 1928 foram descobertas na Nigéria Central (v. este país assinalado a azul no mapa), mais precisamente na localidade chamada Nok, situada “nas colinas do mesmo nome, próxima de Jos, na meseta de Bauchi”[1], várias estátuas de terracota (barro cozido no forno), que são as mais antigas terracotas do continente. Os homens que as produziram – denominados Nok – eram principalmente agricultores sedentarizados que cultivavam o inhame (para alimentação) e produziam óleo de palma, sendo provável que não criavam gado. Parecem ter sido pioneiros também na metalurgia, já que foram os primeiros ao sul do Sara a fundir o ferro. “A língua Nok estava possivelmente ligada à dos Protobantos, que enxameavam toda a África Central e Meridional. (...) Precedendo de vários séculos a cultura de Ifé, a civilização de Nok constitui um elo essencial para o conhecimento da antiquíssima história do continente africano. Nada se sabe sobre como terá desaparecido esta cultura, se de forma brutal ou na sequência de um progressivo declínio.”[2] Os Nok habitaram uma ampla área de “480 quilómetros por 160 quilómetros”[3] a norte da confluência do rio Níger com o Benué, entre cerca de 500 e 200 a. C.

A arte Nok

A sua arte tem algumas características que se devem assinalar. Os Nok representaram pessoas e animais. As cabeças humanas são modeladas segundo as formas geométricas em uso: esféricas, cónicas e cilíndricas; são em tamanho quase natural[4] e as feições são estilizadas. “As cabeças humanas, mesmo quando mostram alguma tendência para o naturalismo, nunca são retratos. Em contrapartida, os animais são tratados de forma realista, o que leva a pensar que as representações humanas se afastam da realidade voluntariamente e não por falta de habilidade dos artistas.”[5] De facto, há estudiosos que sugerem que existia uma recusa em fabricar retratos, pois o modelo poderia ficar exposto à acção de forças maléficas. Ainda assim, há uma preferência pela representação humana, embora tenham aparecido elefantes, macacos, serpentes e carraças.

A Cabeça de Jemaa

A peça considerada mais importante da cultura Nok é a Cabeça de Jemaa, descoberta em 1942. Modelada em forma esférica, a cara é uma superfície lisa, com olhos triangulares e nariz pouco saliente a que adere o lábio superior; os olhos, o nariz e a boca são perfurados e as orelhas estão “no ângulo do maxilar”[6].











A Arte Antiga da Nigéria

A arte Nok precedeu o aparecimento de outras manifestações importantes na Nigéria, como os bronzes de Igbo-Ukwu (IX-X d. C.), os mais antigos da África Ocidental; as referidas estátuas de Ifé (desde, pelo menos IX d. C. até XIV ou XV), em terracota e bronze, os únicos retratos da África Negra, representando monarcas e dignitários; as terracotas de Owo (entre Ifé e Benim), pelo século XIV, de temas macabros; e, já no Benim, estátuas e ornamentos em bronze e adereços cerimoniais de marfim.



No mapa podem ver-se a meseta de Bauchi e Jos, sítio perto do qual fica Nok, no centro país; Ife no sudoeste; Owo a sudeste de Ife; e Lagos - a capital, onde o Museu Nacional guarda estas peças arqueológicas - a sudoeste de Ife e Owo.





[1] Moderna Enciclopédia Universal, Círculo de Leitores, vol.14, p.41.
[2] Memória do Mundo – Das Origens ao Ano 2000, Círculo de Leitores, 2000, p.98.
[3] Idem.
[4] A cultura de Ifé foi, com a Nok, a única que também nos deixou terracotas destas dimensões.
[5] Idem, p.99.
[6] Idem.

Nota: Os mapas vêm da Moderna Enciclopédia Universal, idem, pp. 26 e 27; a imagem da Cabeça de Jemaa vem de Memória do Mundo, p.98.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Jogos Populares Portugueses

Os jogos populares fazem parte da vida quotidiana dos povos. Quando não estão a trabalhar as pessoas acham-se a conviver e a entreter-se. O divertimento, claro está, deve ser encarado com a espontaneidade com que é criado e com o à-vontade que ele mesmo cria. Porém, como é próprio dos seres humanos irem guardando todas as informações relativas ao seu universo, fica existindo também o ponto de vista académico, mais ou menos informado, completo, erudito. O entretenimento é assim estudado como parte da cultura de um povo, ao lado do trabalho e de outras manifestações. E os jogos populares são um capítulo relevante na cultura portuguesa da diversão. Entre nós há numerosos jogos populares, alguns tão populares que não têm regiões, outros mais restritos e, destes todos, as variantes, a adaptação local de jogos conhecidos em muitas terras. Está publicado sobre o assunto, entre outros, o livro Jogos Populares Portugueses - de jovens e adultos, de António Cabral, Editorial Notícias, 3ª ed., 1998. A obra contém a breve descrição dos jogos populares nacionais (com notas sobre jogos em Goa, Macau, Moçambique e na Galiza), algumas notas históricas, e referências a modos de divertimento que não sendo propriamente considerados jogos, se lhes aproximam por características parecidas, sendo claro o cuidado do autor em demonstrar a existência das variantes. Da malha, por exemplo, jogo popular que consiste no derrube de pinos com uma chapa de metal (a "malha"), diz António Cabral: "São muitas, de norte a sul de Portugal, as variantes deste jogo, o que lhe dá uma grande riqueza cultural, mas dificulta os torneios entre equipas de várias zonas, inclusivamente dentro da mesma região. Num torneio organizado pela ex-Junta Central das Casas do Povo de Braga foi um bico-de-obra acertar as regras entre os representantes dos diversos concelhos da zona. Mas é exactamente isso que é desejável: os traços culturais de uma comunidade devem ser respeitados. E nunca os técnicos promovam pura e simplesmente a uniformização, pois essa tentativa é desculturante." (p.41) É importante sensibilizar os jovens, nomeadamente nas escolas e no âmbito alargado da Educação Física, para a existência destas tradições portuguesas, para que não estranhem o que também lhes pertence e as possam escolher e preferir em substituição de passatempos menos pedagógicos e humanizantes. O livro contém bibliografia (pp.275-276). Do Autor publicou-se também a obra Jogos Populares Infantis.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Sarah Affonso, Almada Negreiros e a vida artística portuguesa no século XX, segundo testemunho oral


Quando idosa, a pintora Sarah Affonso (1899-1983) costumava conversar muito com a nora – Maria José de Almada Negreiros – e o tema era, muitas vezes, a Arte, os artistas, os artistas portugueses do século XX, a geração de Orpheu e o que se lhe seguiu. Sarah Affonso estudou pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, ainda aprendeu com Columbano Bordallo Pinheiro (1857-1929) – pintor do naturalismo – e, nas suas primeiras exposições individuais (1928 e 1932) revelou-se uma artista moderna, com um estilo pessoal. Esteve a estudar em Paris (1923-1924 e 1928-1929) e foi casada com o multifacetado Almada Negreiros. Em 1944 ganhou o Prémio Amadeo de Souza Cardoso do SNI.[1] A sua pintura, embora moderna, mantém uma forte ligação a referências portuguesas - expressas em crianças, procissões, festas, coretos - não sendo, portanto, uma arte propriamente cosmopolita ou universalista como a dos pintores que estiveram no Orpheu e que chegaram a Lisboa com as novidades de Paris. Das tais conversas, diz a nora: “Comecei por tomar notas do que Sarah Affonso me contava, logo que chegava a casa. Ainda não pensava em publicar este livro, mas, mesmo para mim própria, não queria esquecer todos aqueles pormenores que me revelavam como era, na sua pequena história, a vida artística portuguesa desde o princípio do século.”[2] A junção de várias conversas recolhidas por um gravador “clandestino” e depois autorizadas pela pintora, deram um volume de cerca de 100 páginas, acessível, e com dados importantes para a compreensão do ambiente artístico português e da vida e personalidade de alguns artistas, cujo título agradavelmente despretensioso é Conversas com Sarah Affonso. Sarah Affonso fala de si mesma, do marido – o pintor, escritor, ensaista, etc., José de Almada Negreiros (1893-1970) – da amizade com Fernando Pessoa (1888-1935), das relações nem sempre lineares com Eduardo Viana (1881-1967), da pintura e aceitação problemática de Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918), da história do casal Delaunay em Portugal, e, entre outras coisas, revela um pouco do que pode ter sido a influência de Santa Rita Pintor (1889-1918) – a quem chama “mestre” (p.24) – na arte de Almada, um tema pouco abordado, não só por causa da sua morte precoce, mas também pela exiguidade de testemunhos do próprio Almada sobre o pintor e pela má vontade com que Santa Rita é ainda hoje visto por alguns estudiosos para quem foi apenas um blagueur, sem realizações práticas de Arte. O texto é, portanto, significativo, não só por causa das revelações históricas, mas também por resultar de uma prática, tanto quanto sabemos, com pouca expressão em Portugal, que é o recurso ao testemunho oral, à experiência individual para a recolha de informações com efectivos aproveitamento e importância científicos.


“K4 QUADRADO AZUL


[Maria José de Almada Negreiros] - Os Delaunays estiveram cá por altura de 14, 15, não foi?
[Sarah Affonso] - Parece-me que vieram em 15. O Delaunay estava isento da tropa, acho que em caso de guerra são chamados na mesma, mas ele saiu de França e veio para cá, com o Amadeu. Foram viver para Vila do Conde. O Zé[3] sem querer tramou-lhes a vida e eles tiveram que fugir para Espanha. Isto porque o Amadeu gostava muito do conto «K4 quadrado azul». Estava-se em plena guerra e K4 parecia mesmo uma sigla misteriosa. O Amadeu gostava muito do K4, eu não gosto, já é uma coisa muito futurista, gosto é da «Engomadeira». Mas então o Amadeu disse ao Zé «olha, eu conheço um tipógrafo no Porto, que te faz isso muito barato». E levou o original com ele para o norte. Levou o manuscrito e nunca mais disse nada e o Zé que era um impaciente, manda-lhe um telegrama: «Dá notícias K4 quadrado azul.» Ao Almada não disseram nada, não sei porquê, mas ao Amadeu foram perguntar o que era aquilo e depois todo o grupo foi interrogado. O Viana esteve preso 15 dias na enxovia. Como não tinha dinheiro para pagar um quarto na polícia, foi para onde vão todos, isso é que é a enxovia. Ficou lá até que um dia se encheu de raiva, estava o juiz ou o polícia lá no gabinete a fazer-lhe perguntas e ele agarrou-se assim à mesa e com a cara dele encostada à do homem: «Você acha justo o que me estão a fazer? Se você tivesse um filho, se o visse aí, deixava-o ficar!?» E então deixaram-no ir embora.
[MJAN] - Mas esteve preso por causa do K4!?
[SA] - Pois, porque as explicações que ele dava não os convencia. E os Delaunays também estiveram presos. Foram eles e o Viana. O Amadeu como era de gente conhecida do Porto, deixaram-no ficar à solta. (...)
[MJAN] - Mas depois ficou tudo esclarecido?
[SA] - Depois, o Amadeu lá os convenceu que não eram espiões de guerra.”[4]



[1] Para estas referências, v. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, vol.1, p.518 e vol. 1 da Actualização, p.112.
[2] Conversas com Sarah Affonso, Maria José de Almada Negreiros, Publicações Dom Quixote, 1993, p.7.
[3] José de Almada Negreiros.
[4] Idem, pp.44-45.
Nota: A imagem acima reproduzida vem da capa da obra citada na nota 2 e é a reprodução de dois auto-retratos, ambos da mesma altura, de Sara Affonso à esquerda (1927) e de Almada Negreiros à direita (c.1927).