terça-feira, 21 de julho de 2009

Curtas – Loures e Ambiente

A Câmara de Loures realizou, no dia 25 de Maio, uma conferência com o título “Gestão da eficiência energética de frota – Soluções energéticas alternativas”, que teve lugar na Biblioteca Municipal José Saramago. O Vice-Presidente da Câmara afirmou que “a gestão da frota na autarquia tem sofrido uma remodelação profunda, tendo em vista a diminuição dos custos e uma melhor eficácia ecológica”[1].

Tendo participado no projecto ECOXXI, foi atribuído à Câmara de Loures a bandeira verde, o galardão mais elevado, atribuído pela Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE), por ter-se destacado na área do ambiente, no ano de 2008[2].

A iniciativa “Nós Pedalamos”, organizada pela associação portuguesa de defesa do ambiente GEOTA no dia 10 de Maio, contou com o apoio da Câmara Municipal de Loures e a Fundação Vodafone. Nesta iniciativa, em que se participaram cerca de cinco centenas de pessoas, fez a ligação do Terreiro do Paço ao Parque da Cidade de Loures, um percurso de 25 Km em bicicleta. O objectivo “foi alertar para a criação de corredores verdes nas cidades, criando assim condições para uma mobilidade mais ecológica”[3].

[1] “Loures Municipal”, Nº40, p.15
[2] Mais informações em “Loures Municipal”, Nº40, pp. 26, 27.
[3] “Loures Municipal”, Nº40, p.26

Arquivo Municipal

Foi no dia 28 de Maio que se realizou a inauguração do Arquivo Municipal de Loures, com o objectivo de albergar toda a memória colectiva deste concelho, de modo a dar a conhecer a história local. Nas palavras do Presidente da Câmara Carlos Teixeira, “O Concelho de Loures tem um passado rico em acontecimentos históricos, que queremos preservar, divulgar e homenagear”[1]. Entre outros, pode encontrar documentos sobre associações e famílias, e, a título de curiosidade, o documento mais antigo pertence ao século XVI.
Este novo edifício que possui magníficas instalações de cinco pisos com capacidade para perto de 16 Km lineares de arquivos, com sala de leitura, gabinetes técnicos e sem esquecer o estacionamento subterrâneo, está preparado para ser visitado por historiadores, ou meros curiosos sobre a história do Município. Situado junto à Biblioteca Municipal José Saramago, está aberta ao público de segunda a sexta-feira, das 9horas às 17horas.

[1] “Loures Municipal”, Nº40, p.3

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Darwin nos Açores em Setembro

Divulgo a seguinte mensagem que me foi enviada:
"Darwin escreveu nas suas memórias da "Viagem do Beagle", quando aportou aos Açores no caminho de regresso e visitou a ilha Terceira, em 20 de Setembro de 1836: "Gostei do passeio deste dia, embora não tivesse encontrado coisa que merecesse a pena ver." Como Açorianos, cientistas, lamentamos em silêncio esta observação tão prejudicial acerca destas ilhas, embora francamente compreendamos que, após 4 anos no mar, Darwin estivesse cansado e inquieto por chegar a casa... Cerca de cinquenta anos mais tarde, em correspondência com o malacólogo Açoriano Francisco Arruda Furtado, Darwin escreveu: "Eu considero um feliz evento para a ciência que um homem como vós [...] habite um grupo de ilhas oceânicas. [...] Tendes um esplêndido campo de observação e não duvido que as vossas investigações venham a ser muito valiosas" (carta de C. Darwin a F. Arruda Furtado, 3 de Julho de 1881). Como Açorianos, cientistas, secretamente desejamos que este comentário um dia nos venha a ser aplicável!
Queremos fazer parte das comemorações mundiais de Darwin e da sua obra "Sobre a Origem das Espécies", pois Darwin esteve aqui e aqui presentemente espécies estão a ser originadas. Por esta razão estamos a preparar um simpósio, nos Açores, tendo as "ILHAS DOS AÇORES" como tema unificador:

O ERRO DE DARWIN e o que estamos a fazer para o corrigir"
(19-22 de Setembro de 2009)


Desta vez prometemos a Darwin(istas) 4 dias inesquecíveis nos Açores quando, entre outras coisas, apresentaremos com humildade as nossas contribuições passadas/presentes e futuras. Segue um esboço de programa:

DIA 19. "Como éramos" - Embora geologicamente jovens, os Açores têm um dos poucos exemplos do neogénio intertidal em ilhas oceânicas, e nós temos vindo a escavá-lo. Detemos provavelmente uma chave importante para a compreensão dos efeitos das glaciações no biota do Atlântico Norte. Para além disso, as nossas fontes hidrotermais abrigam micróbios arcaicos que encriptam dentro deles os próprios segredos da vida. Paulyn Cartwright, que procura consistência para os padrões de evolução na fluidez das medusas, gentilmente acedeu a conceder-nos a honra da palestra de abertura deste dia.

DIA 20. "A dinâmica da colonização" - Isolados no meio do Atlântico Norte, na encruzilhada das correntes e dos ventos, na charneira do domínio temperado/subtropical, os Açores sumarizam um paradigma biológico: contra ventos e correntes, eles são Europeus! Peter Grant, que deslindou a interdependência dos factores bióticos/abióticos associados com a diversidade dos tentilhões dos Galápagos, gentilmente acedeu a conceder-nos a honra da palestra de abertura deste dia.

DIA 21. "A dinâmica da evolução" - Os moluscos terrestres são os "tentilhões" Açorianos; metade deles são endémicos e a especiação pode de facto ser aqui apanhada em flagrante. Estamos convencidos de que o equilíbrio pontuado pode ver-se ao vivo nos nossos caracóis. Bruce Lieberman, que aprendeu com os pais do equilíbrio pontuado - Niles Eldredge e Stephen J. Gould - e que tem seguido a evolução desde o tempo profundo, gentilmente acedeu a conceder-nos a honra da palestra de abertura deste dia.
"Darwin e a Sociedade" - O trabalho de Darwin influenciou profundamente o mundo, muito para além do domínio da ciência; tocou a própria raiz das vidas das pessoas, as suas convenções sociais, as suas crenças religiosas. Aqui, razão e coração frequentemente têm ensombrado o desejo de um bem necessário entendimento. Eugenie C. Scott, que tem devotado a sua carreira a promover o entendimento e a separação de ciência e fé, gentilmente acedeu a conceder-nos a honra da palestra de abertura desta sessão.

DIA 22. "A dinâmica da conservação" - É aqui (e disso não nos orgulhamos!) que vive a ave mais ameaçada da Europa, o priolo, Pyrrhula murina. É também aqui que se desenvolve um projecto galardoado para o proteger. Rosemary Grant, que aqui esteve nos anos 70 a investigar os nossos tentilhões, gentilmente acedeu a conceder-nos a honra da palestra de abertura deste dia.

Cientes da nossa insignificância mas estrategicamente empoleirados nos ombros dos maiores no mundo da ciência, com orgulho vos convidamos a vir e apreciar os Açores e a ciência que aqui se desenvolve.

Sinceramente vosso,


António M. de Frias Martins CIBIO-Pólo Açores, Departamento de Biologia - Universidade dos Açores - 9501-801 Ponta DelgadaSão Miguel - Açores - Portugal "

Informação retirada para divulgação de:
webpage: http://darwin.inazores.net/

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A Grande Festa da Ciência - II

Tal como noticiado este mês no blog, realizou-se no início de Junho, a Grande Festa da Ciência, que decorreu na Escola Piscinas-Lisboa nos Olivais. Informo agora os leitores, que mais informações sobre este evento podem ser encontradas no site do Instituto Gulbenkian Ciência:

http://www.igc.gulbenkian.pt/teaching/static/outreachschools

Agradeço à Doutora Sílvia Castro, cientista no IGC, ter disponibilizado esta informação.

Palestra sobre Selecção Sexual

Aproveito ainda para fazer divulgação de uma palestra, em que a Susana Varela vai ser oradora, a decorrer na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). A investigadora irá divulgar, de um modo resumido, o tema desenvolvido na sua tese de doutoramento. Seguem mais informações:


Encontros Scientia

“Conspecific copying and the Cultural evolution of preferences:
The selection of breeding commodities through public information, and its consequences to the evolution of species”


SUSANA VARELA

Membro Associado Doutorado do Centro de Biologia Ambiental (CBA)

Abstract


Choosing where to breed and with whom to mate are two of the most important fitness-enhancing decisions in an animal’s life. Animals are thus expected to have developed mechanisms of active preference for those habitats and mates that are more likely to lead to the production of viable offspring. This implies that animals use some information about environmental quality to identify which of the existing alternatives is likely to be the most advantageous.
Four strategies are therefore possible: either they choose independently from conspecifics by relying on the information (1) encoded in their genes, (2) transmitted early in life by their parents, (3) acquired personally by directly assessing the environment, or (4) they choose non-independently, by relying on public information derived from the reproductive performance of conspecifics as a way of reducing prospecting time and, hence, the energy invested in sampling the environment.
Public information or, more specifically, inadvertent social information, has only recently been proposed as a reliable and parsimonious approach to make reproductive decisions. Numerous empirical, theoretical and experimental studies have already provided evidence for the use of this type of information in several species of birds, fish and mammals. With my experiments on Drosophila melanogaster, I provide the first evidence that invertebrates can use public information for choosing mates, suggesting that such a strategy is probably widespread in nature.
One consequence of using PI for breeding habitat and mate selection is the copying of successful conspecific choices by multiple individuals attempting to benefit from the same favourable environmental conditions. The mechanism of mate-choice copying may thus lead to the development of “cultural” preferences for certain habitat and mate types, which may differ from innate preferences, inherited genetically. I will discuss how public and genetic information may balance each other in shaping animal reproductive preferences, and the extent to which culturally transmitted preferences may possibly affect species’ evolution.

4ª feira, 1 de Julho de 2009
FCUL- Edif. C2- Piso 2- Anf. 2.2.14 - 12:00-13:00h

Fora os Dinossauros. Apenas sobre Sexo e Darwin.

O post do meu colega, Rui Castanhinha, foi escrito em boa altura, pois vai servir de ponte de ligação a dois livros, os quais hoje vou divulgar. Uma vez que o Rui é que é o paleontólogo, vou deixar os dinossauros com ele, e hoje vou escrever só sobre sexo e Darwin. Ou melhor, de um modo mais geral, sobre dois temas indissociáveis, a Biologia e o Sexo.

O primeiro livro que aqui trago, é da autoria da Doutora Clara Pinto Correia, com o título “A maravilhosa aventura da vida”. O tema abordado, já carecia de divulgação e peca por tardia. Este é um livro dirigido a todo o público, e de um modo simples e directo, ao bom estilo que a professora Clara nos tem habituado nos seus livros de divulgação científica, explica muitos dos conceitos da Biologia do Desenvolvimento, disciplina que me é particularmente querida, por ser essa a minha especialização.
O que poderão encontrar neste livro? Formação de embriões a partir dos gâmetas (células sexuais), alguns eventos genéticos que ocorrem após a fertilização, formação de novos organismos, e muitas curiosidades sobre o mundo vivo e a história das ciências. Para quem é da área, é sempre bom relembrar a teoria.

O segundo livro que proponho divulgar, é o mesmo referido anteriormente pelo Rui. Da autoria de Charles Darwin (1809-1882), foi recentemente traduzido um dos seus mais importantes livros “A Origem do Homem e a Selecção Sexual”.
Apesar de em “A Origem das Espécies” (1859) Darwin estudar a temática da evolução, ele não aborda a evolução humana, dizendo apenas que mais tarde será feita luz sobre este tema. Com o passar dos anos, outros cientistas influenciados pelo estudo da evolução, querem debruçar-se sobre a evolução humana. Darwin já tinha muitos dados sobre este assunto, que havia recolhido ao longo de vários anos, e achando esta uma altura propícia, publica o livro em 1871 (Inicialmente em dois volumes. Em 1874 o trabalho foi reunido num só volume).
O livro encontra-se dividido em três partes: “A genealogia ou a origem do Homem”, “A selecção sexual” e “A selecção sexual relativamente ao Homem e conclusão”.
Esta é uma obra traduzida, em jeito de celebração dos 200 anos do nascimento do naturalista britânico Charles Darwin. Um grande obrigado à nossa colega Doutora Susana Varela, pela dedicação e empenho na tradução desta majestosa obra.


Referências:
Clara Pinto Correia, “A maravilhosa aventura da vida”, Editorial Presença, Lisboa, 2009
Charles Darwin, “A origem do Homem e a selecção sexual”, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2009 – Tradução de Susana Varela.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sexo, Dinossauros e Darwin

Sendo 2009 o ano Darwin muito já se tem dito sobre o que o próprio escreveu acerca de imensa coisa, mas sobre dinossauros é muito escaço o material existente.
Aqui vos deixo uma passagem do livro The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex publicado em 1971. Esta obra teve felizmente uma novissima edição em Português que foi traduzida pela minha colega Susana Varela. É um excelente livro histórico que vale a pena conhecer. Foi precisamente em 1971 que Darwin apresentou uma outra ideia absolutamente revolucionária: a Selecção Sexual. Pensar-se que as escolhas sexuais dos seres vivos poderiam desempenhar um papel fulcral na evolução de estruturas complexas ou extremamente bizarras era, sem sombra de dúvidas, algum de novo e mais uma vez foi um um choque tremendo. Lembem-se que o sexo foi (quase) sempre um tema tabu nas nossas sociedades ocidentais. A Inglaterra victoriana não era excepção, e vir dizer que quem tem o papel mais importante na escolha sexual é a fêmea... era, no mínimo, complicado. Charles Darwin sempre foi um homem do seu tempo nos costumes, mas quanto às suas ideias ciêntíficas esteve quase sempre à frente de todos os outros, é o melhor exemplo que conhecemos para provar que não é necessário ser-se excêntrico para se ser genial. E como qualquer cientista do seu tempo tambem se interessou por dinossauros, reparem então no que ele escreveu:

« Sabe-se que existiram, ou que ainda existem, grupos de animais que servem para ligar, com maior ou menor intensidade, várias das grandes classes de vertebrados. Vimos, por exemplo, que o ornitorrinco passa gradualmente para o lado dos répteis; e o Professor Huxley descobriu que os dinossauros estão, em muitas características importantes, numa posição intermédia entre certos répteis e certas aves – facto que foi confirmado pelo Sr. Cope e outros –, as quais pertencem à tribo das avestruzes (que evidentemente também são o último vestígio amplamente difundido de um grupo outrora mais vasto) e ao arqueoptérix, estranha ave secundária, com uma longa cauda semelhante à de um lagarto. Além disso, e de acordo com o Professor Owen, os ictiossauros – grandes répteis marinhos providos de barbatanas – apresentavam várias afinidades com os peixes, ou melhor, segundo Huxley, com os anfíbios; que são uma classe que, por incluir na sua divisão mais avançada as rãs e os sapos, é manifestamente aparentada com os peixes ganóides. Estes últimos abundavam durante os primeiros períodos geológicos, e eram formados segundo aquilo a que chamamos modelo generalizado, isto é, apresentavam diversas afinidades com outros grupos de organismos. O Lepidosiren, por exemplo, está tão intimamente ligado aos anfíbios e aos peixes que os naturalistas debateram longamente para decidir em qual destas classes o colocar; tanto ele como alguns peixes ganóides foram preservados de uma completa extinção por habitarem em rios que funcionam como pequenos portos de refúgio, visto que estão ligados às grandes águas dos oceanos da mesma maneira que as ilhas estão ligadas aos continentes. » Citação do livro "A Origem do Homem e a Selecção Sexual" de Charles Darwin, cap. 6, página 182.



É reconhecido todo o mérito aos paleontólogos Richard Owen e Edward D. Cope o facto de já se considerar a hipótese de que as aves e os dinossauros estavam mais realicionados do que à primeira vista se poderia pensar. A ideia não era de Darwin, mas é de facto muito engraçado pensarmos que tamanha beleza e complexidade nas formas possa ser tão semelhante na sua origem.



Obrigado à Susana Varela por ter alertado para esta passagem.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"Lord of the Flies"

Sobre o livro:

O livro “O Deus das Moscas”[1], de William Golding, retrata a vida de um grupo de jovens que se encontra numa ilha. Sendo eles os únicos sobreviventes de um desastre de avião, sem a presença de qualquer adulto, como será que irão sobreviver? Esta é apenas uma das inúmeras questões que se colocam à medida que vamos desvendando o enredo, página após página.
Perante o livro, o leitor é remetido para a mesma realidade daqueles jovens. Estão juntos numa ilha isolada. À sua volta só existe um infinito oceano. Não possuem meios de fuga. Alimentam-se do que a natureza tem para oferecer. Como se sentirá uma criança ou um jovem numa situação destas? Como confrontará os seus medos? E se o medo se tornar generalizado? Como enfrentar esse terror ao cair da noite, quando só as trevas são perceptíveis e de pouco servem os sentidos, em particular a visão? Questão importante: conseguirão manter a ordem social, ou aproximar-se-ão de um estado selvagem? Qual a ordem que irá prevalecer quando é o medo que governa?
Este é um livro rico em símbolos e metáforas. Desafio o leitor, enquanto estiver a ler o livro, a associar alguns valores sociais e morais às personagens. O que representarão o Ralph, o Piggy e o Jack? Quais os significados que poderão ser atribuídos ao búzio e aos óculos? E os diversos elementos naturais que iremos encontrar ao longo do texto?
Creio que já muitos leitores, pensadores ou académicos se debruçaram sobre esta obra. No entanto, acredito que continua a ser um bom tema de debate, pois, como diria a minha antiga professora de filosofia: “É um tema que dá pano para mangas”.
Após ter realizado uma ligeira pesquisa sobre este livro, encontrei várias referências que afirmavam que temas semelhantes se podiam encontrar noutros livros ou filmes. Fui indagar. Terminei de assistir a um desses filmes, intitulado em português “Nevoeiro Misterioso”[2]. Nesta película, conhecemos a estória de uma neblina pouco comum que, após uma tempestade, se vai aproximando da cidade. Na manhã a seguir à tempestade, a população acorre ao supermercado para adquirir os bens necessários. Enquanto as pessoas fazem as suas compras e colocam a conversa em dia, a misteriosa neblina envolve o exterior do estabelecimento. O suspense inicia-se quando um homem, a sangrar, entra no supermercado, vindo da neblina, e afirma que existe algo monstruoso lá fora. É aqui que começam as semelhanças com o livro. A população encontra-se isolada no supermercado, como os jovens encontram-se isolados na ilha. O exterior do supermercado está rodeado de nevoeiro, assim como a ilha está rodeada de mar até onde a vista alcança. Os adultos sentem-se vulneráveis por a visão não lhes ser útil no nevoeiro, assim como os jovens se sentem vulneráveis por a visão não lhes ser útil quando anoitece. Colocam-se questões semelhantes às do livro: conseguirão controlar-se ou aproximar-se-ão de um estado primitivo?, como irão reagir perante um medo generalizado? Este é, pois, um filme que se vê melhor após a leitura do livro da autoria de Golding. Como nota final, tema semelhante pode encontrar-se também, entre outras obras, no “Ensaio sobre a Cegueira”, do português José Saramago.


Sobre o autor:

William Golding (1911-1993) estudou Literatura Inglesa, em Oxford, e após isso tornou-se professor. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na Royal Navy. Antes da Guerra havia publicado um livro de poemas, mas só após o seu regresso é que se afirma como grande romancista aquando do seu primeiro romance, “O Deus das Moscas”, que foi considerado um gigantesco sucesso pela crítica internacional, tendo-lhe valido o Prémio Nobel da Literatura. Outras obras do mesmo autor: “Os Herdeiros” (1955), “Pincher Martin” (1956), “Borboleta de Latão” (1958), “Queda Livre” (1959) e a trilogia: “Ritos de Passagem” (1980), “Abordagem” (1987) e “Fogo no Porão” (1989).
Como curiosidade, Golding conheceu o cientista James Lovelock, e juntos discutiram a hipótese que Lovelock andava a trabalhar de que a matéria viva do planeta Terra poderia funcionar como um ser único, e foi Golding que sugeriu a designação de Hipótese Gaia, baseado na deusa da Terra encontrada na mitologia Grega.

[1] No original “Lord of the Flies”, publicado originalmente em 1954.
[2] No original “The Mist”, baseado numa obra com o mesmo nome, do escritor, considerado o mestre do terror, Stephen King.
Referências:
William Golding, "O Deus das Moscas", 2ª edição, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2008 - Tradução: Manuel Marques

sexta-feira, 12 de junho de 2009

"A Grande Festa da Ciência"

Realizou-se no passado dia 9 de Junho “A Grande Festa da Ciência”, na Escola EB2,3 Piscinas-Lisboa, nos Olivais, organizada por João Monteiro, autor deste blog. Esta actividade resultou do compromisso dos autores de levarem a cultura a um máximo possível de pessoas.
Esta iniciativa contou não só com palestras, mas também com actividades interactivas no pátio do recreio, uma vez que o público-alvo eram alunos do 5º ao 9º ano de escolaridade, ou seja, jovens que preferem aprender brincando, tocando e interagindo. Tudo isto só foi possível com o apoio da comunidade escolar e com a participação de várias instituições que aceitaram o convite de vir a este estabelecimento de ensino.
Os três objectivos principais desta organização foram:
- Divulgação científica junto dos alunos;
- Divulgação das Instituições e suas iniciativas junto dos docentes;
- Divulgação das Instituições junto umas das outras para possíveis sinergias futuras.
Assim, dentro das três salas que receberam as palestras estiveram os seguintes oradores: João Monteiro a comunicar sobre o tema “A Evolução de Darwin”, o Jardim Zoológico de Lisboa com “O papel dos Zoos na conservação das Espécies”, o Jardim Botânico de Lisboa com “A adaptação das plantas”, o Lagartagis que falou sobre Borboletas, outros insectos e seu ciclo de vida, e o Instituto Gulbenkian Ciência (IGC) que divulgou o papel desta instituição na investigação científica em Portugal.
No exterior encontrava-se a recém-criada empresa de divulgação científica, “Neurónios Curiosos”, que exibiu diversos modelos de cones vulcânicos, em que um deles simulava mesmo uma erupção utilizando reagentes caseiros, possuindo também fósseis, metamorfoses de anfíbios e insectos e reaproveitamento de materiais. Ao lado, noutra bancada, também o IGC demonstrava os seus modelos interactivos. Um cérebro humano desmontável tentava ser reconstruído pelos alunos, enquanto a investigadora explicava as características genéticas hereditárias. Mas a cereja no topo do bolo foi mesmo a extracção do ADN do morango com reagentes caseiros.
Outras instituições não estiveram presentes mas deixaram o seu contributo, fornecendo posters, informação pedagógica, livros e DVD’s com filmes sobre a natureza. Com a vontade de que iniciativa não durasse apenas um dia, todo este material didáctico foi oferecido à biblioteca da escola, para que os alunos possam consultá-lo em futuros trabalhos. Agradecemos deste modo à Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), ao Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) e à Quercus.
Em suma, esta iniciativa foi um sucesso. Via-se espelhado na face dos jovens alunos a alegria de aprenderem, e, também, sonhos de um futuro, possivelmente, de mãos dadas com a ciência.


Colaboração:
Neurónios Curiosos - http://www.neuronioscuriosos.pt/
Jardim Zoológico - http://www.zoo.pt/
Jardim Botânico - http://www.jb.ul.pt/
Lagartagis – http://www.borboletasatravesdotempo.com/lagartagis.html
IGC – http://www.igc.gulbenkian.pt/
SPEA – http://www.spea.pt/
ICNB – http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007/
Quercus – http://www.quercus.pt/scid/webquercus/

Palestra sobre "A adaptação das Plantas"

O IGC explica a hereditariedade. Extracção do ADN do morango!!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ciência no Mundo Mix

A ciência é essencial para que uma sociedade prospere. As melhorias a nível não só de tecnologia como também de conhecimento puro, têm contribuído para o nosso bem estar e melhor qualidade de vida. Para isso, basta pensar nos avanços científicos das ciências biológicas que se repercutiram em melhorias nas ciências biomédicas, como por exemplo no estudo da oncologia.
Apesar de todos estes avanços científicos, a ciência pode e deve ser acessível de compreensão a todas as pessoas. É aqui que entra a divulgação científica. O Instituto Gulbenkian Ciência (IGC) e a Associação Viver a Ciencia (VaC) irão realizar de 29 a 31 de Maio acções de divulgação científica destinadas a quem quer aprender, ou conhecer, um pouco mais desta área.
Se é um adulto interessado, se tem filhos pequeninos, se é um jovem que gosta de ciência, fica a sugestão para um dia bem passado em Lisboa. Trata-se de uma iniciativa destinada a todas as pessoas, de todas as idades.
Segue a Press Release de 21 de Maio de 2009:

"Extrair ADN de frutos com produtos domésticos, conhecer o cérebro humano, identificar características genéticas, ficar a saber tudo sobre a vida dos caracóis e fazer gelados com azoto líquido. Eis algumas das actividades de ciência que vão invadir o Mercado Mundo Mix, entre 29 e 31 de Maio, em Lisboa.

O Instituto Gulbenkian da Ciência (IGC) e a Associação Viver a Ciência (VaC) levam actividades de divulgação de ciência à 21ª edição do Mercado Mundo Mix, a realizar nos dias 29, 30 e 31 de Maio, no Castelo de São Jorge, em Lisboa.
Durante os três dias, entre as 12h e as 22h, as duas instituições apresentam actividades de divulgação de ciência e de angariação de fundos privados para a ciência, com o objectivo de envolver a comunidade científica, o sector privado e a sociedade em geral e proporcionar o diálogo entre cidadãos e investigadores.

Para esse efeito, serão exibidos pequenos filmes produzidos pelos investigadores nos seus laboratórios, reportagens sobre o IGC e seu impacto na comunidade social. A instituição apresentará também uma exposição de Bio-Arte, da responsabilidade de Marta Menezes e Maria Manuela Lopes. A VaC disponibiliza a visita à “Laboratório de Imagens”, exposição de arte e ciência que continua em itinerância pelo país.

No stand científico das duas instituições, os visitantes podem ainda experimentar extrair ADN de frutos utilizando produtos domésticos, participar em jogos interactivos em que identificam características genéticas que podem ser recessivas, comparar o modelo do cérebro humano com o modelo do cérebro do ratinho e aprender todas as curiosidades sobre a vida dos caracóis (sem os levar à panela) através do workshop “Caracol, caracol pões os pauzinhos ao sol”. Na cozinha podem sim fazer gelados com azoto líquido, esparguete de Agar e experimentar um cocktail molecular, três actividades com a assinatura do Cooking Lab.

A doação de fundos privados para a ciência pode ser efectuada através da compra de calendários de ciência e da colecção de postais resultante do projecto “Laboratório de Imagens”.

O Mercado Mundo Mix é um evento multicultural, ligado à cultura urbana e que apresenta novos talentos, novas ideias e novas tendências nas áreas das artes, música, moda e design, que já recebeu mais de dois milhões de visitantes. Nasceu há 15 anos no Brasil e está em Portugal desde 2003, com várias edições realizadas em Lisboa, Porto, Coimbra, Cascais e Lagos, chegando agora à sua 21ª edição, novamente no Castelo de São Jorge, em Lisboa."

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Exposição Darwin - O Grande Final

A exposição “A Evolução de Darwin” está a chegar ao fim. De facto, esta é a última semana da exposição.
Olhando para trás, só se pode concluir uma coisa: esta exposição tem sido um enorme sucesso, pois todos os objectivos foram atingidos e ultrapassados. Penso que, entre outros factores, estes resultados devem-se, essencialmente, ao facto da exposição ter sido realizada e dirigida para um público de todas as idades, sendo os conceitos de fácil compreensão para todos.
Agora que nos aproximamos do final, a festa vai continuar. No fim-de-semana de encerramento, dias 23 e 24 de Maio, a Fundação Calouste Gulbenkian continua a promover diversas iniciativas. Paralelamente à exposição, vão ser realizadas conferências, concertos musicais, peças de teatro, Workshops práticos e no jardim, que terão início logo às 9h30. Deixo aqui algumas sugestões:

Conferências:
Carlos Marques da Silva: “Darwin geólogo e o paradoxo da biodiversidade”.
José A. Feijó: “Tudo o que sempre quis saber acerca de sexo (em plantas)”.
António Frias Martins: “E se Darwin voltasse agora... aos Açores?”
Octávio Mateus: “O que Darwin não sabia sobre os dinossauros”.
Mark Stoneking: “Human evolution: the molecular perspective”.
Peter e Rosemary Grant: “The evolution of Darwin’s finches”.

Teatro:
“O professor de Darwin”.
“A conferência de um macaco”.

Workshops:
“Ilustração científica”
“Como se faz uma montanha?”
“Diagnosticando Darwin: Dr. House visita Down House”
“A evolução do vírus da gripe”
Observação de aves
Construção de ninhos

Publicado simultaneamente em: www.biocel-lusofona.blogspot.com

quarta-feira, 13 de maio de 2009

79ª Feira do Livro de Lisboa III - Sugestões

Como já foi divulgado neste blog, a feira do livro está quase a terminar (17 de Maio) e, por essa razão, vale a pena lá voltar para fazer as últimas aquisições. Na minha opinião, a compra de livros é um investimento que compensa sempre, muito mais nesta altura em que os leitores podem beneficiar de preços mais acessíveis.
De modo semelhante ao meu colega, deixo também aqui algumas sugestões:

Divulgação Científica:

Richard Dawkins, “O gene egoísta”, Gradiva, 2003

Richard Dawkins, “O relojoeiro cego”, Ciência Aberta, Gradiva, 2007 – Na contracapa podemos ler: “Um livro brilhante e controverso que demonstra que a evolução através da selecção natural – o processo inconsciente, automático, cego e vitalmente não-aleatório descoberto por Darwin – constitui a única resposta à maior questão de todas: porque existimos?
No título, Dawkins faz referência à analogia do relojoeiro, tornada famosa pelo teólogo oitocentista William Paley na obra “Natural Theology”. Paley, que escreveu o livro mais de cinquenta anos antes de Charles Darwin ter publicado “A origem das espécies”, afirmou que a complexidade dos organismos vivos constituía prova da existência de um criador divino, estabelecendo um paralelismo com a forma como a existência de um relógio obriga a aceitar a existência de um relojoeiro inteligente. Dawkins, tendo em conta os processos que subjazem à selecção natural, afirma que, nesse caso, o relojoeiro terá de ser cego.”

Stephen Jay Gould, “A vida é bela”, Ciência Aberta, Gradiva, Lisboa, 1995 – este livro fala sobre a descoberta de um importante registo fóssil com criaturas, de um mar antigo, muito bem conservadas, localizado nas montanhas rochosas canadianas. A sua descoberta foi realizada no início do século XX por Charles Walcott, que não terá realizado uma correcta interpretação da informação fossilizada. Só mais tarde, Harry Whittington, terá voltado a pegar no mesmo material e analisado-o de uma outra perspectiva, aos olhos da evolução como a vemos actualmente.

Stephen Jay Gould, “O polegar do panda”, Ciência Aberta, Gradiva, Lisboa, 2002

Francisco de Arruda Furtado, “Correspondência científica de Francisco de Arruda Furtado”, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2002

Francisco de Arruda Furtado, “Obra Científica de Francisco de Arruda Furtado”, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2008


História & Filosofia:

François Châtelet (direcção), “História da Filosofia – O Iluminismo”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983 (adquirido num alfarrabista)

La Mettrie, “O Homem-Máquina”, Editorial Estampa, Lisboa, 1982

Francis Bacon, “Nova Atlântida e A Grande Instauração”, Edições 70, Lisboa, 2008

Richard Stoneman, “Alexandre, o Grande”, Edições 70, Lisboa, 2008


Literatura:

Henry Thomas e Dana Lee Thomas, “Vidas de grandes romancistas”, Edição Livros do Brasil, Lisboa

Clara Pinto Correia, “Adeus, Princesa”, Círculo de Leitores, 1988 (adquirido num alfarrabista)

sábado, 9 de maio de 2009

79ª Feira do Livro de Lisboa II - leituras aconselhadas

O Armarium Libri aproveitou o bom tempo dos últimos dias para ir à Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, e trouxe de lá alguns conselhos aos leitores:

  1. Opúsculos, vol.VI - Dialectologia - 2ª parte, José Leite de Vasconcellos, INCM, 1985 - descrição dos dialectos de Trás-Os-Montes e da Beira, numa obra quase integralmente esgotada, da autoria do talvez maior etnógrafo português de sempre;
  2. Os Monstros na Literatura de Cordel Portuguesa do Século XVIII, Ana Margarida Ramos, Colibri, 2008 - um estudo, às vezes um tanto difícil de ler, sobre as histórias de acontecimentos insólitos narradas pela literatura de cordel, com a excitante pretensão de verosimilhança;
  3. Lendas e Narrativas, Alexandre Herculano, Lello&Irmão - Editores - continua a haver espaço para os clássicos no nosso tempo, em especial para um grande medievalista português que foi, ao mesmo tempo, um pioneiro da historiografia entre nós; são narrações com fundo histórico, atravessando a Idade Média portuguesa;
  4. História Geral dos Piratas, Capitão Charles Johnson, Cavalo de Ferro - durante algum tempo atribuída a Daniel Defoe, já que nunca se identificou o Cap. Johnson, contém a breve biografia de vários piratas desde Teach a Mary Read;
  5. Memória Histórica da Muito Notável Vila de Castelo de Vide, César Videira, Colibri, 2008 - publicada em 1908, é uma viagem pelo passado de Castelo de Vide, à volta dos seus monumentos antigos e das pessoas que fizeram a Vila;
  6. Torres Vedras Antiga e Medieval, Carlos Guardado da Silva, Colibri e Câmara Municipal de Torres Vedras, 2008 - obra de grande importância para os estudiosos que se debrucem sobre a riqueza patrimonial das regiões, cujo concurso para a História nacional "geral" ainda está por medir; vai desde a primeira ocupação até ao final da Idade Média.

Recomenda-se a visita aos dois pavilhões dedicados ao Arquipélago dos Açores, onde se vendem monografias de grande interesse, incluindo a obra do Padre Gaspar Frutuoso (1522-1591) - Saudades da Terra - e estudos sobre a História muito rica dos povos portugueses das Ilhas; e aos alfarrabistas onde se podem descobrir alguns tesouros a preços relativamente acessíveis.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Alte

Há uns meses atrás, estando eu no Algarve com a família, ficou estabelecido que iríamos dar um passeio. O destino da viagem acabou por ser Alte, local que fui visitar pela segunda vez, e em boa hora, pois trouxe comigo informação para partilhar neste nosso cantinho cultural, que é o armarium libri.

Alte no passado
“Alte – Freguesia, Algarve, comarca, concelho, e 18 km de Loulé, 50 de Faro, 215 ao S. de Lisboa, 800 fogos.
(...) Situado em um profundo vale, entre quatro serros, que apenas lhe deixam descobrir uma pequena nesga do mar, junto a Albufeira, e nas margens da ribeira do seu nome, que corre arrebatada por entre broncas penedias. Esta ribeira tem a sua origem em duas grandes nascentes de água, que ficam a N. E. da aldeia, a uns 250 metros de distância dela, e coisa de 40 distantes uma da outra nascente.
Rega muitas várzeas de milho, pomares e hortas, e laranjais de óptima laranja, que exporta. Desagua no mar.
Igreja boa, de três naves.
A ocupação principal da gente desta freguesia é a lavoura, fazer redes, baraços e outras obras de esparto, as quais vão vender por todo o Algarve. O esparto [as pessoas] vão comprá-lo a Faro, e é por esta cidade que Alte faz toda a sua exportação.
(...) Do serro chamado Rocha dos Surdos, 1 Km ao N. da aldeia, se avista até à cidade de Lagos, a 50Km. Serve de guia aos navegantes.
(...) Há aqui várias matas de zambujeiros e carrasqueiros, e muitos medronheiros, de cujo fruto fazem aguardente.
A serra nesta freguesia toma os nomes de S. Barnabé e Malhão, que são braços da Serra do Algarve.
(...) Na serra há muita caça grossa (lobos, javalis, veados) e miúda.”[1]

No presente
“A Freguesia de Alte (...) estende-se por terras serranas e do barrocal, com a Serra do Caldeirão a erguer a norte. A Rocha dos Soidos, com 482 metros de altitude, é a zona mais elevada da freguesia, tendo outrora servido de referência aos navegantes.”[2]
A aldeia de Alte, já foi considerada a mais típica de Portugal, e é aí que se encontra a Igreja Matriz, provavelmente edificada no século XVI, continuando a ser a mais antiga referência histórica de Alte.












A freguesia de Alte é visitada anualmente por muitos milhares de turistas que, após um delicioso almoço, procuram adquirir “o artesanato tradicional da terra, os doces regionais, os brinquedos de madeira, a olaria e os trabalhos de esparto.”[3]
Quem passear pelos agradáveis jardins de Alte, poderá desfrutar das belas serras envolventes que compõem a paisagem, da refrescante ribeira junto da qual se observam várias espécies de aves, de um parque ideal para merendar em grupo, e de vários poemas da autoria de Cândido Guerreiro (1871-1953), gravados em placas de azulejo espalhadas pelo local. É, portanto, um passeio não apenas lúdico, como também cultural.

Quem foi, então, este Cândido Guerreiro autor daqueles poemas? De nome completo Francisco Xavier Cândido Guerreiro, nasce em Alte em 1871 e morre em Lisboa em 1953. Frequenta o Liceu e o Seminário em Faro, e com 31 anos dirige-se a Coimbra com o intuito de estudar Direito, tornando-se, assim, o primeiro altense com curso universitário. Entre os vários cargos que deteve, é de salientar a sua actividade enquanto presidente da Câmara municipal, tendo a vila de Loulé conhecido grande progresso durante o seu mandato. Desde cedo revela interesse pela poesia, área em que aborda diferentes temas, “filosóficos, eróticos, lendários, históricos e bíblicos”[4]. Na poesia demonstra o carinho que possui pela terra onde nasceu. Muitos dos seus versos encontram-se traduzidos em diferentes línguas e recolhidos em várias antologias.
Este é um interessante caso em que conheci Cândido Guerreiro após ir a Alte, e um modo de conhecer melhor Alte será lendo a obra do poeta.


[1] Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno – Diccionario geographico, estatistico, chorographico, heraldico, archeologico, historico, biographico e etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal (...), Vol. I, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, Lisboa, 1873, pp. 164-165 – traduzido para português actual.

[2] Site da Câmara municipal de Loulé: http://www.cm-loule.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=125&Itemid=177

[3] Idem

Sobre como poupar

Mediante a situação económica actual que vivemos, é importante parar para reflectir e interrogarmo-nos sobre o que nos rodeia. Perante a crise (para alguns) devemos perguntar: “O que é que eu, enquanto indivíduo, posso fazer”? A resposta de Camilo Lourenço para a população em geral, e para os que se encontram em dificuldades financeiras em particular, é POUPAR.
Até à década de 90, Portugal era dos países da OCDE
[1] que mais poupava, tendo sido nessa altura que se deu uma inversão de paradigma.
A tese defendida por Camilo Lourenço, no primeiro capítulo, é a de que é necessário voltar a poupar, e que para isso é preciso desenvolver uma cultura de poupança
[2] e uma cultura financeira. Para isto, diz o autor, é necessário admitir que se pode poupar e fazer contas. Como refere, os analistas esforçam-se por divulgar esta necessidade de poupança, junto dos mais variados meios de comunicação, de modo a alertar as pessoas para que estas se consciencializem de que têm de fazer as contas relativas à sua economia familiar para, que se ficarem em dificuldades financeiras, não esperarem por auxílio do Estado. “É que os primeiros e últimos responsáveis pelo nosso Destino somos nós; não o Estado.”[3]
O autor dá algumas dicas: Comece por poupar (por vezes é necessário cortar em algumas despesas para conseguir colocar algum dinheiro de lado. Cortar no número de cafés diários, no tabaco, levar refeições de casa em vez de ir ao restaurante, etc); de seguida, coloque diariamente os euros poupados num mealheiro; pratique a cultura financeira registando tudo; prevendo as receitas e despesas, garanta que sobra dinheiro para poupar e parte dessa poupança deve ser canalizada para aplicações financeiras (depósitos a prazo, fundos de investimento, acções, etc.).
Mas não são só os adultos que devem poupar. Para vermos alterações significativas no futuro, no que toca à poupança, temos de envolver os mais jovens. De facto, é este o tema abordado no segundo capítulo.
Os capítulos seguintes continuam com informação interessante e importante sobre onde poupar, a saber: crédito ao consumo, alimentação e bebidas, despesas com as crianças, habitação, transportes, energia e telecomunicações. Dedica ainda um capítulo a explicar a análise das taxas de juro.
Conclui observando que a maioria destes conselhos é conhecido de quem anda pela casa dos cinquenta, e que é necessário reeducar a população portuguesa para uma cultura de poupança, algo que é possível de se realizar atendendo a muitos das sugestões encontradas neste livro.


Bibliografia:

Camilo Lourenço, “Como esticar o salário e encurtar o mês” – 2ª edição, Livros d’Hoje, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2009

[1] Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.
[2] CL refere que quando se fala em “poupança” as pessoas afirmam que é impossível poupar nos dias de hoje. CL propõe-se, através deste livro, demonstrar que isso não é verdade, recorrendo a vários exemplos.
[3] Camilo Lourenço (2009), p.21