quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Escola: Sucesso para os nossos filhos

Se queremos que os nossos jovens tenham sucesso na vida, então cabe-nos incentivá-los a estudar.
Ser Pai é difícil e educar um filho não é fácil. Não existe um livro, ou um manual com uma fórmula definitiva sobre como educar um jovem. Mas uma coisa parece-me certa, se queremos o melhor para os nossos filhos devemos encaminhá-los para a educação e proporcionar-lhes, na medida do possível, uma formação cultural.
O Problema
Há uns sete anos, ia eu a meio da licenciatura, quando comecei a ouvir uma frase, que, infelizmente, é hoje um chavão, e dizia o seguinte: “Para que andam estes jovens a tirar cursos, se não têm nada a ganhar com isso? Hoje, o “canudo” já não é sinónimo de emprego”. Está claro que esta afirmação é falsa e muito prejudicial para o futuro do nosso país, em geral, e da futura geração, em particular.
A Análise
Os jovens têm muito a ganhar se completarem o ensino secundário e se ingressarem numa universidade, pois uma boa educação é sinónima de esperança num futuro melhor.
É verdade que somos bombardeados por estatísticas que referem um grande número de licenciados no desemprego, mas é preciso ver que se tratam de milhares num universo de milhões de licenciados, e que esse desemprego se restringe a determinados cursos (1). Portanto, onde quero chegar é que no geral aprender compensa.
Quanto à questão de uma licenciatura não garantir emprego por si mesma, essa situação não é de agora. É necessário realizar algum esforço, e de preferência logo enquanto alunos.
Possíveis Soluções
Ao longo do ano lectivo é possível a realização de workshops, cursos de formação, voluntariado, ou actividades num núcleo estudantil. São opções que enriquecem o currículo e servem de ferramentas de trabalho. Nesta vida tudo é incerto, e cada acção nossa aumenta a probabilidade de sucesso.
É muito importante ler. Leiam o que vos der mais prazer: literatura portuguesa ou estrangeira, livros clássicos ou contemporâneos, livros de divulgação científica ou de história das ciências, manuais teóricos ou práticos, o que quiserem, mas leiam. Leiam os avós, os pais e os filhos. Em alternativa à compra de livros, existe a possibilidade de consulta em bibliotecas públicas; em terras mais isoladas existem até as bibliotecas itinerantes.
Vão aos museus e a exposições: abram os vossos horizontes. Ao Domingo grande parte dos museus são gratuitos, informem-se.
A Notícia
Na capa do jornal i vem o seguinte título: “Sucesso = Escola; Ensine esta lição aos seus filhos. Quem estuda recebe melhores salários”. No interior do jornal encontramos dados que comprovam o que tenho vindo a dizer. Na Europa, em média, os patrões pagam duas vezes mais a quem tem qualificação superior do que a quem tem apenas o secundário. Esta diferença é maior nos países com poucos universitários, em que estes recebem quase quatro vezes mais que um não-licenciado, como é o caso português. Um licenciado irá sempre auferir um ordenado maior que um colega sem licenciatura, na mesma função e com mais experiência (2).
Passemos agora da realidade, para uma situação hipotética. Imagine-se um casal sem licenciatura, em que cada um ganhe cerca de 450€ mensais. Os dois juntos, no final do mês terão 900€ disponíveis para as despesas. Agora imaginemos um casal de licenciados em que cada um recebe cerca de 800€ mensais. No final do mês terão cerca 1600€ disponíveis. Fica para reflexão.
Conclusão
A educação e o incentivo para os estudos são uma mais-valia para qualquer cidadão. Como pais, como familiares, como amigos, deveríamos incentivar os jovens a procurarem uma vida melhor. Incutir-lhes valores como o brio profissional e a ambição, para que queiram ser ainda melhores. Somos livres, podemos escolher: nada fazer, ou agir.

Notas:
(1) – Cerca de 10% de pessoas com licenciatura entre os 25 e os 29 anos estão desempregadas.
(2) – Jornal i, Quarta-feira, 8 Setembro 2010, Ano 2, nº 418, pp. 14-17

Fanatismo Religioso

O pastor norte-americano, Terry Jones, de uma pequena igreja evangélica, Dove World Outreach Centre de Gainesville, Florida, decidiu assinalar o 9º aniversário do atentado às Torres Gémeas queimando cópias do Corão, livro sagrado dos muçulmanos. Afirma que pretende “enviar uma mensagem clara aos radicais de que não seremos controlados nem dominados pelos medos nem pelas ameaças”, segundo noticia o jornal i (1). – Agora pergunto eu, quem é que está a ser radical?

Os líderes de várias religiões já se manifestaram. O Vaticano, preocupado, já condenou esta iniciativa afirmando que todas as religiões merecem ser respeitadas (2). O líder religioso da comunidade islâmica em Portugal considera esta atitude um desrespeito pela religião, mas acredita que "no mundo os muçulmanos irão reagir pacificamente e com prudência, fazendo orações a deus para que não haja distúrbios nem complicações nas relações entre países islâmicos e o ocidente", citado pelo jornal Diário de Notícias (3).

O governo norte-americano também já se manifestou, argumentando que se a vontade do pastor persistir, o exército americano no mundo árabe pode correr perigo.

Deixo aqui algo para pensarmos: Uma pessoa é cristã porque foi educada numa cultura cristã. Se essa mesma pessoa tivesse nascido e crescido numa cultura árabe, provavelmente seria muçulmana. Não existe nenhuma religião que seja a correcta. Ainda para mais, tendo em conta que as três religiões ocidentais (Judaísmo, Cristianismo e Islão) têm a mesma origem na cultura Semita (como já referido neste blog). Este fanatismo religioso (seja muçulmano ou cristão) resulta da ignorância das pessoas. Por isso a educação é de extrema importância. Para quando um mundo tolerante? Para quando um respeito sério pela Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Termino com uma frase do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Aqueles que queimam livros, acabam por queimar homens”.

(1) - Jornal i, Quarta-feira, 8 Setembro 2010, Ano 2, nº 418, p. 12
(2) - Correio da Manhã, Quinta-feira, 9 Setembro 2010 – versão on-line consultada http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/vaticano-contra-queima-do-corao  
(3) – Diário de Notícias, versão on-line http://dn.sapo.pt/Inicio/interior.aspx?content_id=1658900 consultado no dia 9-9-2010.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Canções com História

A Música também tem História.

Já temos falado neste blog da história enquanto disciplina própria, mas também de outras suas vertentes, como a história regional ou a história das ciências. No entanto, pouco ou nada abordámos da história da música. Vou então dar um primeiro passo e desbravar caminho. Acompanhem-me.

Não sendo um especialista no tema, não vou discorrer sobre a história desta arte, mas antes divulgar alguns trabalhos recentes na área. Começo por referir a “Antologia da Música Europeia – dos trovadores a Beethoven” (década de 1970), da Sassetti, representando apenas a música ocidental europeia, e tendo início na Idade Média e Renascimento (Volume I) até ao século XIX (último volume). Esta antologia, para além dos livros, possui também uma colecção de discos em vinil.

Nas duas décadas que se seguiram, com maior ênfase na década de 1990, habituámo-nos a ver na televisão os programas do Vitorino de Almeida (n. 1940), compositor, maestro e escritor português. Esta programação de índole cultural pretendia dar a conhecer à população boa música, principalmente a designada música erudita (tem este nome em contraste com a música popular). No seguimento desta vontade de contribuir para a educação musical dos portugueses, informa, numa entrevista ao jornal “Público” (2009), que pretende leccionar um curso de História da Música para a população em geral (1).

Actualmente, na Antena3, rádio estatal, é possível ouvir a rubrica “Canções com história”, em que os apresentadores explicam o contexto em que certas músicas foram criadas, ou o evoluir da musicalidade de um determinado grupo, os percursos de algumas bandas, etc. Como é habitual em quem investiga história, de quando em quando depara-se com alguns acontecimentos que, de tão caricatos, tornam-se hilariantes. Hoje (dia 8 de Setembro), a rubrica falou de uma música da banda “Marcy Playground”. Segundo o relato do apresentador do programa, um dos músicos da banda encontrava-se a namorar com a sua companheira no quarto do campus universitário, quando foram apanhados pela colega de quarto da namorada, que ao entrar terá proferido: “smells like sex and candy”, qualquer coisa como “cheira a sexo e rebuçado”. Esta expressão ficou gravada na mente do músico e foi sendo trabalhada ao longo dos anos, até que, em 1998, editou a música intitulada “Sex and candy”, que voltou a ser tocada nas rádios (2).

Fontes:

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Sugestões de leitura

Selecção de interessantes textos que podem ser encontrados no blog De Rerum Natura:

- Análise sobre o estado da educação em Portugal, como resultado de uma conversa de há 25 anos com o ilustre Rómulo de Carvalho: A Educação está sempre mal? - texto de António Piedade

- Referência ao sucesso que têm sido as vendas dos livros Ensaios da Fundação, onde se encontra o livro O Ensino do Português, da autoria de Maria do Carmo Vieira (aqui). - Os autores do ArmariumLibri planeiam falar deste livro em breve.


Aproveito para sugerir também uma rápida leitura no nosso outro blog Raphus cucullatus.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Carlos Almaça (1934-2010) - Remissão

Faleceu no passado dia 3 de Agosto o biólogo e historiador da ciência Carlos Almaça. Sobre este antigo docente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e ex-director do Museu Bocage, escrevemos uma breve biografia em Raphus Cucullatus - www.raphus-cucullatus.blogspot.com.

Às portas do paraíso

“Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso” (2009), é um livro escrito por Thomas Cathcart and Daniel Klein que explica, através de um diálogo repleto de humor, as reflexões filosóficas de vários pensadores ocidentais sobre a vida, a morte, e a vida depois da morte.
Este é um livro interessante para quem se questiona sobre os temas analisados ou para quem quer conhecer um pouco mais de filosofia. Esta disciplina é aqui tratada de um modo informal e acessível a qualquer leitor. É possível encontrar neste livro o registo de vários filósofos tais como Platão, Descartes, Espinosa, Heidegger, Nietzsche, Camus, Sartre e até mesmo B. Russel.
O capítulo que mais me interessou talvez tenha sido o que faz referência ao conceito de Céu, ou Paraíso. Os autores tentaram compreender a origem deste conceito, e de como evoluiu até às várias concepções que fazemos do mesmo. Por exemplo, analisando o Antigo Testamento constataram que os Hebreus não tinham qualquer noção do que hoje chamamos “Céu” nem da vida depois da morte. Segundo aos autores, quando o profeta Daniel fala de “vida eterna”, refere-se-lhe em termos de ressurreição (1).
Já no Novo Testamento, quando Jesus se refere ao “Reino dos Céus”, ele quer dizer Reino de Deus. Mas como os primeiros cristãos tinham origem judaica, não usavam o nome de Deus por ser considerado demasiado sagrado (2). Assim, o Reino dos Céus, em vez de ser considerado um lugar, deve ser tido em conta como um tempo, um tempo futuro, em que a vontade de Deus se tornaria aceite por todas as pessoas. Como esclarecem os autores, aquando da oração “venha a nós o vosso reino”, entender-se-á venha a nós esse tempo de Deus connosco (3).
Toda esta análise continua até encontrarmos outra ideia que facilmente reconhecemos no nosso imaginário colectivo: S. Pedro com as chaves do Paraíso. Segundo os escritores deste livro, esta ideia surge da junção de duas passagens bíblicas: Jesus diz que dará a Pedro as “chaves do reino dos céus”(4), no Evangelho de S. Mateus; e, de acordo com as visões de João no Livro do Apocalipse, na Nova Jerusalém encontram-se doze portas, sendo cada uma delas paradisíaca – daqui chegamos à imagem de S. Pedro às portas do paraíso.
Também o conceito da estética do Céu varia. Há quem o imagine como um local suspenso nas nuvens, ou então como um magnífico prado relvado. Ambas as imagens chegam ao nosso imaginário colectivo através de representações artísticas da Idade Média e do Renascimento (5). Esta visualização depende ainda da seita ou religião seguida por determinada pessoa.
É claro que o livro aborda outras questões e as várias abordagens por parte dos filósofos ao longo do tempo. A título de exemplo, podemos encontrar as questões sobre o que é viver a vida, a problemática do absurdo da vida, o tema do suicídio, reflexão sobre as vantagens e desvantagens da imortalidade, a relação entre as novas tecnologias e as ciências da saúde, e outros temas.

Fonte:
Cathcart, T. & Klein, D., “Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso”, Publicações D. Quixote, Alfragide, 2010 – tradução de Isabel Veríssimo

Para saber mais:

Notas:
(1) – Como explicado pelos autores, é um regresso à vida, e não a continuação da vida noutro lugar.
(2) – Lembrar de um dos mandamentos do Antigo Testamento, o de não invocar o nome de deus em vão.
(3) – O texto referente a esta discussão pode ser encontrado em: T. Cathcart & D. Klein (2010), pp. 132-143.
(4) – O que se deveria entender é que Pedro iria ter um papel importante no anúncio do novo tempo, ou nova era.
(5) T. Cathcart & D. Klein (2010), pp. 148-164.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

In Memoriam

É com pesar que recentemente vemos desaparecer algumas conhecidas figuras do nosso panorama cultural. O Armarium Libri recorda e homenageia aqui a memória da escritora Matilde Rosa Araújo (1921-2010), do escritor José Saramago (1922-2010), do escritor João Aguiar (1943-2010), do actor António Feio (1954-2010) e do biólogo e historiador da ciência Carlos Almaça (1934-2010). O falecimento de figuras desta qualidade causa sempre prejuízos irreparáveis, cujos efeitos só se podem medir a longo prazo. No entanto, outra geração cá fica para continuar e inovar.

O estranho caso do padre ateu

Muito brevemente, refiro a existência de um livro intitulado “Deus maldito” (1999), escrito pelo teólogo Hermínio Araújo. O próprio título é um irónico jogo de palavras, dirigido aos que fazem uma interpretação literal da bíblia (ou seja, uma interpretação incorrecta) (1), encontrando nela, assim, um deus maldito. Isto porque o deus do Antigo Testamento aparenta ser uma entidade vingativa, que castiga e que destrói (em oposição do deus do novo testamento) (2). Defende o teólogo que esta é uma descrição incorrecta do deus cristão, logo, deus torna-se mal dito (ou, como salienta, dito mal). Deste modo, o padre assume-se como ateu, mas ateu perante este deus “mal dito”. Informa o padre que o verdadeiro deus cristão é um deus de amor e de perdão, e é neste deus que ele crê.

Trata-se de um livro bastante curto e com informação sucinta. São sete os capítulos: 1 –Sou ateu; 2 – Deus inútil; 3 – Deus impotente; 4 – Deus imoral; 5 – Deus injusto; 6 – Deus ilógico; 7 – Amor maldito. Esta técnica, utilizada na apresentação dos capítulos, é a mesma usada em alguns sermões para que a audiência se questione e preste atenção ao modo como o orador explicará as suas afirmações (recordar sermões do padre António Vieira). Assim, o padre desmistifica (ou justifica) cada um dos títulos, ou as concepções erradas de deus.

O padre franciscano escreveu este livro com o intuito de apresentar “tópicos para uma reflexão teológica”(3).

Sobre o autor do livro:
“Frade e padre franciscano. Licenciado em teologia (Lisboa) e especializado em ética teológica (Roma). Reitor do Seminário das Missões Franciscanas. Assistente Nacional da Juventude Franciscana Portuguesa e Capelão da Clínica Psiquiátrica de S. José.” (4)

Fonte:
Araújo, H., “Deus maldito”, Editorial Franciscana, Lisboa, 1999

Notas:
(1) – A Bíblia é um conjunto de livros com uma escrita simbólica, não devendo ser interpretada literalmente. Na introdução da maioria das Bíblias (pelo menos nas católicas) vem a informação de que as mesmas não servem como livros de história nem de ciências, são livros de religião, logo, apenas de crenças. A sua interpretação literal (ou de qualquer livro sagrado) tende a levar ao fanatismo religioso.
(2) – O Antigo Testamento tem uma origem na cultura Semita, e é comum às três religiões ocidentais, a saber: judaísmo, cristianismo e islamismo. O Jesus histórico vem criar uma ruptura epistemológica com esta religião e apresentar uma nova doutrina e, por conseguinte, uma nova cultura, logo, também uma nova visão de deus – o deus cristão.
(3) – Hermínio Araújo (1999), p. 9
(4) – Idem, p. 5

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Fim da Pobreza

“O Fim da Pobreza” é um livro de divulgação da área das ciências económicas, da autoria do economista norte-americano Jeffrey Sachs. Segundo a tese do autor, é explicado que é possível acabar com a pobreza extrema no Mundo se todos os países se empenharem nessa missão, como acordado no Projecto do Milénio assinado pela comunidade internacional. O Projecto do Milénio foi criado em 2002 por Kofi Annan, então Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O objectivo desta iniciativa é planear e executar um plano global que permita que vários países atinjam as medidas estabelecidas pela ONU até 2015. São oito, essas medidas, a saber: 1) Erradicar a fome e a pobreza; 2) Conseguir educação fundamental para todos; 3) Promover igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; 4) Reduzir a mortalidade infantil; 5) Melhorar a saúde maternal; 6) Combater a Sida, malária e outras doenças; 7) Garantir o desenvolvimento em equilíbrio com a natureza; 8) desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento.
Mas o que saliento em termos de importância neste livro é a explicação clara dos assuntos abordados, assim como a desmistificação de alguns preconceitos sociais. A mais-valia deste livro é o facto de o autor, no seu currículo, ter muito trabalho de campo, em contacto com as pessoas e com as situações dos países que analisa, quer se trata da Bolívia ou da Polónia quando sofreram hiperinflação, quer se trate da pobreza na Ásia e na África.
Na versão portuguesa, este livro conta com os prefácios do músico Bono, e do padre Vítor Melícias.
Este livro, devido à sua importância (cultural, cívica e humanista), merecerá mais desenvolvimento neste blog, o que, por uma questão de espaço, não nos é permitido fazer agora neste texto.

Sobre o autor:
Jeffrey D. Sachs formou-se na Universidade de Harvard, onde leccionou durante 20 anos. Especialista na área da luta contra a fome, doença, pobreza e a dívida de países do Terceiro Mundo, tem escrito centenas de artigos sobre estas temáticas. É director do Instituto da Terra (Earth Institute), professor na Universidade de Colúmbia, conselheiro especial do anterior secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, e director do Projecto Milénio da ONU. O seu trabalho como conselheiro económico dos governos da América Latina, Europa do Leste, Ásia e África, trouxe-lhe reconhecimento internacional.

Fonte:
Sachs, Jeffrey; “O Fim da Pobreza – como consegui-lo na nossa geração”, Casa das Letras, Cruz Quebrada, 2006 – Tradução de Paulo Tiago Bento

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Menina na Praia, de Ofélia Marques

A pintura da imagem faz parte da obra de Ofélia Marques (1902-1952), esposa de Bernardo Marques (1899-1962), célebre artista moderno. Ofélia Marques começou por se licenciar em Filologia Românica, mas veio a tornar-se numa pintora talentosa, até premiada com o Prémio Souza Cardoso. As cores vivas da Menina na Praia, bem como as formas simples, contribuem para a candura da obra. Assim, o resultado pictórico relativamente elementar, sem definições excessivamente pormenorizadas, e o olhar enigmático da rapariga poderiam ser como que dois traços da memória da infância: a lembrança vaga dos acontecimentos e o encanto, por vezes ambíguo, que lhes são o ambiente.
Fonte: Manuel Alves de Correia, O Grande Livro dos Portugueses, Círculo de Leitores, 1990, p.338.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Le Petit Nicolas


Uma das coisas mais saudáveis da vida é poder relembrar os emocionantes, imprevisíveis e alegres dias de escola por que se passou. Fica desses tempos a recordação da simplicidade das coisas e de certa inocência no olhar para tudo. Quando se chega a adulto, mudam as circunstâncias. Como viver não é de graça, pelo menos nalguns aspectos, é necessário trabalhar, ser responsável pelo que se faz e, eventualmente, por uma família. Para que haja crianças com o seu pleno direito à infância, é preciso haver adultos que vão resolvendo os problemas complicados do quotidiano. Fica então todo o espaço para a espontaneidade desempoeirada dos petizes. Decerto se tem escrito muito sobre isto em literatura, mas continuamos a pensar que as aventuras do petit Nicolas são únicas e muito recomendáveis para todas as idades. Pela voz do próprio Nicolas, um menino que anda na primária, acompanhamos o seu dia-a-dia na escola, as suas brincadeiras, partidas, jogos de futebol e brigas com os amigos. Não faltam personagens-tipo, como o Alceste – guloso da turma –, Clotaire – o pior aluno –, Geoffroy – o rapaz cujos pais são ricos –, Eudes – o rapaz brigão –, ou Agnan – o melhor aluno, afectado e misantropo. Sobretudo, há uma grande ternura na narração e um convite ao optimismo juvenil, como seu natural apanágio. Por vezes, a simplicidade das crianças leva a que sejam mais sensatas que os próprios pais. É o que acontece no dia em que Nicolas recebe uma bicicleta nova. Quer o seu pai, quer o seu vizinho (que são rivais) começam a exibir as suas proezas, atraindo até os risos de mofa das pessoas, pois são dois adultos numa bicicleta de criança. A bicicleta acaba por se inutilizar e Clotaire, a quem já acontecera o mesmo, diz a Nicolas: “É sempre a mesma coisa com os pais: fazem disparates e se não estamos com atenção, estragam as bicicletas e aleijam-se.”[1] Estas histórias, da autoria de René Goscinny (1926-1977)[2], com ilustrações de Jean Jacques Sempé, estão traduzidas em Portugal, mas se o leitor souber francês aconselhamos vivamente a leitura do original, que nos parece superior.

Alguns títulos:


Portugal (Teorema):
As Aventuras do Menino Nicolau
As Férias do Menino Nicolau
As Brincadeiras do Menino Nicolau
O Menino Nicolau e os Amigos
O Balão do Menino Nicolau
O Regresso do Menino Nicolau
, 3 vol.

França:
Le Petit Nicolas
Les Récrés do Petit Nicolas
Les Vacances du Petit Nicolas
Le Petit Nicolas et les Copains
Le Petit Nicolas a des Ennuis
Les Bêtises du Petit Nicolas
Six Histoires Inédites du Petit Nicolas
Le Petit Nicolas et ses Voisins
Le Petit Nicolas Voyage
La Rentrée du Petit Nicolas
Les Surprises du Petit Nicolas
Le Petit Nicolas s’ Amuse

Notas:
[1] Sempé-Goscinny, Le Petit Nicolas, Éditions Dënoel, 1999, p.117.
[2] Também co-autor de Asterix e Lucky Luke.

A imagem vem do livro Le Petit Nicolas et les Copains, Éditions Dënoel, 1994 (capa).

domingo, 27 de junho de 2010

O Mundo de Sofia


Sobre o Livro:
Conta a estória de uma jovem rapariga, Sofia, que começa por receber pelo correio cartas com perguntas estranhas, como “Quem és tu?” e “De onde vem o Mundo?”. Seguem-se mais cartas com mais interrogações, mas também com explicações. Vem a descobrir, mais tarde, que quem tem andado a remeter-lhe a correspondência é um professor de filosofia, Alberto Knox, com o intuito de dar-lhe a conhecer não só a disciplina, mas levando Sofia numa interessante, e igualmente fascinante, viagem pelo pensamento filosófico ao longo dos séculos, desde a época dos filósofos pré-socráticos e da Antiguidade, passando pela Idade Média, Renascimento, Iluminismo, até ao presente. O enredo adensa-se quando Sofia recebe postais de um major, de nome Albert Knag, funcionário da ONU em missão no Líbano, mas esses postais são destinados a Hilde, filha do militar. Para além da reflexão dedicada às lições que tem recebido do filósofo, Sofia debruça-se ainda a tentar descobrir quem é Hilde, e por que razão o major envia postais para a sua residência. Este é um romance repleto de reviravoltas, em que nem tudo o que parece é.

O autor aborda uma variedade de acontecimentos e de personagens históricas, mas, mais relevante ainda, faz a contextualização no período em análise, algo muito importante em história. Esta contextualização histórica da sociedade ocidental é extremamente importante para a nossa formação individual e enquanto cidadãos, para melhor compreensão da sociedade que nos rodeia. O autor salienta esta importância logo na abertura do livro, com uma citação do pensador e escritor alemão Johann Wolfgang Goethe: “Quem não sabe prestar contas de três milénios permanece nas trevas ignorante, e vive o dia que passa.”

Se bem que este é um romance inicialmente dedicado a jovens, na minha opinião pode e deve ser lido por pessoas de todas as idades, e por todo o público. Se o leitor gosta de temas como filosofia, história, ciência, religião, política, aventura, mistério, suspense, ou simplesmente de boa literatura, então este é um excelente livro para si. Não se trata apenas de uma leitura de lazer, mas de uma aprendizagem informal.

Sobre o autor:
Jostein Gaarder nasceu em 1952, estudou Línguas Escandinavas e Teologia na Universidade, foi professor de Filosofia, e é autor de diversos contos e romances para crianças jovens. Ganhou vários prémios literários, mas foi com “O Mundo de Sofia” (1991), a sua obra mais conhecida, que ganhou uma maior projecção internacional. Desde 1993 dedica-se exclusivamente à carreira literária.

Fonte:
Jostein Gaarder, “O Mundo de Sofia”, 29ª edição, Editorial Presença, Barcarena, 2009 – tradução de Catarina Belo.

O regresso de Salgari


O escritor italiano Emilio Salgari (1862-1911) é uma das referências mais perenes da cultura popular europeia, senão mundial. E, no entanto, como o Charlot que no imaginário do público substituía o Chaplin seu criador, fica muitas vezes na sombra de heróis como o Sandokan. Os livros de Salgari eram um dos supremos prazeres da juventude portuguesa desde o início do século XX, mas o autor terá ficado um tanto esquecido durante os anos ’80 e ’90. Outros heróis mais espectaculares, mas menos humanos, tomaram o lugar das suas personagens: lembramos, ao acaso, o Sangoku, as criaturas bizarras do Pokemon, os X-Men e as Tartarugas Ninja. Porém, há um certo amadurecimento que se consegue com o passar dos anos e dos trabalhos e que devolve aos antigos fãs destes heróis irreais o gosto por uma boa aventura salgariana, em espaços verosímeis, com personagens coerentes e humanas, deixando no leitor uma impressão saborosamente realista da ficção. Falamos assim, pois Emilio Salgari está a regressar às livrarias portuguesas em edições modernas. Para quem não o conhece ainda, este autor nasceu em Verona (Itália) a 21 de Agosto de 1862 numa família burguesa, estudou no Instituto Técnico Naval de Veneza, tendo podido viajar e descobrir o seu talento literário, pois “alguns apontamentos sobre as suas impressões de viagem despertaram nele a vocação de escritor e, em 1883, iniciou-se no periódico milanês La Valigia, com um conto intitulado Os Selvagens da Papuásia.”[1] Fixado na sua terra natal, Salgari começou a publicar em folhetins o romance Tay-See, que em volume teve o título A Rosa do Dong-Giang. “Deu assim início à sua, ao mesmo tempo feliz e atormentada, carreira de escritor”[2]. Casado e com quatro filhos, Emilio Salgari passou a vida preocupado com dívidas e cheio de trabalho, a fazer lembrar o nosso Camilo Castelo Branco (1825-1890), cujo génio literário nem sempre é evidente no meio do afã para assegurar mais uma refeição na mesa familiar. Assim, “da pampa às Caraíbas, da Malásia ao Oeste americano, de África ao Oriente, Salgari povoou a Terra de heróis e heroínas atormentados e arrojados, de injustiças, vinganças e paixões; não importa que nunca tenha sulcado os mares, nem tenha cruzado as selvas (...); não importa que toda a documentação tenha sido obtida na biblioteca pública, nem que nunca tenha sido um herói de verdade. Salgari foi algo mais, foi e é o pai dos heróis, o que permite que todos os seus leitores sulquem os mares, ele que nunca navegou [sic], e combatam a injustiça com a mesma valentia dos heróis com quem sonhou.”[3]
De Emilio Salgari estão disponíveis em Portugal:

Os Mistérios da Selva Negra, Temas e Debates, 2003
O Corsário Negro, Via Óptima, 2009 (ou Temas e Debates, 1997)
O Capitão Tormenta, Via Óptima, 2009
A Rainha das Caraíbas, Via Óptima, 2009
Viagem sobre o Atlântico em Balão, Sopa de Letras, 2010

Notas:
[1] Emilio Salgari, Os Mistérios da Selva Negra, Lisboa, Temas e Debates, 2003, p.5 (nota introdutória sobre a vida de Salgari, que aqui seguimos).
[2] Ibidem.
[3] Ibidem, p.6.
A imagem exposta acima vem da Nova Enciclopédia Larousse, dir. de Leonel de Oliveira, vol.20, Círculo de Leitores, 1999, p.6181.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Workshop Compostagem - Lagartagis

A Lagartagis vai realizar este Sábado, 19 de Junho, às 11h, um workshop de compostagem doméstica [1]. Serão abordados quais os materiais e os melhores organismos a utilizar e quais os cuidados a ter com o compostor.

Esta actividade é dirigida ao público em geral, e a grupos familiares. As inscrições terminam no dia 17 de Junho.

Mais informações em:

Serviço de Extensão Pedagógica (SEP)

Lagartagis – Museu Nacional de História Natural
Jardim Botânico
Rua da Escola Politécnica, 58
1250-102 Lisboa
E-mail: lagartagis@museus.ul.pt
Telf: 210 443 510



[1] Este tema já foi abordado neste blog, aqui.

domingo, 13 de junho de 2010

"Cultura Científica 2010"

Cultura Científica 2010


Nesta última terça-feira, 8 de Junho, celebrou-se o dia do Agrupamento na escola Nº3 dos Olivais, Piscinas. Neste dia, os alunos participaram em actividades desportivas, exibiram os seus trabalhos realizados ao longo do ano lectivo, e visitaram as salas de aulas que possuíam diferentes exposições dedicadas às várias disciplinas. O estabelecimento de ensino esteve aberto também a ex-alunos, encarregados de educação e às outras escolas do Agrupamento.

Uma vez mais, em semelhança ao ano anterior, fui convidado pelas docentes da disciplina de Ciências Naturais para realizar um evento que complementasse as actividades que viriam a ser desenvolvidas no âmbito do dia do Agrupamento. Desta vez, a iniciativa organizada adquiriu a designação de “Cultura Científica 2010”, tendo como objectivos levar a ciência e os cientistas à escola, dar a conhecer as instituições científicas aos professores e possibilitar a troca de contactos e de experiências entre as várias instituições.

Logo de manhã montou-se a exposição “Laboratório de Imagens”, emprestada pela Associação Viver a Ciência (VaC), com fotografias tiradas durante o processo de investigação científica. Estas figuras expostas serviram de base a um concurso dirigido aos alunos, que pretendia que estes reinterpretassem as imagens, representando o conceito observado de uma outra perspectiva (prémios para os melhores desenhos). Antes do almoço ainda houve tempo para duas palestras, uma sobre a Biodiversidade (por João Monteiro) e outra sobre a importância da História (por Luís Henriques).

De tarde, houve uma palestra sobre insectos no geral e as borboletas e suas metamorfoses em particular (por Lagartagis). Também o Instituto Gulbenkian Ciência (IGC) esteve presente, abordando a questão da hereditariedade, e realizando a extracção de ADN com recurso a reagentes caseiros. Paralelamente a estas actividades, no exterior da sala, a empresa de divulgação científica Neurónios Curiosos realizava actividades interactivas destinadas à jovem audiência, como demonstrações de um vulcão em erupção, metamorfoses de insectos, produtos obtidos através da reciclagem de materiais usados, entre muitos outros.

De salientar que o Jardim Botânico de Lisboa não conseguiu estar presente, mas colaborou fornecendo uma chave dicotómica para a identificação de plantas, que foi usada no final da palestra da biodiversidade. Após a observação de algumas imagens de plantas, os alunos tiveram de identificá-las com recurso à chave dicotómica fornecida, relembrando o modo de usá-la e a sua importância para a identificação das espécies vivas.

Também o Zoomarine colaborou nesta iniciativa, fornecendo material de divulgação.

Desde já, os meus agradecimentos a estas instituições, assim como ao Luís Henriques (apoio na organização) e à comunidade docente, em particular à Professora Elsa Costa (ligação à escola).

Tal como no ano passado, foi oferecido um livro para a biblioteca da escola. Desta vez ofereci "Os Amigos da Menina do Mar", da autoria da bióloga Raquel Gaspar (VaC), no âmbito de um projecto em colaboração com o Instituto Português de Oncologia (IPO), que visa obter fundos para a investigação oncológica.

Colaboraram neste evento:
- Associação Viver a Ciência (VaC): http://viveraciencia.org/index/

- Instituto Gulbenkian Ciência (IGC): http://www.igc.gulbenkian.pt/

- Jardim Botânico de Lisboa (com material de divulgação): http://www.jb.ul.pt/  


- Neurónios Curiosos: http://www.neuronioscuriosos.pt/

- Zoomarine (com material de divulgação): http://www.zoomarine.pt/start.php e http://zoomarineblogue.blogs.sapo.pt/

"Neurónios Curiosos" rodeados de jovens super interessados.



Lagartagis fala da metamorfose das borboletas para uma audiência atenta.

O IGC explica os fenómenos de hereditariedade, e procede à extracção de ADN com reagentes caseiros! 










Novamente este ano, a Evolução de Charles Darwin marcou presença neste evento. Aliás, bem a propósito, termino este texto com a frase do biólogo Dobzhansky (1900-1975): "Nada em Biologia faz sentido sem ser à luz da Evolução".