terça-feira, 5 de outubro de 2010

Raul Lino e a Casa do Cipreste



Raul Lino: um arquitecto de formação alemã

Raul Lino nasce em 1879 em Lisboa. O seu pai toma a decisão de inscrevê-lo num colégio em Inglaterra na região de Windsor, aos 10 anos. Inglaterra nestes anos vivia o Domestic Revival assim como o Arts and Crafts, o que, juntamente com o contacto com a arquitectura inglesa, poderá ter influenciado a formação do arquitecto.
Três anos depois, a Alemanha (Imperial) é a escolha seguinte do pai para a formação do seu filho. Deste modo, Lino aprenderia a língua enquanto estudaria na Handwerker und Kunstgewerbeschule, em Hanover. Teve aulas teóricas da Technische Hochschule e aprendeu os ofícios e principios técnicos mais desenvolvidos para se tornar arquitecto. Conheceu Albrecht Haupt, profundo conhecedor da arquitectura portuguesa de quinhentos, que lhe ensinou a olhar para a arquitectura de Portugal. William Morris e John Ruskin eram já nomes populares na Alemanha.
A sua convivência com Haupt durante os dois anos de trabalho no seu atelier deu a Lino uma sólida formação germânica, enriquecida pela leitura de Thoreau e Goethe. Thoreau tem extrema importância na formulação do pensamento de Lino na medida em que este aprende a valorizar o habitat natural do homem que a sociedade industrial ia esquecendo. Também no contexto alemão Lino vai aprender os valores de uma teoria arquitectónica da espacialidade (lançadas por Schmarsow e por Hildbrand no ano de 1893 – chegada de Lino a Alemanha).
Regressa a Portugal em 1897 e encontra um país rural, atrasado em relação à Europa que conheceu. Já prevenido pelo seu mestre, Raul Lino chega ao seu país com um olhar atento e compreensivel, numa tentativa de o reconhecer. Nasce “
a tentativa de recuperar os valores de um habitar, valorizando-os num contexto de um Portugal possível[1].
Inicia a sua vida profissional com encomendas colocadas pelos seus amigos-clientes para a zona de Cascais e Estoril, onde é evidente a marca deixada pelas viagens a Marrocos e ao Alentejo, onde viu a arquitectura portuguesa meridional.
Azulejos, cerâmicas, vitrais, mobiliário e até bordados são áreas que Lino foi desenvolvendo ao longo da sua vida, mostrando assim uma enorme maleabilidade e vontade de integrar a arte na vida humana.



A transição do século e a proposta de Raul Lino

O oitocentismo artístico foi marcado por um forte sentimento pátrio que se reflectiu sobretudo na arquitectura. Caracterizado pelos mais diversos revivalismos, o século XIX vai conhecer nos seus últimos anos uma “
ruptura da civilização[2] (p.507) apoiada por novos instrumentos da Revolução Industrial (telefone, electricidade, motor de explosão, aeroplano, etc). Assim, surge uma nova mentalidade cujas linhas de força apontavam para conceitos como o funcionalismo e a técnica, ambos em confronto com as convenções académicas e a ideia de arte. A engenharia pujante propunha novas técnicas e materiais que valorizavam a operacionalidade. O século XX (primeiras duas décadas) viu-se, por isso, culturalmente dividido entre progressistas apologistas desta nova modernidade e românticos ou culturalistas que a rejeitavam, onde se inseria Lino. A arquitectura vai assim caracterizar-se por um ecletismo resultante de uma sociedade portuguesa financeiramente fraca para banalizar a nova proposta e de uma Academia insegura, que perde forças na transmissão da mensagem da arte como valor espiritual graças ao maquinismo industrial que se vinha impondo na sociedade.
É neste contexto que surge Raul Lino, mais precisamente numa linha de reacção contra a de Ventura Terra, em Lisboa, e Marques da Silva, no Porto. Estes arquitectos distinguem-se de Lino não só pela formação parisiense que tiveram mas também pela proposta pragmática e racional que apresentaram. Com Ventura Terra, a cidade de Lisboa recebe uma série de projectos para equipamentos na área social, da saúde e educação, dotados de um programa técnico e utilitário. Quanto a Marques da Silva, a sua importância para o Porto consiste também num programa para equipar a cidade, nalguns casos assumindo um claro funcionalismo. O concurso realizado para o projecto do pavilhão de Portugal para a Exposição Universal de Paris de 1900 testemunhou o confronto entre os dois arquitectos Lino e Terra. A proposta de Lino apresenta pela primeira vez uma abordagem que se prende a valores nacionais, vencida pela proposta de Ventura Terra.
Raul Lino foge à prática das beax-arts vigente em Portugal e cria uma linha de pensamento “
encarada no contexto da pastoral visão idílica do campo, onde se refugiou o sector mais culto da sociedade portuguesa[3] a geração de 90, composta por nomes como Teixeira de Carvalho, Ribeiro Artur, Pessanha, Fialho, historiadores e críticos de arte que elogiavam e apoiavam o jovem arquitecto. Sobre este sentimento nacionalista já se tinha pronunciado a geração de 70 (Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro).
Sustentadas por uma sólida base quinhentista que o seu mestre lhe passara, as ideias de Lino recuavam à matriz arquitectónica do século XVI para encontrar “
numa coerência histórica, nacional e «genuína»[4] a definição de uma «casa portuguesa», que traduzisse o modo de ser e de estar português. Apesar das constantes interpretações que esta ideia teve, como por exemplo a definição de casa portuguesa num contexto nacional ou num contexto de província, Raul Lino procurava materializar, sobretudo em moradias individuais, numa arquitectura moderna, um carácter estético português que atentava àquilo que Portugal tem de característico. Esta ideia é dada por Ana Tostões quanto à côr, luz, clima, materiais típicos de cada região que ajudam a dar esse sentido nacional, enquanto que J. Augusto França encontra cinco pontos na prosposta de Raul Lino: a utilização do alpendre, a cobertura sanqueada e arrematada pelo beiral, a cal branca que revestia toda a cobertura parietal, os vãos evidenciados pela cantaria e o emprego dos azulejos.

A Casa do Cipreste

Em 1912 Raul Lino decide construir a sua própria residência familiar em Sintra, na Calçada de São Pedro.
O terreno irregular e a pique foi fundamental para um projecto sentimentalmente estudado pelo arquitecto, cujas ideias de Thoreau se faziam sentir na escolha de uma construção inserida na Natureza. Esta “
obra de arquitectura doméstica[5] é contida no seu exterior, não perceptivel ao cidadão comum que passeia pela Calçada de São Pedro.
A casa segue a irregularidade do terreno, como uma construção orgânica que se desenvolve conforme os limites naturais. É organizada em torno de um pátio exterior ajardinado que tem um papel nuclear na relação interior-exterior. Esta está patente em elementos interiores exteriorizados (o átrio) e elementos exteriores interiorizados (a varanda), que acentua a procura de um jogo dinâmico entre o homem e a natureza que lhe dá continuidade.











Planta da Casa do Cipreste






A entrada faz-se pela zona oeste, através de escadas que fazem a ligação de cotas entre a rua e o átrio (função de acolher o homem, valoriza-se o acto de entrar em casa-abrigo). Este espaço distribui num primeiro nível para espaços de carácter mais social: sala de jantar, sala de estar e desta para a varanda. A primeira é de planta oval, virada a nordeste, com um pequeno nicho do lado direito onde existe uma lareira. A esta sala têm acesso os serviçais, sendo contíguos os espaços de serviço, a cozinha e a dispensa. De referir ainda a organização dos espaços serviçais em torno de um pequeno pátio exterior a oeste, proporcionando assim iluminação natural a todos eles. Estes espaços têm ainda uma instalação sanitária própria e uma entrada independente.



Sala de jantar


Sala de estar


Sala de estar: pormenor da varanda

Cozinha


A planta da sala de estar desenvolve-se num octógono alongado no qual se abre uma varanda rectangular a sudeste. Esta penetra no pátio exterior, numa relação de intimidade com a natureza.
O átrio faz também ligação às zonas de carácter mais privado através de um corredor de distribuição. Deste tem-se acesso aos quartos, virados a sudeste e com vista sobre o pátio exterior, sendo que o quarto principal está servido por um quarto de vestir que liga à zona de higiene. Esta é composta por três zonas distintas: lavabo, instalações sanitárias e quarto de banho, este último com vista para o pátio.
Uma arcada em L no exterior enquadra o pátio protagonista, sendo rematada pelo atelier do arquitecto, que tem ainda uma entrada pelo exterior. O volume do atelier sofre uma rotação que contrasta com a ortogonalidade da arcada, realçando a clausura do pátio.
















De referir também a relação entre a envolvente natural rude e rochosa com o pátio exterior ajardinado que acentua a relação homem-natureza. Sendo o seu desenho de carácter orgânico, toda a casa é pensada para o homem contemplar a natureza: do pátio exterior, da envolvente natural, e até das vistas que Sintra oferece (serra pontuada por símbolos como o Palácio da Pena ou o Castelo dos Mouros). Alexandre Rey Colaço, um dos seus amigos, defendia que a casa devia fechar-se à rua e abrir-se para o jardim, ideia que Lino veio a utilizar para enaltecer a relação com a natureza. As suas obras têm sempre um carácter islamizante, no qual o Palácio de Sintra tem um papel fundamental, tendo sido este um palácio (de fadas) que conhecera desde sempre. A Casa do Cipreste serve os principais traços de personalidade do artista, a meditação e a independência.



Para ele, como para os seus amigos-clientes, arquitectura não é fachada mas sim um espaço para viver com coisas, com coisas que dimensionam o espaço[6], tais como os objectos que compõem o mundo das artes decorativas que na Casa do Cipreste vão ser evidentemente valorizadas. A sala de jantar é decorada por um enorme painel decorativo de pintura a fresco, com motivos vegetalistas, cujo plano coube ao próprio Raul Lino (foi pintado por um professor da Escola Industrial de Setúbal). Quanto aos azulejos, são sobretudo de padrão (com motivos diversos como espirais e linhas onduladas), coloridos e recortados com o seu próprio desenho na parede, que apesar das reminiscências do passado (possivelmente mudejares) apresentam uma linha moderna (existe uma relação plástica entre a parede e o motivo desenhado, muitas vezes ganhando espessura).
O ambiente é controlado pelas peças decorativas, numa tentativa de dar um sentido de espacialidade e um ritual de vivência.


*


Raul Lino, arquitecto considerado por José Augusto França como arquitecto da geração de 90, inspira-se no século XVI para a procura de uma «Casa Portuguesa» que fizesse juz à maneira de ser e de estar portuguesa, ao qual não é alheia a arquitectura mudejar alentejana. Contra o racionalismo, “
contra o estilo «à antiga portuguesa»” [7] e a favor de um espirito nacional, Lino condensa na sua residência em Sintra todas as experiências e ideias que marcaram o seu pensamento (principalmente até à decada de 1920). Projecto de desenho orgânico que põe em evidência a relação do homem (como indivíduo e não Homem como humanidade) com a natureza, tem sempre em conta a noção de espacialidade e de valores como beleza, nobreza e subtileza, valores que pretendem alcançar a proporção (valor tão caro à arquitectura). As artes decorativas enaltecem o sentido da arte como parte integrante na vida humana, sendo que o azulejo e a pintura a fresco ganham novos contornos no revestimento parietal da Casa do Cipreste.
Cipreste é a árvor
e da solidão, da liberdade, do bem. Raul Lino estava só num mundo artístico que olhava para outras propostas que não a do próprio, que partia à descoberta de uma “Casa Portuguesa”. Contudo, nunca deixou de ser um homem livre, que medita em paz com a natureza. É curioso reparar que a porta de entrada para a residência tem um vitral no qual se pode ler o referido verso: “Se tiveres de sobejo, sê liberal como a tamareira. Se nada tiveres para dar, então sê um azad, ou um homem livre, como o cipreste”. Aqui é possivel entender como Lino se identificava com esta árvore. A acompanhar a representação do cipreste e dos versos, estão dois símbolos que remetem para as ondas luminosas do bem e para o caminho para a perfeição.

[1] Cit. in Almeida, Pedro Vieira; Fernandes, José Manuel – História da Arte Portuguesa. Edições Alfa:1986. Volume 14 (pág. 82)

[2] Cit. in Pereira, Paulo (dir.) – História da Arte Portuguesa. Lisboa: Temas & Debates, 1995, volume 3 (pág. 507)

[3] Cit. in Dalila Rodrigues (coord.), Tostões, Ana – Arte Portguesa: da pré-história ao século XX. Volume 16 (pág.15)
[4] Cit. in França, José-Augusto – História da Arte em Portugal no século XIX. Volume 2. Lisboa: Bertrand 1966 (pág. 160)

[5] Cit. in França, José Augusto – Raul Lino: exposição retrospectiva da sua obra. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1970 (pág. 90)
[6] Cit. in Carvalho, Manuel Rio – Raul Lino: exposição retrospectiva da sua obra. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1970 (pág. 198)
[7] Cit. in França, José Augusto – Raul Lino: exposição retrospectiva da sua obra. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1970 (pág. 106)

Viva a República!

Hoje, dia 5 de Outubro de 2010, celebra-se o centenário da República Portuguesa.
Viva a República!
Imagem retirada do site da Embaixada de Portugal no Brasil

domingo, 3 de outubro de 2010

Ciclo de Conferências - 100 anos da República

Realizar-se-á, em Outubro, um ciclo de conferências sobre a primeira tentativa de implementação da República em Portugal com o golpe de 31 de Janeiro de 1891.
Esta iniciativa é organizada pelo Instituto de História Contemporânea (IHC) e pela União das Associações de Comércio e Serviços (UACS), e coordenada por Paulo Jorge Fernandes e Daniel Alves, tendo lugar na Sala do Conselho, sede da UACS, Rua Castilho, 14, Lisboa.

Programa:
- Maria Antonieta Cruz, Univ. do Porto, “O Golpe de 31 de Janeito de 1981: uma ousadia breve?” Data: 11 Outubro de 2010, 18h.
- Isabel Corrêa da Silva, ICS, Univ. de Lisboa, “O espelho fraterno: o Brasil no imaginário do 31 de Janeiro” Data: 18 Outubro 2010, 18h.
- Daniel Alves, IHC, FCSH, Univ. Nova de Lisboa, “O «31 de Janeiro» dos lojistas: republicanismo e participação eleitoral do pequeno comércio lisboeta”. Data 25 de Outubro de 2010, 18h.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Congresso Psicologia Positiva

Divulga-se, junto de todos os interessados, que irá decorrer, nos dias 29 e 30 de Setembro, o 1º Congresso Português Internacional de Psicologia Positiva, a decorrer no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa.


Nota: Este congresso realiza-se com o apoio da Comissão de Comemorações dos 100 anos da República Portuguesa.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Noite dos Investigadores 2010

A Noite dos Investigadores é um evento promovido pela Comissão Europeia com o objectivo de aproximar os Investigadores dos cidadãos. Centenas de cidades, de 32 países europeus irão desenvolver, em simultâneo, acções de divulgação científica, nesta sexta-feira, dia 24 de Setembro. Portugal conta com quatro cidades para este evento: Lisboa, Coimbra, Olhão e Porto.

Como noticia o site da Associação Viver a Ciência, o que se pretende com as várias iniciativas que se irão desenrolar, é “estimular a reflexão, a discussão e o debate público sobre o quotidiano dos investigadores, o poder e as limitações do trabalho que desenvolvem, os sucessos e as frustrações, as decisões que têm de assumir e o impacto da ciência na sociedade.”

Consultar o programa no site: Cientistas ao Palco

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Sociedade Medieval Portuguesa

Foi reeditada este mês pela Esfera dos Livros A Sociedade Medieval Portuguesa - aspectos de vida quotidiana, do falecido Professor A. H. de Oliveira Marques. Publicado pela primeira vez em 1964, este livro, que aborda vários temas da vida dos nossos antepassados da Idade Média, teve várias reedições, mas encontrava-se actualmente esgotado. O Prof. Oliveira Marques, competente pioneiro nos assuntos de História Medieval e da I República, analisa aqui a alimentação, o vestuário, as relações de trabalho, os passatempos, a saúde e outros temas, servindo-se quer de fontes primárias (sem descurar o que a literatura e a gravura podem revelar), quer de outros excelentes autores que, antes dele, trabalharam sobre os mesmos assuntos, como Henrique da Gama Barros (História da Administração Pública em Portugal nos Séculos XII a XV, 1885-1922) e António de Sousa Silva Costa Lobo (História da Sociedade em Portugal no Século XV, 1903), por exemplo. A reedição desta obra é tanto mais importante quanto é um facto que faltam outras acessíveis e manipuláveis sobre aspectos da vida quotidiana portuguesa. Entre o que há, podem citar-se um pouco ao acaso e sem esgotar os títulos, as de Nuno Luís Madureira (Lisboa. Luxo e Distinção. 1750-1830, 1990, p. ex.), de José Leite de Vasconcellos, do ponto de vista etnográfico (Etnografia Portuguesa, p. ex.) e os capítulos que sobre isso falam nas Nova História de Portugal e Nova História da Expansão Portuguesa (esta para o nosso antigo Ultramar). Já sem considerar o que nos diz a mera observação da vida, estas incursões científicas vêm provar que não há anedotas da História, nem histórias da História. Qualquer facto pode ser inserido num capítulo da História. Por muito pitoresco que pareça, pode e deve ter um tratamento científico, pois traz uma marca do passado. O que faz falta ir dizendo é que é necessária a submissão de todos os acontecimentos ao estudo científico: a sua crítica e a sua inclusão no sistema organizativo dos temas em História.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Escola: Sucesso para os nossos filhos

Se queremos que os nossos jovens tenham sucesso na vida, então cabe-nos incentivá-los a estudar.
Ser Pai é difícil e educar um filho não é fácil. Não existe um livro, ou um manual com uma fórmula definitiva sobre como educar um jovem. Mas uma coisa parece-me certa, se queremos o melhor para os nossos filhos devemos encaminhá-los para a educação e proporcionar-lhes, na medida do possível, uma formação cultural.
O Problema
Há uns sete anos, ia eu a meio da licenciatura, quando comecei a ouvir uma frase, que, infelizmente, é hoje um chavão, e dizia o seguinte: “Para que andam estes jovens a tirar cursos, se não têm nada a ganhar com isso? Hoje, o “canudo” já não é sinónimo de emprego”. Está claro que esta afirmação é falsa e muito prejudicial para o futuro do nosso país, em geral, e da futura geração, em particular.
A Análise
Os jovens têm muito a ganhar se completarem o ensino secundário e se ingressarem numa universidade, pois uma boa educação é sinónima de esperança num futuro melhor.
É verdade que somos bombardeados por estatísticas que referem um grande número de licenciados no desemprego, mas é preciso ver que se tratam de milhares num universo de milhões de licenciados, e que esse desemprego se restringe a determinados cursos (1). Portanto, onde quero chegar é que no geral aprender compensa.
Quanto à questão de uma licenciatura não garantir emprego por si mesma, essa situação não é de agora. É necessário realizar algum esforço, e de preferência logo enquanto alunos.
Possíveis Soluções
Ao longo do ano lectivo é possível a realização de workshops, cursos de formação, voluntariado, ou actividades num núcleo estudantil. São opções que enriquecem o currículo e servem de ferramentas de trabalho. Nesta vida tudo é incerto, e cada acção nossa aumenta a probabilidade de sucesso.
É muito importante ler. Leiam o que vos der mais prazer: literatura portuguesa ou estrangeira, livros clássicos ou contemporâneos, livros de divulgação científica ou de história das ciências, manuais teóricos ou práticos, o que quiserem, mas leiam. Leiam os avós, os pais e os filhos. Em alternativa à compra de livros, existe a possibilidade de consulta em bibliotecas públicas; em terras mais isoladas existem até as bibliotecas itinerantes.
Vão aos museus e a exposições: abram os vossos horizontes. Ao Domingo grande parte dos museus são gratuitos, informem-se.
A Notícia
Na capa do jornal i vem o seguinte título: “Sucesso = Escola; Ensine esta lição aos seus filhos. Quem estuda recebe melhores salários”. No interior do jornal encontramos dados que comprovam o que tenho vindo a dizer. Na Europa, em média, os patrões pagam duas vezes mais a quem tem qualificação superior do que a quem tem apenas o secundário. Esta diferença é maior nos países com poucos universitários, em que estes recebem quase quatro vezes mais que um não-licenciado, como é o caso português. Um licenciado irá sempre auferir um ordenado maior que um colega sem licenciatura, na mesma função e com mais experiência (2).
Passemos agora da realidade, para uma situação hipotética. Imagine-se um casal sem licenciatura, em que cada um ganhe cerca de 450€ mensais. Os dois juntos, no final do mês terão 900€ disponíveis para as despesas. Agora imaginemos um casal de licenciados em que cada um recebe cerca de 800€ mensais. No final do mês terão cerca 1600€ disponíveis. Fica para reflexão.
Conclusão
A educação e o incentivo para os estudos são uma mais-valia para qualquer cidadão. Como pais, como familiares, como amigos, deveríamos incentivar os jovens a procurarem uma vida melhor. Incutir-lhes valores como o brio profissional e a ambição, para que queiram ser ainda melhores. Somos livres, podemos escolher: nada fazer, ou agir.

Notas:
(1) – Cerca de 10% de pessoas com licenciatura entre os 25 e os 29 anos estão desempregadas.
(2) – Jornal i, Quarta-feira, 8 Setembro 2010, Ano 2, nº 418, pp. 14-17

Fanatismo Religioso

O pastor norte-americano, Terry Jones, de uma pequena igreja evangélica, Dove World Outreach Centre de Gainesville, Florida, decidiu assinalar o 9º aniversário do atentado às Torres Gémeas queimando cópias do Corão, livro sagrado dos muçulmanos. Afirma que pretende “enviar uma mensagem clara aos radicais de que não seremos controlados nem dominados pelos medos nem pelas ameaças”, segundo noticia o jornal i (1). – Agora pergunto eu, quem é que está a ser radical?

Os líderes de várias religiões já se manifestaram. O Vaticano, preocupado, já condenou esta iniciativa afirmando que todas as religiões merecem ser respeitadas (2). O líder religioso da comunidade islâmica em Portugal considera esta atitude um desrespeito pela religião, mas acredita que "no mundo os muçulmanos irão reagir pacificamente e com prudência, fazendo orações a deus para que não haja distúrbios nem complicações nas relações entre países islâmicos e o ocidente", citado pelo jornal Diário de Notícias (3).

O governo norte-americano também já se manifestou, argumentando que se a vontade do pastor persistir, o exército americano no mundo árabe pode correr perigo.

Deixo aqui algo para pensarmos: Uma pessoa é cristã porque foi educada numa cultura cristã. Se essa mesma pessoa tivesse nascido e crescido numa cultura árabe, provavelmente seria muçulmana. Não existe nenhuma religião que seja a correcta. Ainda para mais, tendo em conta que as três religiões ocidentais (Judaísmo, Cristianismo e Islão) têm a mesma origem na cultura Semita (como já referido neste blog). Este fanatismo religioso (seja muçulmano ou cristão) resulta da ignorância das pessoas. Por isso a educação é de extrema importância. Para quando um mundo tolerante? Para quando um respeito sério pela Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Termino com uma frase do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Aqueles que queimam livros, acabam por queimar homens”.

(1) - Jornal i, Quarta-feira, 8 Setembro 2010, Ano 2, nº 418, p. 12
(2) - Correio da Manhã, Quinta-feira, 9 Setembro 2010 – versão on-line consultada http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/vaticano-contra-queima-do-corao  
(3) – Diário de Notícias, versão on-line http://dn.sapo.pt/Inicio/interior.aspx?content_id=1658900 consultado no dia 9-9-2010.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Canções com História

A Música também tem História.

Já temos falado neste blog da história enquanto disciplina própria, mas também de outras suas vertentes, como a história regional ou a história das ciências. No entanto, pouco ou nada abordámos da história da música. Vou então dar um primeiro passo e desbravar caminho. Acompanhem-me.

Não sendo um especialista no tema, não vou discorrer sobre a história desta arte, mas antes divulgar alguns trabalhos recentes na área. Começo por referir a “Antologia da Música Europeia – dos trovadores a Beethoven” (década de 1970), da Sassetti, representando apenas a música ocidental europeia, e tendo início na Idade Média e Renascimento (Volume I) até ao século XIX (último volume). Esta antologia, para além dos livros, possui também uma colecção de discos em vinil.

Nas duas décadas que se seguiram, com maior ênfase na década de 1990, habituámo-nos a ver na televisão os programas do Vitorino de Almeida (n. 1940), compositor, maestro e escritor português. Esta programação de índole cultural pretendia dar a conhecer à população boa música, principalmente a designada música erudita (tem este nome em contraste com a música popular). No seguimento desta vontade de contribuir para a educação musical dos portugueses, informa, numa entrevista ao jornal “Público” (2009), que pretende leccionar um curso de História da Música para a população em geral (1).

Actualmente, na Antena3, rádio estatal, é possível ouvir a rubrica “Canções com história”, em que os apresentadores explicam o contexto em que certas músicas foram criadas, ou o evoluir da musicalidade de um determinado grupo, os percursos de algumas bandas, etc. Como é habitual em quem investiga história, de quando em quando depara-se com alguns acontecimentos que, de tão caricatos, tornam-se hilariantes. Hoje (dia 8 de Setembro), a rubrica falou de uma música da banda “Marcy Playground”. Segundo o relato do apresentador do programa, um dos músicos da banda encontrava-se a namorar com a sua companheira no quarto do campus universitário, quando foram apanhados pela colega de quarto da namorada, que ao entrar terá proferido: “smells like sex and candy”, qualquer coisa como “cheira a sexo e rebuçado”. Esta expressão ficou gravada na mente do músico e foi sendo trabalhada ao longo dos anos, até que, em 1998, editou a música intitulada “Sex and candy”, que voltou a ser tocada nas rádios (2).

Fontes:

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Sugestões de leitura

Selecção de interessantes textos que podem ser encontrados no blog De Rerum Natura:

- Análise sobre o estado da educação em Portugal, como resultado de uma conversa de há 25 anos com o ilustre Rómulo de Carvalho: A Educação está sempre mal? - texto de António Piedade

- Referência ao sucesso que têm sido as vendas dos livros Ensaios da Fundação, onde se encontra o livro O Ensino do Português, da autoria de Maria do Carmo Vieira (aqui). - Os autores do ArmariumLibri planeiam falar deste livro em breve.


Aproveito para sugerir também uma rápida leitura no nosso outro blog Raphus cucullatus.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Carlos Almaça (1934-2010) - Remissão

Faleceu no passado dia 3 de Agosto o biólogo e historiador da ciência Carlos Almaça. Sobre este antigo docente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e ex-director do Museu Bocage, escrevemos uma breve biografia em Raphus Cucullatus - www.raphus-cucullatus.blogspot.com.

Às portas do paraíso

“Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso” (2009), é um livro escrito por Thomas Cathcart and Daniel Klein que explica, através de um diálogo repleto de humor, as reflexões filosóficas de vários pensadores ocidentais sobre a vida, a morte, e a vida depois da morte.
Este é um livro interessante para quem se questiona sobre os temas analisados ou para quem quer conhecer um pouco mais de filosofia. Esta disciplina é aqui tratada de um modo informal e acessível a qualquer leitor. É possível encontrar neste livro o registo de vários filósofos tais como Platão, Descartes, Espinosa, Heidegger, Nietzsche, Camus, Sartre e até mesmo B. Russel.
O capítulo que mais me interessou talvez tenha sido o que faz referência ao conceito de Céu, ou Paraíso. Os autores tentaram compreender a origem deste conceito, e de como evoluiu até às várias concepções que fazemos do mesmo. Por exemplo, analisando o Antigo Testamento constataram que os Hebreus não tinham qualquer noção do que hoje chamamos “Céu” nem da vida depois da morte. Segundo aos autores, quando o profeta Daniel fala de “vida eterna”, refere-se-lhe em termos de ressurreição (1).
Já no Novo Testamento, quando Jesus se refere ao “Reino dos Céus”, ele quer dizer Reino de Deus. Mas como os primeiros cristãos tinham origem judaica, não usavam o nome de Deus por ser considerado demasiado sagrado (2). Assim, o Reino dos Céus, em vez de ser considerado um lugar, deve ser tido em conta como um tempo, um tempo futuro, em que a vontade de Deus se tornaria aceite por todas as pessoas. Como esclarecem os autores, aquando da oração “venha a nós o vosso reino”, entender-se-á venha a nós esse tempo de Deus connosco (3).
Toda esta análise continua até encontrarmos outra ideia que facilmente reconhecemos no nosso imaginário colectivo: S. Pedro com as chaves do Paraíso. Segundo os escritores deste livro, esta ideia surge da junção de duas passagens bíblicas: Jesus diz que dará a Pedro as “chaves do reino dos céus”(4), no Evangelho de S. Mateus; e, de acordo com as visões de João no Livro do Apocalipse, na Nova Jerusalém encontram-se doze portas, sendo cada uma delas paradisíaca – daqui chegamos à imagem de S. Pedro às portas do paraíso.
Também o conceito da estética do Céu varia. Há quem o imagine como um local suspenso nas nuvens, ou então como um magnífico prado relvado. Ambas as imagens chegam ao nosso imaginário colectivo através de representações artísticas da Idade Média e do Renascimento (5). Esta visualização depende ainda da seita ou religião seguida por determinada pessoa.
É claro que o livro aborda outras questões e as várias abordagens por parte dos filósofos ao longo do tempo. A título de exemplo, podemos encontrar as questões sobre o que é viver a vida, a problemática do absurdo da vida, o tema do suicídio, reflexão sobre as vantagens e desvantagens da imortalidade, a relação entre as novas tecnologias e as ciências da saúde, e outros temas.

Fonte:
Cathcart, T. & Klein, D., “Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso”, Publicações D. Quixote, Alfragide, 2010 – tradução de Isabel Veríssimo

Para saber mais:

Notas:
(1) – Como explicado pelos autores, é um regresso à vida, e não a continuação da vida noutro lugar.
(2) – Lembrar de um dos mandamentos do Antigo Testamento, o de não invocar o nome de deus em vão.
(3) – O texto referente a esta discussão pode ser encontrado em: T. Cathcart & D. Klein (2010), pp. 132-143.
(4) – O que se deveria entender é que Pedro iria ter um papel importante no anúncio do novo tempo, ou nova era.
(5) T. Cathcart & D. Klein (2010), pp. 148-164.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

In Memoriam

É com pesar que recentemente vemos desaparecer algumas conhecidas figuras do nosso panorama cultural. O Armarium Libri recorda e homenageia aqui a memória da escritora Matilde Rosa Araújo (1921-2010), do escritor José Saramago (1922-2010), do escritor João Aguiar (1943-2010), do actor António Feio (1954-2010) e do biólogo e historiador da ciência Carlos Almaça (1934-2010). O falecimento de figuras desta qualidade causa sempre prejuízos irreparáveis, cujos efeitos só se podem medir a longo prazo. No entanto, outra geração cá fica para continuar e inovar.

O estranho caso do padre ateu

Muito brevemente, refiro a existência de um livro intitulado “Deus maldito” (1999), escrito pelo teólogo Hermínio Araújo. O próprio título é um irónico jogo de palavras, dirigido aos que fazem uma interpretação literal da bíblia (ou seja, uma interpretação incorrecta) (1), encontrando nela, assim, um deus maldito. Isto porque o deus do Antigo Testamento aparenta ser uma entidade vingativa, que castiga e que destrói (em oposição do deus do novo testamento) (2). Defende o teólogo que esta é uma descrição incorrecta do deus cristão, logo, deus torna-se mal dito (ou, como salienta, dito mal). Deste modo, o padre assume-se como ateu, mas ateu perante este deus “mal dito”. Informa o padre que o verdadeiro deus cristão é um deus de amor e de perdão, e é neste deus que ele crê.

Trata-se de um livro bastante curto e com informação sucinta. São sete os capítulos: 1 –Sou ateu; 2 – Deus inútil; 3 – Deus impotente; 4 – Deus imoral; 5 – Deus injusto; 6 – Deus ilógico; 7 – Amor maldito. Esta técnica, utilizada na apresentação dos capítulos, é a mesma usada em alguns sermões para que a audiência se questione e preste atenção ao modo como o orador explicará as suas afirmações (recordar sermões do padre António Vieira). Assim, o padre desmistifica (ou justifica) cada um dos títulos, ou as concepções erradas de deus.

O padre franciscano escreveu este livro com o intuito de apresentar “tópicos para uma reflexão teológica”(3).

Sobre o autor do livro:
“Frade e padre franciscano. Licenciado em teologia (Lisboa) e especializado em ética teológica (Roma). Reitor do Seminário das Missões Franciscanas. Assistente Nacional da Juventude Franciscana Portuguesa e Capelão da Clínica Psiquiátrica de S. José.” (4)

Fonte:
Araújo, H., “Deus maldito”, Editorial Franciscana, Lisboa, 1999

Notas:
(1) – A Bíblia é um conjunto de livros com uma escrita simbólica, não devendo ser interpretada literalmente. Na introdução da maioria das Bíblias (pelo menos nas católicas) vem a informação de que as mesmas não servem como livros de história nem de ciências, são livros de religião, logo, apenas de crenças. A sua interpretação literal (ou de qualquer livro sagrado) tende a levar ao fanatismo religioso.
(2) – O Antigo Testamento tem uma origem na cultura Semita, e é comum às três religiões ocidentais, a saber: judaísmo, cristianismo e islamismo. O Jesus histórico vem criar uma ruptura epistemológica com esta religião e apresentar uma nova doutrina e, por conseguinte, uma nova cultura, logo, também uma nova visão de deus – o deus cristão.
(3) – Hermínio Araújo (1999), p. 9
(4) – Idem, p. 5

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Fim da Pobreza

“O Fim da Pobreza” é um livro de divulgação da área das ciências económicas, da autoria do economista norte-americano Jeffrey Sachs. Segundo a tese do autor, é explicado que é possível acabar com a pobreza extrema no Mundo se todos os países se empenharem nessa missão, como acordado no Projecto do Milénio assinado pela comunidade internacional. O Projecto do Milénio foi criado em 2002 por Kofi Annan, então Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O objectivo desta iniciativa é planear e executar um plano global que permita que vários países atinjam as medidas estabelecidas pela ONU até 2015. São oito, essas medidas, a saber: 1) Erradicar a fome e a pobreza; 2) Conseguir educação fundamental para todos; 3) Promover igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; 4) Reduzir a mortalidade infantil; 5) Melhorar a saúde maternal; 6) Combater a Sida, malária e outras doenças; 7) Garantir o desenvolvimento em equilíbrio com a natureza; 8) desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento.
Mas o que saliento em termos de importância neste livro é a explicação clara dos assuntos abordados, assim como a desmistificação de alguns preconceitos sociais. A mais-valia deste livro é o facto de o autor, no seu currículo, ter muito trabalho de campo, em contacto com as pessoas e com as situações dos países que analisa, quer se trata da Bolívia ou da Polónia quando sofreram hiperinflação, quer se trate da pobreza na Ásia e na África.
Na versão portuguesa, este livro conta com os prefácios do músico Bono, e do padre Vítor Melícias.
Este livro, devido à sua importância (cultural, cívica e humanista), merecerá mais desenvolvimento neste blog, o que, por uma questão de espaço, não nos é permitido fazer agora neste texto.

Sobre o autor:
Jeffrey D. Sachs formou-se na Universidade de Harvard, onde leccionou durante 20 anos. Especialista na área da luta contra a fome, doença, pobreza e a dívida de países do Terceiro Mundo, tem escrito centenas de artigos sobre estas temáticas. É director do Instituto da Terra (Earth Institute), professor na Universidade de Colúmbia, conselheiro especial do anterior secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, e director do Projecto Milénio da ONU. O seu trabalho como conselheiro económico dos governos da América Latina, Europa do Leste, Ásia e África, trouxe-lhe reconhecimento internacional.

Fonte:
Sachs, Jeffrey; “O Fim da Pobreza – como consegui-lo na nossa geração”, Casa das Letras, Cruz Quebrada, 2006 – Tradução de Paulo Tiago Bento