quarta-feira, 11 de maio de 2011

81ª Feira do Livro de Lisboa

Já abriu no Parque Eduardo VII, em Lisboa, a 81ª Feira do Livro. Pode ser visitada até ao próximo dia 15 de Maio, de 2ª a 5ª feira das 12h30 às 23h00, 6ª feira das 12h00 às 24h00, ao Sábado das 11h00 às 24h00 e ao Domingo das 11h00 às 23h00. São de assinalar as presenças das bancas da Madeira e dos Açores, com muitas obras de grande interesse para a História das nossas Ilhas, da banca da Chiado Editora, da Livraria Letra Livre, repetente na Feira, e das dos alfarrabistas onde a preços baixos se encontram obras preciosas. Na banca da Editorial Presença, já se pode encontrar a 2ª edição do I volume da Nova História de Portugal, dirigida pelos Profs. Oliveira Marques e Joel Serrão e coordenada pelo Prof. Jorge de Alarcão, obra esgotada há mais de 10 anos e muito procurada. Para mais informações, v.: http://www.feiradolivrodelisboa.pt/.

A Poesia de João Xavier de Matos (1730-1789)

Na senda de alguns anteriores textos de divulgação, aproveitamos para recordar aqui um poeta português do século XVIII, hoje completamente esquecido. João Xavier de Matos (1730-1789), provavelmente natural de Lisboa, terá estudado ou Leis ou Cânones em Coimbra e foi ouvidor na Vidigueira. Pertenceu à Arcádia Portuense, uma das muitas sociedades literárias aparecidas em Portugal nos séculos XVII e XVIII, com o nome Albano Erythreo. Publicou as suas Rimas em três volumes, reeditados juntos em 1800. Deixam-se dois seus sonetos, muito belos, reforçando a injustiça que constitui o desconhecimento deste autor. (Veja-se em especial o segundo poema, com um tom já romântico, a fazer lembrar o locus horrendus de Bocage.)





1.Eu vi uma pastora em certo dia
Pelas praias do Tejo andar brincando,
Os redondos seixinhos apanhando,
Que no puro regaço recolhia.

Eu vi nela tal graça, que faria
Inveja a quantas há; e o gesto brando
Com que o sereno rosto levantando,
Parece namorava quanto via.

Eu vi o passo airoso, a compostura,
Com que depois me pareceu mais bela,
Guiando os cordeirinhos na espessura.

Eu o digo de todo: vi a Estela.
De graça, de candor, de formusura
Só poderei ver mais tornando a vê-la.





2.Se eu vira num bosque onde não desse
Sinal, vestígio humano de habitado,
De verdenegras ramas tão fechado
Que inda ali de dia anoitecesse;

Se então lá de uma balça ao longe houvesse
Gemendo um mocho, e tudo o mais calado;
Só dentre alguns rochedos pendurado,
Com som medonho, um rio ali corresse;

Enfim num lugar tal onde os meus dias
Consumindo-se fossem na certeza
De não tornarem mais as alegrias;

Faminta ainda a triste natureza,
Cercada ali de tantas agonias,
Nem então se fartara de tristeza.



Fonte: Poesia Portuguesa - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto, Porto Editora, 2009, p. 640

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Sobre a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS):

A FFMS tem como missão contribuir para o desenvolvimento da sociedade, o reforço dos direitos dos cidadãos e a melhoria das instituições públicas através da promoção e da demanda pelo conhecimento da realidade portuguesa. Nos estudos efectuados, a análise deve ser rigorosa e, após a obtenção de resultados, estes devem ser divulgados e servir de base para debate, assim como para a formulação de recomendações e sugestões, tendo em vista o melhoramento das instituições e da vida em comum. Um dos grandes objectivos é disponibilizar aos cidadãos a maior massa de informação possível, pois, como explica no site da Fundação, “os cidadãos informados são os que estão mais habilitados a formar uma opinião independente e livre”. (1) Neste âmbito, foi criada a colecção “Ensaios da Fundação” cujo desígnio principal é pensar livremente.

Os Ensaios da Fundação:

Já se abordou, neste blog, um dos ensaios intitulado “Economia Portuguesa – As últimas décadas” (2010), do historiador Luciano Amaral, cujo texto pode ser encontrado aqui.

No início deste ano, foram publicados novos ensaios, dos quais destaco “A Ciência em Portugal”, da autoria de Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra, e “Filosofia em Directo”, de Desidério Murcho, professor de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil.

“A Ciência em Portugal”

Este livro é importante na medida em que ajuda a entender como funciona a ciência em Portugal – Quem financia, quem faz, como são avaliados os resultados, quem e como divulga, etc.

A obra tem início com uma introdução que faz uma análise gráfica e histórica do estado da ciência em Portugal nos últimos anos; seguido de um brevíssimo capítulo dedicado à História da Ciência Portuguesa (2). De seguida, aborda a Organização da Ciência através do papel do Ministério para a Ciência e Tecnologia, das Unidades de Investigação, Laboratórios Associados e Laboratórios do Estado; procura-se saber como está a decorrer a produção científica no nosso país e como isso pode ser avaliado (e.g. como o número de pessoas formadas, o número de artigos científicos, o impacto desses artigos, o número de patentes, entre outros); e aborda-se ligeiramente a relação triangular Ciência, Tecnologia e Economia. Os capítulos seguintes dedicam-se à relação entre a ciência e o público, dando-se ênfase à estreita colaboração com as escolas, assim como com o chamado ensino informal e o papel da divulgação científica.

O progresso de um país está estreitamente ligado ao desenvolvimento da ciência e tecnologia, e por isso é importante que os cidadãos entendam os rudimentos destas áreas. O ensino da ciência pode ser feito dentro das salas de aula (ensino formal) ou fora das salas de aula (ensino não formal, e.g. museus), sendo estes dois modos de ensino complementares. Estudos indicam que a aprendizagem de conceitos científicos por adultos faz-se ao longo da vida através de ensino não formal, mas a compreensão dessas ideias é tanto maior quanto o nível de escolarização (importância do ensino formal) (3). O autor é crítico no modo como se ensinam as ciências, defendendo que é necessário valorizar cada vez mais o papel da experimentação e do raciocínio crítico dentro das salas de aula, de modo a, por exemplo, saber distinguir ciência de pseudociência (4). Contributos positivos têm sido dados pela Agência Ciência Viva, assim como através de livros de divulgação científica (referem-se algumas editoras como Publicações Europa-América, Editorial Presença ou a Gradiva), por Museus e Exposições e por associações de ciência.

São apresentadas algumas soluções para melhorar a aprendizagem de ciências: palestras de cientistas nas escolas e em museus ou centros de ciência, realização de Dias Abertos em Universidades ou Instituições Científicas, Actividades de Verão da Ciência Viva. No final do livro, também são apresentadas ideias para ampliar a divulgação científica, como por exemplo tentar captar mais atenção dos Media, apoiar os museus e centros de ciência e fomentar novos, fomentar actividades de associativismo científico, ou promover a ligação entre Ciências e Humanidades (artes e letras).

“Filosofia em Directo”

De acordo com o prefácio do autor, este livro não tenciona ser nem escolar nem académico, e por essa razão não apresenta referências bibliográficas ao longo do texto, nem referências a filósofos antigos ou contemporâneos; pretende apenas apresentar o raciocínio filosófico, o que consegue através de inúmeros exemplos práticos ao longo da obra (para esses exemplos, o autor recorre a personagens ou a acontecimentos do livro “Os Maias”, do escritor Eça de Queirós).

Desidério apoia o leitor na reflexão de vários temas que acompanham a Humanidade ao longo de milhares de anos, como a Democracia, a Liberdade, a Autonomia, o Valor, o Sentido, a Realidade, a Contingência, o Raciocínio e a Verdade. Passo a passo, ensina-nos a reflectir filosoficamente. A título de exemplo, ainda no primeiro capítulo explica o que é a Democracia para de seguida demonstrar, através de argumentos lógicos, por que é contra a Democracia; mas isto serve de pretexto para desmontar o raciocínio anterior, demonstrando que por vezes um raciocínio pode ser lógico mas, apesar disso, estar errado por partir de premissas erradas, alertando-nos assim para a necessidade de espírito crítico.

Ao ler este livro, não pude deixar de pensar como serviria para uma boa introdução à disciplina de filosofia no secundário, ou como leitura complementar das aulas.

Notas:
(2) – Este tema é desenvolvido no livro de Carlos Fiolhais e Décio Martins, “Breve História da Ciência em Portugal” (2010).
(3) – Carlos Fiolhais, (2011), p. 56
(4) – Idem, pp. 61-62

Bibliografia:
- Carlos Fiolhais, “A Ciência em Portugal”, Fundação Francisco Manuel dos Santos & Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2011
- Carlos Fiolhais e Décio Martins, “Breve História da Ciência em Portugal”, Gradiva Publicações e Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2010.
- Desidério Murcho, “Filosofia em Directo”, Fundação Francisco Manuel dos Santos & Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2011
- Luciano Amaral, “Economia Portuguesa – As últimas décadas”, Fundação Francisco Manuel dos Santos & Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2010

domingo, 10 de abril de 2011

Pobres e Ricos, segundo W. McCay (1933)

Ilustração de Winsor McCay (1869-1934), ilustrador norte-americano, para o Seattle Post Intelligencer de 4 de Junho de 1933. Na legenda, pode ler-se "ELES ESTÃO LIGADOS: Quando a Fortuna ignora a Pobreza durante demasiado tempo, fica em perigo de ser arrastada por ela. Já aconteceu muitas vezes e há-de suceder outra vez. O homem dos dólares e do poder deveria aperceber-se disso." Apesar de McCay ser sobretudo conhecido pela sua originalíssima banda-desenhada Little Nemo in Slumberland, a imagem em questão, com outras de tema semelhante, integra-se no interesse que os intelectuais americanos começaram a sentir pela pobreza, pelos bairros sujos, pela imigração, pelo crime, pela corrupção e outros sintomas de que as sociedades ocidentais económica e laboralmente desreguladas foram, logicamente, sofrendo. Infelizmente, mesmo que a legenda seja superficial, a ilustração de McCay contém uma actualidade verdadeiramente perturbadora.


Fonte: Winsor McCay, Little Nemo in Slumberland - O Pequeno Nemo no Reino dos Sonhos, organizado e prefaciado por Richard Marschall, vol. II, Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p.9.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Flaubert e (outras) análise(s) do quotidiano - round II





Retomando o tema da publicação de João Lourenço Monteiro (11 de Outubro de 2010) que incide sobre as obras de Gustave Flaubert e as análises psicológicas que este faz das personagens, proponho uma leitura sobre o quotidiano através de objectos que se assumam relevantes no dia a dia de Emma Bovary, personagem que dá nome a uma das mais conhecidas obras de Flaubert.

No romance “Madame Bovary”, o leitor é levado a caracterizar Emma Bovary como uma mulher insatisfeita e infeliz. A protagonista vai vivendo na esperança de melhorar a sua vida, torná-la mais cultural e igualá-la aos costumes aristrocatas. A sua insatisfação constante, resultante de um casamento falhado e carregado de uma monotonia saturada pela falta de ambição (sobretudo cultural) do pequeno médico com quem se casou, leva Emma a refugiar-se na literatura e a aproveitar com intensidade todos os episódios repentinos como se fossem breves “escapes” para fugir ao desinteresse da sua vida. E é precisamente a sua vida, o seu dia a dia, que Gustave Flaubert dá a conhecer ao leitor. Ainda que o autor não expresse qualquer opinião sobre as suas personagens, a trama vai-se desenvolvendo de forma parcial, concentrando-se na enumeração e descrição dos sucessivos episódios de desespero presentes no quotidiano de Emma Bovary.

Esclarece-nos Enrich Auerbach que “Para Flaubert, o peculiar dos acontecimentos quotidianos e contemporâneos não parecia estar nas acções e nas paixões muito movimentadas, não em seres ou forças demoníacas, mas no que se faz presente durante longo tempo, aquilo cujo movimento superficial não é senão burburinho vão[1]. É neste ponto que se prende o objectivo desta leitura: analisar o quotidiano da protagonista através de outros conceitos, eles próprios intrínsecos à definição de quotidiano. Por ser este um conceito tão vasto, entendi que, para este romance em particular, os conceitos de “conversa”, “vulgar”, e “dúvida”, eles próprios estreitamente relacionados entre si, poderiam ajudar a explorar outras interpretações. De que maneira estes três conceitos estão ligados ao conceito de “quotidiano”?

Um dos pontos da definição de “quotidiano” passa pelo envolvimento do próprio com o mundo. Esse envolvimento pode ou não implicar o “outro” (“outro” significando aqui tanto um indivíduo como a sociedade onde está inserido). É através da “conversa” que o próprio se dá a conhecer ao mundo, é pela “conversa” que se inicia uma relação entre dois indivíduos, mesmo que seja apenas circunstancial. A “conversa” pressupõe um diálogo, uma troca de ideias, informações, pensamentos e emoções. Este último remete para um aspecto importante a reter neste conceito: a sua permeabilidade ao estado emocional. Essa será, talvez, a característica que mais se destaca na relação de Emma Bovary com aqueles que a rodeiam: com Charles (marido) é seca e intolerante; com os amantes é apaixonada, entusiasmada e até chega a ser colérica; com os Homais (família do farmacêutico) é cordial, educada e neutra; com a filha é antagónica. Tome-se o exemplo da sua relação com Charles: “o homem nada suspeita do estado interno da mulher; têm tão pouco em comum, que nem chega a haver uma disputa, uma discussão, um conflito aberto[2].

Se a “conversa” remete para o envolvimento do próprio com o mundo, a “dúvida” fragiliza esse envolvimento com o mundo através da descrença e do receio. O dia a dia passa também pela vivência de momentos de incerteza e de indecisão. São vários os episódios em que o autor mostra uma Emma Bovary frágil, envolta em multiplas dúvidas sobre o amor de Rodolphe, de Leon, sobre o seu futuro e até sobre o seu marido. Os seus dias monótonos propiciam uma reflexão interior sobre a sua insatisfação, reflexão essa que transborda dúvidas, anseios e receios.

Pensar o quotidiano transporta-nos para uma reflexão mais demorada sobre os acontecimentos que marcam o dia a dia. Sem dúvida que o conceito de “vulgar” é o que mais se aproxima desta reflexão: detém-se sobre aquilo que é comum, aquilo que é trivial, aquilo que é ordinário e que o tempo banaliza. Sendo um conceito aplicável em larga medida não deixa de, fatalmente, se aplicar ao que é rotineiro.

Em que medida estes conceitos permitem a análise do quotidiano de Emma Bovary?

É necessário, primeiramente, entender de que maneira a protagonista percepciona o seu quotidiano. Sendo uma dama de casa, Emma Bovary tenta ocupar o seu tempo com todo o tipo de pequenos prazeres que vai descobrindo mas dos quais rapidamente fica saturada – como por exemplo a aprendizagem da língua italiana, a costura, etc. Para além da lida e embelezamento da casa, a que Emma sempre dedicou todos os seus esforços, a leitura de romances e de revistas da moda parisiense permaneceram como um dos seus hobbies preferidos, pois transportavam-na para contextos diferentes daquele em que vivia, contextos cosmopolitas tentadores, de diversão, luxuria e cultura e libertavam-na do pensamento da sua vida. O seu desejo de emancipação a par destas leituras levaram Mme Bovary a viver a sua vida quase como uma aristocrata, confundindo desta forma a realidade da pequena burguesia provinciana de Tostes e de Yonville-Abbadye com a ficção dos romances. É de referir ainda o relevo que os seus casos com Rodolphe e Leon tiveram na sua vida: não só permaneceram como pontos altos e de grande alegria e felicidade na sua vida como a tornaram mais forte e mais segura de si própria, tornando-se, consequentemente mais fria e menos tolerante para com Charles, seu marido. No entanto, a estes momentos altos da sua vida sempre sucediam outros de puro desleixo, desprezo, momentos ainda mais intensos de melancolia, aborrecimento e tristeza.

Emma Bovary é também espectadora dos acontecimentos da sua vida na medida em que é um sujeito que percepciona e experimenta esses acontecimentos: “(...)«experimentar» de maneira «inconsciente». Este «experimentar» engloba um «experienciar» e uma «experimentação» para além da consciência: é este o campo de uma possível «metafenomenologia». Ora, a chave que dá acesso a este novo campo é uma semiótica das pequenas percepções (...)”[3], pequenas percepções essas associadas a forças perceptivas que não se encontram nos objectos mas que reforçam a expressão e significado daqueles. Os objectos vão ganhando uma outra importância na sua vida, na medida em que prolongam esses acontecimentos: “Não podia despegar a vista daquela alcatifa que ele pisara, daquelas cadeiras vazias onde se sentara (...) Porque não se apoderara ela daquela ventura quando estava ao seu alcance!”.[4]

Em todo o romance surgem objectos que se vão impondo enquanto marcos importantes no decorrer da história, mesmo quando tais objectos se apresentam inconscientemente a Emma Bovary. São eles:

- a carruagem e, por conseguinte, a Andorinha

- os romances

- o franco = o dinheiro

- o arsénico

De todos os objectos escolhidos, a carruagem parece ser o objecto que Emma “experimenta de maneira insconsciente”: a carruagem, objecto vulgar que quase se anula aos olhos dos leitores e da protagonista na medida em que serve apenas enquanto meio de transporte, carrega um significado que levanta outras questões bastante importantes. Acompanha todas as peripécias da vida da Mme Bovary e demonstra a efemeridade das suas aventuras, o ir e o voltar, o sair da monotonia da sua vida e o rumar a outros contextos e a novos acontecimentos. Desempenha um papel primordial na forma como a sua vida ocorre, projectando no futuro as mais altas expectativas (estando aqui implicita a análise deste objecto em função do conceito de “dúvida”) :

- ida da casa de seu pai (perto de Vassonville) para a casa de seu marido, em Tostes

- ida para a festa do marquês de Andervilliers em Vaubyessard onde participa, pela primeira vez, num jantar e baile aristocrático

- ida para Yonville-l’Abbadye, sua nova morada, onde conhece Leon e Rodolphe e comete adultério

- idas para Ruão para as inexistentes “aulas de piano” passadas no hotel com Leon.

A carruagem, vulgar meio de transporte, apresenta-se como tema de multiplas conversas (na estalagem do Leão de Ouro, sempre comentado quem chegaria na Andorinha ou falando com os passageiros sobre como correra a sua viagem) ou até o próprio palco das conversas (longa conversa entre Leon e Emma enquanto a carruagem seguia voltas e voltas sem destino, aquando do encontro após a noite de teatro em Ruão). A vulgaridade deste objecto, paradoxalmente, torna-o ainda mais singular numa análise deste género, pois tem um papel inesperado mas de grande relevo na vida da protagonista.

A loucura de Emma Bovary vai-se instalando gradualmente nas horas vagas do seu dia a dia, especialmente com a persistência e insistência do Sr. Lheureux que materializa todos os caprichos da dama insatisfeita. A constante aquisição de bens materiais para si e para a casa mantém acesa a chama da ilusão em que Emma vive, afastando-a assim da sua verdadeira realidade: “Longe de ser um registo mecânico de elementos sensórios, a visão prova ser uma apreensão verdadeiramente criadora da realidade – imaginativa, inventiva, perspicaz e bela (...) a mente sempre funciona como um todo. Toda a percepção é também pensamento, todo o raciocínio é também intuição, toda a observação é também invenção” [5]. A realidade quase paralela em que Emma vive torna-se possível graças à conjugação de vários elementos que participam activamente nesse todo, como por exemplo os romances, os amantes e o dinheiro. Destacam-se daqui dois objectos, os romances e o dinheiro, cuja acção incide sobre a materialização dessa realidade. Os romances condensam tudo aquilo que Mme Bovary pretende para a sua vida enquanto que o dinheiro torna possível a realização desse desejo. Assumem-se, por isso, como objectos fulcrais no romance, objectos vulgares graças à utilização banal que a Mme Bovary lhes dá, que participam activamente num diálogo directo com a própria protagonista, na medida em que o seu quotidiano é vivido em função desses objectos, e vice-versa. O desequilibrio que a “dúvida” traz para a sua vida quanto à escassez do dinheiro não tem, ainda assim, o poder de quebrar a realidade ficcional em que vive. Este conceito, apesar de destabilizar a sua vida projecta, para o pequeno cosmos onde se insere, uma sensação radicalmente oposta, em que Emma demonstra ser uma mulher de caprichos, auto-confiante e financeiramente estável, até ao momento final em que tudo se descobre. Do ponto de vista da “conversa”, estes objectos são tema de preocupação da mãe de Charles Bovary, que reprova o comportamento da sua nora, mas também são tema corrente das conversas entre Emma e os seus amantes, mesmo que o objecto “dinheiro” apareça referido subtilmente e de forma indirecta (como ilustram, por exemplo, as conversas correntes sobre viagens – com Rodolphe - e sobre teatro e música – com Leon). É de referir, no entanto, que a relação de Emma Bovary com o Sr. Lheureux, comerciante que se encarrega das encomendas, une o conceito de “conversa” e o objecto “dinheiro” de uma forma particular, em que o objecto “dinheiro” é também objecto de uma conversa que tende a caminhar em direcção ao descalabro das economias da família Bovary. O “dinheiro” coexiste tanto na sua essência como enquanto tema de conversa, conversa essa que tende a forçar a situação em direcção ao caos.

Por fim, o último objecto que surge na fase final do romance, aparece aqui mencionado enquanto objecto que marca um único momento e não enquanto um objecto que acompanha a realidade paralela da protagonista. O frasco de arsénico distingue-se assim de todos os outros objectos: aparece mencionado apenas na terceira (e última) parte do romance e representa o culminar de todo o romance – o suicídio da protagonista. Assim sendo, como relacionar este objecto com o quotidiano de Mme Bovary? De que maneira este objecto esteve presente durante a sua vida? A associação deverá ter em conta o estado emocional de Emma, o qual se caracteriza por uma depressão constante, uma doença maioritariamente psicológica relacionada com o grande desgosto em que vivia. O frasco não é o objecto que acompanha o quotidiano da mulher de Charles mas é aquele objecto que contém em si o culminar de um estado emocional que caminhava, gradualmente, para aquele final. “As pesquisas gestaltistas, contudo, deixaram claro que, com muita frequência, as situações que enfrentamos têm as suas próprias características que exigem que as percebamos apropriadamente. O acto de olhar o mundo provou exigir uma interacção entre propriedades supridas pelo objecto e a natureza do sujeito que observa. Este elemento objectivo da experiência justifica as tentativas para distinguir entre concepções adequadas e inadequadas da realidade.” [6] Mas não seria esse o objectivo de Emma Bovary? Conceptualizar de forma ambigua a realidade em que vivia para poder desviar-se desse mau estar constante? O frasco de arsénico não é certamente um objecto vulgar nem um tema de conversa até ao momento em que Emma o digere. Note-se que o tema de conversa não é o próprio frasco de arsénico mas sim a acção de Emma de se suicidar com um dos químicos guardados a sete chaves pelo farmaceutico Homais. Assim sendo, a sua análise em função deste conceito falha pois a conversa desenvolveu-se em redor da atitude de Emma de acabar com a sua própria vida. O pó de arsénico desempenha aqui um papel unica e exclusivamente informativo. Nem mesmo o conceito de “dúvida” sucede com este objecto, uma vez que Emma Bovary tomou com prontidão a sua decisão.

Apesar de “dúvida”, “conversa” e “vulgar” serem conceitos que compõem a imensa teia que caracteriza a definição de “quotidiano”, nem sempre esses conceitos comprovam essa definição. O pó de arsénico é em si mesmo a prova de como estes três conceitos falham em dar ao leitor a noção de quotidiano, de dia a dia de Emma Bovary. No entanto, deve-se pensar o pó de arsénico como a consequência final de uma vida levada com desgosto, de um quotidiano monótono, aborrecido e sem quaisquer perspectivas de um futuro melhor.



[1] - cit in AUERBACH, E., “Mimesis” (1946), vários tradutores, São Paulo: Perspectiva, 5ª ed., 2004, página 439

[2] - cit in ibidem, página 438

[3] - cit in GIL, J., “A Imagen-Nua e as Pequenas Percepções – Estética e Metafenomenologia”, trad. de Miguel Pereira, Lisboa: Relógio d’Água Editores, 1996, página 17

[4] - cit in FLAUBERT, G., “Madame Bovary”, tradução de Fernanda Graça, Lisboa : Biblioteca Visão, 2000, página 117

[5] - cit in Arhneim, R., “Introdução” in Arte e percepção visual, Livraria Pioneira Editora, S. Paulo, (1954) 1973

[6] - cit in Arhneim, R., “Introdução” in Arte e percepção visual, Livraria Pioneira Editora, S. Paulo, (1954) 1973

Fotografias Antigas (3): Romeiros nos Arredores de Lisboa, 1907


"[O Portugal Atlântico] É por excelência a região das romarias, onde o povo vai adorar os santos em dias determinados e sempre em ar de festa e alegria. Sobretudo durante o Verão são inúmeros os santos que se visitam de maneira sempre festiva. As famílias dirigem-se a pé para o lugar da romagem: capela, igreja ou santuário, com as suas merendas e, muitas vezes, com instrumentos de música para alegrar a jornada e para a festa profana que se segue à visita aos templos e às orações devotas.", Jorge Dias, Estudos de Antropologia, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1990, pp. 170-171.


Notas:


1.A obra citada integra vários trabalhos de Jorge Dias (1907-1973). A citação vem de um artigo inicialmente publicado em 1960 nos Estudos e Ensaios Folclóricos em Homenagem a Renato de Almeida, Rio de Janeiro, e intitulado "Tentâmen de fixação das grandes áreas culturais portuguesas;


2.A imagem é do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa e foi reproduzida em Joaquim Vieira, Portugal Século XX - Crónica em Imagens 1900-1910, Círculo de Leitores, 1999, p.109.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Delmira Agustini (1886-1914), poetisa

Delmira Agustini, autora do poema que aqui reproduzimos, foi uma escritora uruguaia do século XX. Natural de Montevideo, onde nasceu em 1886, aos 16 anos já escrevia poesia. Casada com Enrique Job Reyes, com quem se deu mal, acabaria assassinada por ele em 1914. Escreveu El libro blanco (1907), Cantos de la mañana (1910) e Los cálices vacíos (1913).

Explosión

Si la vida es amor, bendita sea!
Quiero más vida para amar! Hoy siento
Que no valen mil años de la idea
Lo que un minuto azul de sentimiento.

Mi corazón moría triste y lento...
Hoy abre en luz como una flor febea;
¡La vida brota como un mar violento
Donde la mano del amor golpea!

Hoy partió hacia la noche, triste, fría,
Rotas las alas mi melancolía;
Como una vieja mancha de dolor
En la sombra lejana se deslíe...
Mi vida toda canta, besa, ríe!
Mi vida toda es uma boca em flor!

(El libro blanco, 1907)

Fonte: Antología del modernismo literario hispánico, org. de Vicente Sabido e Ángel Esteban, Granada, 2001, Editorial Comares, p. 303.

Poesia de Sóror Madalena da Glória

Por vezes, procurando no velho baú da História Literária Portuguesa, ao lado dos grandes artistas, encontram-se alguns outros, esquecidos, mas cujo trabalho merece ser reconhecido, pois não desvalorizam as nossas Letras. Sóror Madalena da Glória, de cuja poesia reproduzimos uma breve amostra, é um desses exemplos. Maria Madalena Eufémia da Glória, escritora portuguesa que os contemporâneos chamaram "fénix dos engenhos", nasceu em Sintra a 11 de Maio de 1672, filha de Henrique Carvalho de Sousa e de Helena de Távora. Em Março de 1688 professou no Convento da Esperança e, presumivelmente, foi religiosa durante toda a sua vida. Não se sabe quando faleceu, excepto que era ainda viva em 1759. Deixou as seguintes obras: Astro brilhante em novo mundo, flagrante flor do Paraíso, plantada no jardim da América; História panegírica de Santa Rosa de Santa Maria (1733); Novena de Santa Rosa de Santa Maria (1734); Orbe celeste, adornado de brilhantes estrelas e dois ramalhetes (1742); Águia real, fénix abrasado, pelicano amante, história panegírica, e vida prodigios do ínclito patriarca Santo Agostinho (1744); Reino da Babilónia, ganhado pelas armas do Empíreo (1749).
Poemas da obra Brados do desengano, contra o profundo sono do esquecimento, em três histórias exemplares, para melhor conhecer-se o pouco que duram as vaidades do mundo, de 1736 [Trata-se da primeira parte; houve uma segunda em 1739.]:
I
Esse sono, em que cego vás passando,
Essa vida mortal, em que confias,
Já nas asas do tempo vai voando,
Porque da vida instantes são os dias:
Olha que tu com Deus vás porfiando,
E não valem com Deus tuas profias,
Que a vida é vidro leve, a pedra forte;
E não terás escudo contra a morte.
(...)
III
Esse monte de fogo, que nascendo
Em campo de safiras luz ardente,
Em chegando ao zénite, já vai descendo,
Quando o viste subir do seu oriente:
Nasceu luz, cresceu sol, porém morrendo,
Nem luz, nem sol se mostra no ocidente,
Pois se da vida o sol não tem dois dias,
Mortal, como em instantes te confias?
(Poesia Portuguesa - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto, Porto Editora, 2009, pp. 599-600)
Poesia singela, formalmente muito bela e equilibrada, cujo tema é a fragilidade das coisas, da vida em particular, a fazer lembrar, neste sentido, a poesia de Ricardo Reis (Fernando Pessoa). Todavia, a memória de Madalena da Glória não é assim tão frágil, pois que se recorda aqui hoje, passados quase 300 anos.
Fontes: Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.12, Lisboa - Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, s.d., p.445, s.v. "Glória (Maria Madalena Eufémia da)"; Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol.1, coord. de Eugénio Lisboa, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d., pp. 472-473, s.v. "Glória, Soror madalena da".

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Artistas Rebeldes




A primeira geração formada na Academia de Belas Artes de Lisboa (criada em 1836) fez-se representar em 1855, pelo pintor João Cristino da Silva, pintando ao ar livre. “Cinco Artistas em Sintra” representa um acto de revolta liderado por Tomás da Anunciação contra o Mestre Manuel da Fonseca (professor durante 2 gerações na Academia em Lisboa) e contra a falta de recursos financeiros necessários para o investimento dos artistas-aprendizes. Tomás da Anunciação, João Cristino da Silva, José Rodrigues, Francisco Metrass e Vitor Bastos (o único escultor do grupo de pintores) reinvindicam assim a vontade de pintar sobre o motivo (pintar ao ar-livre), criticando deste modo a formação neoclássica conservadora que o Mestre Fonseca trouxera de Roma, baseada em cópias produzidas em atelier, de mestres antigos, de estampas de paisagens e na produção de uma pintura de História apoiada nas iconografias clássicas (considerada ultrapassada pela nova geração).

Do atelier para o ar-livre, os Cinco Artistas fazem-se representar em Sintra (terras do romantismo de D. Fernando e do seu Palácio da Pena) a ensinar o povo, demonstrando um programa simbólico muito significativo, próprio de um novo regime político (fontismo). O campo vai, deste modo, receber esta nova geração sedenta de novas temáticas que olham para a Natureza intocada pelo Homem, para a população rural e seus costumes. Olhando para o contexto europeu, entre as décadas de 50 a 70 de Oitocentos, criou-se a consciência de que se estava a perder a cultura e a tradição camponesa e rural. Criou-se um momento de nostalgia por aquilo que se estava a fazer, o que veio reforçar as temáticas anti-académicas (paisagem e retrato) e abrir caminho para um culto da Natureza.

Estes artistas, apesar de apenas produzirem esboços iniciais ao ar-livre e terminarem as suas obras em atelier sobre fundos de betume (tratamento que permite absorver melhor o óleo mas que acaba por deteriorar as cores), vão abrir caminho para uma nova geração – a geração do Grupo do Leão.

É de referir, no entanto, que o Romantismo em Portugal reside sobretudo na literatura (com Almeida Garrett e Alexandre Herculano) e na arquitectura (Palácio da Pena, Quinta da Regaleira, Buçaco). Por sua vez, a pintura “romântica” iniciada pela geração de Anunciação não tem o pathos romântico que a legitimiza, assim como a temática mística, poética e de ruínas está ausente. É neste argumento que se funda a opinião de alguns autores (como R.H.S), que olham para este ciclo como um pré-naturalismo.

Resgatando uma vítima do terramoto de 1755


Esta imagem pintada a óleo que se encontra na exposição permanente do Museu da Cidade de Lisboa, é um ex-voto da segunda metade do século XVIII. Um ex-voto consiste numa oferenda a uma divindade, em agradecimento por uma graça concedida em tempos difíceis. Para os Católicos, tem expressão num objecto primeiramente prometido e depois oferecido a Deus, a Nossa Senhora ou aos Santos, agradecendo uma prece formulada e por algum d' Eles atendida. No caso em apreço, Leonardo Rodrigues, provavelmente residente em Lisboa, dedica esta pintura a Nossa Senhora da Estrela, por ter conseguido encontrar a filha de três anos com vida, entre as ruínas da sua habitação, na sequência do terramoto de 1 de Novembro de 1755. O texto que acompanha a imagem (abaixo reproduzido) é uma expressão notável da fé católica e, pode pensar-se, a súplica deste homem terá tido a atenção dos Céus. Todavia, Leonardo Rodrigues não ficou inactivo: fez a sua promessa e depois pôs-se a procurar a filha, o que lhe demorou sete horas. Isto prova que, para aqueles que têm fé, é mais saudável pensar que a divindade tem um papel, mas que o crente também, pois os desejos não se devem esgotar nas preces. O quadro representa essa mesma ideia: um grupo de homens (entre os quais figurará o pai da criança) removendo os obstáculos das ruínas, com o patrocínio de Nossa Senhora que aparece no canto superior esquerdo.

"A nossa Senhoª da Estrella/voto que no terremoto de 1755 fez/Leonardo Rodrigues; porque fal/tando-lhe huma filha de 3 anos/invocando ajudª Santissima a achou depo/es de 7 horas nas ruinas das su/as cazas com huma tão perigosa/ferida na cabeça, que atribue a sua/vida à intercessão da Soberana/Senhora."

A imagem e a frase vêm reproduzidas no site do Museu da Cidade de Lisboa: http://www.museudacidade.pt/Coleccoes/Pintura/Paginas/Ex-voto-a-Nossa-Senhora-da-Estrela.aspx.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Há 202 anos atrás...

Que melhor motivo para me estrear nesta nova aventura de escrita do que escrever uma pequena nota sobre quem vai ocupar grande parte dos meus dias nos próximos 6 meses?
Pois é, no próximo Sábado (12 de Fevereiro), 202 anos após o seu nascimento, celebra-se um pouco por todo o mundo o Dia de Darwin (http://www.darwinday.org/index.php).

O primeiro evento para celebrar esta efeméride teve lugar a 22 de Abril de 1995 na Universidade de Stanford, e foi promovido pelo Grupo de Estudantes Humanistas de Stanford e pela Comunidade Humanista. Nessa ocasião, Donald Johnson, famoso pela descoberta dos fósseis humanos mais conhecidos do mundo ('Lucy'), foi o responsável pela conferência "Darwin e as Origens Humanas", que reuniu cerca de 600 pessoas. Posteriormente, mudou-se a data da celebração de forma a coincidir com o aniverário de Charles Darwin, a 12 de Fevereiro. Desde então, são muitas as instituições públicas e privadas que organizam diferentes actividades de divulgação do conhecimento científico com motivo desta celebração.

Ne
ste ano de 2011, a Universidade do Porto une-se às comemorações e, aproveitando a exposição "A Evolução de Darwin", promove um dia aberto de visita gratuita.
Para além disso, o biólogo Albano Beja Pereira (CIBIO) apresentará a palestra "A evolução dos animais domésticos segundo Darwin: O exemplo de como os Homens tambem foram domesticados". Esta conferência terá lugar no Jardim Botânico do Porto, onde também está patente a exposição, no Auditório Jardim às 17:30h; também com entrada livre.
Fica então aqui, uma vez mais, o convite para que apareçam pelo Jardim Botânico do Porto e disfrutem desta bela exposição e do seu entorno. Até lá!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os Teatros de Lisboa


Julio Cezar Machado (1835-1890) foi um dos mais interessantes autores portugueses do seu século. Apesar de ter publicado ficção, as suas obras mais cativantes são as que falam da sua época. Sobre Lisboa deixou numerosas crónicas que fazem a cidade como que reviver, com as suas ruas e as suas figuras típicas, passados cerca de 150 anos. Podem nomear-se, por exemplo, a Lisboa na Rua (1874) ou a Lisboa de Ontem (1877). Hoje, no entanto, falaremos d' Os Teatros de Lisboa, de 1875, reeditado pela Frenesi em 2002, conservando as ilustrações de Raphael Bordallo Pinheiro. Ao longo de cerca de 130 páginas, aliás muito bem escritas dentro de um estilo familiar e pitoresco sem deixar de ser cuidado, o folhetinista fala dos artistas (actores, dramaturgos, músicos) que trabalhavam nos teatros S. Carlos, D. Maria II e Trindade. Se António de Sousa Bastos (1844-1911) no seu Diccionario do Theatro Portuguez (1908) nos deixou um trabalho de erudição, muito investigado e em tom sério, Julio Cezar Machado oferece-nos o complemento vivo, palpável, susceptível de empatia imediata, do mesmo assunto. Descrevendo as figuras do teatro português um pouco como Bordallo Pinheiro as traçava à pena nos jornais, o escritor deixa um retrato jovial e crítico de numerosas celebridades de então: Emília das Neves, Coppolla, Santos, Manuela Rey, Beneventano, Garrett, para citar uns poucos. É um testemunho precioso, pois, como se disse, lê-se como se fosse a vida a decorrer.

Excerto do livro:
"O outro director da orquestra, Guilherme Cossoul, dava em aplicação, em assiduidade, em atenção e em paciência quanto bastasse por dois. Eram-lhe incumbidas as óperas difíceis, que requressem grande número de ensaios e aquela perseverança que não quer ser paga noutra moeda senão a glória de agradar e de vencer. O público teve sempre confiança nas óperas dirigidas por Cossoul; e os cantores iam para a cena com esperança e fé, em ele estando de poleiro no meio dos músicos, ou antes, por cima deles, no seu estrado de honra. Quando se interessava por algum artista, fazia tais prodígios com a batuta, que a maior parte da gente incapaz de compreender a paixão da arte julgava-o namorado. Foi assim que se espalhou que ele ia casar ora com uma prima-donna, ora com outra, e cada ano lhe atribuíam noiva, até que a última cortou a legenda no melhor do boato, a cantora Harris. (...) Guilherme Cossoul nem dava por estas coisas. Qual! Ia regendo a orquestra. Ia ensaiando os cantores. Ia trabalhando. Gravemente. Austeramente. (...) Depois, fora do teatro, ia sendo bombeiro, e, ainda mais que bombeiro, bombista!..., isto é, brincalhão, farsista, trocista, calçoísta! (...) Há casos em que se tem medo dele como do Diabo, por seus artifícios e malefícios. (...) Os menos prudentes, tão depressa o vêem aparecer, tomam desde logo precauções injuriosas. Se é no campo e ele vai estar de hóspede na mesma casa em que estejamos, tem uma pessoa todas as noites de visitar o quarto, abaixar-se, ver bem por baixo da cama, remexer os móveis, sondar as paredes, tapar o buraco da fechadura, dar três voltas à chave e guardá-la segura. E apesar deste luxo de precauções ainda se fica inquieto... (...) Principiam sempre as hostilidades quando os convivas, munidos cada um com a competente palmatória e vela de estearina, vão tranquilamente para os seus quartos. cai de repente em cima deles uma chuva de travesseiros e de almofadinhas, que apaga de repente as luzes. Pragas de um lado, risota do outro, lá se acende a luz outra vez; e cada um, instruído já pela experiência, vai de degrau em degrau abrigando a chama com mão protectora..." (Júlio César Machado e Rafael Bordalo Pinheiro, Os Teatros de Lisboa, Lisboa, Frenesi, 2002, pp.35-40; a imagem reproduzida vem na p.2.)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Exposição "A Evolução de Darwin" - Porto

Informa-se que a exposição "A Evolução de Darwin" estreou a semana passada na cidade do Porto, e ficará em exibição até 17 de Julho. Esta iniciativa coincide com a continuação da celebração do centenário da República (1910-2010) e com o centenário da Universidade do Porto (1911-2011).
Este evento tem por base a mesma exposição que se realizou em 2009, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, por altura da comemoração dos 200 anos do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação da sua obra máxima "A Origem das Espécies". No entanto, apresenta dois módulos novos muito interessantes dedicados à genética humana e à recepção do Darwinismo em Portugal.
Destaque para o local onde se realiza a exposição, que é na Casa Andresen, sito no Jardim Botânico do Porto, palacete que pertenceu aos familiares da escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, e posteriormente, serviu de departamento de Botânica para aulas universitárias. Uma vez que o edifício se encontrava profundamente degradado, foram efectuadas obras de reabilitação para acolher este evento, sendo que no futuro este espaço dará lugar a um museu de biodiversidade.
Existem, portanto, várias razões para visitar esta iniciativa cultural no Porto: vê a exposição, visita as estufas onde estarão animais e plantas que representam a biodiversidade que Darwin encontrou na sua viagem, conhece a famosa Casa Andresen, e passeia pelos belos jardins que rodeiam o palacete.


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fotografias Antigas (2): Raquel Roque Gameiro, 1911

Fotografia colorida da Ilustração Portugueza, que saía uma vez por semana com O Século, de 27 de Novembro de 1911. A senhora representada, então com 22 anos, é a pintora e ilustradora Raquel Roque Gameiro (1889-1970), filha do prestigiado artista Alfredo Roque Gameiro (1864-1935). Como pintora, expôs em Lisboa, no Porto e em Londres. Ilustrou obras para crianças, nomeadamente da autoria de Ana de Castro Osório (1872-1935) e de António Sérgio (1883-1969).

Fonte:
AAVV, Percursos, Conquistas e Derrotas das Mulheres na 1ª República, coord. de Teresa Pinto, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa - Grupo de Trabalho para as Comemorações Municipais do Centenário da República - Biblioteca Museu República e Resistência, 2010, p.131.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Chapéu de Três Bicos


Em 1874, Pedro Antonio de Alarcón (1833-1891), escritor espanhol natural de Granada, publicava a novela El Sombrero de Tres Picos. A acção é situada algures na Andaluzia, entre 1805 e 1808. Está-se numa Península Ibérica gerida segundo o Antigo Regime, "com a sua Inquisição e os seus frades, com a sua pitoresca desigualdade perante a lei, com os seus privilégios, foros e isenções pessoais, com a sua carência de toda a liberdade municipal ou política, [em que os cidadãos eram] governados simultaneamente por insignes bispos e poderosos corregedores" e pagavam "dízimos, primícias, alcavalas, subsídios, deixas e esmolas obrigatórias, rendas, capitações, tércias reais, impostos, frutos civis, e até cinquenta tributos mais" (pp.16-17). A história é precisamente sobre um velho e atrevido corregedor, cujos poderes servem mais os seus desejos pessoais e nem sempre inocentes, verdadeira síntese do Antigo Regime, embrulhado numa capa e coberto com um chapéu de três bicos (ou tricórnio), que na Península se usaram até bem dentro do século XIX. É pois sobre o corregedor e sobre como quis conquistar a Tia Frasquita, esposa do Tio Lucas, moleiro. E de como os alargados privilégios de uma classe podem não ser tudo na vida, porque nem tudo conseguem obter. A novela retrata uma época comum a Espanha e a Portugal, um tempo em que os povos peninsulares, ainda presos sob os costumes que vinham desde a Idade Média, olhavam com alguma esperança para os ideais do constitucionalismo que vinham do estrangeiro. É um modelo de sociedade que actualmente não conhecemos, pois as nossas são a natural evolução dos regimes liberais então implantados. É por isso que, com muito humor, António Pedro de Alarcón nos diz recordar da sua infância "ter visto pendurados num prego, único adorno da desmantelada parede da arruinada torre da casa que Sua Senhoria habitou (...), aquelas duas antiquadas jóias, aquela capa e aquele chapéu - o chapéu negro em cima, e a capa vermelha debaixo -, formando como que um espectro do absolutismo, uma espécie de mortalha do corregedor, uma caricatura retrospectiva do seu poder (...); uma espécie enfim de espanta-pássaros, que outrora fora espanta-homens e que hoje me assusta ter contribuído para escarnecer, passeando-a por aquela histórica cidade nos dias de Entrudo, no alto duma vassoura, ou servindo de ridículo disfarce ao idiota que mais fazia rir a plebe" (p.35). No entanto, sem mencionar mais o valioso testemunho, ainda que caricaturado, da sociedade do virar do século XVIII para o XIX, esta novela reforça a saudade do serão familiar ou, melhor ainda, comunitário, fazendo lembrar, por exemplo, o convívio que no campo se organizava nas desfolhadas. Isto porque quem conta verdadeiramente a história, inevitavelmente retocada por Alarcón, é o Tio Repela, "um rude pastor de cabras, que nunca saíra da escondida povoação em que nasceu (...). (...) Sempre que havia festa motivada por boda ou baptizado, ou por solene visita dos amos, tocava-lhe o fazer as palhaçadas, as pantominas, e recitar os romances e relações. E foi precisamente numa ocasião dessas (...) que ele houve por bem deslumbrar e embelezar certa noite a nossa inocência (relativa) com o conto em verso de «O Corregedor e a Moleira», ou seja de «O Moleiro e a Corregedora»" (p.7). Em todo o caso, uma história em que "não se aconselha ninguém a que seja mau; nem se ensina a sê-lo; nem fica sem castigo o que o é" (p.9), fazendo lembrar a moralidade d' Os Contos do Tio Joaquim, de Rodrigo Paganino, dos quais se falou já neste espaço. Uma excelente leitura, que prova que a literatura popular tem vivacidade suficiente para ombrear e, quantas vezes!, ultrapassar a arte erudita, frequentemente tão desfeada pela vaidade e presunção dos artistas.
Referência:
Pedro Antonio de Alarcón, O Chapéu de Três Bicos, Publicações Europa-América, 1973.