segunda-feira, 13 de junho de 2011
III Encontros de História das Ciências
sábado, 11 de junho de 2011
Darwinismo na Literatura I
(2) H. G. Wells, “A Máquina do Tempo”, pp. 102-103
sexta-feira, 10 de junho de 2011
A Falta de Tempo na Sociedade
A mudança na vida e nas empresas
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Os Fabulosos Grant: A Selecção Natural e a Especiação
No passado Sábado passado tive ocasião de assistir uma vez mais a uma excelente palestra de Peter e Rosemary Grant, desta feita na Fundação de Serralves, no Porto (evento organizado pelo CIBIO-UP no âmbito da exposição 'A Evolução de Darwin'). Este casal de investigadores ingleses, professores da Universidade de Princeton nos EUA, ficarão para sempre associados ao estudo dos tentilhões de Darwin, os interessantes tentilhões das Ilhas Galápagos. E esse lugar na história da ciência é bem merecido.
Desde a década de 70 do século passado, ano após ano, o casal muda-se para a pequena ilha desértica Daphne Maior durante vários meses. Aí, seguiram ao pormenor as populações de três das catorze espécies de tentilhões que povoam este arquipélago, capturando e anilhando milhares de indivíduos, medindo-os e retirando amostras de sangue que permitiram fazer um seguimento fisiológico e genético destes pequenos pássaros. Com este estudo detalhado puderam verificar a acção “em directo” da selecção natural, devida às brutais variações climáticas que sofrem estas ilhas, principalmente no que diz respeito à pluviosidade.
Em 1977, por influência do El Niño, a ilha sofreu uma seca extrema e 80% da população de tentilhões desapareceu. Que indivíduos é que sobreviveram? Aqueles que tinham o bico maior, mais forte, que lhes permitia quebrar os duros frutos da planta do género Tribolium e chegar às suas sementes, o único alimento disponível. Estes investigadores assistiram em poucos anos, à mudança de morfologia na população de Geospiza scandens nesta ilha. Alguns anos mais tarde, em 1984-85 a intensa pluviosidade levou de novo a uma mudança extraordinária na flora da ilha, a ponto de os tão típicos cactos ficarem imersos em trepadeiras. Nesta ocasião, a acção da selecção natural levou a um processo inverso: desta vez, tinham vantagem os pássaros com o bico mais pequeno que podiam aproveitar todas as pequenas sementes das plantas que floresceram com a chuva…e de novo, a morfologia da espécie mudou nas gerações seguintes.
Esta parte da história é possivelmente já bem conhecida por muitos leitores deste blog. Um pouco menos conhecida será a respeitante aos trabalhos que têm desenvolvido nos últimos anos a respeito dos processos de especiação que parecem estar a ter lugar nesta pequena ilha.
Em Daphne Maior existem três espécies de tentilhões: Geospiza scandens, Geospiza fortis (tentilhão-terrestre-de-bico-médio) e, chegada mais recentemente, Geospiza magnirostris (tentilhão-terrestre-de-bico-grande). G. magnirostris destaca-se bem das outras duas pelo seu tamanho (pesa cerca de mais 10 gr em média). G. scandens e G. fortis têm tamanho (aproximadamente 20 gr) e aspectos similares, mas variam na forma e tamanho do seu bico.
Para além disso, os machos das três espécies cantam canções completamente diferentes. Estes investigadores puderam verificar que G. scandens e G. fortis mantinham o isolamento reprodutivo com um bom reconhecimento específico tanto a nível da morfologia como da canção. Durante vários anos, não foram encontrados híbridos destas duas espécies. As poucas excepções de hibridação davam-se quando uma cria macho aprendia, por engano, a canção de outra espécie (por exemplo, se o seu pai falecesse e ela ouvisse a canção de um “pai vizinho”). Este macho iria crescer a cantar a canção errada e portanto poderia acasalar com uma fêmea de outra espécie. Ainda assim, na maior parte dos casos, estes machos eram atacados pelos outros (da espécie “verdadeira”) quando cantavam, não chegando a reproduzir-se.
Mas houve uma excepção! Há alguns anos, os Grant detectaram um novo indivíduo, não marcado, com características diferentes: era maior que um G. scandens ou G. fortis, mas não tão grande como um G. magnirostris; todo negro; e cantava uma canção completamente nova. Como todos os indivíduos da ilha estavam marcados e os seus marcadores genéticos tinham sido analisados, “facilmente” foi possível comprar este desconhecido com o resto da população. Seria ele um emigrante de outra ilha? Não. Verificaram que este era um híbrido entre G. scandens ou G. fortis, maior, mais forte, com uma nova canção e com hábitos alimentares absolutamente generalistas. Tudo indicava ser um caso de ‘vigor híbrido’. Mas seria ele capaz de se reproduzir? Pois parece que sim. Agora, após sete gerações seguidas atentamente pelos investigadores e a sua equipa, tudo indica que este indivíduo deu origem a uma nova linhagem, quiçá uma nova espécie! Após um primeiro retrocruzamento (backcross) com uma das espécies parentais, a descendência tem vindo a acasalar entre si, dando indicação da existência de isolamento reprodutivo em relação às espécies parentais. Um caso raro de especiação por fusão (em vez de fissão).
E isto leva rapidamente à pergunta: mas então se duas espécies hibridaram não são “verdadeiras espécies”, não é? E aí entra a complicada explicação de “o que é uma espécie”? Nós temos tendência a querer ter o conhecimento bem organizadinho e ordenado em categorias fáceis de identificar. E o esforço na definição de espécie é um belo exemplo disso. Mas, na verdade, a natureza não é organizada e ordenada, mais bem o contrário. Então, não faz sentido falar em espécie como categoria? Faz. Os seres vivos, na sua maioria, parecem discriminar entidades que grosso modo coincidem com o nosso conceito de espécie mais comum: populações de indivíduos semelhantes que estão reprodutivamente isoladas de outras populações. No entanto, há excepções a esta norma e as excepções são bem-vindas porque são elas próprias sinais da evolução! As espécies, e as populações que as constituem, não são entidades estáticas. Se o fossem, não existiria evolução. E, como Peter Grant bem explicou no Sábado, seria uma simplificação brutal deixar de chamar “espécie” a muitos grupos em que se verificou fenómenos de hibridação; seria até um desrespeito pela sua história e complexidade evolutiva. E eu estou plenamente de acordo com a sua resposta.
Bravo!
Se quiser descobrir mais detalhes, consulte:
Evolution of character displacement in Darwin's finchesFission and fusion of Darwin's finches populations
The secondary contact phase of allopatric speciation in Darwin's finches
Songs of Darwin's finches diverge when a new species enters the community
domingo, 5 de junho de 2011
Breve comentário sobre o programa "Perdidos na Tribo"
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Dia da Biodiversidade
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Fotografias Antigas (4): Cesário Verde, c. 1871

81ª Feira do Livro de Lisboa
A Poesia de João Xavier de Matos (1730-1789)
1.Eu vi uma pastora em certo dia
Pelas praias do Tejo andar brincando,
Os redondos seixinhos apanhando,
Que no puro regaço recolhia.
Eu vi nela tal graça, que faria
Inveja a quantas há; e o gesto brando
Com que o sereno rosto levantando,
Parece namorava quanto via.
Eu vi o passo airoso, a compostura,
Com que depois me pareceu mais bela,
Guiando os cordeirinhos na espessura.
Eu o digo de todo: vi a Estela.
De graça, de candor, de formusura
Só poderei ver mais tornando a vê-la.
2.Se eu vira num bosque onde não desse
Sinal, vestígio humano de habitado,
De verdenegras ramas tão fechado
Que inda ali de dia anoitecesse;
Se então lá de uma balça ao longe houvesse
Gemendo um mocho, e tudo o mais calado;
Só dentre alguns rochedos pendurado,
Com som medonho, um rio ali corresse;
Enfim num lugar tal onde os meus dias
Consumindo-se fossem na certeza
De não tornarem mais as alegrias;
Faminta ainda a triste natureza,
Cercada ali de tantas agonias,
Nem então se fartara de tristeza.
Fonte: Poesia Portuguesa - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto, Porto Editora, 2009, p. 640
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos
domingo, 10 de abril de 2011
Pobres e Ricos, segundo W. McCay (1933)
Ilustração de Winsor McCay (1869-1934), ilustrador norte-americano, para o Seattle Post Intelligencer de 4 de Junho de 1933. Na legenda, pode ler-se "ELES ESTÃO LIGADOS: Quando a Fortuna ignora a Pobreza durante demasiado tempo, fica em perigo de ser arrastada por ela. Já aconteceu muitas vezes e há-de suceder outra vez. O homem dos dólares e do poder deveria aperceber-se disso." Apesar de McCay ser sobretudo conhecido pela sua originalíssima banda-desenhada Little Nemo in Slumberland, a imagem em questão, com outras de tema semelhante, integra-se no interesse que os intelectuais americanos começaram a sentir pela pobreza, pelos bairros sujos, pela imigração, pelo crime, pela corrupção e outros sintomas de que as sociedades ocidentais económica e laboralmente desreguladas foram, logicamente, sofrendo. Infelizmente, mesmo que a legenda seja superficial, a ilustração de McCay contém uma actualidade verdadeiramente perturbadora.Fonte: Winsor McCay, Little Nemo in Slumberland - O Pequeno Nemo no Reino dos Sonhos, organizado e prefaciado por Richard Marschall, vol. II, Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p.9.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Flaubert e (outras) análise(s) do quotidiano - round II

Retomando o tema da publicação de João Lourenço Monteiro (11 de Outubro de 2010) que incide sobre as obras de Gustave Flaubert e as análises psicológicas que este faz das personagens, proponho uma leitura sobre o quotidiano através de objectos que se assumam relevantes no dia a dia de Emma Bovary, personagem que dá nome a uma das mais conhecidas obras de Flaubert.
No romance “Madame Bovary”, o leitor é levado a caracterizar Emma Bovary como uma mulher insatisfeita e infeliz. A protagonista vai vivendo na esperança de melhorar a sua vida, torná-la mais cultural e igualá-la aos costumes aristrocatas. A sua insatisfação constante, resultante de um casamento falhado e carregado de uma monotonia saturada pela falta de ambição (sobretudo cultural) do pequeno médico com quem se casou, leva Emma a refugiar-se na literatura e a aproveitar com intensidade todos os episódios repentinos como se fossem breves “escapes” para fugir ao desinteresse da sua vida. E é precisamente a sua vida, o seu dia a dia, que Gustave Flaubert dá a conhecer ao leitor. Ainda que o autor não expresse qualquer opinião sobre as suas personagens, a trama vai-se desenvolvendo de forma parcial, concentrando-se na enumeração e descrição dos sucessivos episódios de desespero presentes no quotidiano de Emma Bovary.
Esclarece-nos Enrich Auerbach que “Para Flaubert, o peculiar dos acontecimentos quotidianos e contemporâneos não parecia estar nas acções e nas paixões muito movimentadas, não em seres ou forças demoníacas, mas no que se faz presente durante longo tempo, aquilo cujo movimento superficial não é senão burburinho vão”[1]. É neste ponto que se prende o objectivo desta leitura: analisar o quotidiano da protagonista através de outros conceitos, eles próprios intrínsecos à definição de quotidiano. Por ser este um conceito tão vasto, entendi que, para este romance em particular, os conceitos de “conversa”, “vulgar”, e “dúvida”, eles próprios estreitamente relacionados entre si, poderiam ajudar a explorar outras interpretações. De que maneira estes três conceitos estão ligados ao conceito de “quotidiano”?
Um dos pontos da definição de “quotidiano” passa pelo envolvimento do próprio com o mundo. Esse envolvimento pode ou não implicar o “outro” (“outro” significando aqui tanto um indivíduo como a sociedade onde está inserido). É através da “conversa” que o próprio se dá a conhecer ao mundo, é pela “conversa” que se inicia uma relação entre dois indivíduos, mesmo que seja apenas circunstancial. A “conversa” pressupõe um diálogo, uma troca de ideias, informações, pensamentos e emoções. Este último remete para um aspecto importante a reter neste conceito: a sua permeabilidade ao estado emocional. Essa será, talvez, a característica que mais se destaca na relação de Emma Bovary com aqueles que a rodeiam: com Charles (marido) é seca e intolerante; com os amantes é apaixonada, entusiasmada e até chega a ser colérica; com os Homais (família do farmacêutico) é cordial, educada e neutra; com a filha é antagónica. Tome-se o exemplo da sua relação com Charles: “o homem nada suspeita do estado interno da mulher; têm tão pouco em comum, que nem chega a haver uma disputa, uma discussão, um conflito aberto”[2].
Se a “conversa” remete para o envolvimento do próprio com o mundo, a “dúvida” fragiliza esse envolvimento com o mundo através da descrença e do receio. O dia a dia passa também pela vivência de momentos de incerteza e de indecisão. São vários os episódios em que o autor mostra uma Emma Bovary frágil, envolta em multiplas dúvidas sobre o amor de Rodolphe, de Leon, sobre o seu futuro e até sobre o seu marido. Os seus dias monótonos propiciam uma reflexão interior sobre a sua insatisfação, reflexão essa que transborda dúvidas, anseios e receios.
Pensar o quotidiano transporta-nos para uma reflexão mais demorada sobre os acontecimentos que marcam o dia a dia. Sem dúvida que o conceito de “vulgar” é o que mais se aproxima desta reflexão: detém-se sobre aquilo que é comum, aquilo que é trivial, aquilo que é ordinário e que o tempo banaliza. Sendo um conceito aplicável em larga medida não deixa de, fatalmente, se aplicar ao que é rotineiro.
Em que medida estes conceitos permitem a análise do quotidiano de Emma Bovary?
É necessário, primeiramente, entender de que maneira a protagonista percepciona o seu quotidiano. Sendo uma dama de casa, Emma Bovary tenta ocupar o seu tempo com todo o tipo de pequenos prazeres que vai descobrindo mas dos quais rapidamente fica saturada – como por exemplo a aprendizagem da língua italiana, a costura, etc. Para além da lida e embelezamento da casa, a que Emma sempre dedicou todos os seus esforços, a leitura de romances e de revistas da moda parisiense permaneceram como um dos seus hobbies preferidos, pois transportavam-na para contextos diferentes daquele em que vivia, contextos cosmopolitas tentadores, de diversão, luxuria e cultura e libertavam-na do pensamento da sua vida. O seu desejo de emancipação a par destas leituras levaram Mme Bovary a viver a sua vida quase como uma aristocrata, confundindo desta forma a realidade da pequena burguesia provinciana de Tostes e de Yonville-Abbadye com a ficção dos romances. É de referir ainda o relevo que os seus casos com Rodolphe e Leon tiveram na sua vida: não só permaneceram como pontos altos e de grande alegria e felicidade na sua vida como a tornaram mais forte e mais segura de si própria, tornando-se, consequentemente mais fria e menos tolerante para com Charles, seu marido. No entanto, a estes momentos altos da sua vida sempre sucediam outros de puro desleixo, desprezo, momentos ainda mais intensos de melancolia, aborrecimento e tristeza.
Emma Bovary é também espectadora dos acontecimentos da sua vida na medida em que é um sujeito que percepciona e experimenta esses acontecimentos: “(...)«experimentar» de maneira «inconsciente». Este «experimentar» engloba um «experienciar» e uma «experimentação» para além da consciência: é este o campo de uma possível «metafenomenologia». Ora, a chave que dá acesso a este novo campo é uma semiótica das pequenas percepções (...)”[3], pequenas percepções essas associadas a forças perceptivas que não se encontram nos objectos mas que reforçam a expressão e significado daqueles. Os objectos vão ganhando uma outra importância na sua vida, na medida em que prolongam esses acontecimentos: “Não podia despegar a vista daquela alcatifa que ele pisara, daquelas cadeiras vazias onde se sentara (...) Porque não se apoderara ela daquela ventura quando estava ao seu alcance!”.[4]
Em todo o romance surgem objectos que se vão impondo enquanto marcos importantes no decorrer da história, mesmo quando tais objectos se apresentam inconscientemente a Emma Bovary. São eles:
- a carruagem e, por conseguinte, a Andorinha
- os romances
- o franco = o dinheiro
- o arsénico
De todos os objectos escolhidos, a carruagem parece ser o objecto que Emma “experimenta de maneira insconsciente”: a carruagem, objecto vulgar que quase se anula aos olhos dos leitores e da protagonista na medida em que serve apenas enquanto meio de transporte, carrega um significado que levanta outras questões bastante importantes. Acompanha todas as peripécias da vida da Mme Bovary e demonstra a efemeridade das suas aventuras, o ir e o voltar, o sair da monotonia da sua vida e o rumar a outros contextos e a novos acontecimentos. Desempenha um papel primordial na forma como a sua vida ocorre, projectando no futuro as mais altas expectativas (estando aqui implicita a análise deste objecto em função do conceito de “dúvida”) :
- ida da casa de seu pai (perto de Vassonville) para a casa de seu marido, em Tostes
- ida para a festa do marquês de Andervilliers em Vaubyessard onde participa, pela primeira vez, num jantar e baile aristocrático
- ida para Yonville-l’Abbadye, sua nova morada, onde conhece Leon e Rodolphe e comete adultério
- idas para Ruão para as inexistentes “aulas de piano” passadas no hotel com Leon.
A carruagem, vulgar meio de transporte, apresenta-se como tema de multiplas conversas (na estalagem do Leão de Ouro, sempre comentado quem chegaria na Andorinha ou falando com os passageiros sobre como correra a sua viagem) ou até o próprio palco das conversas (longa conversa entre Leon e Emma enquanto a carruagem seguia voltas e voltas sem destino, aquando do encontro após a noite de teatro em Ruão). A vulgaridade deste objecto, paradoxalmente, torna-o ainda mais singular numa análise deste género, pois tem um papel inesperado mas de grande relevo na vida da protagonista.
A loucura de Emma Bovary vai-se instalando gradualmente nas horas vagas do seu dia a dia, especialmente com a persistência e insistência do Sr. Lheureux que materializa todos os caprichos da dama insatisfeita. A constante aquisição de bens materiais para si e para a casa mantém acesa a chama da ilusão em que Emma vive, afastando-a assim da sua verdadeira realidade: “Longe de ser um registo mecânico de elementos sensórios, a visão prova ser uma apreensão verdadeiramente criadora da realidade – imaginativa, inventiva, perspicaz e bela (...) a mente sempre funciona como um todo. Toda a percepção é também pensamento, todo o raciocínio é também intuição, toda a observação é também invenção” [5]. A realidade quase paralela em que Emma vive torna-se possível graças à conjugação de vários elementos que participam activamente nesse todo, como por exemplo os romances, os amantes e o dinheiro. Destacam-se daqui dois objectos, os romances e o dinheiro, cuja acção incide sobre a materialização dessa realidade. Os romances condensam tudo aquilo que Mme Bovary pretende para a sua vida enquanto que o dinheiro torna possível a realização desse desejo. Assumem-se, por isso, como objectos fulcrais no romance, objectos vulgares graças à utilização banal que a Mme Bovary lhes dá, que participam activamente num diálogo directo com a própria protagonista, na medida em que o seu quotidiano é vivido em função desses objectos, e vice-versa. O desequilibrio que a “dúvida” traz para a sua vida quanto à escassez do dinheiro não tem, ainda assim, o poder de quebrar a realidade ficcional em que vive. Este conceito, apesar de destabilizar a sua vida projecta, para o pequeno cosmos onde se insere, uma sensação radicalmente oposta, em que Emma demonstra ser uma mulher de caprichos, auto-confiante e financeiramente estável, até ao momento final em que tudo se descobre. Do ponto de vista da “conversa”, estes objectos são tema de preocupação da mãe de Charles Bovary, que reprova o comportamento da sua nora, mas também são tema corrente das conversas entre Emma e os seus amantes, mesmo que o objecto “dinheiro” apareça referido subtilmente e de forma indirecta (como ilustram, por exemplo, as conversas correntes sobre viagens – com Rodolphe - e sobre teatro e música – com Leon). É de referir, no entanto, que a relação de Emma Bovary com o Sr. Lheureux, comerciante que se encarrega das encomendas, une o conceito de “conversa” e o objecto “dinheiro” de uma forma particular, em que o objecto “dinheiro” é também objecto de uma conversa que tende a caminhar em direcção ao descalabro das economias da família Bovary. O “dinheiro” coexiste tanto na sua essência como enquanto tema de conversa, conversa essa que tende a forçar a situação em direcção ao caos.
Por fim, o último objecto que surge na fase final do romance, aparece aqui mencionado enquanto objecto que marca um único momento e não enquanto um objecto que acompanha a realidade paralela da protagonista. O frasco de arsénico distingue-se assim de todos os outros objectos: aparece mencionado apenas na terceira (e última) parte do romance e representa o culminar de todo o romance – o suicídio da protagonista. Assim sendo, como relacionar este objecto com o quotidiano de Mme Bovary? De que maneira este objecto esteve presente durante a sua vida? A associação deverá ter em conta o estado emocional de Emma, o qual se caracteriza por uma depressão constante, uma doença maioritariamente psicológica relacionada com o grande desgosto em que vivia. O frasco não é o objecto que acompanha o quotidiano da mulher de Charles mas é aquele objecto que contém em si o culminar de um estado emocional que caminhava, gradualmente, para aquele final. “As pesquisas gestaltistas, contudo, deixaram claro que, com muita frequência, as situações que enfrentamos têm as suas próprias características que exigem que as percebamos apropriadamente. O acto de olhar o mundo provou exigir uma interacção entre propriedades supridas pelo objecto e a natureza do sujeito que observa. Este elemento objectivo da experiência justifica as tentativas para distinguir entre concepções adequadas e inadequadas da realidade.” [6] Mas não seria esse o objectivo de Emma Bovary? Conceptualizar de forma ambigua a realidade em que vivia para poder desviar-se desse mau estar constante? O frasco de arsénico não é certamente um objecto vulgar nem um tema de conversa até ao momento em que Emma o digere. Note-se que o tema de conversa não é o próprio frasco de arsénico mas sim a acção de Emma de se suicidar com um dos químicos guardados a sete chaves pelo farmaceutico Homais. Assim sendo, a sua análise em função deste conceito falha pois a conversa desenvolveu-se em redor da atitude de Emma de acabar com a sua própria vida. O pó de arsénico desempenha aqui um papel unica e exclusivamente informativo. Nem mesmo o conceito de “dúvida” sucede com este objecto, uma vez que Emma Bovary tomou com prontidão a sua decisão.
Apesar de “dúvida”, “conversa” e “vulgar” serem conceitos que compõem a imensa teia que caracteriza a definição de “quotidiano”, nem sempre esses conceitos comprovam essa definição. O pó de arsénico é em si mesmo a prova de como estes três conceitos falham em dar ao leitor a noção de quotidiano, de dia a dia de Emma Bovary. No entanto, deve-se pensar o pó de arsénico como a consequência final de uma vida levada com desgosto, de um quotidiano monótono, aborrecido e sem quaisquer perspectivas de um futuro melhor.
[1] - cit in AUERBACH, E., “Mimesis” (1946), vários tradutores, São Paulo: Perspectiva, 5ª ed., 2004, página 439
[2] - cit in ibidem, página 438
[3] - cit in GIL, J., “A Imagen-Nua e as Pequenas Percepções – Estética e Metafenomenologia”, trad. de Miguel Pereira, Lisboa: Relógio d’Água Editores, 1996, página 17
[4] - cit in FLAUBERT, G., “Madame Bovary”, tradução de Fernanda Graça, Lisboa : Biblioteca Visão, 2000, página 117
[5] - cit in Arhneim, R., “Introdução” in Arte e percepção visual, Livraria Pioneira Editora, S. Paulo, (1954) 1973
[6] - cit in Arhneim, R., “Introdução” in Arte e percepção visual, Livraria Pioneira Editora, S. Paulo, (1954) 1973
Fotografias Antigas (3): Romeiros nos Arredores de Lisboa, 1907
"[O Portugal Atlântico] É por excelência a região das romarias, onde o povo vai adorar os santos em dias determinados e sempre em ar de festa e alegria. Sobretudo durante o Verão são inúmeros os santos que se visitam de maneira sempre festiva. As famílias dirigem-se a pé para o lugar da romagem: capela, igreja ou santuário, com as suas merendas e, muitas vezes, com instrumentos de música para alegrar a jornada e para a festa profana que se segue à visita aos templos e às orações devotas.", Jorge Dias, Estudos de Antropologia, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1990, pp. 170-171.
Notas:
1.A obra citada integra vários trabalhos de Jorge Dias (1907-1973). A citação vem de um artigo inicialmente publicado em 1960 nos Estudos e Ensaios Folclóricos em Homenagem a Renato de Almeida, Rio de Janeiro, e intitulado "Tentâmen de fixação das grandes áreas culturais portuguesas;
2.A imagem é do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa e foi reproduzida em Joaquim Vieira, Portugal Século XX - Crónica em Imagens 1900-1910, Círculo de Leitores, 1999, p.109.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Delmira Agustini (1886-1914), poetisa
Explosión
Si la vida es amor, bendita sea!
Quiero más vida para amar! Hoy siento
Que no valen mil años de la idea
Lo que un minuto azul de sentimiento.
Mi corazón moría triste y lento...
Hoy abre en luz como una flor febea;
¡La vida brota como un mar violento
Donde la mano del amor golpea!
Hoy partió hacia la noche, triste, fría,
Rotas las alas mi melancolía;
Como una vieja mancha de dolor
En la sombra lejana se deslíe...
Mi vida toda canta, besa, ríe!
Mi vida toda es uma boca em flor!
(El libro blanco, 1907)
Fonte: Antología del modernismo literario hispánico, org. de Vicente Sabido e Ángel Esteban, Granada, 2001, Editorial Comares, p. 303.


