quarta-feira, 22 de junho de 2011

Figura Gigante e reflexão sobre o valor do Homem

O livro Figura Gigante, de Nico Orengo (Lisboa, Quetzal Editores, 1987) conta a história dos dois irmãos italianos Ugo (1876-1916) e Antonio Battista (f.1914), que no início do século XX fizeram as delícias dos públicos ignorantes, irracionais e curiosos e a fortuna dos oportunistas que souberam explorar o seu valor financeiro. De facto, tiveram a desdita de nascer gigantes; e numa época em que a diferença parecia ser ou degeneração ou espectáculo. Ugo Battista, descoberto por um empresário, exibia o seu gigantismo, por vezes acompanhado de anões, fazendo sucesso em Paris. "...o empresário era um comerciante de cerveja antes de ser um empresário de atracções. Até àquele momento tivera um chimpanzé, um anão e um malabarista. O chimpanzé morrera de febre em Cannes, o anão fugira com um Lorde inglês, o malabarista, por amor, começara a beber vinho e já não conseguia apanhar um único anel. O empresário vira o seu sonho ruir diante das fraquezas humanas." (p.17) No entanto, apareceram-lhe os dois rapazes, como por milagre. Ugo Battista não tardou a envolver um irmão, também gigante (Antonio), nesse modo de vida. Ugo ainda conseguirá trabalhar em Nova Iorque, mas o irmão morre-lhe em 1914. Para trás ficava a terra de que sempre terá saudades - Vinadio. O público atraído pela invulgar estatura de Ugo, acorre a vê-lo. É uma figura fascinante, cuja morte, com uma persistente frieza, alguns cirurgiões - mais ou menos autorizados a sê-lo - vão aguardando para se poderem apoderar do cadáver e dos seus segredos. O gigantismo de Battista e de seu irmão, naturalmente encarado na terra em que nasceram, torna-se na sua única característica face às plateias: nada mais têm, nem pensamentos nem ódios nem afectos, são apenas gigantes. "Em Roviera, na terceira classe da escola primária, a professora mostrara as figuras de todos os mamíferos do Universo. O maior de todos chamava-se Baleia. Ugo desenhara-a no quadro com o dorso alto e forte e dissera: «Grande como é, não deve ter medo de ninguém». Também ele, naquela altura, não tinha medo de ninguém. (...) Agora, vinte e nove anos volvidos, tinha medo de todos e sentia-se sem força. Parecia-lhe ser uma velha baleia arrastada para uma praça, debaixo dos olhos de demasiada gente" (p.21). Não era, porém, a única atracção: "No mundo, para além dos Gigantes, existiam homens-animais: como Zip, o Macaco-humano, rapazes com cara de cão, como Jo-Jo; Homens-cobra e Homens-lagarto; Grace McDaniels, a Mulher-mula e John Merrick, o Homem-elefante" (p.34). Ugo Battista acabará por morrer nos EUA, um tanto ingloriamente e sem regressar à sua terra. A leitura deste livro, mais próximo, no estilo, da Literatura do que da História, fez-nos lembrar o que há poucos dias escrevemos sobre o Perdidos na Tribo. Poderíamos referir igualmente as diversas modalidades de Big Brother que já passaram na televisão ou ainda o Peso Pesado. Passaram 100 anos sobre as exibições dos irmãos Battista (referimos só este exemplo) e continuamos a dar audiência a estes espectáculos de degradação humana que nos oferecem as televisões. De que servirá combater a barbárie da tourada, se as pessoas ainda se deixam explorar da mesma forma - quer assumindo a posição de títeres anormais, quer deslumbrando-se com diferenças facilmente explicáveis pela Ciência? A Biologia e a Medicina, felizmente, já conseguem explicar o gigantismo dos Battista, tal como a obesidade dos concorrentes do Peso Pesado. A Antropologia e a História disponibilizam muitos milhões de quilómentros de prateleiras com monografias que igualmente explicam as culturas de quaisquer povos, por muito isolados que vivam (caso do Perdidos na Tribo). Se a informação já existe e se é livremente consultável, não conseguimos perceber a razão pela qual persiste o fascínio degradante pelas diferenças, quer culturais, quer físicas dos Seres Humanos. Ser Homem é precisamente ser único dentro de uma espécie igual, ser diferente numa pátria comum. É, pois, necessário que as pessoas decidam alargar os seus horizontes mentais - começando pelas televisões e terminando na população - para que percebam que se anda a tratar com excepção aquilo que constitui a nossa regra.

domingo, 19 de junho de 2011

O Castelo de Cartas, de Chardin


Na imagem, quadro de Jean Baptiste Simeon Chardin (1699-1779), O Castelo de Cartas, óleo sobre tela, 60x72 cm, National Gallery of London, 1736-37. Natural de Paris, onde também faleceu, Chardin pintou naturezas-mortas e cenas da vida quotidiana. Os temas do dia-a-dia e o tratamento das cores, que compõem o intimismo dos interiores domésticos, recordam Vermeer (1632-1675). Quadros como o que aqui se reproduz, podem, pelo seu realismo, conter boas informações para a concretização de outras fontes que sejam menos claras e menos visualizáveis. A imagem vem da Web Gallery of Art: http://www.wga.hu/.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

III Encontros de História das Ciências

ENCONTROS DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA – CEHFCi

FUNDAÇÃO LUSO-AMERICANA PARA O DESENVOLVIMENTO: 2011

III Encontros de História da Ciência – Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência

FUNDAÇÃO LUSO-AMERICANA
RUA SACRAMENTO À LAPA, 21
4, 5, 6, 7 e 8 JULHO de 2011

Coordenação Científica: Clara Pinto Correia e Maria de Fátima Nunes

Estes III Encontros de História da Ciência organizados pelo CEHFCi na Fundação Luso Americana inserem-se na prática institucional de divulgar a actividade de uma unidade de investigação financiada pela Fundação de Ciência e Tecnologia. Está em causa uma mostra significativa do trabalho científico em que investigadores integrados e estudantes de doutoramento e mestrado se encontram envolvidos.

Assim, os III Encontros são um pretexto para um conjunto de sessões de trabalho centradas nos eixos estratégicos que temos em curso, sob a designação de PHYSIS: neles convergem as três grandes linhas de desenvolvimento científico em curso. São elas a História e Filosofia da Ciência, e esta em articulação com Educação de Ciência, e com a Museologia e Património Científico.

Desta forma, graças à hospitalidade institucional da FLAD, podemos durante uma semana, ao final de tarde e sob a luz única do Tejo, divulgar e debater o trabalho de investigação em curso na unidade, através de diferentes foci de amostragem, numa estreita interacção entre investigadores seniores e os alunos de estudos graduados associados ao CEHFCi.

PROGRAMA

04 de Julho (17h–20h)
Sessão 1 : História da Ciência – Biologia:
Luís Carvalho (Instituto Politécnico Beja – CEHFCi) - Contexto CEHFCi: História da Biologia e História da Ciência
Moderação – Elisabete Pereira (doutoranda em História e Filosofia da Ciência; CEHFCi)
Oradores:
Clara Pinto Correia (Resarch Scholard Dep. Biology AMHERST College, USA; CEHFCi) - História do Pensamento Biológico na Literatura de Viagem : o século XIV e os itinerários de Mandeville através da Terra redonda.

Coffee Break (18h30m - 19h)

João Monteiro (CIBIO - Universidade do Porto) - Aperfeiçoar a Espécie Humana: a influência portuguesa nas ideias melhoristas do médico francês Vandermonde

05 de Julho (17h–20h)
Sessão 2: Educação de Ciência: benefícios do recurso à cultura da experimentação
António Neto (Universidade de Évora: Dep. Ciências Educação; CEHFCi) - Contexto CEHFCi: História da Ciência e Educação de Ciência
Moderação – Isabel Cruz (doutoramento de História e Filosofia da Ciência)
Oradores:
Mariana Valente (Universidade de Évora : Dep. Física ; CEHFCi) - Culturas experimentais na História da Ciência e do Ensino das Ciências - da Natureza aos Objectos, dos Objectos aos Experimentos, dos Experimentos às Experiências de aprendizagem

Coffee Break (18h30m - 19h)

Nazaré Caldeira (Mestre em Física, especialidade em Ensino, Professora na EB23 André de Resende-Évora) - "A Experiência de Oersted no Ensino da Física: Contributos da História e Filosofia da Ciência para a sua valorização didáctica"


06 de Julho (17h–20 h)
Sessão 3 : Sessão 3: História das Ciências da Saúde no Portugal Contemporâneo
Maria de Fátima Nunes (Universidade de Évora : Dep. História; CEHFCi) - Contexto CEHFCi: História da Ciência no século XX
Moderador: Quintino Lopes (Doutorando em História e Filosofia da Ciência; CEHFCi)
Oradores:
Madalena Esperança Pina (Faculdade Ciências Médicas_UNL; CEHFCi) - A Colina da Saúde em Lisboa: Redes de Ciência.

Coffee Break (18h30m - 19h)

Alexandra Marques (Doutoranda em História e Filosofia da Ciência; CEHFci) - O Instituo Bacteriológico Câmara Pestana e o Combate à Raiva


07 de Julho (17h–20 h)
Sessão 4 : A importância da Museologia na História da Ciência
João Brigola (Universidade de Évora : Dep. História; CEHFCi) - Contexto CEHFCi: História da Ciência e Museologia
Moderador: Henrique Coutinho Gouveia (CEHFCi)
Oradores:
José Manuel Brandão (CEHFCi) - Herança histórico-científica do Museu Nacional de Lisboa (Mineralogia e Geologia)

Coffee Break (18h30m - 19h)

Luís Ceríaco (Doutorando em História e Filosofia da Ciência; CEHFCi) - Colecções zoológicas. A importância dos museus para o desenvolvimento da zoologia em Portugal (XVIII_XX)


08 de Julho (17h–20 h)
Sessão 5 : História e Filosofia da Ciência e CEHFCi - Sessão final
Augusto Fitas (Universidade de Évora: Dep. Física; CEHFCi) - A Academia de Berlim, palco no século XVIII de uma disputa em torno do Princípio da Menor Acção
Moderação e apresentação: Clara Pinto Correia

Coffee Break (18h30m - 19h)

Sessão de Encerramento

sábado, 11 de junho de 2011

Darwinismo na Literatura I


O conto “A Máquina do Tempo” (1), do autor britânico H. G. Wells (1866-1946), tem início com um debate filosófico entre uma personagem cujo nome não é revelado, sendo apenas conhecido como o viajante do tempo, e os seus convidados. Discursam sobre as três dimensões que os rodeiam – comprimento, largura e espessura – e sobre uma quarta, o tempo. Esta conversa serve de mote para a pergunta lançada pelo anfitrião: crêem os convidados na possibilidade de viajar no tempo? Perante a questão levantada, a audiência responde com um acentuado cepticismo.

Na semana seguinte a casa do viajante do tempo recebe novamente convidados para um jantar mas, uma vez que o proprietário tarda a aparecer, os presentes iniciam a refeição. Entretanto, chega o anfitrião, ferido, a coxear, cansado e esfomeado. Curiosos, os convidados, que já estavam à mesa, quiseram saber o que se tinha passado, mas primeiro o viajante alimenta-se e, só depois, dirige-se para a poltrona e descreve o que acontecera: finalmente, tinha terminado a construção da sua máquina do tempo e viajara milhares de anos para o futuro. Aí, conhecera uma nova espécie humana, muito mais bonita e alegre, mas que revelava poucos traços de inteligência e um acentuado medo do escuro. Esta era a raça dos Elóis que habitava uma paisagem idílica, num colossal jardim sem ervas daninhas, com plantas de uma incrível beleza, e com frutos suculentos dos quais se alimentava, era uma natureza que havia sido aperfeiçoada pelo homem, no passado, com recurso à tecnologia.

No entanto, esta espécie humana não vive sozinha, e cedo o viajante encontra uma raça antagónica constituída por criaturas horrendas, que receiam a luz e vivem nas trevas do subsolo – era a raça dos Morlocks.

Ao longo do conto, a personagem principal vai reflectindo sobre como estas duas espécies se teriam originado, concluindo, com base na teoria evolucionista proposta pelo naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882), que ambas teriam tido um ancestral comum (o homem moderno), e que devido às condições sociais que se viviam no século XIX (estas condições corresponderiam à pressão selectiva) a classe trabalhadora ficou isolada da classe alta – os trabalhadores passaram a viver nas fábricas do subsolo, enquanto os ricos habitavam a superfície da Terra, onde existiam jardins melhorados através da tecnologia - levando a um acentuado acumular de diferenças, acabando por originar, com o tempo, duas espécies diferentes: “Gradualmente, a verdade fez-se luz: o Homem não permanecera uma espécie única, mas diferenciara-se em dois ramos distintos (…)”(2). Mas se dúvidas houvesse quanto à influência darwinista na obra de Wells, dissipar-se-iam ao ler a secção em que o autor comenta que “(…) pessoas pouco familiarizadas com especulações como as do jovem Darwin (…)” esquecer-se-iam de explicações da física do sistema solar, ou seja, o autor afirma que desconhecer as ideias de Darwin é também desconhecer outras ideias científicas (no caso, a Física) que estavam em voga na época, atribuindo ao Darwinismo uma enorme importância para a compreensão dos fenómenos naturais que nos rodeiam.

(1) Outras obras do mesmo autor são "O Homem Invisível" e "A Guerra dos Mundos".
(2) H. G. Wells, “A Máquina do Tempo”, pp. 102-103

Bibliografia:
H. G. Wells, A Máquina do Tempo, editorial estúdios cor, tradução Rosa Canelas

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A Falta de Tempo na Sociedade


No livro “O Vendedor de Tempo”, o autor, Fernando Trías de Bes, conta a estória de como a personagem principal, de nome TC (Tipo Comum), criou o negócio perfeito vendendo o produto que todas as pessoas necessitam e mais desejam: Tempo. O objectivo deste negócio era facturar o suficiente para posteriormente investir no seu maior sonho, estudar as formigas-de-cabeça-vermelha.

TC era um homem adulto (cerca de 40 anos), casado, com dois filhos, com um trabalho pouco entusiasmante, uma hipoteca da casa que demoraria ainda mais 35 anos a ser paga e sem tempo livre (ou seja, um tipo comum, fazendo justiça ao nome). O livro relata as peripécias que TC vive para que aceitem a sua ideia de vender frascos com 5 minutos de tempo, e para patentear a invenção. Após muito custo, consegue obter o que pretendia e inicia o seu negócio que se torna rapidamente num sucesso, contra todas as expectativas. As pessoas aderem facilmente à ideia porque, de facto, possuem falta de tempo, e as empresas até aceitam bem a utilização do produto no local de trabalho pois isso leva à felicidade dos funcionários, a um maior bem-estar, e, consequentemente, a um menor número de faltas por doença e a um maior aumento de produtividade. Os problemas surgem quando TC decide vender cubos com 1 semana de tempo, o que leva a problemas extremamente graves para a economia do país. Posto isto, perguntas como “o que acontecerá se vender ainda mais tempo?” e “quais as possíveis soluções para os problemas que vão surgindo?” são tratadas ao longo da obra.

Este livro, mais do que um texto sobre a relação entre a Gestão e o Tempo, é um ensaio sociológico sobre a importância do Tempo, de como este deve ser valorizado pela sociedade, assim como também explica como funciona a relação entre indivíduos, sociedade, empresas e economia. Trata-se de um livro que, com um inteligente sentido de humor, aborda uma temática séria embora pouco debatida na sociedade.
Bibliografia:
Fernando Trías de Bes, “O Vendedor de Tempo – Uma sátira ao sistema económico”, Pergaminho, Cascais, 2005

A mudança na vida e nas empresas

“Quem Mexeu no Meu Queijo?” é o best-seller de gestão, da autoria de Dr. Spencer Johnson. O livro está dividido em três partes: o reencontro de alguns colegas de liceu, que serve de introdução; a estória de “Quem mexeu no meu queijo?”, a secção principal da obra; e o debate que os colegas com base na estória previamente contada, que corresponde ao sumário das ideias apresentadas, portanto a parte reflexiva, em jeito de conclusão.

Através de uma fábula, o autor conta a história de quatro personagens com personalidades muito diferentes, dois ratos e dois humanos minúsculos, que vivem felizes num labirinto até ao momento em que o Queijo, que é a base do seu sustento, desaparece. Este é um livro do qual podemos retirar ensinamentos através de metáforas, e os nomes das personagens não são excepção: o rato Fungadela apercebe o cheiro da mudança, o rato Correria é activo e pretende acompanhar rapidamente as mudanças, o humano Pigarro resiste às novidades e critica-as (comportamento semelhante ao do Velho do Restelo) e o humano Gaguinho esforça-se por se adaptar a novas situações. Assim, quando as quatro personagens se apercebem que o queijo desapareceu, têm diferentes reacções. Os ratos vão à procura de um novo queijo, enquanto os humanos ficam a lamentar-se. No entanto, cedo o Gaguinho apercebe-se que as lamentações não o levam a lugar algum e toma a iniciativa de também ele procurar um novo queijo, não se deixando tomar pelo medo e arrisca num novo percurso de vida. Pelo contrário, Pigarro só se lamenta, queixando-se da desgraça, e da negra realidade que se abateu sobre a sociedade. Ao longo da estória conhece-se o percurso tomado por estas duas últimas personagens, em que Gaguinho acaba por conseguir atingir os seus novos objectivos, enquanto o Pigarro, sempre a lamentar-se das desgraças e não acreditando que a mudança pode trazer novas oportunidades, não sairá do mesmo sítio.

Aqui, o labirinto representa a nossa vida, o queijo simboliza aquilo que nos é importante e a que já estamos habituados (um trabalho, um negócio, uma família, condições de vida estáveis, etc.), o desaparecimento do queijo indica a mudança, e as quatro personagens revelam quais as quatro atitudes que escolhemos ter quando as mudanças ocorrem na nossa vida – e vão ocorrer de certeza, porque a mudança é algo natural, parte integrante da realidade. Ou seja, por muito que queiramos não conseguiremos evitar mudanças, mas podemos escolher qual a nossa postura, a nossa reacção face a essas alterações. A melhor escolha, parece-me, é tentar dar a volta por cima, e “procurar um novo queijo”.

Bibliografia:
Dr. Spencer Johnson, “Quem Mexeu no Meu Queijo? – Como lidar com a mudança no seu trabalho e na sua vida”, 3ª edição, Gestão Plus, Lisboa, 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Os Fabulosos Grant: A Selecção Natural e a Especiação



No passado Sábado passado tive ocasião de assistir uma vez mais a uma excelente palestra de Peter e Rosemary Grant, desta feita na Fundação de Serralves, no Porto (evento organizado pelo CIBIO-UP no âmbito da exposição 'A Evolução de Darwin'). Este casal de investigadores ingleses, professores da Universidade de Princeton nos EUA, ficarão para sempre associados ao estudo dos tentilhões de Darwin, os interessantes tentilhões das Ilhas Galápagos. E esse lugar na história da ciência é bem merecido.








Desde a década de 70 do século passado, ano após ano, o casal muda-se para a pequena ilha desértica Daphne Maior durante vários meses. Aí, seguiram ao pormenor as populações de três das catorze espécies de tentilhões que povoam este arquipélago, capturando e anilhando milhares de indivíduos, medindo-os e retirando amostras de sangue que permitiram fazer um seguimento fisiológico e genético destes pequenos pássaros. Com este estudo detalhado puderam verificar a acção “em directo” da selecção natural, devida às brutais variações climáticas que sofrem estas ilhas, principalmente no que diz respeito à pluviosidade.



Em 1977, por influência do El Niño, a ilha sofreu uma seca extrema e 80% da população de tentilhões desapareceu. Que indivíduos é que sobreviveram? Aqueles que tinham o bico maior, mais forte, que lhes permitia quebrar os duros frutos da planta do género Tribolium e chegar às suas sementes, o único alimento disponível. Estes investigadores assistiram em poucos anos, à mudança de morfologia na população de Geospiza scandens nesta ilha. Alguns anos mais tarde, em 1984-85 a intensa pluviosidade levou de novo a uma mudança extraordinária na flora da ilha, a ponto de os tão típicos cactos ficarem imersos em trepadeiras. Nesta ocasião, a acção da selecção natural levou a um processo inverso: desta vez, tinham vantagem os pássaros com o bico mais pequeno que podiam aproveitar todas as pequenas sementes das plantas que floresceram com a chuva…e de novo, a morfologia da espécie mudou nas gerações seguintes.



Esta parte da história é possivelmente já bem conhecida por muitos leitores deste blog. Um pouco menos conhecida será a respeitante aos trabalhos que têm desenvolvido nos últimos anos a respeito dos processos de especiação que parecem estar a ter lugar nesta pequena ilha.



Em Daphne Maior existem três espécies de tentilhões: Geospiza scandens, Geospiza fortis (tentilhão-terrestre-de-bico-médio) e, chegada mais recentemente, Geospiza magnirostris (tentilhão-terrestre-de-bico-grande). G. magnirostris destaca-se bem das outras duas pelo seu tamanho (pesa cerca de mais 10 gr em média). G. scandens e G. fortis têm tamanho (aproximadamente 20 gr) e aspectos similares, mas variam na forma e tamanho do seu bico.











Para além disso, os machos das três espécies cantam canções completamente diferentes. Estes investigadores puderam verificar que G. scandens e G. fortis mantinham o isolamento reprodutivo com um bom reconhecimento específico tanto a nível da morfologia como da canção. Durante vários anos, não foram encontrados híbridos destas duas espécies. As poucas excepções de hibridação davam-se quando uma cria macho aprendia, por engano, a canção de outra espécie (por exemplo, se o seu pai falecesse e ela ouvisse a canção de um “pai vizinho”). Este macho iria crescer a cantar a canção errada e portanto poderia acasalar com uma fêmea de outra espécie. Ainda assim, na maior parte dos casos, estes machos eram atacados pelos outros (da espécie “verdadeira”) quando cantavam, não chegando a reproduzir-se.



Mas houve uma excepção! Há alguns anos, os Grant detectaram um novo indivíduo, não marcado, com características diferentes: era maior que um G. scandens ou G. fortis, mas não tão grande como um G. magnirostris; todo negro; e cantava uma canção completamente nova. Como todos os indivíduos da ilha estavam marcados e os seus marcadores genéticos tinham sido analisados, “facilmente” foi possível comprar este desconhecido com o resto da população. Seria ele um emigrante de outra ilha? Não. Verificaram que este era um híbrido entre G. scandens ou G. fortis, maior, mais forte, com uma nova canção e com hábitos alimentares absolutamente generalistas. Tudo indicava ser um caso de ‘vigor híbrido’. Mas seria ele capaz de se reproduzir? Pois parece que sim. Agora, após sete gerações seguidas atentamente pelos investigadores e a sua equipa, tudo indica que este indivíduo deu origem a uma nova linhagem, quiçá uma nova espécie! Após um primeiro retrocruzamento (backcross) com uma das espécies parentais, a descendência tem vindo a acasalar entre si, dando indicação da existência de isolamento reprodutivo em relação às espécies parentais. Um caso raro de especiação por fusão (em vez de fissão).



E isto leva rapidamente à pergunta: mas então se duas espécies hibridaram não são “verdadeiras espécies”, não é? E aí entra a complicada explicação de “o que é uma espécie”? Nós temos tendência a querer ter o conhecimento bem organizadinho e ordenado em categorias fáceis de identificar. E o esforço na definição de espécie é um belo exemplo disso. Mas, na verdade, a natureza não é organizada e ordenada, mais bem o contrário. Então, não faz sentido falar em espécie como categoria? Faz. Os seres vivos, na sua maioria, parecem discriminar entidades que grosso modo coincidem com o nosso conceito de espécie mais comum: populações de indivíduos semelhantes que estão reprodutivamente isoladas de outras populações. No entanto, há excepções a esta norma e as excepções são bem-vindas porque são elas próprias sinais da evolução! As espécies, e as populações que as constituem, não são entidades estáticas. Se o fossem, não existiria evolução. E, como Peter Grant bem explicou no Sábado, seria uma simplificação brutal deixar de chamar “espécie” a muitos grupos em que se verificou fenómenos de hibridação; seria até um desrespeito pela sua história e complexidade evolutiva. E eu estou plenamente de acordo com a sua resposta.



Bravo!



Se quiser descobrir mais detalhes, consulte:

Evolution of character displacement in Darwin's finches

Fission and fusion of Darwin's finches populations

The secondary contact phase of allopatric speciation in Darwin's finches

Songs of Darwin's finches diverge when a new species enters the community

domingo, 5 de junho de 2011

Breve comentário sobre o programa "Perdidos na Tribo"

Na revista TV do passado 6 de Maio de 2011, que sai com o Correio da Manhã, dizia-se: “Durante três semanas, doze figuras públicas são enviadas para alguns dos locais mais remotos do Mundo e inseridas em três tribos com tradições e costumes completamente diferentes. Longe da civilização, os famosos têm de seguir o modo de vida dos nativos, o que inclui, entre outras, beber sangue de animais, cobrir o corpo com argila e fazer a higiene com cinzas de ervas queimadas. O enorme choque cultural gera situações curiosas e até hilariantes, que pretendem cativar os telespectadores. É precisamente esse o objectivo de “Perdidos na Tribo”, o novo reality show que a TVI estreia este domingo (8 de Maio) à noite, para competir com “Peso Pesado” da SIC. Durante dez semanas, os telespectadores poderão votar na sua tribo favorita por telefone ou SMS. O valor acumulado por cada tribo reverte a favor de uma instituição associada à mesma.” (p.12) São as premissas do programa Perdidos na Tribo que estreou recentemente na TVI. Consistiu, como se verificou, em enviar 12 pessoas famosas, divididas em grupos de 4, para a Namíbia, a Etiópia e as Ilhas Vanuatu, para viverem junto de três povos remotos e, logo, fundamentalmente diferentes dos Ocidentais. Cabe aqui reflectir sobre o interesse que pode ter um programa de televisão assim. Depois de o termos visto, confessamos, ficámos com algumas dúvidas. O programa é decerto interessante por mostrar alguns dos hábitos de outros povos, ainda para mais vivendo num acentuado isolamento que lhes permite ir conservando com assinalável solidez as suas culturas. No entanto, há várias reservas que se podem levantar. Primeiro, enviar um grupo de famosos (actores e figuras do jet 7) é manifestamente um chamariz para audiências. Porque não enviar um grupo de antropólogos, que realmente sabem o que estão a fazer? Bem, nesse caso, converter-se-ia um programa popular num documentário da National Geographic e todos sabem como estes são aborrecidos, porque neles fala-se realmente de Cultura. Em segundo lugar, colocar um grupo de europeus subitamente no meio de uma outra civilização para assistir ao choque cultural (que já se sabe verificar), só por si, parece-nos pobre. Se pusermos um gato doméstico a viver no gelo do Pólo Norte, também sabemos que morrerá de frio, pelo que fazer a experiência não traz interesse maior. Terceiro, nada verdadeiramente aprende o telespectador sobre esses povos, já que a justificação para as suas atitudes nunca é explicada. Porque acreditam naqueles seus deuses? Porque têm rituais mágicos em caso de doença? Porque têm uma alimentação diversa da ocidental? Porque é o seu regime familiar como se vê? Fica uma noção algo vaga do atraso dessas civilizações em relação à nossa. É óbvio que a nível tecnológico os Ocidentais conseguiram uma complexidade incomparável. Mas os Himba, os Hamer e os Nakulamené: que poderiam ensinar-nos sobre a relação entre os Homens e a Natureza, hoje por cá muito esquecida? Não há, pois, fórmula simples que conduza à verdade em matéria cultural. Infelizmente, este programa parece ter tido tal sucesso que em Espanha, na Antena 3, já se tenta a modalidade oposta: vêm os indígenas atrasados visitar as nossas cidades avançadas e fazer-nos rir com o seu deslumbramento face à civilização superior. Estas fórmulas televisivas explicam-se fundamentalmente pela falta de princípios a que conduz a ambição descabelada das televisões, actualmente. Haverá limites para a torpeza com que todos os dias os canais insultam a inteligência da população?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dia da Biodiversidade

Colabore na Divulgação:

Evento: Dia da Biodiversidade na exposição “A Evolução de Darwin” – Porto
Dia: 22 de Maio 2011
Horário: 10h até 19h
Local: Casa Andresen, Jardim Botânico do Porto, Rua do Campo Alegre, 1191
4150-181 Porto, Portugal
Coordenadas GPS:
Latitude: 41.15364955646922 Longitude: -8.642528057098389

Pode encontrar mais informações no Site: http://expodarwin.up.pt/  

O que irá acontecer neste dia?
Poderá visitar a exposição “A Evolução de Darwin”, com a opção de visita guiada, como é normal aos fins-de-semana. Para além disso, irão decorrer conversas com oradores convidados, dos quais se destaca a professora Teresa Andresen, Directora do Jardim Botânico do Porto (e familiar da escritora Sofia de Mello Breyner Andresen). Também irá haver actividades práticas paralelas para conhecer melhor a nossa biodiversidade, sendo estas actividades dirigidas tanto a um público adulto como aos mais novos. Visite-nos!




Nota aos nossos leitores: Esta actividade conta com a presença de alguns elementos do ArmariumLibri.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fotografias Antigas (4): Cesário Verde, c. 1871




Na imagem, José Joaquim Cesário Verde (1855-1886), poeta português e talvez o nosso único poeta notável da Escola Realista. Comerciante de profissão e estabelecido em Lisboa, trabalhou na loja de seu pai, alternando com estadias na quinta familiar de Linda-a-Pastora. Praticamente desconhecido no seu tempo, foi graças ao amigo António José da Silva Pinto (1848-1911) que a sua obra permaneceu, para ser, no início do século XX, recuperada como inspiração pelos Modernistas, já que a sua estética descritiva de impressões antecipa, na Literatura, até as experiências pictóricas dos novos artistas. Recorde-se a admiração que Fernando Pessoa/Alberto Caeiro tinha por Cesário Verde.



Fonte: A imagem veio de Luís Amaro de Oliveira, Cesário Verde (novos subsídios para o estudo da sua personalidade), Coimbra, Editorial Nobel, 1944, p.3; sobre a vida do poeta, pode ver-se também o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol.2, coord. de Eugénio Lisboa, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d., pp. 379-386, s.v. "Verde, José Joaquim Cesário".

81ª Feira do Livro de Lisboa

Já abriu no Parque Eduardo VII, em Lisboa, a 81ª Feira do Livro. Pode ser visitada até ao próximo dia 15 de Maio, de 2ª a 5ª feira das 12h30 às 23h00, 6ª feira das 12h00 às 24h00, ao Sábado das 11h00 às 24h00 e ao Domingo das 11h00 às 23h00. São de assinalar as presenças das bancas da Madeira e dos Açores, com muitas obras de grande interesse para a História das nossas Ilhas, da banca da Chiado Editora, da Livraria Letra Livre, repetente na Feira, e das dos alfarrabistas onde a preços baixos se encontram obras preciosas. Na banca da Editorial Presença, já se pode encontrar a 2ª edição do I volume da Nova História de Portugal, dirigida pelos Profs. Oliveira Marques e Joel Serrão e coordenada pelo Prof. Jorge de Alarcão, obra esgotada há mais de 10 anos e muito procurada. Para mais informações, v.: http://www.feiradolivrodelisboa.pt/.

A Poesia de João Xavier de Matos (1730-1789)

Na senda de alguns anteriores textos de divulgação, aproveitamos para recordar aqui um poeta português do século XVIII, hoje completamente esquecido. João Xavier de Matos (1730-1789), provavelmente natural de Lisboa, terá estudado ou Leis ou Cânones em Coimbra e foi ouvidor na Vidigueira. Pertenceu à Arcádia Portuense, uma das muitas sociedades literárias aparecidas em Portugal nos séculos XVII e XVIII, com o nome Albano Erythreo. Publicou as suas Rimas em três volumes, reeditados juntos em 1800. Deixam-se dois seus sonetos, muito belos, reforçando a injustiça que constitui o desconhecimento deste autor. (Veja-se em especial o segundo poema, com um tom já romântico, a fazer lembrar o locus horrendus de Bocage.)





1.Eu vi uma pastora em certo dia
Pelas praias do Tejo andar brincando,
Os redondos seixinhos apanhando,
Que no puro regaço recolhia.

Eu vi nela tal graça, que faria
Inveja a quantas há; e o gesto brando
Com que o sereno rosto levantando,
Parece namorava quanto via.

Eu vi o passo airoso, a compostura,
Com que depois me pareceu mais bela,
Guiando os cordeirinhos na espessura.

Eu o digo de todo: vi a Estela.
De graça, de candor, de formusura
Só poderei ver mais tornando a vê-la.





2.Se eu vira num bosque onde não desse
Sinal, vestígio humano de habitado,
De verdenegras ramas tão fechado
Que inda ali de dia anoitecesse;

Se então lá de uma balça ao longe houvesse
Gemendo um mocho, e tudo o mais calado;
Só dentre alguns rochedos pendurado,
Com som medonho, um rio ali corresse;

Enfim num lugar tal onde os meus dias
Consumindo-se fossem na certeza
De não tornarem mais as alegrias;

Faminta ainda a triste natureza,
Cercada ali de tantas agonias,
Nem então se fartara de tristeza.



Fonte: Poesia Portuguesa - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto, Porto Editora, 2009, p. 640

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Sobre a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS):

A FFMS tem como missão contribuir para o desenvolvimento da sociedade, o reforço dos direitos dos cidadãos e a melhoria das instituições públicas através da promoção e da demanda pelo conhecimento da realidade portuguesa. Nos estudos efectuados, a análise deve ser rigorosa e, após a obtenção de resultados, estes devem ser divulgados e servir de base para debate, assim como para a formulação de recomendações e sugestões, tendo em vista o melhoramento das instituições e da vida em comum. Um dos grandes objectivos é disponibilizar aos cidadãos a maior massa de informação possível, pois, como explica no site da Fundação, “os cidadãos informados são os que estão mais habilitados a formar uma opinião independente e livre”. (1) Neste âmbito, foi criada a colecção “Ensaios da Fundação” cujo desígnio principal é pensar livremente.

Os Ensaios da Fundação:

Já se abordou, neste blog, um dos ensaios intitulado “Economia Portuguesa – As últimas décadas” (2010), do historiador Luciano Amaral, cujo texto pode ser encontrado aqui.

No início deste ano, foram publicados novos ensaios, dos quais destaco “A Ciência em Portugal”, da autoria de Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra, e “Filosofia em Directo”, de Desidério Murcho, professor de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil.

“A Ciência em Portugal”

Este livro é importante na medida em que ajuda a entender como funciona a ciência em Portugal – Quem financia, quem faz, como são avaliados os resultados, quem e como divulga, etc.

A obra tem início com uma introdução que faz uma análise gráfica e histórica do estado da ciência em Portugal nos últimos anos; seguido de um brevíssimo capítulo dedicado à História da Ciência Portuguesa (2). De seguida, aborda a Organização da Ciência através do papel do Ministério para a Ciência e Tecnologia, das Unidades de Investigação, Laboratórios Associados e Laboratórios do Estado; procura-se saber como está a decorrer a produção científica no nosso país e como isso pode ser avaliado (e.g. como o número de pessoas formadas, o número de artigos científicos, o impacto desses artigos, o número de patentes, entre outros); e aborda-se ligeiramente a relação triangular Ciência, Tecnologia e Economia. Os capítulos seguintes dedicam-se à relação entre a ciência e o público, dando-se ênfase à estreita colaboração com as escolas, assim como com o chamado ensino informal e o papel da divulgação científica.

O progresso de um país está estreitamente ligado ao desenvolvimento da ciência e tecnologia, e por isso é importante que os cidadãos entendam os rudimentos destas áreas. O ensino da ciência pode ser feito dentro das salas de aula (ensino formal) ou fora das salas de aula (ensino não formal, e.g. museus), sendo estes dois modos de ensino complementares. Estudos indicam que a aprendizagem de conceitos científicos por adultos faz-se ao longo da vida através de ensino não formal, mas a compreensão dessas ideias é tanto maior quanto o nível de escolarização (importância do ensino formal) (3). O autor é crítico no modo como se ensinam as ciências, defendendo que é necessário valorizar cada vez mais o papel da experimentação e do raciocínio crítico dentro das salas de aula, de modo a, por exemplo, saber distinguir ciência de pseudociência (4). Contributos positivos têm sido dados pela Agência Ciência Viva, assim como através de livros de divulgação científica (referem-se algumas editoras como Publicações Europa-América, Editorial Presença ou a Gradiva), por Museus e Exposições e por associações de ciência.

São apresentadas algumas soluções para melhorar a aprendizagem de ciências: palestras de cientistas nas escolas e em museus ou centros de ciência, realização de Dias Abertos em Universidades ou Instituições Científicas, Actividades de Verão da Ciência Viva. No final do livro, também são apresentadas ideias para ampliar a divulgação científica, como por exemplo tentar captar mais atenção dos Media, apoiar os museus e centros de ciência e fomentar novos, fomentar actividades de associativismo científico, ou promover a ligação entre Ciências e Humanidades (artes e letras).

“Filosofia em Directo”

De acordo com o prefácio do autor, este livro não tenciona ser nem escolar nem académico, e por essa razão não apresenta referências bibliográficas ao longo do texto, nem referências a filósofos antigos ou contemporâneos; pretende apenas apresentar o raciocínio filosófico, o que consegue através de inúmeros exemplos práticos ao longo da obra (para esses exemplos, o autor recorre a personagens ou a acontecimentos do livro “Os Maias”, do escritor Eça de Queirós).

Desidério apoia o leitor na reflexão de vários temas que acompanham a Humanidade ao longo de milhares de anos, como a Democracia, a Liberdade, a Autonomia, o Valor, o Sentido, a Realidade, a Contingência, o Raciocínio e a Verdade. Passo a passo, ensina-nos a reflectir filosoficamente. A título de exemplo, ainda no primeiro capítulo explica o que é a Democracia para de seguida demonstrar, através de argumentos lógicos, por que é contra a Democracia; mas isto serve de pretexto para desmontar o raciocínio anterior, demonstrando que por vezes um raciocínio pode ser lógico mas, apesar disso, estar errado por partir de premissas erradas, alertando-nos assim para a necessidade de espírito crítico.

Ao ler este livro, não pude deixar de pensar como serviria para uma boa introdução à disciplina de filosofia no secundário, ou como leitura complementar das aulas.

Notas:
(2) – Este tema é desenvolvido no livro de Carlos Fiolhais e Décio Martins, “Breve História da Ciência em Portugal” (2010).
(3) – Carlos Fiolhais, (2011), p. 56
(4) – Idem, pp. 61-62

Bibliografia:
- Carlos Fiolhais, “A Ciência em Portugal”, Fundação Francisco Manuel dos Santos & Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2011
- Carlos Fiolhais e Décio Martins, “Breve História da Ciência em Portugal”, Gradiva Publicações e Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2010.
- Desidério Murcho, “Filosofia em Directo”, Fundação Francisco Manuel dos Santos & Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2011
- Luciano Amaral, “Economia Portuguesa – As últimas décadas”, Fundação Francisco Manuel dos Santos & Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2010

domingo, 10 de abril de 2011

Pobres e Ricos, segundo W. McCay (1933)

Ilustração de Winsor McCay (1869-1934), ilustrador norte-americano, para o Seattle Post Intelligencer de 4 de Junho de 1933. Na legenda, pode ler-se "ELES ESTÃO LIGADOS: Quando a Fortuna ignora a Pobreza durante demasiado tempo, fica em perigo de ser arrastada por ela. Já aconteceu muitas vezes e há-de suceder outra vez. O homem dos dólares e do poder deveria aperceber-se disso." Apesar de McCay ser sobretudo conhecido pela sua originalíssima banda-desenhada Little Nemo in Slumberland, a imagem em questão, com outras de tema semelhante, integra-se no interesse que os intelectuais americanos começaram a sentir pela pobreza, pelos bairros sujos, pela imigração, pelo crime, pela corrupção e outros sintomas de que as sociedades ocidentais económica e laboralmente desreguladas foram, logicamente, sofrendo. Infelizmente, mesmo que a legenda seja superficial, a ilustração de McCay contém uma actualidade verdadeiramente perturbadora.


Fonte: Winsor McCay, Little Nemo in Slumberland - O Pequeno Nemo no Reino dos Sonhos, organizado e prefaciado por Richard Marschall, vol. II, Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p.9.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Flaubert e (outras) análise(s) do quotidiano - round II





Retomando o tema da publicação de João Lourenço Monteiro (11 de Outubro de 2010) que incide sobre as obras de Gustave Flaubert e as análises psicológicas que este faz das personagens, proponho uma leitura sobre o quotidiano através de objectos que se assumam relevantes no dia a dia de Emma Bovary, personagem que dá nome a uma das mais conhecidas obras de Flaubert.

No romance “Madame Bovary”, o leitor é levado a caracterizar Emma Bovary como uma mulher insatisfeita e infeliz. A protagonista vai vivendo na esperança de melhorar a sua vida, torná-la mais cultural e igualá-la aos costumes aristrocatas. A sua insatisfação constante, resultante de um casamento falhado e carregado de uma monotonia saturada pela falta de ambição (sobretudo cultural) do pequeno médico com quem se casou, leva Emma a refugiar-se na literatura e a aproveitar com intensidade todos os episódios repentinos como se fossem breves “escapes” para fugir ao desinteresse da sua vida. E é precisamente a sua vida, o seu dia a dia, que Gustave Flaubert dá a conhecer ao leitor. Ainda que o autor não expresse qualquer opinião sobre as suas personagens, a trama vai-se desenvolvendo de forma parcial, concentrando-se na enumeração e descrição dos sucessivos episódios de desespero presentes no quotidiano de Emma Bovary.

Esclarece-nos Enrich Auerbach que “Para Flaubert, o peculiar dos acontecimentos quotidianos e contemporâneos não parecia estar nas acções e nas paixões muito movimentadas, não em seres ou forças demoníacas, mas no que se faz presente durante longo tempo, aquilo cujo movimento superficial não é senão burburinho vão[1]. É neste ponto que se prende o objectivo desta leitura: analisar o quotidiano da protagonista através de outros conceitos, eles próprios intrínsecos à definição de quotidiano. Por ser este um conceito tão vasto, entendi que, para este romance em particular, os conceitos de “conversa”, “vulgar”, e “dúvida”, eles próprios estreitamente relacionados entre si, poderiam ajudar a explorar outras interpretações. De que maneira estes três conceitos estão ligados ao conceito de “quotidiano”?

Um dos pontos da definição de “quotidiano” passa pelo envolvimento do próprio com o mundo. Esse envolvimento pode ou não implicar o “outro” (“outro” significando aqui tanto um indivíduo como a sociedade onde está inserido). É através da “conversa” que o próprio se dá a conhecer ao mundo, é pela “conversa” que se inicia uma relação entre dois indivíduos, mesmo que seja apenas circunstancial. A “conversa” pressupõe um diálogo, uma troca de ideias, informações, pensamentos e emoções. Este último remete para um aspecto importante a reter neste conceito: a sua permeabilidade ao estado emocional. Essa será, talvez, a característica que mais se destaca na relação de Emma Bovary com aqueles que a rodeiam: com Charles (marido) é seca e intolerante; com os amantes é apaixonada, entusiasmada e até chega a ser colérica; com os Homais (família do farmacêutico) é cordial, educada e neutra; com a filha é antagónica. Tome-se o exemplo da sua relação com Charles: “o homem nada suspeita do estado interno da mulher; têm tão pouco em comum, que nem chega a haver uma disputa, uma discussão, um conflito aberto[2].

Se a “conversa” remete para o envolvimento do próprio com o mundo, a “dúvida” fragiliza esse envolvimento com o mundo através da descrença e do receio. O dia a dia passa também pela vivência de momentos de incerteza e de indecisão. São vários os episódios em que o autor mostra uma Emma Bovary frágil, envolta em multiplas dúvidas sobre o amor de Rodolphe, de Leon, sobre o seu futuro e até sobre o seu marido. Os seus dias monótonos propiciam uma reflexão interior sobre a sua insatisfação, reflexão essa que transborda dúvidas, anseios e receios.

Pensar o quotidiano transporta-nos para uma reflexão mais demorada sobre os acontecimentos que marcam o dia a dia. Sem dúvida que o conceito de “vulgar” é o que mais se aproxima desta reflexão: detém-se sobre aquilo que é comum, aquilo que é trivial, aquilo que é ordinário e que o tempo banaliza. Sendo um conceito aplicável em larga medida não deixa de, fatalmente, se aplicar ao que é rotineiro.

Em que medida estes conceitos permitem a análise do quotidiano de Emma Bovary?

É necessário, primeiramente, entender de que maneira a protagonista percepciona o seu quotidiano. Sendo uma dama de casa, Emma Bovary tenta ocupar o seu tempo com todo o tipo de pequenos prazeres que vai descobrindo mas dos quais rapidamente fica saturada – como por exemplo a aprendizagem da língua italiana, a costura, etc. Para além da lida e embelezamento da casa, a que Emma sempre dedicou todos os seus esforços, a leitura de romances e de revistas da moda parisiense permaneceram como um dos seus hobbies preferidos, pois transportavam-na para contextos diferentes daquele em que vivia, contextos cosmopolitas tentadores, de diversão, luxuria e cultura e libertavam-na do pensamento da sua vida. O seu desejo de emancipação a par destas leituras levaram Mme Bovary a viver a sua vida quase como uma aristocrata, confundindo desta forma a realidade da pequena burguesia provinciana de Tostes e de Yonville-Abbadye com a ficção dos romances. É de referir ainda o relevo que os seus casos com Rodolphe e Leon tiveram na sua vida: não só permaneceram como pontos altos e de grande alegria e felicidade na sua vida como a tornaram mais forte e mais segura de si própria, tornando-se, consequentemente mais fria e menos tolerante para com Charles, seu marido. No entanto, a estes momentos altos da sua vida sempre sucediam outros de puro desleixo, desprezo, momentos ainda mais intensos de melancolia, aborrecimento e tristeza.

Emma Bovary é também espectadora dos acontecimentos da sua vida na medida em que é um sujeito que percepciona e experimenta esses acontecimentos: “(...)«experimentar» de maneira «inconsciente». Este «experimentar» engloba um «experienciar» e uma «experimentação» para além da consciência: é este o campo de uma possível «metafenomenologia». Ora, a chave que dá acesso a este novo campo é uma semiótica das pequenas percepções (...)”[3], pequenas percepções essas associadas a forças perceptivas que não se encontram nos objectos mas que reforçam a expressão e significado daqueles. Os objectos vão ganhando uma outra importância na sua vida, na medida em que prolongam esses acontecimentos: “Não podia despegar a vista daquela alcatifa que ele pisara, daquelas cadeiras vazias onde se sentara (...) Porque não se apoderara ela daquela ventura quando estava ao seu alcance!”.[4]

Em todo o romance surgem objectos que se vão impondo enquanto marcos importantes no decorrer da história, mesmo quando tais objectos se apresentam inconscientemente a Emma Bovary. São eles:

- a carruagem e, por conseguinte, a Andorinha

- os romances

- o franco = o dinheiro

- o arsénico

De todos os objectos escolhidos, a carruagem parece ser o objecto que Emma “experimenta de maneira insconsciente”: a carruagem, objecto vulgar que quase se anula aos olhos dos leitores e da protagonista na medida em que serve apenas enquanto meio de transporte, carrega um significado que levanta outras questões bastante importantes. Acompanha todas as peripécias da vida da Mme Bovary e demonstra a efemeridade das suas aventuras, o ir e o voltar, o sair da monotonia da sua vida e o rumar a outros contextos e a novos acontecimentos. Desempenha um papel primordial na forma como a sua vida ocorre, projectando no futuro as mais altas expectativas (estando aqui implicita a análise deste objecto em função do conceito de “dúvida”) :

- ida da casa de seu pai (perto de Vassonville) para a casa de seu marido, em Tostes

- ida para a festa do marquês de Andervilliers em Vaubyessard onde participa, pela primeira vez, num jantar e baile aristocrático

- ida para Yonville-l’Abbadye, sua nova morada, onde conhece Leon e Rodolphe e comete adultério

- idas para Ruão para as inexistentes “aulas de piano” passadas no hotel com Leon.

A carruagem, vulgar meio de transporte, apresenta-se como tema de multiplas conversas (na estalagem do Leão de Ouro, sempre comentado quem chegaria na Andorinha ou falando com os passageiros sobre como correra a sua viagem) ou até o próprio palco das conversas (longa conversa entre Leon e Emma enquanto a carruagem seguia voltas e voltas sem destino, aquando do encontro após a noite de teatro em Ruão). A vulgaridade deste objecto, paradoxalmente, torna-o ainda mais singular numa análise deste género, pois tem um papel inesperado mas de grande relevo na vida da protagonista.

A loucura de Emma Bovary vai-se instalando gradualmente nas horas vagas do seu dia a dia, especialmente com a persistência e insistência do Sr. Lheureux que materializa todos os caprichos da dama insatisfeita. A constante aquisição de bens materiais para si e para a casa mantém acesa a chama da ilusão em que Emma vive, afastando-a assim da sua verdadeira realidade: “Longe de ser um registo mecânico de elementos sensórios, a visão prova ser uma apreensão verdadeiramente criadora da realidade – imaginativa, inventiva, perspicaz e bela (...) a mente sempre funciona como um todo. Toda a percepção é também pensamento, todo o raciocínio é também intuição, toda a observação é também invenção” [5]. A realidade quase paralela em que Emma vive torna-se possível graças à conjugação de vários elementos que participam activamente nesse todo, como por exemplo os romances, os amantes e o dinheiro. Destacam-se daqui dois objectos, os romances e o dinheiro, cuja acção incide sobre a materialização dessa realidade. Os romances condensam tudo aquilo que Mme Bovary pretende para a sua vida enquanto que o dinheiro torna possível a realização desse desejo. Assumem-se, por isso, como objectos fulcrais no romance, objectos vulgares graças à utilização banal que a Mme Bovary lhes dá, que participam activamente num diálogo directo com a própria protagonista, na medida em que o seu quotidiano é vivido em função desses objectos, e vice-versa. O desequilibrio que a “dúvida” traz para a sua vida quanto à escassez do dinheiro não tem, ainda assim, o poder de quebrar a realidade ficcional em que vive. Este conceito, apesar de destabilizar a sua vida projecta, para o pequeno cosmos onde se insere, uma sensação radicalmente oposta, em que Emma demonstra ser uma mulher de caprichos, auto-confiante e financeiramente estável, até ao momento final em que tudo se descobre. Do ponto de vista da “conversa”, estes objectos são tema de preocupação da mãe de Charles Bovary, que reprova o comportamento da sua nora, mas também são tema corrente das conversas entre Emma e os seus amantes, mesmo que o objecto “dinheiro” apareça referido subtilmente e de forma indirecta (como ilustram, por exemplo, as conversas correntes sobre viagens – com Rodolphe - e sobre teatro e música – com Leon). É de referir, no entanto, que a relação de Emma Bovary com o Sr. Lheureux, comerciante que se encarrega das encomendas, une o conceito de “conversa” e o objecto “dinheiro” de uma forma particular, em que o objecto “dinheiro” é também objecto de uma conversa que tende a caminhar em direcção ao descalabro das economias da família Bovary. O “dinheiro” coexiste tanto na sua essência como enquanto tema de conversa, conversa essa que tende a forçar a situação em direcção ao caos.

Por fim, o último objecto que surge na fase final do romance, aparece aqui mencionado enquanto objecto que marca um único momento e não enquanto um objecto que acompanha a realidade paralela da protagonista. O frasco de arsénico distingue-se assim de todos os outros objectos: aparece mencionado apenas na terceira (e última) parte do romance e representa o culminar de todo o romance – o suicídio da protagonista. Assim sendo, como relacionar este objecto com o quotidiano de Mme Bovary? De que maneira este objecto esteve presente durante a sua vida? A associação deverá ter em conta o estado emocional de Emma, o qual se caracteriza por uma depressão constante, uma doença maioritariamente psicológica relacionada com o grande desgosto em que vivia. O frasco não é o objecto que acompanha o quotidiano da mulher de Charles mas é aquele objecto que contém em si o culminar de um estado emocional que caminhava, gradualmente, para aquele final. “As pesquisas gestaltistas, contudo, deixaram claro que, com muita frequência, as situações que enfrentamos têm as suas próprias características que exigem que as percebamos apropriadamente. O acto de olhar o mundo provou exigir uma interacção entre propriedades supridas pelo objecto e a natureza do sujeito que observa. Este elemento objectivo da experiência justifica as tentativas para distinguir entre concepções adequadas e inadequadas da realidade.” [6] Mas não seria esse o objectivo de Emma Bovary? Conceptualizar de forma ambigua a realidade em que vivia para poder desviar-se desse mau estar constante? O frasco de arsénico não é certamente um objecto vulgar nem um tema de conversa até ao momento em que Emma o digere. Note-se que o tema de conversa não é o próprio frasco de arsénico mas sim a acção de Emma de se suicidar com um dos químicos guardados a sete chaves pelo farmaceutico Homais. Assim sendo, a sua análise em função deste conceito falha pois a conversa desenvolveu-se em redor da atitude de Emma de acabar com a sua própria vida. O pó de arsénico desempenha aqui um papel unica e exclusivamente informativo. Nem mesmo o conceito de “dúvida” sucede com este objecto, uma vez que Emma Bovary tomou com prontidão a sua decisão.

Apesar de “dúvida”, “conversa” e “vulgar” serem conceitos que compõem a imensa teia que caracteriza a definição de “quotidiano”, nem sempre esses conceitos comprovam essa definição. O pó de arsénico é em si mesmo a prova de como estes três conceitos falham em dar ao leitor a noção de quotidiano, de dia a dia de Emma Bovary. No entanto, deve-se pensar o pó de arsénico como a consequência final de uma vida levada com desgosto, de um quotidiano monótono, aborrecido e sem quaisquer perspectivas de um futuro melhor.



[1] - cit in AUERBACH, E., “Mimesis” (1946), vários tradutores, São Paulo: Perspectiva, 5ª ed., 2004, página 439

[2] - cit in ibidem, página 438

[3] - cit in GIL, J., “A Imagen-Nua e as Pequenas Percepções – Estética e Metafenomenologia”, trad. de Miguel Pereira, Lisboa: Relógio d’Água Editores, 1996, página 17

[4] - cit in FLAUBERT, G., “Madame Bovary”, tradução de Fernanda Graça, Lisboa : Biblioteca Visão, 2000, página 117

[5] - cit in Arhneim, R., “Introdução” in Arte e percepção visual, Livraria Pioneira Editora, S. Paulo, (1954) 1973

[6] - cit in Arhneim, R., “Introdução” in Arte e percepção visual, Livraria Pioneira Editora, S. Paulo, (1954) 1973