sábado, 8 de outubro de 2011

A RTP e os valores sociais

Aqueles que ultimamente se têm servido do metropolitano de Lisboa, já repararam decerto num anúncio que surge amiúde com os seguintes dizeres: "Amor-Ódio, Luxúria, Sexo, Ganância, Traição, Vingança". Os atractivos epítetos referem-se à série Tempo Final, exibida pela RTP1. Não vimos a série nem teremos talvez tempo para isso. Todavia, ao lermos estas palavras num sítio tão concorrido, confessamos, ficámos muito aliviados. Afinal a televisão PÚBLICA portuguesa está a velar pelos melhores valores comunitários. Haja quem o faça.

domingo, 2 de outubro de 2011

"Não podemos ver o vento" - breve análise


No livro “Não podemos ver o vento”, Clara Pinto Correia usa o tema dos Grupos Especiais como fio condutor do enredo. A personagem principal é Mariana Mindelo, uma psicóloga que decide estudar o comportamento de um grupo restrito de homens que esteve na Guerra do Ultramar, os Grupos Especiais (GEs) e Grupos Especiais Pára-quedistas (GEPs), homens treinados arduamente para fazer frente às guerrilhas, mas que foram esquecidos pelo Estado no Pós-Guerra. A definição e a história dos GEs podem ser encontradas, com mais detalhe, nos capítulos 6 e 21 do livro. A maioria destes homens ficou sem qualquer tipo de acompanhamento psicológico após o regresso a Portugal, isto depois de tudo o que presenciaram em clima de guerra (incluindo formatação psicológica e assassínios que foram forçados a cometer), trazendo sequelas não só físicas mas também de foro mental, manifestadas por comportamentos de isolamento ou de agressividade, por exemplo. Assim, Mariana pretende desenvolver um estudo académico do crescimento pós-traumático (ao invés do stress pós-traumático) seguindo uma linha de investigação enquadrada na actual “Psicologia do Optimismo”, de modo a compreender também de que modo estes acontecimentos contribuíram para a actividade criadora ou empreendedora de alguns destes indivíduos (por exemplo, o caso de Guilherme que administra a estância turística).

Mas à medida que se desenrola o fio deste novelo, conhecemos outras facetas da personagem principal, para além do seu interesse académico. Mariana é mãe de duas gémeas adolescentes e tem de lidar com os problemas da juventude actual, é uma mulher separada que continua em busca da sua paixão. Ou seja, não é mais que uma mulher comum que, como tal, divide-se em múltiplas tarefas tentando ter sucesso em todas elas, quer seja a nível profissional, pessoal ou familiar, com todo o desgaste que isso implica. Trata-se de uma personagem muito humana, com quem facilmente se estabelecem laços de empatia.

O livro trata de vários mistérios: a vida actual dos GEs, a vida de Mariana Mindelo e da sua família, os segredos das várias personagens com quem Mariana estabelece contacto, e quando pensamos que estamos prestes a entender tudo, eis que a história se prepara para dar uma tremenda reviravolta. Tudo isto, descrito em capítulos que não seguem uma sequência temporal, que são como peças de um puzzle que tentaremos montar de modo a visualizar o panorama geral.

Para escrever este livro, a autora entrevistou ex-membros dos GEs, conversou com psicólogos e estudou o tema da Psicologia do Optimismo, de modo a elaborar uma obra não só fascinante do ponto de vista literário, como também interessante do ponto de vista académico.

Brevíssima nota sobre a autora:

Clara Pinto Correia é bióloga e escritora, autora de inúmeras obras sobre diferentes áreas como literatura, biologia, história das ciências e divulgação científica.

Bibliografia:
Clara Pinto Correia, "Não podemos ver o vento", Clube de Autor, Lisboa, 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

"Não podemos ver o vento"


Hoje estive no lançamento do livro "Não podemos ver o vento", da Professora Clara Pinto Correia, nossa colaboradora noutros blogues. Esta sessão decorreu na livraria Bertrand, do Shopping das Amoreiras, e a apresentação esteve a cargo do escritor Mário de Carvalho. De seguida, a autora falou do conteúdo do seu livro e do percurso da criação do mesmo. Vou ler o livro e, brevemente, darei a minha opinião neste blog.
De salientar que conheci o Mário Zambujal, um escritor que admiro e autor do livro "Crónica dos Bons Malandros" - um livro cuja leitura é um autêntico prazer e que está entre um dos meus favoritos.

domingo, 25 de setembro de 2011

Pilotos de Ciência


Teve lugar na passada semana de 12-16 de Setembro, em Trieste (Itália) e Ljubljana (Eslovénia), o primeiro Pilots Training Course forMuseum Explainers, Educators and Young Scientists involved in outreachprogrammes. Esta foi uma interessante formação dirigida a todos aqueles que trabalham em comunicação de ciência, mas particularmente àqueles que estão associados a centros ou museus de ciência. O curso foi organizado pelo grupo THE GROUP (Thematic Human interface and Explainers), que faz parte da organização ECSITE (The European Network of Science Centresand Museums) e que se dedica particularmente aos monitores de ciência, desde a sua formação até à sua valorização nos locais de trabalho, que podem ser tão variados como: centros interativos de ciência, museus de história natural, zoos, aquários, empresas de atividades educativas, etc. Tive a oportunidade de, graças a uma bolsa Grundtvig da Agência Nacional PROALV, assistir a este curso e foi uma experiência marcante.

Embora pareça ser uma comunidade variada, variável e heterogénea, os monitores de ciência, ou “pilotos” (a designação que usámos durante o curso,) partilham muitas características, independentemente do seu país de origem, background, local de trabalho ou designação que lhe atribuem (monitor, explicador, guia, demonstrador, facilitador, etc.). Isto mesmo se pôde verificar no primeiro workshop do curso, onde debatemos e expressamos artisticamente o que era um monitor de ciência. Estes foram alguns dos resultados:

Scinamator -o resultado artístico do meu grupo de trabalho.


Mapa conceptual sobre as competências dos monitores.


 No segundo dia do curso, debatemos e trabalhamos acerca da aprendizagem, tema sempre presente na comunicação de ciência. Será que os visitantes de um centro de ciência aprendem alguma coisa? O quê? E o que é que queremos que eles aprendam, na verdade? Eu gostei particularmente da abordagem da Maria Xanthoudaki, directora dos Serviços Educativos e Relações Internacionais do Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci(Museu Nacional da Ciência e Tecnologia) em Milão: quero que o visitante saia do museu levando algo de novo dentro de si. Esse “algo novo” pode não ser necessariamente um conhecimento científico, pode ser só uma sensação, pode ser o desejo de ir em busca de alguma informação nova sobre algum tema que desconhecia, … Esta aproximação à problemática parece-me muito interessante porque é também aquilo que me leva a ser comunicadora de ciência. Não é necessariamente a transmissão de novos conhecimentos aos meus receptores (embora também o seja), mas é sobretudo querer marcá-los de alguma forma, transformá-los nalgum aspeto e, assim, mudar a sua percepção em relação à ciência e o fascínio da descoberta.

Ao terceiro dia, o curso mudou-se de malas e bagagens para Ljubljana, na Eslovénia. Aí, tivemos a oportunidade de conhecer o Hišaeksperimentov (A Casa das Experiências) e o excelente trabalho que aí fazem no âmbito, entre outros, dos shows de ciência: animadas demonstrações de ciência (ou aventuras de ciência, como lhes chamam no Hiša) que podem ser dirigidas a distintos públicos, dos 8 aos 80. Assistimos ao famoso Soundology, uma aventura com o som.
Este grande pequeno centro de ciência “mãos-na-mass”, único na Eslovénia, nasce em 1995 fruto da vontade e persistência do seu director,  Miha Kos, doutorado em Física. O seu lema é este provérbio chinês: "Eu ouvi e esqueci, eu vi e recordei, eu fiz e então soube” e tem uma bela equipa a trabalhar não só no centro mas também por todo o país. Podem ver o Miha em acção aqui, durante o Festival de Ciência em Ljubljana:




Se forem a Ljubljana, esta é uma visita obrigatória.

Outro tema muito trabalhado no curso foram as actividades de diálogo/debate. Como levar o público a um debate sobre ciência? Como levar os visitantes de um centro/museu a dialogar acerca daquilo que estão a observar ou a experimentar. Como em muitas outras situações deste género, o melhor é usar um “isco” com que as pessoas de relacionem de forma muito próxima: algo do seu dia-a-dia ou das suas memórias de infância. Um exemplo: uma figura da banda-desenhada. É relativamente fácil pegar na imagem de um super-herói ou outra figura da cultura popular como ponto de partida para um debate/conversa sobre ciência. Na Universcience – Cité des Science & de l’Industrie(Cidade das Ciências e Indústria) em Paris, fizeram isto mesmo à volta da exposição Science [et] Fiction(Ciência e Ficção), utilizando como ponto de partida imagens de banda-desenhada de ficção científica, incluindo a Guerra das Estrelas. Thiérry Dasse, mostrou-nos parte da divertida actividade prática que desenvolveu para essa exposição:

O Thiérry a ponto de demonstrar como funciona a transmissão do som.


E, esta, foi também uma forma muito importante de aprender: a partilha de experiências por parte dos participantes. Nas duas sessões Pilots Piloting, tivemos a oportunidade de partilhar demonstrações, shows, ou “simplesmente” falar um pouco acerca do trabalho que se faz na instituição de origem, de uma ideia para uma actividade ou para a formação e motivação dos monitores. Nesta vertente, o treino teatral saiu vencedor como um excelente ponto de partida para facilitar a abordagem dos monitores ao público, o à-vontade dos monitores e até a introdução de algum humor na nossa comunicação.
Como não podia deixar de ser, abordámos também a sempre difícil avaliação. Como saber que estamos a atingir os nossos objectivos? Este tema foi tratado tanto a nível da avaliação institucional como dos monitores, de uma forma mais específica. Como trabalho de grupo (um de muitos), deveríamos planificar um formulário de avaliação para diferentes actividades, tarefa que se revelou bem mais difícil do que à partida aparentava.

Resumindo, esta é uma formação que me parece de interesse fundamental para todos aqueles que trabalham com público em diferentes instituições onde se faz divulgação científica. Para quem estiver interessado, estejam atentos ao site da ECSITE e às conferências anuais, onde há sempre dois dias de formação prática para monitores (e outras formações direccionadas a outros aspectos das instituições, como a obtenção de financiamento, por exemplo). A próxima conferência será no final do mês de Maio de 2012, em Toulouse (França). Se são monitores e querem partilhar experiências com colegas de todo o mundo, podem também unir-se à comunidade Pilots, através do Pilots Hub!

Cá fica, para a posteridade, a foto do grupo internacional e multi-cultural que participou nesta formação:


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Noite Europeia dos Investigadores 2011


Hoje celebra-se, em 320 cidades de 32 países europeus, a  "Noite Europeia dos Investigadores - 2011", mais uma acção de divulgação científica que pretende aproximar a ciência e o público. Haverá espectáculos e actividades experimentais para as pessoas realizarem. Aproveitem. É gratuito.
Alguns dos colaboradores deste blog estarão como monitores no Porto. Também eu, este ano, estarei na Invicta, na secção do Museu de História Natural e no Espaço Europeu. Nos últimos dois anos estive em Lisboa e valeu a pena, mas este ano o programa vai ser ainda melhor na capital. No entanto, quem não puder visitar Lisboa ou Porto, poderão procurar por estas iniciativas numa cidade mais perto de si.

Mais informações:
- Programa em Lisboa, no Pavilhão do Conhecimento (Expo): http://www.pavconhecimento.pt/visite-nos/programacao/detalhe.asp?id_obj=914
- Programa no Porto: http://nei2011.eu/2011/09/2178/
- Informação no site Português (pode encontrar o programa nas várias cidades portuguesas, em locais): http://nei2011.eu/oque/

Ver apresentação:


domingo, 4 de setembro de 2011

AS VACINAS SÃO SEGURAS




aqui escrevemos sobre uma tendência crescente que se vive nalgumas sociedades ocidentais, e que se está a expandir a Portugal, contra a vacinação das crianças.
Como se não fossem suficientes as vozes da maioria dos médicos a alertar para as falácias e os perigos que esse movimento anti-vacina representa para a saúde pública, saiu esta semana um relatório do Instituto Americano de Medicina que, uma vez mais, conclui que as vacinas são seguras! As vacinas não causam autismo nem diabetes!
Foram revistas oito vacinas: rubéola, gripe, hepatite B, HPV (Vírus do Papiloma Humano), difteria, tétano e tosse convulsa, VASPR (sarampo/rubéola/papeira), hepatite A e doença meningocócica C.
Este relatório foi encomendado pelo Governo Americano precisamente devido ao preocupante número de pais que se recusam a vacinar os seus filhos neste país. No já referido post, mencionávamos casos semelhantes em Portugal, embora a motivação para a recusa seja algo diferente. Nos EUA existe um movimento de pressão anti-vacina que afirma, entre outras coisas, que os adjuvantes utilizados na vacina VASPR provocavam autismo nos bebés (o adjuvante é a substância adicionada ao antigénio da vacina com o objectivo de aumentar a sua eficácia). Esta afirmação surge de um estudo fraudulento publicado por Andrew Wakefield em 1998 na revisa Lancet, que foi retratado e repetidas vezes refutado por inúmeros investigadores nos anos seguintes (um resumo da história pode ser lido aqui). No entanto, o facto de algumas figuras mediáticas aderirem ao movimento levou a que se perpetuassem até hoje esta perigosa ideia. Em Portugal, parece que o motivo para a não vacinação está mais relacionado com a convicção de que métodos ditos “alternativos” podem ser usados, nomeadamente a homeopatia. Deixaremos esta temática da homeopatia para um outro post, uma vez que merece ser tratada e explicada detalhadamente por si só.
E porque é que é perigoso este movimento anti-vacina? Primeiro, porque as vacinas são a medida de saúde pública que mais vidas salva, sendo apenas superada pela introdução de água potável nas populações! (1) E, segundo, porque a não vacinação de uma criança, não põe em risco “só” a sua vida, mas também a daquelas que a rodeiam, visto poder vir a ser um foco de infecção. Veja-se por exemplo o caso da rubéola: esta doença estava considerada como eliminada dos países ocidentais e aparecem agora de novo surtos. O mesmo está a acontecer com o sarampo.
Há também a ideia errónea de que estas doenças, a rubéola e o sarampo, não são realmente perigosas. Pois perguntem aos vossos avós! Talvez os jovens pais não tenham tido essa vivência próxima, mas o sarampo e a rubéola são perigosos e podem matar, dependendo da idade em que surgem e do estado imunológico do paciente! E os nossos avós sabem disso, visto que muitos deles perderam filhos para doenças infecciosas que hoje nem mencionamos porque, devido às vacinas, praticamente desapareceram.

(1) Plotkin, S. A., Orenstein, W. A., Offit, P. A.(2008).Vaccines. Elsevier, 1748pp.


NOTA: Para mais informação e para esclarecer todas a dúvidas, pode-se consultar o portal português sobre vacinas, desenvolvido em colaboração com vários peritos nacionais de diferentes áreas científicas e cujo objectivo é, em parte, responder a lacunas de informação que foram evidenciadas num estudo realizado nas zonas da Grande Lisboa e Grande Porto. [Este estudo revelou, por exemplo, que um terço da população não sabe que há vacinas inseridas no Programa Nacional de Vacinação (PNV), que devem ser tomadas ao longo da vida.]

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"Brave New World"

Aldous Huxley
“Admirável Mundo Novo” (1932) é um livro da autoria do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), podendo ser enquadrado dentro das temáticas ficção científica e ficção distópica (1). Esta ligação de A. Huxley à Ciência não se dá por mero acaso. De facto, o autor cresceu num meio em contacto com esta área do saber: Era neto do famoso cientista Thomas Henry Huxley (1825-1895), evolucionista convicto, conhecido como “Bulldog de Darwin”, por ser defensor acérrimo do naturalista britânico; irmão do biólogo Julian Huxley (1887-1975) (2); e meio irmão de Andrew Huxley (n. 1917), Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina (1963).

Nesta obra, Huxley descreve uma sociedade futura bem organizada, em que os habitantes vivem em paz e felizes, mas à custa de um Estado controlador. A sociedade encontra-se dividida em castas, em que os indivíduos das castas inferiores são feios e estão destinados à realização de trabalhos menores, e os das castas superiores, os Alfa mais, estão destinados a colaborar na organização da sociedade. Os indivíduos das diferentes castas são condicionados física e psicologicamente à nascença e nos primeiros anos de desenvolvimento: todos os habitantes são criados em laboratório como bebés-proveta, muitos deles são clones, e condicionados geneticamente através de diferentes procedimentos ao longo da cadeia de produção; enquanto crianças são educados por meio de um processo hipnopédico, em que ouvem ensinamentos morais repetidas vezes (ensinamentos esses, diferentes para as várias castas). A maior parte da ciência, a arte e a religião foram abolidas. Mas no meio de tanta regulamentação e diferenças sociais porque é que não há revoltas? Porque todas as pessoas foram condicionadas a gostar do que fazem, e, além disso, tomam “soma”, uma droga que as ajuda a relaxar. No entanto, alguns cidadãos ocasionalmente questionam este modo de vida, e o personagem Bernard Marx é disso exemplo.

Marx, psicólogo, viaja para uma reserva histórica em que as pessoas desse local vivem de acordo com os costumes antigos. Aí conhece um índio, de nome John, mais conhecido como o “Selvagem”, que nascera na Reserva, mas tem uma ligação misteriosa com a sociedade civilizada. Ao descobrir o segredo de John, Marx decide dá-lo a conhecer à sua sociedade. O interessante é saber como John vai reagir a uma realidade assaz diferente da sua, e como a sociedade vai conseguir lidar com o Selvagem. Decerto poderemos esperar, à partida, um choque de culturas, mas o confronto irá ainda mais longe: John é um selvagem que conhece bastante bem a obra de William Shakespeare e depara-se com uma sociedade que ignora a literatura clássica, é um ser que tem dificuldade em aceitar que sejam todos iguais e que pensem e actuem de maneira igual (de acordo com a sua casta), o que o leva a indignar-se com o “Admirável Mundo Novo” (3) que encontra.

Este é um livro que analisa o risco de ausência de espaço para a individualidade numa sociedade, mais do que através de uma pressão social para todos agirem do mesmo modo, através de um condicionamento de desenvolvimento, realizado por quem governa, e da provável irreversibilidade deste processo. O enredo deste livro e o de “1984” de Orwell partem da intenção de criar uma sociedade melhor (utopia), mas que devido à falta de ética (possível explicação) na acção humana, esse pressuposto acaba por degenerar numa realidade opressora e perturbadora (distopia). Talvez a mensagem dos autores seja: “A favor da criação de uma sociedade melhor, mas com cautela.”

Notas:
(1) – Quando se descreve um lugar demasiado perfeito quando comparado com a nossa realidade, designamo-lo de Utopia, mas quando esse lugar é demasiado perturbador ou horrível quando comparado com a realidade, então, designamo-lo de distopia. Obras como “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, ou do aqui já mencionado “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell, são consideradas distópicas.

(2) – Julian Huxley era amigo do escritor de ficção científica H. G. Wells, também já mencionado neste blog (Julho 2011).

(3) – Alusão à obra “Tempestade” (V, 1), de William Shakespeare. Aliás, o livro está repleto de referências a diversos textos deste autor.

Bibliografia:
Aldous Huxley, "Admirável Mundo Novo", Editora Livros do Brasil, Lisboa, 2006 - Tradução: Mário Henrique Leiria

E-BAY CIENTÍFICO



E se quisesse fazer uma experiência e não tivesse condições no seu laboratório?

Esta situação é mais que comum para a maioria dos investigadores (pelo menos em muitos laboratórios da Península Ibérica).

Daí a busca de parcerias, de colaborações, para poder levar uma ideia experimental a bom termo. Os serviços de apoio à investigação existentes nalgumas universidades também ajudam, por vezes. Mas, nalguns casos, o investigador vê-se perante uma situação em que necessita de um ensaio ou análise que não tem possibilidade de fazer e que necessita com urgência, não tendo tempo para procurar novas parcerias. (As parcerias são excelentes mas, por vezes, também sofrem de problemas com a incompatibilidade de prioridades.)

Pois agora surgiu uma nova solução para esta problemática: a Nature chama-lhe o “e-bay para a ciência”! Na verdade chama-se Science Exchange e é um novo website que foi lançado na Califórnia na semana passada e que funciona como um marketplace para experiências científicas.

De forma resumida, é assim que funciona: um investigador coloca no site uma proposta de projecto que está interessado em concretizar (post); outros utilizadores (investigadores ou instituições) que tenham capacidade laboratorial para o fazer ou que queiram rentabilizar o seu equipamento podem licitar, propondo um valor por esse serviço (bid); depois de aceitar a licitação, o investigador pode ir seguindo o seu projecto através do site (tracking). Realmente, o processo de funcionamento não é muito diferente do E-Bay.

Como referiu a co-fundadora Elizabeth Iorns à Nature, “o objetivo do site é tornar a investigação científica mais eficiente, facilitando o acesso dos investigadores à competência técnica e a instalações subutilizadas”. A própria Elizabeth deparou-se com esta problemática enquanto investigadora na área do cancro de mama na Universidade de Miami (Florida, EUA).

E já existem quase mil cientistas a utilizar o site!

sábado, 20 de agosto de 2011

Teresa Avelar e a Evolução das Espécies


Como os leitores do blog puderam acompanhar nos últimos meses, lendo os nossos textos, decorreu no Porto a exposição científica “A Evolução de Darwin”, que terminou no dia 17 de Julho. Posso dizer que foi um sucesso, repetindo o que acontecera em Lisboa (2009), na Fundação Calouste Gulbenkian.

Serve isto para dizer que do contacto que estabeleci com as pessoas, concluo que estas encontram-se extremamente receptivas a exposições de cariz científico, e que possuem um entendimento razoável desta temática particular da evolução das espécies. De facto, o conhecimento geral está presente na visão que as pessoas têm desta importante teoria, o que falha são alguns pormenores, alguns detalhes – que obviamente não se espera que o público em geral domine, mas para isso é que existem exposições como esta e bibliografia de divulgação disponível, para informar e esclarecer.

No que concerne a bibliografia, existem inúmeros livros estrangeiros sobre o tema publicados em Portugal, e muitos deles já traduzidos, mas não são esses que vou abordar hoje. Tenciono divulgar duas obras de uma cientista portuguesa, a professora universitária Teresa Avelar, que tem dedicado boa parte do seu tempo a esclarecer esta temática importante não só para a Biologia, como para todos nós, pois elucida-nos sobre a natureza que nos rodeia.

O primeiro livro que vou abordar é “Evolução a duas vozes” (2009), escrito em colaboração com o padre e teólogo Joaquim Carreira das Neves. Quando menciono este livro junto do público, sou frequentemente interpelado com a afirmação de que se tratará de uma visão evolucionista (T. Avelar) e outra criacionista (J. C. das Neves). Ora, nada mais errado, porque, como logo explico às pessoas, o padre não defende uma visão criacionista, assim como a igreja católica também não o faz. Já agora, esta visão não é apenas característica do catolicismo, mas também de outras variantes cristãs, algumas protestantes (1). Ou seja, para as religiões tolerantes, e que estão abertas a um diálogo com a esfera científica, existe uma aceitação e compreensão desta temática, aceitando a evolução como um facto, que é – actualmente não se faz uma interpretação literal do Génesis, o primeiro livro da Bíblia (2). Na minha opinião, este é um dos livros mais importantes publicados em Portugal sobre esta temática, pois, de um lado, a professora Teresa Avelar explica de um modo claro as ideias da Teoria da Evolução das Espécies, e, noutro lado, o padre J. Carreira das Neves transmite a visão da religião sobre o mesmo tema, assim como sobre a interpretação do Génesis. As duas opiniões em conjunto contribuem para um necessário esclarecimento da sociedade, através de uma leitura acessível a qualquer público.

Outro livro da autoria da professora universitária é intitulado “A Evolução culminou no Homem?” (2010), que pretende desmistificar alguns preconceitos e elucidar sobre os pormenores, os tais detalhes que mencionei acima, sobre a evolução. O título, bastante sugestivo, reflecte a crença generalizada de que o homem é a espécie “mais evoluída” (??) e que a evolução culminou no homem, o que é um erro. Se por mais evoluído entendermos mais complexo, então é necessário dizer que estruturas é que se estão a comparar e com que seres vivos. Por exemplo, a nível genético as plantas possuem mais cromossomas que os seres humanos, nessa perspectiva são mais complexas. Além disso, a evolução não se dá de forma linear começando nas bactérias e acabando nos humanos, a evolução é ramificada (este tema já foi aqui abordado, em textos anteriores). Este é um excelente livro para quem pretende complementar o seu conhecimento desta temática.(3)

Estes livros encontram-se facilmente à venda na FNAC ou na Bertrand, assim como no WOOK:

Notas:
(1) – ler Richard Dawkins, “O Espectáculo da Vida – a prova da evolução”, Casa das Letras, 2009 – no capítulo 1.

(2) – A excepção vai para alguns círculos cristãos menos informados, e para uma corrente Evangélica com bastante peso nos Estados Unidos da América.

(3) – Teresa Avelar é ainda co-autora de “Quem tem medo de Charles Darwin” (2004), da Relógio d’Água, e de “Evolução e Criacionismo – Uma relação impossível” (2007), da Quasi Edições. Neste último livro, a maioria dos capítulos são da sua autoria. Também traduziu a "Autobiografia" de Charles Darwin.

António Piedade a divulgar ciência

António Piedade é cientista e divulgador de Ciência. No seu percurso académico, conta com uma licenciatura em Bioquímica, mestrado em Biologia Celular e encontra-se prestes a terminar o doutoramento em Tecnologia Bioquímica; a nível de divulgação, colabora num dos blogs de ciência mais lidos em Portugal, o “De Rerum Natura”, escreve crónicas semanais para o jornal Diário de Coimbra, e escreveu dois livros de divulgação de ciência que vou de seguida mencionar.

Apesar da sua formação base em Bioquímica, Piedade escreve de um modo claro e sucinto sobre diferentes temas da ciência. Pela maneira como explana as suas ideias ao longo das páginas dos seus livros, apercebemo-nos que o autor está à vontade nas várias temáticas que aborda, desde a biologia celular, passando pela química e viajando até à física aeroespacial. O autor consegue, assim, levar o conhecimento científico, aparentemente complexo, ao grande público de um modo acessível. Como António Piedade defende, “a Ciência deve voltar a ocupar o seu lugar no senso comum”, junto a todas as pessoas e não apenas dirigida a uns quantos (1).

Desta sua missão resultou o livro “Íris Científica” (2005), abordando as áreas da química, física e biologia. A estas temáticas junta-se o interesse pela história das ciências, o que originou o seu novo livro intitulado “Caminhos de Ciência” (2011), que inclui ainda pinturas da autoria da artista e ilustradora científica Diana Marques. De mencionar que o primeiro livro encontra-se incluído no Plano Nacional de Leitura (Ler +), com interesse para o 2º ciclo e para o desenvolvimento de trabalhos escolares no âmbito das disciplinas científicas.

Planeio abordar aqui temas mais concretos destes livros, num futuro próximo, assim como continuar a acompanhar o percurso deste autor. Antecipo que Piedade tem um projecto em andamento sobre “Comunicação de Ciência na Imprensa Regional”, e que conta a colaboração da equipa deste blog.

Sobre os livros e como podem ser adquiridos:
- "Íris Científica": Associação Viver a Ciência
- "Caminhos de Ciência": Wook
Notas:
(1) – António Piedade passou esta ideia no “I Atelier de Escrita Científica”, realizado em Coimbra (Junho de 2011)

1984 - Big Brother

Retrato do autor, George Orwell
“Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” (por vezes simplificado por “1984”), publicado em 1949, é um dos livros mais conhecidos do jornalista e escritor inglês George Orwell (1903-1950). Aí, G. Orwell (1), retrata uma sociedade governada por um partido político, conhecido simplesmente por “Partido”, de acordo com um sistema oligárquico. A sociedade encontra-se disposta num sistema piramidal, com os “proles” (ou o povo) na base, o que corresponde a cerca de 85% da população, seguido do partido externo, depois o partido interno (a elite governativa) e no vértice da pirâmide encontra-se o Grande Irmão que todos vigia. É, pois, neste livro que tem origem a expressão Big Brother e a relação com vigilância omnipresente.

Após a Segunda Guerra Mundial, formam-se três superpotências, que estão constantemente em guerra entre si: a Oceânia (engloba Austrália, Reino Unido, Estados Unidos da América e uma parte de África), a Eurásia (Europa e Ásia) e a Lestásia (China e arredores). A governação da Oceânia encontra-se organizada em quatro ministérios: o da Verdade (que altera a história), da Paz (que trata da guerra), do Amor (responsável pela tortura) e da Riqueza (que trata da fome).

O personagem principal é Winston Smith, que habita na cidade de Londres devastada por bombardeamentos ocasionais, e que trabalha no Ministério da Verdade. A sua missão é reescrever a história. Este regime SocIng (Socialismo Inglês), tem a seguinte máxima: “Quem controla o Passado, controla o futuro. Quem controla o Presente, controla o Passado”. Ou seja, quando um acontecimento presente é discordante de outro acontecimento relacionado mas do passado, os jornais anteriores são rescritos para a informação bater certo com a actual; ou quando algum opositor do regime é “evaporado” (2), apagam-se todas as informações passadas sobre essa pessoa – é como se nunca tivesse existido.

Todas as pessoas importantes (3) estão sobre constante vigilância, através de câmaras e de microfones, e qualquer comportamento considerado estranho deve ser denunciado por colegas, amigos ou família. De facto, as crianças são educadas desde novas a denunciar os seus pais caso manifestem algum comportamento contra o regime. Os crimes mais graves são o uso da memória e a reflexão. O “Partido” pretende que as pessoas não se questionem, não pensem, que não coloquem em causa as notícias actuais que divergem de outras notícias de um passado recente.

Winston Smith que tem de alterar as notícias começa a pôr em causa este modo de actuar e indigna-se com o facto de os seus compatriotas não acharem estranho a redução de alimentos quando saem notícias do aumento da produtividade; ou não estranharem estarem desde sempre em guerra com a Lestásia, quando semanas antes dizia-se estarem em guerra desde sempre com a Eurásia (exemplos de “verdades” alteradas). É por se questionar, por se interrogar, por se apaixonar pela sua colega Júlia, por escrever num caderno, por se interessar pela história do seu país – tudo o que é inato ao humano - que poderá ser perseguido, caso alguém o denuncie, acontecimento bastante provável uma vez que a vigilância é constante. Este regime, cujo único intento é a busca por poder, pretende governar uma sociedade de pessoas desumanizadas, promovendo a degradação e o desrespeito pela condição humana, incitando ao ódio, eliminando tudo o que o Homem tem de melhor. Até a língua oficial, a Novilíngua, favorece o acto de não pensar através das palavras abreviadas e compostas, e através da eliminação de expressões nocivas ao regime, como Liberdade ou Igualdade.

As ditaduras podem surgir em clima de pós-guerra, ou em momentos de conflito social, e este livro vem lembrar-nos que temos de estar vigilantes, de modo a não permitir que a nossa civilização degenere numa sociedade semelhante à aqui descrita.

Notas:
(1) - George Orwell é o pseudónimo de Eric Arthur Blair.
(2) - Opositores que eram assassinados e todas as provas da sua existência eliminadas.
(3) - Os “proles” não eram vigiados, pois eram considerados pessoas sem importância, sendo vistos como meros animais.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ciência Viva no Verão




Desde o passado dia 15 de Julho e até ao próximo dia 15 de Setembro, um pouco por todo o país, a ciência sai à rua no programa Ciência Viva no Verão da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica.

Os membros a equipa Armarium Libri colaboram em várias dessas iniciativas, que voltam a ocorrer a partir do dia 28 de Agosto. As actividades são as seguintes:

  • FERTILIZAÇÃO EM OURIÇOS DO MAR
Datas e horário: 28, 29, 30 e 31 de Agosto - às 15:00h

Descrição: Os ouriços-do-mar das praias portuguesas são óptimos modelos para estudar o processo reprodutivo. Nesta iniciativa, iremos realizar uma actividade experimental de fertilização em ouriços-do-mar, para comparar com a fertilização em humanos. Será também abordada a importância deste grupo de animais para a manutenção da Biodiversidade. No final, serão feitos pequenos jogos de associação de conceitos.


  • A VIDA NA PRAIA - BANHOS DE SOL E BANHOS DE LUA
Datas e horário: 29 e 30 de Agosto - às 21:00h
30 e 31 de Agosto - às 10:00h

Descrição: Zona intertidal é o nome que se atribui à faixa de território costeiro de transição entre o meio marinho e terrestre. A maior parte de nós desconhece a biodiversidade da zona costeira. Sabia que existem lebres do mar? E caranguejos azuis? Propomos um banho de Sol para descobrir as cores da vida da praia ou um banho de Lua para se maravilhar com a magia do Oceano.


  • O AROMA DO AMOR E OS SEUS ENGANOS - O COMPORTAMENTO SEXUAL DOS ESCARAVELHOS
Datas e horário: 3 e 8 de Setembro - às 11:00h
6 e 10 de Setembro - às 15:00h

Descrição: Os escaravelhos são o grupo animal com maior numero de espécies, representando 25% da biodiversidade mundial e têm um papel fundamental no equilíbrio ambiental. No entanto, a sua importância e biologia são desconhecidas para a população. Nesta actividade, vai ter a oportunidade de conhecer melhor e testar a importância das feromonas no acasalamento de uma espécie de escaravelho, o bicho-da-farinha.



Para participarem nestas ou quaisquer outras actividades do Ciência Viva no Verão, basta fazer uma inscrição gratuita na página do Ciência Viva, aqui!