quarta-feira, 9 de maio de 2012
Dia Aberto no Instituto de Higiene e Medicina Tropical
No próximo dia 25 de Maio, o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) em Lisboa organiza, pela primeira vez, um Dia Aberto.
O IHMT, antiga Escola Nacional de Medicina Tropical, é uma instituição centenária que faz parte da Universidade Nova de Lisboa e cujo objectivo é o estudo científico dos problemas de saúde relacionados com os ambientes tropicais
Neste dia especial, todos os visitantes, miúdos e graúdos, são convidados a conhecer melhor o trabalho que se desenvolve neste Instituto, que passa pelas valências do ensino, investigação e cooperação (principalmente com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa).
Nesse sentido, a organização preparou actividades para todas as idades, que incluem filmes, exposições, visitas guiadas aos laboratórios, consultas de viajante, observação de espécimes vivos e conservados de insectos transmissores de doenças, extracção do ADN, conversas com cientistas, etc. É uma excelente oportunidade para, por exemplo, saber para que servem os anticorpos, perceber como é que se faz o diagnóstico e tratamento de doenças infecciosas, discutir com os cientistas os desafios que se colocam no século XXI para a erradicação de doenças...e muito mais.
Mais informações, na página do IHMT.
Uma iniciativa a não perder!
terça-feira, 1 de maio de 2012
Elefantes do passado
Texto publicado no jornal O Baluarte de Santa Maria no âmbito do projecto
Existem três espécies de elefantes no mundo: o elefante-da-savana (Loxodonta africana), o elefante-da-floresta (Loxodonta cyclotis) e o elefante-asiático (Elephas maximus). E como eram aquelas espécies que já desapareceram? Existem muitos fósseis que permitem conhecermos melhor o seu aspecto. Mas, seria o seu comportamento comparável ao dos elefantes actuais? Sabe-se que hoje os elefantes têm uma estrutura social complexa, com segregação sexual e centrada em grupos matriarcais. Há quanto tempo é que este comportamento existe?
O comportamento dos animais extintos é difícil de estudar porque, ao contrário dos seus ossos, carapaças ou concha, não fossiliza. No entanto, algumas pistas muito raras dão-nos, por vezes, a conhecer vislumbres dos hábitos dos animais extintos.
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| Reconstrução da manada de Mleisa 1, tendo como base a espécie Stegotretrabelodon como origem das pegadas (© Mauricio Antón) |
Este é o caso de uma recente descoberta feita num local chamado Mleisa, nos Emirados Árabes Unidos, por uma equipa internacional liderada por Faysal Bibi, hoje a trabalhar na Universidade Humboldt em Berlim. Este paleontólogo e a sua equipa descobriram uma pista com muitas pegadas fossilizadas de Proboscídeos, a família a que pertencem os elefantes.
Porque é que esta descoberta é tão interessante? Porque o número e disposição das pegadas permite-nos inferir muito acerca do comportamento social dos animais que por aquele local passaram há entre 6 a 8 milhões de anos.
O primeiro facto que esta descoberta nos transmite é que as pegadas seriam dos antepassados dos actuais elefantes, que se estima terem divergido há cerca de 6 milhões de anos. Depois, com base no tamanho e espaçamento das pegadas dos pelo menos 13 indivíduos, foi possível estimar o tamanho dos animais, que resulta ser comparável ao dos elefantes africanos.
No que diz respeito ao comportamento, o facto das pistas serem paralelas, indica que os animais estavam a viajar lado a lado, em grupo e, portanto, já teriam alguma estruturação social. Há ainda uma outra pista, de um animal solitário, que se cruza com as demais. Este animal era maior, pelo que os autores especulam que poderia ser um macho. A confirmarem-se as suspeitas de que a manada era constituída por fêmeas (a distribuição de tamanhos sendo similar à das manadas actuais) e que o animal solitário era um macho, isto implica que os elefantes ancestrais já viviam de forma similar à das espécies atuais e, portanto, que o seu sistema social tem uma história bem longa.
Procuram-se, pois, novas pistas de elefantes para continuar a reconstrução da evolução do comportamento social!
Referências:
- Bibi, F. et al. (2012). Early evidence for complex social structure in Proboscidea from a late Miocene trackway site in the United Arab Emirates. Biology Letters DOI 10.1098/rsbl.2011.1185
- In the footsteps of prehistoric elephants
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Campanha 10:23
Este ano vai decorrer mais uma "Campanha 10:23" que pretende sensibilizar os cidadãos para a ineficácia da homeopatia, assunto a que já demos alguma atenção neste blogue. A iniciativa vai decorrer já neste sábado, dia 21 de Abril, às 10h, no jardim do Príncipe Real, em Lisboa.
A organização estará a cargo da COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa, da qual dois dos autores deste blog fazem parte.
Para mais informações consultem:
- o comunicado de imprensa: http://comcept.org/2012/04/16/press-release-campanha-1023/
- o site: www.comcept.org
Apareçam!
quarta-feira, 21 de março de 2012
À conversa em Coimbra
Depois de divulgar estes eventos organizados pelo António Piedade, é com todo o prazer que participo num deles.
É já este Sábado, dia 24 de Março, às 17h30 na Bertrand do Dolce Vita Coimbra. Apareça para uma conversa informal.
Dos trópicos para os pólos: a invasão das lulas Humboldt no Pacífico.
Resumo
As lulas
Humboldt, Dosidicus gigas, são predadores endémicos do Pacífico Tropical
Oriental, que atingem entre 2 a 3 m de comprimento e mais de 50 quilos de peso.
Embora estas lulas apresentem das taxas metabólicas mais elevadas do planeta,
elas realizam, diariamente, migrações verticais para regiões profundas
(mesopelágicas) “mortas”, também conhecidas como “zonas de oxigénio mínimo”
(ZOM). No futuro, os níveis elevados de dióxido de carbono (previstos entre
730-1000 ppm em 2100) desencadearão graves problemas na ecologia migratória destes
organismos, uma vez que a consequente acidificação dos oceanos (DpH=0.3)
diminuirá significativamente as suas taxas metabólicas (31%) e os seus níveis
de actividade (45%) durante a sua permanência em águas pouco profundas à noite
(~70 m de profundidade). Concomitantemente, com a expansão das ZOM associada ao
aquecimento global, as lulas terão de migrar para águas menos profundas para
compensar a dívida de oxigénio que acumulam (durante o dia) nas águas profundas
e hipóxicas das ZOM (~300 m). Deste modo, o efeito combinado da acidificação e
aquecimento na superfície e a expansão da hipóxia em profundidade irá comprimir
o habitat pelágico desta espécie e na ausência de adaptação ou migrações
horizontais, a interacção destas variáveis ambientais poderá definir, a longo
prazo, o futuro deste importante predador no Pacífico Tropical Oriental.
Doutor Rui Rosa – Biólogo,
doutorado pela Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa em 2005, e investigador de pós-doutoramento na
Universidade de Rhode Island, EUA, até 2008. Actualmente, é Coordenador do
Laboratório Marítimo da Guia (LMG-CO-FCUL) e Investigador Auxiliar no Centro de
Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ao longo dos
últimos anos, participou em projectos financiados pela Fundação para a Ciência
e Tecnologia (FCT), Swedish
Environmental Protection of Agency (EPA) e American National
Science Foundation (NSF-USA). É autor
de inúmeras publicações científicas em
revistas indexadas da especialidade, livros científicos; recebeu ainda vários prémios (Prémio IMAR - Luiz
Saldanha; Prémio do Mar - D. Carlos; JEB Fellowship Award em 2005 e 2006) e
bolsas de investigação (US National Science Foundation, Fundação Calouste
Gulbenkian, Fundação para a Ciência e Tecnologia) de índole nacional e
internacional. O seu actual interesse
de investigação é o de compreender de que modo é que as alterações climáticas
irão afectar processos biológicos críticos, nomeadamente a regulação
ácido-base, o metabolismo energético, o crescimento e os processos de
calcificação em espécies marinhas costeiras.
Os erros do bispo
No dia 13 de Março, D. António Vitalino Dantas, bispo de Beja, foi notícia em vários jornais devido aos seus comentários sobre o período de seca que estamos a viver (sigo a notícia do site da Rádio Renascença aqui). As afirmações do bispo deixaram-me boquiaberto, tamanha a ignorância revelada pelo mesmo. Bom, façamos uma análise cuidada das suas sentenças, ponto a ponto.
1) Primeiro dá a entender que as orações trazem chuva, o que reflecte uma superstição bacoca. Tentemos explicar ao senhor bispo o que qualquer criança de 10 anos sabe: o ciclo da água.
Devido ao calor fornecido pelo sol, a água dos rios, lagos e oceanos evapora formando nuvens; assim, a água fica armazenada no estado gasoso na atmosfera. Quando estiverem reunidas as condições atmosféricas de temperatura e pressão verifica-se a precipitação sob a forma de água, neve ou granizo, voltando a água aos rios, lagos e oceanos, completando o ciclo. A água que ficar retida nos solos também é importante para o desenvolvimento das plantas, libertando vapor de água durante a fotossíntese, ou para os animais que também libertam vapor de água na respiração e transpiração. Assim se completa o ciclo (ver imagem abaixo). Como se pode ver, neste processo natural não entram orações, e mesmo se entrassem o resultado seria ineficaz.
Imagem retirada daqui
2) Como referido pela RR, segundo o bispo, os agricultores têm mais esperança nos subsídios da União Europeia do que em deus: "(...) a maioria da população não acredita na providência divina, mas somente na previdência de Bruxelas". - Eis o meu comentário: e fazem os agricultores muito bem. Nem quero pensar na desgraça que seria se os agricultores estivessem à espera que deus (qualquer um deles) viesse resolver os problemas; da UE pode não vir chuva, mas podem vir subsídios para alimentar famílias. Ou seja, o comentário do bispo, é de uma enorme irresponsabilidade, caso houvesse alguém que fizesse caso do que diz. No entanto, isto deixa-me cheio de esperança, pois mostra a todos que os portugueses têm espírito crítico, sabem pensar por si, e já não seguem cegamente o clero.
3) Não fosse tudo isto suficiente, o bispo continua a insultar a inteligência dos portugueses e a mostrar a sua crendice e obscurantismo, agora referindo-se a Fátima! Segundo o mesmo, os católicos dão menos atenção à Bíblia e à virgem Maria, pelo que afirma, e cito: “Afinal, as recomendações de Jesus no evangelho e de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima, pedindo oração e sacrifícios pela conversão dos pecadores e pela paz no mundo não encontram eco nos nossos ouvidos”. A isto eu digo: pois não, felizmente não encontram eco nos nossos ouvidos.
Será que o bispo pretende ressuscitar a mentira de Fátima? Será que o bispo espera que os portugueses acreditem que o sol bailou na Cova da Iria (fenómeno impossível de acontecer)? E que acreditem que apareceu por lá a virgem Maria, apesar dos inúmeros relatos que afirmam que não aconteceu nada? Pretende que os pobres dos portugueses continuem a gastar as suas parcas poupanças em peregrinações e no negócio de Fátima, em vez de investirem esse dinheiro nas suas vidas pessoais?
Passemos a voz a quem sabe. Termino com um comentário de um padre português:
- Site da RR: "Bispo de Beja lamenta falta de orações por chuva"
Outras leituras:
- Luis Filipe Torgal, "As aparições de Fátima", Temas e Debates
- Tomás da Fonseca, "Na cova dos leões", Antígona
sábado, 10 de março de 2012
UM OBSERVADOR MAIS QUE ATENTO
Qualquer orgulhoso dono de um cão ou gato dirá que o seu animal de estimação o consegue reconhecer. Esta afirmação não será novidade para o leitor. Na verdade, muitas espécies de animais são capazes de reconhecer pessoas individualmente.
Mas, como é que sabemos isso?
E, mais estranho ainda...e se esse animal for um polvo?
Há muitas histórias anedóticas de tratadores que acham que os polvos nos aquários os reconhecem e discriminam em relação a outras pessoas (por exemplo, aproximando-se do tratador, mesmo que este esteja num grupo). A confirmar-se esta hipótese, isso significaria que o polvo é capaz de executar mais uma complexa tarefa, uma vez que conseguiria discriminar, aprender e recordar!
O polvo tem-se revelado um animal extraordinário em muitos aspetos e muitos estudiosos dos moluscos, e do comportamento animal em geral, não duvidarão desta sua capacidade, já que os consideram um dos animais mais interessantes do planeta. Diz-se até que é o invertebrado mais inteligente que existe, de tal forma que é o único invertebrado que merece estatuto de protecção na lei inglesa que regula o uso de animais em laboratório.
Mas, como sempre acontece em ciência, gostos e impressões pessoais à parte, são necessárias provas claras.
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| Enteroctopus dofleini |
Usando o polvo-gigante-do-Pacífico Enteroctopus dofleini) testaram se era ou não verdade que os polvos reconhecem e discriminam os seres humanos individualmente.
Para isso, montaram uma experiência curiosa.
Capturaram 8 polvos que colocaram em tanques individuais. Cada polvo recém-capturado era observado duas vezes por dia por dois investigadores diferentes vestidos com roupa igual. Um dos observadores, para além de anotar vários aspectos do comportamento do animal, alimentava-o. O outro, fazia o mesmo tipo de observações mas também "cutucava" o polvo com um pau (algo inofensivo, mas seguramente irritante para o animal). Alguns cuidados extra, mas necessários às conclusões: diferentes polvos eram observados por diferentes pares de observadores, de forma a que os possíveis efeitos observados não fossem devidos àquelas pessoas em particular, e se pudessem extrapolar.
O que os investigadores exploraram foram vários aspetos do comportamento que poderiam ser indicativos de stress, como por exemplo, a existência ou não de uma mancha colorida mais escura na pele à volta do olho (eyebar).
No
princípio
do
estudo,
os
polvos
geralmente
fugiam
de
ambos
os
investigadores
desconhecidos.
Mas,
à
segunda
semana de observações,
já
se
notava
que
os
polvos
se
aproximavam
dos
investigadores
que
os
alimentavam,
não
mostrando
sinais
de
stress.
Pelo
contrário,
afastavam-se
do
outro
investigador
(o
“mau
da
fita”),
mostrando
vários
sinais
de
stress, incluindo a eyebar.
Aqui ficam alguns vídeos demonstrativos:
- Aprendizagem por observação (a qualidade do vídeo não é muito boa, mas faz parte de um documentário muito interessante acerca dos polvos):
- Fantástica capacidade de mímica na espécie indonésia Thaumoctopus mimicus:
Não voltará a olhar o polvo com os mesmos olhos...e ele, como o verá a si?
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| Foto de Veronica von Allworden que aparece no artigo original. |
Artigo: Roland C. Anderson, Jennifer A. Mather, Mathieu Q. Monette & Stephanie R. M. Zimsen (2010): Octopuses (Enteroctopus dofleini) Recognize Individual Humans. Journal of Applied Animal Welfare Science 13: 261-272
domingo, 26 de fevereiro de 2012
OS CAVALOS QUE ENCOLHEM OU OS EQUÍVOCOS SOBRE A EVOLUÇÃO BIOLÓGICA
Texto também publicado no blog AstroPT.
Acham que “A Selecção Natural faz com que os indivíduos se modifiquem para se adaptarem ao seu meio”?
Numa primeira leitura, esta frase até pode parecer fazer sentido...Não é certo que nós vamos tentando adaptar-nos às circunstâncias cambiantes conforme necessário? Sim. Mas, por mais que esta visão algo antropocêntrica nos agrade, ela não é a evolução por selecção natural.
Esta é uma visão que vem ainda da teoria de evolução proposta pelo naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck, que implicava a hereditariedade de características adquiridas. O que quer isto dizer? Bem, quer dizer que os seres vivos, ao tentarem adaptar-se ao seu meio ambiente, sofriam alterações anatómicas, por exemplo, e que essas alterações (ou novas características) eram passadas às sua descendência. Esta explicação há muito foi abandonada pelos biólogos evolutivos e só ocorre em casos muito raros (por exemplo, quando a radiação afecta as células das linhas germinais, os gâmetas, causando mutações).
Como funciona então a Selecção Natural, o mecanismo proposto pelo grande naturalista inglês Charles Darwin e que é hoje aceite como um dos processos responsáveis pela evolução biológica?
Sejamos um pouco antropocêntricos, só por um momento, e pensemos na nossa espécie, Homo sapiens. São todos os indivíduos da nossa espécie iguais? Não: há pessoas de diferente altura, com diferente cor de cabelo, de olhos, de pele, etc. Estas diferenças que nos parecem tão evidentes na nossa espécie existem em todos os seres vivos! Desde a mais diminuta bactéria até ao gigante elefante africano. E, pequenas diferenças na anatomia ou no comportamento levam a que diferentes indivíduos tenham diferente capacidade para sobreviver e se reproduzir. Num determinado momento e num determinado local, certos indivíduos têm uma pequena vantagem de sobrevivência, reproduzem-se mais facilmente e deixam mais descendentes. Os seus descendentes vão naturalmente herdar as características dos progenitores e, deste modo, aumentar a frequência dessas características na população. Ao longo do tempo, temos a “ilusão” de que a espécie se foi modificando. Na verdade, assim nascem novas espécies! Mas não é pela transformação individual, mas sim pela sobrevivência diferencial de indivíduos com certas características que lhes trazem vantagens.
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| Equus vs. Sifrhippus, de Danielle Byerley (Florida Museum of Natural History). A foto pode ser algo enganadora porque dá a ideia de que os cavalos actuais se transformaram nessa espécie anã. |
E que tem isto a ver com os cavalos que "encolheram"?
Pois esse é um exemplo recente de como uma interessante notícia acerca da mudança observada numa espécie devida a alterações climáticas (semelhantes às que tudo indica estarem a ocorrer actualmente) foi algo erroneamente transmitida pela comunicação social e blogosfera em geral.
Há excepções, claro. E aqui podem ler, em inglês, uma boa descrição do que é que os cientistas descobriram.
Leu-se então nos últimos dias, no jornal Público, por exemplo, a notícia de que os cavalos teriam diminuído de tamanho devido às alterações nas condições ambientais de há 56 milhões de anos atrás, nomeadamente o aumento da temperatura que se verificou no período do Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno.
Primeiro, há que perceber que esses cavalos nem sequer eram do mesmo género que existe atualmente, o género Equus, mas sim de um outro género primitivo chamado Sifrhippus (sim, a notícia do Público não tem o género bem escrito!). Os primeiros fósseis destes pequenos cavalos indicam que pesavam cerca de 6Kg. No entanto, verificou-se que, com o passar do tempo e o aumento da temperatura do planeta, os fósseis encontrados são de animais cada vez mais pequenos, até atingirem cerca de 4Kg (uma redução de 30%). Com a diminuição da temperatura, voltam depois a aumentar de tamanho para cerca de 7Kg (em média). Isto ocorreu ao longo de quase 200 mil anos.
Neste vídeo, podem ver um resumo dos resultados e como foram obtidos.
E como se explica isto correctamente, à luz da Teoria da Evolução?
Na população inicial de cavalos Sifrhippus, havia indivíduos de diferentes tamanhos, mas com uma média de 6Kg. Com o aumento gradual da temperatura, os cavalos que eram ligeiramente mais pequenos tinham algumas vantagens de sobrevivência (se calhar, por exemplo, porque comiam menos vegetação ou eram menos propensos a doenças – especulação minha!). Sobreviviam portanto durante mais tempo, reproduziam-se melhor e tinham mais descendentes. Esses descendentes herdavam as características dos progenitores e eram, portanto, também pequenos. Ao longo de milhares de anos, o resultado que hoje observamos é que o tamanho médio da espécie diminuiu. Não porque os indivíduos diminuíram de tamanho, mas porque a proporção de indivíduos de tamanho mais pequeno na população foi aumentando significativamente, mudando o tamanho médio observado. Com as mudanças ambientais posteriores em sentido contrário, o tamanho voltou a aumentar.
Mas não foram os indivíduos acalorados que encolheram!
NOTA: Para melhor perceber a evoluçao biológica, podem recorrer a este site de referência: Understanding evolution
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Singela Beleza Lusitânica
Partilho aqui a adaptação de um texto que foi publicado no jornal A Voz da Figueira, no âmbito do projeto "Ciência na Imprensa Regional".
SINGELA BELEZA
A imagem que aqui vêm foi por mim captada numa mal
tratada duna da praia de Vila Chã (Vila do Conde, Norte de Portugal). Passa
despercebida à maioria dos visitantes, mas é possível encontrar
esta pequena planta com estas belíssimas flores nas dunas do NW da
nossa Península Ibérica.
O
seu nome oficial é Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia (Linaria caesia var. decumbens Lange). Estranho, não? Este é o nome
científico desta espécie, que ajuda a que saibamos exatamente de
que espécie estamos a falar já que, veja só, em "linguagem
comum" ela é chamada de: linária-das-dunas, linária-da-praia,
asarina-da-praia, passarinho-amarelo ou passarinho-da-praia. Devido à
grande diversidade de nomes atribuídos ao mesmo ser vivo em diferentes locais e idiomas ou na mesma localidade (e à
repetição de nomes para seres vivos diferentes), para que nos
entendamos todos, no século XVIII, o naturalista Lineu propôs o
sistema de nomenclatura binominal (dois nomes e em latim) que, desde
essa época, foi adotado pela comunidade científica (diante dos dois
nomes deve ir o nome dos autores que descreveram a espécie, tal como podem ver neste exemplo). Este
sistema permite que um cientista português possa comunicar com um
cientista chinês e que, pelo menos, saibam de que espécie estão a
falar.
Mas, voltando à planta de bela flor, ela é então típica de areais costeiros. É uma planta pequenina, a flor tem cerca de dois centímetros e um característico esporão que está possivelmente relacionado com os insetos polinizadores (ao terem que penetrar na flor para recolher o néctar são assim "obrigados" a recolher o seu pólen e vão inadvertidamente fertilizar outras plantas).
Sendo uma planta de dunas, onde há escassez de água, tem algumas características que lhe permitem habitar nesse ambiente inóspito, como uma cutícula grossa e raízes profundas.
Mas, voltando à planta de bela flor, ela é então típica de areais costeiros. É uma planta pequenina, a flor tem cerca de dois centímetros e um característico esporão que está possivelmente relacionado com os insetos polinizadores (ao terem que penetrar na flor para recolher o néctar são assim "obrigados" a recolher o seu pólen e vão inadvertidamente fertilizar outras plantas).
Sendo uma planta de dunas, onde há escassez de água, tem algumas características que lhe permitem habitar nesse ambiente inóspito, como uma cutícula grossa e raízes profundas.
A foto acima apresentada faz parte do Banco de Imagens da Casa das Ciências. Acerca deste projeto, podem ler mais neste outro post.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Física a brincar
A Ciência pode ser ensinada de maneira divertida através de palestras interactivas, de aulas práticas cativantes, de visitas a museus de ciência, ou com recurso a livros de divulgação interessantes. Claro que também pode ser ensinada com recurso ao humor, e como prova disso deixo a seguinte anedota e respectiva explicação:
"Einstein, Newton, Pascal, Galileu Galilei, entre outros grandes nomes da Física, estavam a brincar às escondidas. Era a vez de Einstein começar a contar enquanto os demais se escondiam.
Todos conseguiram um esconderijo com excepção de Newton, que tentou esconder-se atrás do sofá, mas levou um “chega pra lá” de Pascal:
- eu já estou aqui, vai-te esconder noutro lugar!.
Tentou então atrás da cortina, mas lá estava Galileu.
Sem opção de esconderijo, Newton pegou num giz e desenhou um quadrado com arestas iguais a 1 metro no chão da sala, e ficou ali, em cima do quadrado.
Einstein termina a contagem e encontra Newton rapidamente:
- Newton, já te achei pá, então não te escondeste?!
- Opá!!! espera aí, mas eu sou Pascal!!!”
Explicação: 1Pa (um pascal) é uma medida de Pressão, no Sistema Internacional (SI), equivalente à força de 1N (um newton) aplicada uniformemente sobre uma superfície de 1 m2.
Divulgar a Evolução
Por vários dos autores serem biólogos, já aqui escrevemos sobre sobre a temática da evolução das espécies e sobre o naturalista Charles Darwin. Já apresentámos textos explicativos e já sugerimos a leitura de excelentes livros de divulgação sobre o tema. Trago agora um vídeo musical para complementar os trabalhos anteriores, que merece ser visionado.
No video em baixo reecontramos o grande divulgador de ciência David Attenborough, a quem já nos habituámos a ver e a ouvir nos documentários da BBC sobre a vida selvagem; e o biólogo britânico Richard Dawkins. O título da música, "The Greatest Show on Earth", é uma homenagem ao trabalho de divulgação de Dawkins, que escreveu um livro com o mesmo nome, em 2009. O livro está traduzido para português, com o título "O espectáculo da vida".
Combate à Fraude
Quando este blog foi criado, os fundadores tinham em mente a divulgação de conhecimento factual e com recurso a fontes fidedignas, de modo a promover o conhecimento e lutar contra a ignorância. Este espaço pretende ser um local instrutivo, de partilha de saberes que vamos adquirindo ao longo da nossa formação ou actividade profissional, na esperança de que a informação aqui colocada seja, de algum modo, útil aos nossos leitores.
Na foto: Neil deGrasse Tyson, astrofísico, director do Planetário Hayden e divulgador de ciência.
Tradução: Literacia Científica é a vacina contra os charlatães do mundo que iriam explorar a sua ignorância.
Na senda do trabalho que temos vindo a desenvolver, passaremos a prestar alguma atenção a mitos e a pseudociências enraizadas nalguns segmentos menos esclarecidos da nossa sociedade. Denunciaremos casos que consideremos flagrantes e tentaremos esclarecê-los. Há vários casos de pseudociências que, de uma maneira ou de outra, poderão ser prejudiciais aos indivíduos ou à sociedade, e portanto devem ser apontados e clarificados. A título de exemplo, refiro-me à opção pela homeopatia em vez da medicina convencional (1), a astrologia e o tarot, e a negação da ciência, só para citar alguns temas - muitos dos quais podem ser considerados fraudes.
A propósito deste post, deixo uma animação humorística que retrata também esta preocupação. Resumidamente, trata-se de um diálogo poético entre Tim Minchin, um rapaz racional e defensor do conhecimento científico, e "Storm", uma rapariga que é o reflexo do típico negacionista da ciência.
(1) - A temática homeopática já foi aqui abordada no nosso blog, mas continuaremos a prestar mais atenção ao assunto.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Webinar "Casa das Ciências" - 12 de janeiro
É já amanhã que o coordenador (Prof. José Ferreira Gomes) e o sub-coordenador (Eng. Manuel Silva Pinto) da Casa das Ciências vão fazer uma apresentação deste projeto sob a forma de um webinar, um seminário online. Já aqui tive ocasião de escrever sobre a Casa das Ciências,
o portal Gulbenkian para professores de Ciências, onde todos os
professores de ciências podem encontrar REDs (recursos educativos
digitais) para as suas aulas e também partilhar os seus próprios
recursos com a comunidade de professores lusófona.
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| Imagens de alguns REDs disponíveis na Casa das Ciências |
Para quem quiser saber mais, só precisa então de um computador com ligação à Internet e de entrar no site dedicado da DGIDC,
a Direçao-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular do
Ministério da Educação, amanhã, 12 de Janeiro de 2012, pelas 15:00h
(GMT). O webinar "O Universo da Casa das Ciências – Portal
Gulbenkian para Professores" terá a duração aproximada de uma hora e
será possível colocar questões aos oradores através da direção de email webinar@dgidc.min-edu.pt.
Este é o resumo que se encontra no site da DGIDC:
"Numa primeira parte serão apresentados os fundamentos do projeto e
serão mostrados exemplos dos seus conteúdos, a saber, RED’s (Recursos
Educativos Digitais) de diferentes áreas científicas, entradas da
WikiCiências, enciclopédia on-line sobre ciência, e imagens do Banco de
Imagem.
Numa segunda parte será feita a descrição da metodologia de avaliação, validação e publicação dos RED’s numa perspectiva de funcionamento de um BackOffice autónomo."
Numa segunda parte será feita a descrição da metodologia de avaliação, validação e publicação dos RED’s numa perspectiva de funcionamento de um BackOffice autónomo."
Todos os interessados estão naturalmente convidados!
A Casa das Ciências está também presente no Facebook, aqui.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Votos de Boas Festas!

"Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabelos louros, e de prata as barbas brancas.
Tudo está enfeitado como numa páscoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flores de Inverno, as flores da neve, e todas as pratas da casa cintilam sobre os aparadores, numa solenidade patriarcal.
(...)
E por corredores e salas, as crianças, os bebés, com os cabelos ao vento, vestidos de branco e cor-de-rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros relógio monumental, porque à meia-noite chega Santo Claus, o venerável Santo Claus que tem três mil anos de idade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos.
(...)
Também, como eles o adoram, o bom Claus! E apenas ele chegar, como correrão todos, em triunfo, a puxá-lo para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrépitas mãos regeladas, a oferecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente - que ele bebe de um trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!..."
(Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres, Lisboa, Livros do Brasil, 2001, pp. 44-45. A imagem vem de Luís Espinha da Silveira e Paulo Jorge Fernandes, D. Luís, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006, figura nº1 em extra texto entre pp. 192-193. Neste desenho da autoria do Rei D. Fernando II (1816-1885), datado de 1848, estão representados os seus filhos, à data, com a Rainha D. Maria II (1819-1853): D. Pedro (1837-1861), D. Luís (1839-1889), D. João (1842-1861), D. Maria Ana (1843-1884), D. Antónia (1845-1913), D. Fernando (1846-1861) e D. Augusto (1847-1889)
O Armarium Libri deseja Boas Festas a todos os seus leitores e seguidores!
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Fotografias Antigas (5): Guarda-Fios, c. 1902
Os guarda-fios no século XIX eram funcionários ligados ao Ministério das Obras Públicas e tinham como função instalar, reparar e fiscalizar as linhas do telégrafo. O guarda-fios "fazia rondas habituais a pé, num perímetro chamado cantão, onde verificava a deficiência dos traçados, que incluíam postes desaprumados, espias e linhas desreguladas e isoladores partidos. Com os anos, criaram-se três tipos de traçados - telegráfico, telefónico e de altas frequências -, obrigando o guarda-fios a trabalhos suplementares." Por causa do seu trabalho que, em geral, não podia conhecer a fadiga nem os rigores do clima, eram possíveis as comunicações até onde chegava essa nova tecnologia em Portugal. Presentes desde a introdução do telégrafo em 1855, a sua visibilidade concretizava-se especialmente na possibilidade quotidiana de enviar mensagens. Apesar de todas as profissões, mais ou menos, estarem documentadas em todas as épocas históricas, a verdade é que há um certo número de trabalhos invisíveis para uma boa parte da população. Os funcionários da recolha do lixo são outro exemplo. Todavia, estes como os guarda-fios, tornavam o País num local mais confortável para os seus compatriotas.Referência: Tanto a imagem como a citação vêm de Rogério Santos, Olhos de Boneca - Uma História das Telecomunicações 1880-1952, Lisboa, Edições Colibri e Portugal Telecom, 1999, pp. 134-135.
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