segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Investigação científica e ...


Recentemente li um artigo do site NatureJobs sobre alternativas de emprego para investigadores científicos. O texto, intitulado Business and Science: in the market, dá a conhecer oportunidades de empregabilidade em áreas aparentemente distantes da ciência, como é o caso do Marketing, por exemplo. 

Mas faz sentido, uma vez que empresas ligadas à ciência, como a Indústria Farmacêutica, precisam de colaboradores que entendam o que estão a tentar comercializar para melhor comunicar com os clientes. Estas empresas têm contratado funcionários com uma licenciatura na área das ciências, e que eventualmente seguiram uma carreira científica até ao patamar de pos-doc, tendo posteriormente apostado numa especialização em marketing. 

 Quem fala de marketing, pode falar de qualquer outra disciplina. O ideal é tentar aliar uma saída profissional com outra actividade que se goste de desenvolver. Deste modo não só se trabalhará num emprego que contribui para a realização pessoal, como poderá, eventualmente, levar à possibilidade de criar um negócio próprio, se tiver essa intenção.

Fonte
http://www.nature.com/naturejobs/science/articles/10.1038/nj7406-261a?WT.mc_id=FBK_NatureJobs
 



Ciência na Rua - em Estremoz

 
Divulgação do evento Ciência na Rua, que conta com o contributo do Centro de Ciência Viva de Estremoz e da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora:
 
A 6ª edição do CIÊNCIA NA RUA é já no próximo dia 15 de setembro, das 18h00 às 01h00, na cidade de Estremoz.
Estremoz Cidade de Ciência, é mais uma vez palco de inúmeras experiências interativas e espetáculos, onde a CIÊNCIA e a ARTE se juntam para viver a Química no nosso dia-a-dia, num Festival de Ciência de características únicas!
Durante uma noite única e inesquecível, dezenas de CIENTISTAS e ARTISTAS transformam o Centro da cidade de Estremoz recriando e experimentando 7 Grandes Momentos Científicos em torno da Química: TABELA PERIÓDICA, LAVOISIER, QUÍMICA e a SAÚDE, QUÍMICA e a ALIMENTAÇÃO, QUÍMICA e a COR, QUÍMICA e a INVESTIGAÇÃO CRIMINAL, QUÍMICA e a ENERGIA.
 
A Ciência é da responsabilidade do Centro Ciência Viva de Estremoz com a colaboração da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora, através dos departamentos de Química e de Geociências. A Arte tem a direção artística dos PIA, Projetos de Intervenção Artística, onde os Bardoada, os PIA, os Quorum Ballet, os Kumpania Algazarra, os DesperateMen (uk), JoBithume (fr) e os Art Color Ballet (pl) representam a Química através da sua Arte.
 
A Ciência, o Teatro, a Música e a Dança estão à tua espera em Estremoz para desvendarem alguns dos preciosos segredos do Mundo que nos rodeia.
 
A gasolina do meu carro é Química???
Quando me apaixono é Química???
Na Química nada se perde???
Um iogurte é Química???
Em Estremoz, a Ciência e a Arte respondem!!!
 
Podes ter um “cheirinho” da edição anterior em http://www.ciencianarua.uevora.pt/2012/newsletter.php#videos
 
Mais e outras informações em: www.ciencianarua.uevora.pt
 
Passa a palavra e aparece!!!!!!!!!
 
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ciência no Verão 2012


 
Caro leitor, quer realizar actividades de Ciência gratuitas, neste Verão?
Está decorrer, desde 15 de Julho até 15 de Setembro, a iniciativa Ciência Viva no Verão, promovida pela Ciência Viva. Estas actividades que estão a ser desenvolvidas em todo o país, são gratuitas e dirigidas a um público de todas as idades, dos avós aos netos.
Pode encontrar actividades laboratoriais, observação de estrelas, saídas de campo, visitas aos faróis, ateliers científicos para crianças e muito mais. Estas iniciativas são desenvolvidas por associações, jardins botânicos, universidades, e outras instituições.
Para inscrições e para ver que actividades ainda estão disponíveis, consultar o site: http://www.cienciaviva.pt/veraocv/2012/
 
Dois dos autores deste blog já foram monitores neste evento no ano passado, desenvolvendo actividades laboratoriais e saídas de campo.
Este ano participámos como visitantes. Deixo algumas fotografias da saída de campo de botânica e arqueologia, ao Cossourado e ao Corno de Bico.

Figura 1 - Povoado fortificado do Cossourado. Lia-se numa placa informativa do local: "Construído durante a Idade do Ferro, este povoado é estruturalmente dominado pelo seu forte sistema defensivo que circunda e protege a sua área habitacional."
Figura 2 - As ruínas no Cossourado. Os trabalhos arqueológicos têm-se vindo a desenvolver desde 1993. 
 
 Figura 3 - Passeio de Botânica, mas ainda com uma componente de arqueologia. No fundo à direita observa-se uma mamoa.

Nota: agradece-se divulgação. Estas actividades contribuem para o aumento da literacia científica da população.
A Equipa do Armarium Libri apoia a iniciativa Ciência Viva no Verão.
 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Da Ciência para a Economia


A francesa Esther Duflo e o indiano Abhijit Banerjee, ambos economistas no Massachusetts Institute of Technology (MIT), fundaram, em 2003, o Poverty Lab - laboratório de estudos de combate à pobreza.

Os estudos realizados pelo Poverty Lab recorrem a um método de pesquisa científico [1], num bom exemplo de transdisciplinaridade entre áreas tão diferentes como a ciência e a economia.

Este método de pesquisa consiste em separar duas amostras da mesma população aleatoriamente: uma dessas populações é submetida a uma solução contra um problema específico, “como um método para aumentar a taxa de vacinação entre crianças” [2], a outra população não recebe nenhum tratamento – é o que em ciência se designa de população controlo. A comparação dos resultados obtidos nas duas populações indica se o programa social teve o efeito desejado. Assim, o programa social que tiver melhores resultados pode ser reproduzido em larga escala, em comunidades que apresentem características idênticas.

 Na realidade, a metodologia não é completamente inovadora em economia; o mérito desta investigadora reside, no entanto, na possibilidade do método poder ser aplicado numa escala inédita, como explica Michael Kremer, economista na Universidade de Harvard [3].

Este projecto mereceu a atenção e o apoio financeiro de Bill Gates, famoso filantropo de causas sociais, e que escreveu no seu blog: “O laboratório produz evidência científica que ajuda a tornar o esforço de combate à pobreza mais eficiente” [4].

O resultado dos vários estudos foi publicado no livro de divulgação “Poor Economics”, eleito pelo Financial Times a melhor obra de economia do ano [5].

Esther Duflo defende que a pobreza mundial pode ser combatida através de investimentos a fundo perdido de países ricos, ideia aliás já defendida por outros economistas, como Jeffrey Sachs, já mencionado neste blog.

Notas:

[1] – Referido no texto consultado como método randómico. Ignoro se será este um termo técnico, mas creio que a designação deveria ser método aleatório.
[2] – Revista Exame, nº340, p.80
[3] – Idem
[4] – Idem
[5] – Idem, pp. 78-80

Fonte: “A guru de Bill Gates”, in Revista Exame, nº340, Agosto 2012, pp. 78-80

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Dia Histórico! Foi (provavelmente) detectado o bosão de Higgs!


Os físicos de todo o mundo, e não só, viveram ontem uma manhã emocionante!
Embora já houvessem rumores e especulações há vários dias e anteontem tivesse havido uma fuga de informação informática sob a forma de um vídeo, foi na conferência do CERN da manhã de 4 de Julho que tudo ficou esclarecido: foi detectada uma nova partícula subatómica que é provavelmente o bosão teorizado há mais de 50 anos pelo físico Peter Higgs.

Detector CMS no CERN
Este anúncio foi histórico em muitos aspectos, não só pela importância da descoberta, mas também pelo modo como essa descoberta foi comunicada ao mundo. Via live streaming, pessoas de todo o mundo assistiram em directo às duas conferências onde foram comunicados os resultados das duas principais experiências de busca da "partícula maldita", o bosão de Higgs.

E faz sentido que assim fosse: o CERN é fruto da colaboração de muitos países  e de cientistas de todo o mundo. Esta descoberta pode abrir portas a uma nova física e, portanto, a expectativa era geral!

Se hoje entrarem na página do CERN, encontrarão a seguinte mensagem:

 "Higgs within reach: Our understanding of the universe is about to change..."
[O Higgs está ao alcance: a nossa compreensão do universo está a ponto de mudar...]

Como não sou física, não me vou alargar com os detalhes porque não quero dizer nenhuma asneira. Em alternativa, deixo antes alguns relatos feitos por quem sabe mesmo do tema.

Nesta notícia da BBC, está o vídeo da parte final da conferência, com o director do CERN, Rolf Heuer a fazer um sumário daquilo que podemos concluir neste momento:

Último diapositivo da apresentação desta manhã

Resumindo:
  • Este foi um esforço global que tem agora um sucesso global!
  • Os resultados hoje apresentados só foram possíveis graças à performance dos aceleradores de partículas, às experiências montadas e à capacidade de computação.
  • As observações feitas são consistentes com um bosão de Higgs...mas qual?
  • Este é um marco histórico, mas é também apenas o começo!
  • No futuro, haverá implicações globais desta descoberta!



Brian Cox
Muito interessante e esclarecedora é esta outra notícia da BBC que inclui uma entrevista a um emocionado Brian Cox, físico de partículas e famoso comunicador, que consegue transmitir a emoção que muitos físicos estavam a sentir e explicar a importância desta descoberta. Brian Cox classifica esta descoberta como sendo "uma das maiores descobertas científicas de todos os tempos", "uma das bases fundamentais para a nossa compreensão de como TUDO funciona no Universo".
A certa altura o jornalista pergunta-lhe. "Então agora que os cientistas provaram a sua existência, para que é que serve, o que é que fazemos com esse conhecimento?"
Vale a pena ouvir a resposta!



Neste texto, o físico teórico Lawrence Krauss faz também um relato da descoberta anunciada hoje e eu realço o seguinte trecho, referente à cautela revelada pelos cientistas do CERN em não declararem taxativamente que esta é a partícula exacta que Peter Higgs previu:

"This cautious approach is actually a good thing, because it leaves open the possibility that the particle being observed is not exactly the simple Higgs particle of the standard model. Instead, it may point the way toward understanding whatever new physics underlies the standard model — and perhaps explain outstanding mysteries from the question of why the universe is made of matter and not antimatter, to whether our universe is unique."
[Na verdade, esta aproximação cautelosa é boa, porque deixa em aberto a possibilidade da partícula observada não ser exactamente a partícula de Higgs prevista pelo Modelo Standard. Em vez disso, pode apontar para a compreensão de uma nova física por trás do Modelo Standard e talvez explique mistérios extraordinários, desde a questão de porque é que o universo é feito de matéria e não anti-matéria, até à de se o nosso universo é ou não único.]


A aproximação feita pela jornalista Ana Gerschenfeld no jornal Público é também muito interessante. Vejam o vídeo no final da notícia para uma curiosa analogia entre o bosão de Higgs e o jornalismo!

Obrigatória é também a leitura deste delicioso texto do Marco Santos no blog Bitaites. O Marco, com a sua paixão pela ciência e o imenso talento de escrita, consegue com uma linguagem simples e de um modo extremamente divertido, fazer aquilo que eu gostaria de ter feito neste humilde post.

Deixo para o fim um pequeno pormenor, mas que creio ser importante referir, em jeito de esclarecimento.
Porque é que os meios de comunicação social falam sempre na "partícula de Deus" quando se referem ao bosão de Higgs?

Não foi Peter Higgs quem usou essa designação e no meio científico ninguém gosta dessa expressão, mais que nada porque induz em equívoco. O bosao de Higgs nada tem a ver com religião!
De onde veio, então?
A expressão surgiu pela primeira vez no título de um livro do físico Leon Lederman, que era suposto chamar-se The Goddamn Particle (A Partícula Maldita), mas acabou por sair à luz com o título The God Particle: If the Universe Is the Answer, What Is the Question? Quem fez a alteração foi o editor, sem autorização do autor, por achar que "maldita" podia ser uma palavra ofensiva.
Estava o caldo entornado! A imprensa pegou na deixa e até hoje usa essa maldita expressão!

terça-feira, 3 de julho de 2012

A vida "marciana" da Terra


Alguns dos locais mais inóspitos do nosso planeta podem ter características que se assemelhem àquelas de Marte. A descoberta de vida nestes locais permite fazer algumas especulações sobre putativas formas de vida que poderiam viver nesse mítico planeta. Esse é um dos campos de estudo da Astrobiologia, o ramo da ciência que procura compreender a origem das moléculas que funcionam como material de construção dos seres vivos, como estas se combinam para gerar a vida, como e onde pode surgir a vida (e quais as interacções entre estes seres vivos "primitivos" e o seu meio ambiente) e como é possível que a vida se expanda para além do seu local de origem. A Astrobiologia é, portanto, muito mais que a procura de sinais de vida fora do nosso planeta.

Uma das vertente vulcânicas de Atacama (Crédito: Steve Schmidt)

A novidades que nos chega dos EUA é que foram encontrados mais um conjunto de organismos extremófilos que vivem nas encostas de vulcões, com condições de tal forma inóspitas que são comparáveis às do planeta Marte. Os extremófilos, como o nome indica, são seres vivos que vivem em condições extremas, isto é, onde a maior parte dos outros organismos morreriam.

Desta feita, um grupo de cientistas da Universidade de Colorado - Boulder estudou os solos de vários vulcões na região de Atacama (América do Sul) e, para sua surpresa, descobriu indícios de vida nesse terreno extremamente seco e inóspito, a mais de 6000 metros acima do nível do mar. O trabalho foi publicado na revista científica Journal of Geophysical Research.

Os microorganismos encontrados são fungos, bactérias e arquea. As arquea eram anteriormente chamadas de arqueobactérias, porque se pensava que fossem um tipo de bactérias já que, como estas, também são diminutos seres unicelulares sem núcleo ou organelos. Mas, com o advento dos estudos de genética molecular, descobriu-se que eram seres completamente diferentes e que, ainda que remotamente, estavam mais aparentados com os seres humanos do que com as bactérias. As arquea são também famosas por serem frequentemente encontradas em ambientes extremos, como o fundo dos oceanos ou efluentes extremamente ácidos de minas.

Estas novas espécies agora descobertas vivem num ambiente com variações diárias de temperatura que podem superar os 70°C, radiação UV muito intensa (o dobro da medida num deserto "típico" de baixa altitude) e um solo paupérrimo em nutrientes (por exemplo, os níveis de azoto são tão baixos que não é detectável pelos instrumentos de medição usados). Não foram encontrados seres fotossintéticos, que consigam usar a energia do Sol, e portanto especula-se sobre qual será a fonte de energia que alimenta este débil ecossistema microbiano. É possível que usem uma fonte química de energia, com base no monóxido de carbono e gases de enxofre, mas esta é ainda uma hipótese por comprovar.

Para além de esta poder ser uma importante descoberta para a Astrobiologia, tem também o potencial de poder levar à descoberta de novas formas de obtenção de energia.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Paixão pela Matemática


Num post anterior, deixei a sugestão da ciência poder ser ensinada com recurso ao humor. Nesse texto, partilhei uma breve piada, e respectiva explicação, aludindo às definições das unidades do Sistema Internacional (S.I.) em Física.

Deparei-me recentemente com outro exemplo, desta vez dedicado à Matemática, essa disciplina que assusta muitos estudantes, mas que na realidade nada tem de complicada, "basta apenas" que se pratique muito.
Apresentando-se a seguinte equação, pedia-se que se resolvesse em ordem a x:


Qualquer aluno do secundário (já para não falar dos mais novos), pode resolver a seguinte equação e dedicá-la a quem considere importante. Então é assim:

[(b+ax) - (b-ate)] = a^2
mo

b+ax-b+ate = a^2.mo

a (x+te) = a (amo)

x+te = amo

x = amo-te


Parece-me uma boa maneira de expressar o que se sente quando não se sabe bem como. Quando tal acontecer, lembrem-se que a matemática é uma excelente ferramenta.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Festa da Ciência em Braga


Começa já na próxima sexta-feira, dia 11, a 2ª Edição da Festa da Ciência, organizada pela Escola de Ciências da Universidade do Minho, em Braga.




Ao longo dos oito dias de festa, o programa é prometedor e variado, passando por actividades de divulgação da Ciência com workshops, sessões hands-on, palestras, concursos e exposições.

Só para dar alguns exemplos de actividades práticas, vai ser possível fazer observações ao microscópio electrónico, observações solares, actividades experimentais de química (Nós e a Química), aprender a prepara cosméticos caseiros (Vamos fazer cremes, óleos e tinturas com plantas aromáticas e medicinais!), etc.

O principal público-alvo desta iniciativa são os alunos dos ensinos pré-escolar, básico e secundário.

O programa completo e as fichas de inscrição para as diferentes actividades, encontram-se aqui.
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Dia Aberto no Instituto de Higiene e Medicina Tropical


No próximo dia 25 de Maio, o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) em Lisboa organiza, pela primeira vez, um Dia Aberto.


O IHMT, antiga Escola Nacional de Medicina Tropical, é uma instituição centenária que faz parte da Universidade Nova de Lisboa e cujo objectivo é o estudo científico dos problemas de saúde relacionados com os ambientes tropicais

Neste dia especial, todos os visitantes, miúdos e graúdos, são convidados a conhecer melhor o trabalho que se desenvolve neste Instituto, que passa pelas valências do ensino, investigação e cooperação (principalmente com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Nesse sentido, a organização preparou actividades para todas as idades, que incluem filmes, exposições, visitas guiadas aos laboratórios, consultas de viajante, observação de espécimes vivos e conservados de insectos transmissores de doenças, extracção do ADN, conversas com cientistas, etc. É uma excelente oportunidade para, por exemplo, saber para que servem os anticorpos, perceber como é que se faz o diagnóstico e tratamento de doenças infecciosas, discutir com os cientistas os desafios que se colocam no século XXI para a erradicação de doenças...e muito mais.

Mais informações, na página do IHMT.

Uma iniciativa a não perder!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Elefantes do passado


Texto publicado no jornal O Baluarte de Santa Maria no âmbito do projecto


Existem três espécies de elefantes no mundo: o elefante-da-savana (Loxodonta africana), o elefante-da-floresta (Loxodonta cyclotis) e o elefante-asiático (Elephas maximus). E como eram aquelas espécies que já desapareceram? Existem muitos fósseis que permitem conhecermos melhor o seu aspecto. Mas, seria o seu comportamento comparável ao dos elefantes actuais? Sabe-se que hoje os elefantes têm uma estrutura social complexa, com segregação sexual e centrada em grupos matriarcais. Há quanto tempo é que este comportamento existe?

O comportamento dos animais extintos é difícil de estudar porque, ao contrário dos seus ossos, carapaças ou concha, não fossiliza. No entanto, algumas pistas muito raras dão-nos, por vezes, a conhecer vislumbres dos hábitos dos animais extintos.


Reconstrução da manada de Mleisa 1, tendo como base a espécie Stegotretrabelodon como origem das pegadas (© Mauricio Antón)


Este é o caso de uma recente descoberta feita num local chamado Mleisa, nos Emirados Árabes Unidos, por uma equipa internacional liderada por Faysal Bibi, hoje a trabalhar na Universidade Humboldt em Berlim. Este paleontólogo e a sua equipa descobriram uma pista com muitas pegadas fossilizadas de Proboscídeos, a família a que pertencem os elefantes.

Porque é que esta descoberta é tão interessante? Porque o número e disposição das pegadas permite-nos inferir muito acerca do comportamento social dos animais que por aquele local passaram há entre 6 a 8 milhões de anos.
O primeiro facto que esta descoberta nos transmite é que as pegadas seriam dos antepassados dos actuais elefantes, que se estima terem divergido há cerca de 6 milhões de anos. Depois, com base no tamanho e espaçamento das pegadas dos pelo menos 13 indivíduos, foi possível estimar o tamanho dos animais, que resulta ser comparável ao dos elefantes africanos.

No que diz respeito ao comportamento, o facto das pistas serem paralelas, indica que os animais estavam a viajar lado a lado, em grupo e, portanto, já teriam alguma estruturação social. Há ainda uma outra pista, de um animal solitário, que se cruza com as demais. Este animal era maior, pelo que os autores especulam que poderia ser um macho. A confirmarem-se as suspeitas de que a manada era constituída por fêmeas (a distribuição de tamanhos sendo similar à das manadas actuais) e que o animal solitário era um macho, isto implica que os elefantes ancestrais já viviam de forma similar à das espécies atuais e, portanto, que o seu sistema social tem uma história bem longa.

Procuram-se, pois, novas pistas de elefantes para continuar a reconstrução da evolução do comportamento social!





Referências:

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Campanha 10:23


Este ano vai decorrer mais uma "Campanha 10:23" que pretende sensibilizar os cidadãos para a ineficácia da homeopatia, assunto a que já demos alguma atenção neste blogue. A iniciativa vai decorrer já neste sábado, dia 21 de Abril, às 10h, no jardim do Príncipe Real, em Lisboa.

A organização estará a cargo da COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa, da qual dois dos autores deste blog fazem parte.

Para mais informações consultem:
- o site: www.comcept.org

Apareçam!

quarta-feira, 21 de março de 2012

À conversa em Coimbra


Depois de divulgar estes eventos organizados pelo António Piedade, é com todo o prazer que participo num deles.
É já este Sábado, dia 24 de Março, às 17h30 na Bertrand do Dolce Vita Coimbra. Apareça para uma conversa informal.


Dos trópicos para os pólos: a invasão das lulas Humboldt no Pacífico.



Resumo
As lulas Humboldt, Dosidicus gigas, são predadores endémicos do Pacífico Tropical Oriental, que atingem entre 2 a 3 m de comprimento e mais de 50 quilos de peso. Embora estas lulas apresentem das taxas metabólicas mais elevadas do planeta, elas realizam, diariamente, migrações verticais para regiões profundas (mesopelágicas) “mortas”, também conhecidas como “zonas de oxigénio mínimo” (ZOM). No futuro, os níveis elevados de dióxido de carbono (previstos entre 730-1000 ppm em 2100) desencadearão graves problemas na ecologia migratória destes organismos, uma vez que a consequente acidificação dos oceanos (DpH=0.3) diminuirá significativamente as suas taxas metabólicas (31%) e os seus níveis de actividade (45%) durante a sua permanência em águas pouco profundas à noite (~70 m de profundidade). Concomitantemente, com a expansão das ZOM associada ao aquecimento global, as lulas terão de migrar para águas menos profundas para compensar a dívida de oxigénio que acumulam (durante o dia) nas águas profundas e hipóxicas das ZOM (~300 m). Deste modo, o efeito combinado da acidificação e aquecimento na superfície e a expansão da hipóxia em profundidade irá comprimir o habitat pelágico desta espécie e na ausência de adaptação ou migrações horizontais, a interacção destas variáveis ambientais poderá definir, a longo prazo, o futuro deste importante predador no Pacífico Tropical Oriental.

 Biografia
Doutor Rui Rosa – Biólogo, doutorado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em 2005, e investigador de pós-doutoramento na Universidade de Rhode Island, EUA, até 2008. Actualmente, é Coordenador do Laboratório Marítimo da Guia (LMG-CO-FCUL) e Investigador Auxiliar no Centro de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ao longo dos últimos anos, participou em projectos financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Swedish Environmental Protection of Agency (EPA) e American National Science Foundation (NSF-USA). É autor de inúmeras publicações científicas em revistas indexadas da especialidade, livros científicos; recebeu ainda vários prémios (Prémio IMAR - Luiz Saldanha; Prémio do Mar - D. Carlos; JEB Fellowship Award em 2005 e 2006) e bolsas de investigação (US National Science Foundation, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e Tecnologia) de índole nacional e internacional. O seu actual interesse de investigação é o de compreender de que modo é que as alterações climáticas irão afectar processos biológicos críticos, nomeadamente a regulação ácido-base, o metabolismo energético, o crescimento e os processos de calcificação em espécies marinhas costeiras.

Os erros do bispo


No dia 13 de Março, D. António Vitalino Dantas, bispo de Beja, foi notícia em vários jornais devido aos seus comentários sobre o período de seca que estamos a viver (sigo a notícia do site da Rádio Renascença aqui). As afirmações do bispo deixaram-me boquiaberto, tamanha a ignorância revelada pelo mesmo. Bom, façamos uma análise cuidada das suas sentenças, ponto a ponto.

1) Primeiro dá a entender que as orações trazem chuva, o que reflecte uma superstição bacoca. Tentemos explicar ao senhor bispo o que qualquer criança de 10 anos sabe: o ciclo da água.
Devido ao calor fornecido pelo sol, a água dos rios, lagos e oceanos evapora formando nuvens; assim, a água fica armazenada no estado gasoso na atmosfera. Quando estiverem reunidas as condições atmosféricas de temperatura e pressão verifica-se a precipitação sob a forma de água, neve ou granizo, voltando a água aos rios, lagos e oceanos, completando o ciclo. A água que ficar retida nos solos também é importante para o desenvolvimento das plantas, libertando vapor de água durante a fotossíntese, ou para os animais que também libertam vapor de água na respiração e transpiração. Assim se completa o ciclo (ver imagem abaixo). Como se pode ver, neste processo natural não entram orações, e mesmo se entrassem o resultado seria ineficaz.

Ficheiro:Ciclo da água.jpg
Imagem retirada daqui

2)  Como referido pela RR, segundo o bispo, os agricultores têm mais esperança nos subsídios da União Europeia do que em deus: "(...) a maioria da população não acredita na providência divina, mas somente na previdência de Bruxelas". - Eis o meu comentário: e fazem os agricultores muito bem. Nem quero pensar na desgraça que seria se os agricultores estivessem à espera que deus (qualquer um deles) viesse resolver os problemas; da UE pode não vir chuva, mas podem vir subsídios para alimentar famílias. Ou seja, o comentário do bispo, é de uma enorme irresponsabilidade, caso houvesse alguém que fizesse caso do que diz. No entanto, isto deixa-me cheio de esperança, pois mostra a todos que os portugueses têm espírito crítico, sabem pensar por si, e já não seguem cegamente o clero.

3) Não fosse tudo isto suficiente, o bispo continua a insultar a inteligência dos portugueses e a mostrar a sua crendice e obscurantismo, agora referindo-se a Fátima! Segundo o mesmo, os católicos dão menos atenção à Bíblia e à virgem Maria, pelo que afirma, e cito: “Afinal, as recomendações de Jesus no evangelho e de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima, pedindo oração e sacrifícios pela conversão dos pecadores e pela paz no mundo não encontram eco nos nossos ouvidos”. A isto eu digo: pois não, felizmente não encontram eco nos nossos ouvidos.
Será que o bispo pretende ressuscitar a mentira de Fátima? Será que o bispo espera que os portugueses acreditem que o sol bailou na Cova da Iria (fenómeno impossível de acontecer)? E que acreditem que apareceu por lá a virgem Maria, apesar dos inúmeros relatos que afirmam que não aconteceu nada? Pretende que os pobres dos portugueses continuem a gastar as suas parcas poupanças em peregrinações e no negócio de Fátima, em vez de investirem esse dinheiro nas suas vidas pessoais?
Passemos a voz a quem sabe. Termino com um comentário de um padre português:
 


Fontes:
- Site da RR: "Bispo de Beja lamenta falta de orações por chuva"
Outras leituras:
- Luis Filipe Torgal, "As aparições de Fátima", Temas e Debates
- Tomás da Fonseca, "Na cova dos leões", Antígona  

sábado, 10 de março de 2012

UM OBSERVADOR MAIS QUE ATENTO


Qualquer orgulhoso dono de um cão ou gato dirá que o seu animal de estimação o consegue reconhecer. Esta afirmação não será novidade para o leitor. Na verdade, muitas espécies de animais são capazes de reconhecer pessoas individualmente.

Mas, como é que sabemos isso?
E, mais estranho ainda...e se esse animal for um polvo?

Há muitas histórias anedóticas de tratadores que acham que os polvos nos aquários os reconhecem e discriminam em relação a outras pessoas (por exemplo, aproximando-se do tratador, mesmo que este esteja num grupo). A confirmar-se esta hipótese, isso significaria que o polvo é capaz de executar mais uma complexa tarefa, uma vez que conseguiria discriminar, aprender e recordar!
O polvo tem-se revelado um animal extraordinário em muitos aspetos e muitos estudiosos dos moluscos, e do comportamento animal em geral, não duvidarão desta sua capacidade, já que os consideram um dos animais mais interessantes do planeta. Diz-se até que é o invertebrado mais inteligente que existe, de tal forma que é o único invertebrado que merece estatuto de protecção na lei inglesa que regula o uso de animais em laboratório.


Mas, como sempre acontece em ciência, gostos e impressões pessoais à parte, são necessárias provas claras.


Enteroctopus dofleini
E é aí que entram os protagonistas desta investigação: Roland C.Anderson e Stephanie R. M. Zimsen do Aquário de Seattle (EUA), Jennifer A. Mather da Universidade de Lethbridge (Canadá) e Mathieu Q. Monette da Universidade de Bruxelas (Bélgica).
Usando o polvo-gigante-do-Pacífico Enteroctopus dofleini) testaram se era ou não verdade que os polvos reconhecem e discriminam os seres humanos individualmente.


Para isso, montaram uma experiência curiosa.

Capturaram 8 polvos que colocaram em tanques individuais. Cada polvo recém-capturado era observado duas vezes por dia por dois investigadores diferentes vestidos com roupa igual. Um dos observadores, para além de anotar vários aspectos do comportamento do animal, alimentava-o. O outro, fazia o mesmo tipo de observações mas também "cutucava" o polvo com um pau (algo inofensivo, mas seguramente irritante para o animal). Alguns cuidados extra, mas necessários às conclusões: diferentes polvos eram observados por diferentes pares de observadores, de forma a que os possíveis efeitos observados não fossem devidos àquelas pessoas em particular, e se pudessem extrapolar.

O que os investigadores exploraram foram vários aspetos do comportamento que poderiam ser indicativos de stress, como por exemplo, a existência ou não de uma mancha colorida mais escura na pele à volta do olho (eyebar).

No princípio do estudo, os polvos geralmente fugiam de ambos os investigadores desconhecidos. Mas, à segunda semana de observações, já se notava que os polvos se aproximavam dos investigadores que os alimentavam, não mostrando sinais de stress. Pelo contrário, afastavam-se do outro investigador (o “mau da fita”), mostrando vários sinais de stress, incluindo a eyebar.

Confirmou-se assim que a impressão de muitos tratadores era real e que também os polvos reconhecem pessoas de forma individual, para além de outros feitos fantásticos já demonstrados, como: expressão de personalidade, atividades de jogo, habilidades de aprendizagem e memória a curto e longo prazo, excelente deteção visual e olfativa, mestria na mímica e camuflagem “inventiva”.
 
Aqui ficam alguns vídeos demonstrativos:

- Aprendizagem por observação (a qualidade do vídeo não é muito boa, mas faz parte de um documentário muito interessante acerca dos polvos):



- Fantástica capacidade de mímica na espécie indonésia Thaumoctopus mimicus:





- comportamento sofisticado de uso de ferramentas (cascas de côco) para camuflagem na espécie Amphioctopus marginatus:




Não voltará a olhar o polvo com os mesmos olhos...e ele, como o verá a si?

Foto de Veronica von Allworden que aparece no artigo original.



Artigo: Roland C. Anderson, Jennifer A. Mather, Mathieu Q. Monette & Stephanie R. M. Zimsen (2010): Octopuses (Enteroctopus dofleini) Recognize Individual Humans. Journal of Applied Animal Welfare Science 13: 261-272