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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

In Memoriam: Augusto Monteiro Valente


Partilho um texto de sentida homenagem a Augusto Monteiro valente, da autoria de Carlos Esperança, e que foi proferido hoje, dia 5 de Outubro, junto ao monumento ao 25 de Abril, na Cidade de Coimbra, onde estive presente. 
Fica aqui este texto para lembrarmos que o nosso país ainda tem bons homens de carácter e de valores. Que esta memória ilumine o caminho de cada um de nós.


"Comemorações do 5 de Outubro - Coimbra

Homenagem ao major-general Augusto José Monteiro Valente


Cidadão e Cidadãs

Em nome do Movimento Republicano 5 de Outubro (MR5O) de Coimbra 
e
Em nome da Associação 25 de Abril, por solicitação expressa do seu presidente, Vasco Lourenço, e aqui representada pelos cidadãos Luís Curado e Amadeu Carvalho Homem, respetivamente vice-presidente da Direção e presidente da Assembleia-Geral da Delegação Centro, integrada nas Comemorações do 5 de Outubro, vai prestar-se homenagem

Ao major-general Augusto José Monteiro Valente


Aos 68 anos, ao fim da tarde do dia 3 de setembro, enquanto o país ardia, o general Monteiro Valente deixou-nos. Partiu mais um capitão de Abril, um militar que amou a Pátria e honrou a farda, um cidadão que arriscou a vida para que Portugal tivesse uma democracia.


Fez na Guiné uma comissão onde o PAIGC já dominava o terreno e tinha superioridade militar. Partiu sem três dos quatro alferes, que desertaram antes do embarque. O último desertou depois. Aguentou, com os furriéis e os soldados, o isolamento quebrado pelos reabastecimentos lançados a grande altura de aviões que evitavam o derrube pela artilharia inimiga. Os mantimentos e munições nem sempre acertavam no alvo, que era o aquartelamento. Portou-se com bravura e percebeu aí que aquela guerra injusta já não tinha saída militar. Adquiriu a sua consciência política, com mortos para chorar, feridos para evacuar e vivos para confortar.


Foi dos mais brilhantes militares portugueses e dos mais empenhados no 25 de Abril. Transferido de Lamego, na sequência do 16 de março, com o regime receoso do seu prestígio e determinação, conseguiu sublevar o Regimento da Guarda (RI 12), onde acabara de chegar, prender o comandante, e marchar para Vilar Formoso a desarmar a Pide e controlar a fronteira ao serviço do Movimento das Forças Armadas enquanto, do outro lado, a polícia, nervosa, temia uma última loucura do genocida Francisco Franco a quem tanto agradaria fazer abortar a Revolução Portuguesa que, em breve, exportaria a democracia para lá da fronteira. Fez parte do punhado de heróis que restituíram a Portugal a dignidade e aos portugueses a liberdade.


Nunca mais deixou de estar na trincheira dos que acima da vida puseram a defesa da democracia. Licenciou-se em História, graduou-se em Estudos Europeus, foi o primeiro oficial-general a comandar a Brigada Territorial 5, em Coimbra, e terminou a carreira militar como 2.º Comandante-Geral da GNR em 2003, porque o ministro da Defesa, Paulo Portas, sempre viu nos heróis de Abril os implicados numa sublevação.


Aliou a intervenção cívica permanente ao contínuo aperfeiçoamento do saber, com um extremo respeito pela Constituição e pelo sufrágio popular. Era investigador associado do Centro 25 de Abril e do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra. Foi um excelso militar e um ilustre académico.


Foi membro da Comissão Cívica de Coimbra para as comemorações do Centenário da República e da atual comissão para defesa do feriado da data fundadora do regime. Era o presidente da Delegação Centro da Associação 25 de Abril onde, durante quatro anos tive a honra de ser seu vice-presidente e de conhecer a dimensão ética, a capacidade de trabalho e a qualidade intelectual do amigo de quase quarenta anos.


Desdobrou-se em conferências, artigos, tertúlias e palestras nas escolas onde levou aos alunos os princípios republicanos do amor à Pátria, à liberdade e à democracia. Recusou sempre o título de herói com o mesmo desprendimento com que recusou uma promoção por mérito que o Conselho da Arma lhe atribuiu pela reconhecida competência militar.

Honrou a divisa da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Deu o exemplo e foi militante da trilogia que continua a ser a matriz do regime republicano e o lema democrático. Defendeu a laicidade como imperativo de um Estado moderno e a Igualdade como base da justiça social. Fez tudo o que pôde e o que devia. Foi para nós, membros do MR5O, um exemplo e o motor de um projeto de pedagogia cívica que temos a obrigação de prosseguir.

Monteiro Valente era um homem de uma integridade à prova de bala, com um elevado sentido da honra e do cumprimento do dever, um cidadão exemplar e um democrata.


O seu discurso da tomada de posse como comandante da Brigada de Coimbra foi uma lufada de ar fresco que percorreu a GNR. Alguns oficiais contorciam-se na tribuna e olhavam de soslaio à espera de ver a reprovação das palavras do seu comandante que preferiu advertir os militares em parada de que mais importante do que a ordem, que lhes cabia manter, era o respeito pela Constituição e a defesa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos que ela consagrava. As autoridades locais primaram pela ausência mas, talvez pela primeira vez, em Coimbra, no comando da GNR, sob as estrelas de um oficial general brilhou um cidadão civilista que substituiu a cultura de caserna pela da cidadania.


Teve, como poucos, a noção de que a democracia só é plena em regime republicano, onde há cidadãos e não vassalos, onde se exoneram os poderes hereditários e vitalícios, onde ao alegado direito divino se sobrepõe a legitimidade do sufrágio popular. Por isso, se insurgiu contra a traição de quem rasgou do calendário o feriado comemorativo da data que mudou Portugal e foi a pedra basilar da democracia, ofendendo a cidadania, os heróis da Rotunda e a história, vilania que nem a ditadura ousou.


Partiu destroçado com o rumo dos acontecimentos políticos, de mal com o estado a que o País chegou, revoltado com a deriva ultraliberal, que o amargurava, receoso do futuro da liberdade que ajudou a conquistar.


Portugal e a democracia estão mais pobres. A família e os amigos ficaram destroçados.


Mas o seu exemplo, os seus valores e a sua generosidade ficarão como símbolos. Ele foi o melhor de nós e aquele que a História há de recordar. Quis apenas um ramo de acácia e três cravos vermelhos sobre o caixão, antes de ser cinza, mas nos nossos corações hão de florir sempre os cravos que ele plantou e a República que sonhou.


Viva o 5 de Outubro! Viva o 25 de Abril! Viva Portugal!


(Discurso proferido em Coimbra, às 12H30, junto ao monumento ao 25 de Abril)"

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Exposição "Profissões com História" no Centro Cultural D. Dinis, em Porches

Segue um texto da minha autoria, editado na Gazeta de Lagoa, sobre a exposição "Profissões com História":

"Está patente no Centro Cultural D. Dinis, em Porches, a exposição “Profissões com História”, que teve início a 8 de Novembro e continuará aberta ao público até Fevereiro de 2011. Esta iniciativa de cariz privado, mas com o apoio da Junta de Freguesia que cedeu o espaço, tem como objectivo dar a conhecer o património histórico-cultural da região, assim como sensibilizar para a criação de um Museu Etnográfico no Concelho de Lagoa, como salienta Virgílio Monteiro, organizador do projecto.
Tudo começou com um desafio do presidente da Junta para montar a réplica do interior de uma Escola Primária Centenária no Festival do Caracol, em Porches”, recorda Virgílio. A adesão das pessoas foi imediata ao verem a carteira, o quadro negro de ardósia e os antigos manuais escolares, lembrando os tempos de estudante. O sucesso repetiu-se, pouco depois, na FATACIL, e na FNAC do Centro Comercial da Guia, onde esteve exposta durante trinta e três dias, na abertura do ano escolar.
Agora em exibição encontra-se um espólio mais completo relativo a várias actividades profissionais, dividido em diversas secções – há o lugar dos professores, do sapateiro, do barbeiro, dos vinhos, do barro e da alfaiataria. “Foi essencialmente o entusiasmo das pessoas nas iniciativas anteriores que me motivou a continuar”, explica o organizador.
Também o presidente da Junta de Freguesia está satisfeito com o trabalho demonstrado e felicita a iniciativa. Quanto a um possível Museu localizado em Porches, essa é uma luta da Junta há cerca de vinte anos e que deve continuar a ser incentivada. No entanto, o presidente alerta para a necessidade de se encontrar um local apropriado e haver disponibilidade financeira. Só depois se poderá avançar.
Na primeira semana, o Centro Cultural já recebeu várias dezenas de visitantes, e a expectativa é que venham ainda muitos mais. A exposição está aberta todos os dias das 10h até 12h30, e à tarde com marcação prévia. A entrada é gratuita.

Nota: O Organizador agradece profundamente o apoio do Presidente e dos membros da Junta de Freguesia de Porches, assim como dos populares que têm manifestado o apoio constante a esta iniciativa, contribuindo com sugestões e ainda com objectos que complementam a exposição. A todos um grande bem-haja."

Fonte: Gazeta de Lagoa, Director e Editor: Arthur Ligne, Sexta-feira, 19-11-2010, 22º ano, Nº 1045

sábado, 17 de abril de 2010

Memórias Paroquais de 1758 II

A importância das Memórias Paroquiais de 1758 é assinalável. Trata-se de um documento único que retrata amplamente o País tal como era nos meados do século XVIII. E tal como o deixou o terramoto onde fez estragos. Nem sempre restam documentos tão eloquentes sobre o passado e muitas lacunas têm irremediavelmente permanecido nas narrações históricas. Para se ter uma ideia do valor destes documentos, deixa-se um excerto. São as respostas dadas ao inquérito de que se falou no texto anterior, pela freguesia de S. Tomé de Abação, concelho de Guimarães e distrito de Braga. É também o primeiro do livro que agora se compilou. Acabou de redigir o documento em 22 de Maio de 1758 o Abade de S. Tomé de Abação (Manoel Teixeira Azevedo), assistido pelo Abade do Salvador de Pinheiro (Joze Alvez Tumo de Gouveia) e pelo Abade de Santa Eulália (Domingos Lopes). É mantida a forma da transcrição dos organizadores da obra.


“P.1
1º.Na provincia de Entre-Douro-e-Minho, arcebispado de Braga, Primas das Espanhas, vezita de Montelongo termo e comarca da villa de Guimaraens, fica a freguezia de S. Thome de Abbação.
2º.Hé de el-Rey e prezide nella hum abbade.
3º.Vizinhos, tem setenta e seis; pessoas de comunhão, duzentas; e pessoas de menores, trinta e dois.
4º.Está sitoada nas costas da serra de Santa Catherina; e como fica em hum alto, descobre para a aprte poente oyto legoas, e no espaço destes campos e vales, pondo termo a esta vista o mar. Para a parte do Norte não tem vista senão a ultima altura da serra de Santa Catherina, como também para o Nascente. Para a parte do Sul descobre muytos vales e serras.
5º.Pertence ao termo da villa de Guimaraens e à sua comarca.
6º.A parochia não tem logar vezinho senão as cazas da rezidencia do reverndo abbade que estam mistas à mesma igreja e sam as milhores que hão na freguezia, ficando-lhe de fortes as hortas e pumar e varios prados. (...) A igreja na sua arquitectura hé das milhores que tem toda esta redondeza; está feita ao moderno com dois campanarios rematados com três pirâmides de pedra; e na do meyo huma crus de ferro com sua bandeyra que mostra as variedades dos tempos. (...) No frontespicio tem hum nixo de nove palmos com huma imagem de Nossa Senhora com o titolo das Necessidades com sua vidraça por diante. (...)

Alde[i]as
13º.Tem esta freguezia no seu destricto quarenta logares, digo quarenta e quatro. (...)
15º.Os frutos destas terras são: pão do milho, milho branco pahinço e senteyo e algum trigo, castanhas e frutas de toda a casta. A mayor abundancia hé de milhão, senteyo, feyjão e pahinço.
16º.Não tem juis ordinario. São o[s] seculares governados pela Justiça de Guimaraens, os ecleziasticos pella cidade de Braga.
(...)
19º.Não tem feyra.
P.4
20º.Não tem correyo mas sim se servem com o de Guimaraens, em que dista pouco menos de huma legoa, o qual parte à Sexta-feira e chega ao Domingo.
21º.Dista esta freguezia da cidade de Braga três legoas e meya, de Guimaraens pouco menos de huma; da de Lisboa sesentta.
(...)

Nesta forma tenho dado complemento à ordem do senhor Doutor Provizor da cidade de Braga, com os reverendos parochos vezinhos na forma mandada, e asiney com elles dittos abayxo.

Hoje, 22 de Mayo de 1758 annos

as)Manoel Teixeira Azevedo, abbade de S. Thome de Abbação
as)Joze Alves Tumo Gouveia, abbade do Salvador de Pinheiro
as)Domingos Lopes, abbade de Santa Eulallia de Pentieyros”[1]
Notas:
[1] Memórias Paroquiais, introdução, transcrição e índices de João Cosme e José Varandas, vol. I [Abação-Alcaria], Casal de Cambra, Centro de História da Universidade de Lisboa – Caleidoscópio, 2009, pp.3-8.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Memórias Paroquais de 1758

Foi publicado em Junho de 2009 o primeiro volume das Memórias Paroquiais de 1758. A obra sairá em vários volumes e conterá as respostas ao questionário enviado às várias autoridades do Reino por ordem alfabética, como um dicionário de freguesias. A obra em questão é muito conhecida, apesar de nunca ter sido publicada na íntegra. Explicaremos, porém, sinteticamente, em que consiste. Em primeiro lugar, o seu mais célebre inspirador foi o Padre Luís Cardoso (?-1769), membro da Congregação do Oratório e académico da Academia Real da História. Este eclesiástico publicou em 1747 e 1752 dois volumes de uma obra que se chamava Dicionário Geográfico ou notícia histórica de todas as cidades, vilas, lugares e aldeias, rios, ribeiras e serras dos reinos de Portugal e Algarve. Organizada como um dicionário, já incluía as letras A a C. É possível que, sendo o Padre Luís Cardoso um membro da referida Academia, o seu labor estivesse relacionado com certos cuidados que D. João V andava dedicando, por um lado, às antiguidades de Portugal, por outro, ao reforço do seu poder – concretizado num aprofundamento do “absolutismo régio”. Expliquemos porquê. A Academia Real da História foi criada por decreto régio datado de 8 de Dezembro de 1720. No ano seguinte, o alvará de 14 de Agosto de 1721 ordenava às câmaras e vilas do Reino que conservassem todos os documentos antigos que tivessem. Do ponto de vista histórico-patrimonial, o Rei guardava a memória dos sucessos do Reino, particularmente inspirados pelos governos dos monarcas que o haviam precedido.[1] Por outro lado, do ponto de vista político-administrativo, D. João V, “como qualquer soberano absoluto, deveria conhecer em profundidade o espaço sob a sua jurisdição.”[2] Neste sentido, ordenou que se compusesse a obra chamada Lusitânia Sacra, com notícias eclesiásticas, mas também seculares, a nível nacional. A Academia dirigiu inquéritos às autoridades religiosas e civis, para juntar as informações desta obra. A maior parte do Reino não terá respondido.[3] O governo enviou outro inquérito em 1732 às autoridades religiosas.[4] O encarregado de transformar esse material em obra consultável e útil seria o Padre Luís Cardoso e deste inquérito teriam resultado os dois volumes publicados em 1747 e 1752. Sabe-se que, nas vésperas do terramoto, o Padre Cardoso tinha já material manuscrito necessário à publicação dos outros volumes do Dicionário Geográfico. No entanto, esses manuscritos perderam-se na altura da catástrofe de 1755. É por isso necessário ter cuidado com a afirmação, um tanto comum, de que os dois volumes do Dicionário Geográfico que se publicaram deixaram na sombra, ou seja, em arquivo, os manuscritos que lhe faltam: nesta suposição, e talvez seguindo o Dicionário Bibliográfico de Inocêncio (possivelmente, o primeiro a equivocar-se)[5], erram quer a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira[6], quer o Dicionário de História de Portugal, ao afirmar que a parte por publicar ficara na Torre do Tombo[7]. Na verdade, por imprimir existe neste arquivo apenas o material relativo ao inquérito de 1758, que é posterior. Em todo o caso, após o desaparecimento destes documentos, era necessário recomeçar, recompilar as informações perdidas. No entanto, os estragos do terramoto haviam mudado o País. Recomeçar significava conhecer Portugal, mas saber também que danos e necessidades havia nas várias regiões do Reino.[8] Foi então elaborado um inquérito sistemático, que pretendia informar-se sobre “temas muito díspares, como por exemplo, meio natural, quadro político-administrativo, população, vida económica e instituições religiosas. Este questionário é constituído por três subgrupos de questões. O primeiro contém 27 questões de ordem genérica; o segundo é composto por 13 perguntas sobre as serras, e o terceiro inclui 20 sobre os rios. Desde logo é perceptível que este questionário é diferente dos anteriores. Não só contém mais items, mas também é mais abrangente no plano temático. (...) O espaço já é entendido como um elemento de poder, enquanto nos inquéritos anteriores se sobrevalorizam elementos de natureza e conexão religiosa.”[9] É este inquérito que dá origem às Memórias Paroquiais de 1758. É sintomático notar que todos estes inquéritos, através da pessoa do Padre Cardoso, nunca saíram do âmbito da Academia Real da História. Foi ele, de resto, que foi organizando as respostas que ia recebendo. O Padre acabaria por falecer em 1769 e a obra nunca foi publicada integralmente. No entanto, alguns excertos com interesse e objectivos de âmbito regional têm sido publicados, como, por exemplo, os referentes às freguesias de Lisboa (1974), de Barcelos (1998) e de Fafe (2001). Com esta obra se procura agora publicar na íntegra as notícias que o Padre Luís Cardoso recebeu das várias freguesias do Reino há 252 anos e que já não pôde deixar impressas.




Notas:
[1] Neste sentido, Luís Reis Torgal, José Amado Mendes, Fernando Catroga, História da História em Portugal – séculos XIX – XX, Temas e Debates, 1998, p.25.
[2] Memórias Paroquiais, introdução, transcrição e índices de João Cosme e José Varandas, vol. I [Abação-Alcaria], Casal de Cambra, Centro de História da Universidade de Lisboa – Caleidoscópio, 2009, p.IX.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem, pp.III-V.
[6] V. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.5, Lisboa – Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, s.d., p.908, s.v. “Cardoso (Padre Luiz)”.
[7] Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão, vol.I: Abadagio -Castanheira, Porto, Livraria Figueirinhas, 1984, p.485, s.v. “Cardoso, P. Luís (?-1769)”.
[8] Memórias Paroquiais, vol. I [Abação-Alcaria], p.X; Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, vol.VI: O Despotismo Iluminado (1750-1807), 5ªedição, Póvoa de Varzim, Editorial Verbo, 1996, p.104.
[9] Memórias Paroquiais, vol. I [Abação-Alcaria], p.XI.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Arquivo Municipal

Foi no dia 28 de Maio que se realizou a inauguração do Arquivo Municipal de Loures, com o objectivo de albergar toda a memória colectiva deste concelho, de modo a dar a conhecer a história local. Nas palavras do Presidente da Câmara Carlos Teixeira, “O Concelho de Loures tem um passado rico em acontecimentos históricos, que queremos preservar, divulgar e homenagear”[1]. Entre outros, pode encontrar documentos sobre associações e famílias, e, a título de curiosidade, o documento mais antigo pertence ao século XVI.
Este novo edifício que possui magníficas instalações de cinco pisos com capacidade para perto de 16 Km lineares de arquivos, com sala de leitura, gabinetes técnicos e sem esquecer o estacionamento subterrâneo, está preparado para ser visitado por historiadores, ou meros curiosos sobre a história do Município. Situado junto à Biblioteca Municipal José Saramago, está aberta ao público de segunda a sexta-feira, das 9horas às 17horas.

[1] “Loures Municipal”, Nº40, p.3

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Alte

Há uns meses atrás, estando eu no Algarve com a família, ficou estabelecido que iríamos dar um passeio. O destino da viagem acabou por ser Alte, local que fui visitar pela segunda vez, e em boa hora, pois trouxe comigo informação para partilhar neste nosso cantinho cultural, que é o armarium libri.

Alte no passado
“Alte – Freguesia, Algarve, comarca, concelho, e 18 km de Loulé, 50 de Faro, 215 ao S. de Lisboa, 800 fogos.
(...) Situado em um profundo vale, entre quatro serros, que apenas lhe deixam descobrir uma pequena nesga do mar, junto a Albufeira, e nas margens da ribeira do seu nome, que corre arrebatada por entre broncas penedias. Esta ribeira tem a sua origem em duas grandes nascentes de água, que ficam a N. E. da aldeia, a uns 250 metros de distância dela, e coisa de 40 distantes uma da outra nascente.
Rega muitas várzeas de milho, pomares e hortas, e laranjais de óptima laranja, que exporta. Desagua no mar.
Igreja boa, de três naves.
A ocupação principal da gente desta freguesia é a lavoura, fazer redes, baraços e outras obras de esparto, as quais vão vender por todo o Algarve. O esparto [as pessoas] vão comprá-lo a Faro, e é por esta cidade que Alte faz toda a sua exportação.
(...) Do serro chamado Rocha dos Surdos, 1 Km ao N. da aldeia, se avista até à cidade de Lagos, a 50Km. Serve de guia aos navegantes.
(...) Há aqui várias matas de zambujeiros e carrasqueiros, e muitos medronheiros, de cujo fruto fazem aguardente.
A serra nesta freguesia toma os nomes de S. Barnabé e Malhão, que são braços da Serra do Algarve.
(...) Na serra há muita caça grossa (lobos, javalis, veados) e miúda.”[1]

No presente
“A Freguesia de Alte (...) estende-se por terras serranas e do barrocal, com a Serra do Caldeirão a erguer a norte. A Rocha dos Soidos, com 482 metros de altitude, é a zona mais elevada da freguesia, tendo outrora servido de referência aos navegantes.”[2]
A aldeia de Alte, já foi considerada a mais típica de Portugal, e é aí que se encontra a Igreja Matriz, provavelmente edificada no século XVI, continuando a ser a mais antiga referência histórica de Alte.












A freguesia de Alte é visitada anualmente por muitos milhares de turistas que, após um delicioso almoço, procuram adquirir “o artesanato tradicional da terra, os doces regionais, os brinquedos de madeira, a olaria e os trabalhos de esparto.”[3]
Quem passear pelos agradáveis jardins de Alte, poderá desfrutar das belas serras envolventes que compõem a paisagem, da refrescante ribeira junto da qual se observam várias espécies de aves, de um parque ideal para merendar em grupo, e de vários poemas da autoria de Cândido Guerreiro (1871-1953), gravados em placas de azulejo espalhadas pelo local. É, portanto, um passeio não apenas lúdico, como também cultural.

Quem foi, então, este Cândido Guerreiro autor daqueles poemas? De nome completo Francisco Xavier Cândido Guerreiro, nasce em Alte em 1871 e morre em Lisboa em 1953. Frequenta o Liceu e o Seminário em Faro, e com 31 anos dirige-se a Coimbra com o intuito de estudar Direito, tornando-se, assim, o primeiro altense com curso universitário. Entre os vários cargos que deteve, é de salientar a sua actividade enquanto presidente da Câmara municipal, tendo a vila de Loulé conhecido grande progresso durante o seu mandato. Desde cedo revela interesse pela poesia, área em que aborda diferentes temas, “filosóficos, eróticos, lendários, históricos e bíblicos”[4]. Na poesia demonstra o carinho que possui pela terra onde nasceu. Muitos dos seus versos encontram-se traduzidos em diferentes línguas e recolhidos em várias antologias.
Este é um interessante caso em que conheci Cândido Guerreiro após ir a Alte, e um modo de conhecer melhor Alte será lendo a obra do poeta.


[1] Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno – Diccionario geographico, estatistico, chorographico, heraldico, archeologico, historico, biographico e etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal (...), Vol. I, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, Lisboa, 1873, pp. 164-165 – traduzido para português actual.

[2] Site da Câmara municipal de Loulé: http://www.cm-loule.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=125&Itemid=177

[3] Idem

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

História Regional de Portugal III - A Vida quotidiana na Ericeira de 26 de Setembro de 1909 a 31 de Agosto de 1916 (2ª parte)

Em 1898, a Mala da Europa levava até um subtítulo indentificativo da sua missão: "Semanário ilustrado destinado ao Brasil e colónias portuguesas" (idem, p.12). O seu objectivo, ao lado da qualidade dos textos e das imagens, terá concorrido para o seu sucesso. É preciso lembrar que não havia meios de comunicação como actualmente, pois nem o telefone era ainda comummente usado nas casas; por isso, a imprensa era um veículo privilegiado de notícias e meio de contactos à distância. No periódico chegaram a colaborar Lopes de Mendonça, Manuel Arriaga, Teófilo Braga, Ana de Castro Osório, Tomás Ribeiro, entre outros. Um desses outros colaboradores, conhecido sobretudo na sua terra natal, era Jaime Lobo e Silva, o correspondente da Ericeira para a Mala da Europa. As notícias das províncias portuguesas eram breves anotações dos acontecimentos actuais mais importantes, por onde se podia ver um vivo retrato do quotidiano. Nas notícias redigidas por Lobo e Silva há festas religiosas, corridas de touros, bailes, inaugurações de obras públicas, etc. A Mar de Letras Editora publicou em 1998 uma recolha da sua colaboração para a Mala da Europa, que é mais um contributo para a compreensão da vida regional no passado português. "A Vida Quotidiana na Ericeira nos Começos da I República", que inclui textos introdutórios sobre o periódico e o ericeirense, reúne as breves notícias da vila desde a edição de 26 de Setembro de 1909 até à de 31 de Outubro de 1916. Jaime d'Oliveira Lobo e Silva (09/11/1875 - 11/09/1943), natural da Ericeira, foi militar de 1895 a 1907, colaborou na Mala da Europa de 1909 a 1916, foi escriturário da Escola Académica de Lisboa de 1917 a 1922, em 1923 está na Santa Casa da Misericórdia da Ericeira, onde fica até à morte, e ainda ajudou a organizar o arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, nos anos '30. Dele disse Horácio Gorjão, um amigo, na edição d' O Concelho de Mafra, de Dezembro de 1956: "Vejo-o no seu escritório da Misericórdia da Ericeira, junto ao velho relógio inglês de pêndulos, rodeado de livros tocados pelos anos, ante o cinzeiro pejado de intermináveis pontas de cigarros. Oiço-o falar com aqueles que, na grandeza ou na miséria da vida, iam insensivelmente perpassando naquele ambiente calmo, como se o tempo houvesse ali parado (...). (...) E cá fora, ele era o Mestre Jaime, da Ericeira burocrática, o homem que registava as crianças e as vacinava, o procurador, o turismo, o cicerone, o homem que tudo resolvia e tudo simbolizava e naquela modesta banca da Santa Casa da Misericórdia insensivelmente fizera o centro da vida relativa e oficial. Mas tudo isto se escondia atrás de uma modestia teimosa, tão sincera que ao ouvi-lo falar-me da sua mocidade, dos seus amores, das coisas que gostava, daquilo que simplesmente o fazia feliz, com tão pouco e com tão grande contentamento, eu me sentia pequeno na vanglória quotidiana." (A Vida Quotidiana na Ericeira, p.19).

Excertos:

"Ericeira, 19 de Setembro [de 1909 e para a edição de 26 desse mês]
O Sr. António da Costa Gaspar está tratando com a companhia dos telefones para ver onde se pode organizar a ligação daqui com a rede geral de Lisboa. Oxalá se consiga tal melhoramento, de grande alcance para esta localidade. (p.29)
(...)

Ericeira, 1 de Novembro [de 1911 e para edição de 5 desse mês]
Realiza-se hoje, Dia de Todos os Santos a feira anual do Livramento (Azueira), partindo para ali, de passeio, algumas famílias desta vila.
Vai partir para Maceió (Brasil) o reverendo padre Sangreman Henriques, pároco nas Caldas da Rainha, e que há anos paroquiou tão bem a vizinha freguesia de Santo Isidoro.
Terminaram ontem na Igreja Paroquial desta vila as solenidades do Terço do Rosário que durante todo o mês ali se realizaram, sendo a parte musical desempenhada por um grupo de meninas da colónia balnear e desta vila, coadjuvadas por uma distinta organista.
Também ali se realizou, no dia 29 último, a Festa do Sagrado Coração de Jesus, havendo missa solene de Exposição, sermão e de tarde Te Deum.
Já regressou do Gerês o nosso amigo Henrique Franco Dias, que nos diz achar-se quase restabelecido. Hoje foi ele de automóvel do também nosso amigo José António Lopes, de passeio à Feira do Livramento, aproveitando a ocasião para ali comprar algumas juntas de bois, que tencionam remeter para a importante roça que o Sr. Lopes possui em S. Tomé; vai agora administar aquela roça o Sr. Barata, um encarregado que merece ao Sr. Lopes toda a confiança e simpatia. (p.84)

Ericeira, 3 de Setembro [de 1913 e para edição de 7 desse mês]
Realizou-se no dia 31 último a anunciada corrida na praça desta vila. O gado cumpriu e os amadores houveram-se relativamente bem, estando a praça à cunha. A corrida foi dirigida pelo nosso amigo José Fino, que mostrou bem a sua competência para tal cargo. (...) No próximo dia 14 deve realizar-se uma outra corrida, mas esta promovida por um grupo de toureiros profissionais de Lisboa. Espera-se também grande concorrência.
No dia 1 do corrente realizou-se a abertura da época da caça neste concelho. Organizaram-se vários grupos de caçadores desta vila, sendo abatido grande número de peças de caça. À noite alguns desses grupos reuniram-se em casa do nosso amigo Jaime Espáris Neves, onde este amador da arte venatória lhes forneceu um abundante jantar (...)." (p.123)

Fontes:
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, vol.9, pp.931-933 e vol.15, p.982;
  • Nova Enciclopédia Larousse, Círculo de Leitores, vol.9, p.2638;
  • Guia de Portugal - Lisboa e Arredores, Fundação Calouste Gulbenkian, pp.569-572;
  • A Vida Quotidiana na Ericeira nos Começos da I República - vista através da correspondência de Jaime Lobo e Silva para a "Mala da Europa", Mar de Letras, col. Lugares de Memória, 1998.
Nota: A imagem reproduzida acima vem da capa d' A Vida Quotidiana na Ericeira e é uma montagem de esboços de Joaquim Marrão com um quadro a óleo (representando Lobo e Silva) do Dr. António Bento Franco, do Arquivo Museu da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

História Regional de Portugal III - A vida quotidiana na Ericeira de 26 de Setembro de 1909 a 31 de Agosto de 1916

A Ericeira é uma vila marítima portuguesa pertencente ao concelho de Mafra e ao distrito de Lisboa. Tem praia, aliás muito conhecida, um pequeno porto de pesca, uma nascente de água mineral e alguns monumentos que, à semelhança de outros no nosso País, nos recorda a beleza do nosso passado - por exemplo, um pelourinho manuelino, a Igreja de S. Pedro - restaurada no tempo do Magnânimo -, um cruzeiro de 1782, a ermida de Santo António - com azulejos de 1789 representando este Santo e também a Nossa Senhora da Boa Viagem -, e um forte do tempo de D. Pedro II. Regista ainda a memória dessa terra alguns acontecimentos importantes como o embarque da família real para o exílio, após a revolução de Outubro de 1910 - que celebra um século no ano que vem -, o estabelecimento da corte de um D. Sebastião regressado, cujo verdadeiro nome era Mateus Álvares, morto no cadafalso em 1584, e o desembarque do Prior do Crato que vinha derrubar Filipe de Espanha. A vila, que em 1991 contava cerca de 4500 habitantes (N.E.L., v.9, p.2638), é muito antiga - data de 1129 um foral dado por D. Frei Fernando Rodrigues Monteiro, grão-mestre da ordem de Avis, depois confirmado por D. Dinis e renovado por D. Afonso IV e D. Manuel. Dela diz a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (c. 1940), v.9, p.932: "A Ericeira é uma praia fartamente concorrida no verão. A pov. fica apinhada no alto de uma arriba, num emaranhado de pequenas ruas, em volta de uma praça (Jôgo de Bola). Sobre o Oceano levantam-se alguns terraços. As praias de banhos são duas, a do Norte a do Sul, abrino-se entre elas o portinho da Ribeira, com os cais em declive, onde varam as embarcações pesqueiras. Sobranceiro à praia há um forte, que foi edificado por D. Pedro II. Na costa, entre os rochedos, há curiosas furnas, produzidas pelos desabamentos da costa e a erosão marítima." Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895) dedicou a esta terra um romance: Tristezas à Beira-Mar, 1866 e Raul Brandão faz-lhe uma descrição como colaborador do Guia de Portugal (1ºvol., 1924, pp.570-571, cujo animador principal era Raul Proença (1884-1941), director e coordenador). Arreliado, o poeta satírico Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811), desabafava: "Contra o mal que me têm feito/Raivosos caniculares/Me oferece a fresca Ericeira/Seus claros, sadios mares. (v. o mesmo Guia, p.569)". Apresentada ou recordada que está a vila da Ericeira, permitimo-nos avançar para o assunto principal. Uma das mais importantes fontes para o estudo das terras, e especialmente para quem se debruce sobre as mal-estudadas e pertinentes matérias da História Regional, é a imprensa. Divulgando acontecimentos nos vários locais do Mundo, quer fossem novas descobertas científicas, quer fossem novidades na Arte ou outras, ficaram-nos como o espírito das épocas passadas, reflexo das preocupações e sensibilidades dos nossos maiores, tal como nós nos nossos jornais e revistas estamos deixando as nossas. Neste contexto, o jornal semanário "Mala da Europa", fundado em Agosto de 1894, "com edição para o Brasil e possessões portuguesas" (G.E.P.B., vol. 15, p.982), tinha a função de dar a conhecer aos portugueses espalhados pelo Mundo notícias sobre os seus compatriotas. "A intenção era, agora, a de estreitar relações entre «Portugueses de todos os continentes». Mantinha-se, contudo, o essencial da anterior atitude perante a vida política: liberal, patriótica, independente e suprapartidária. (...) Desde o primeiro número, uma secção local referente à metrópole, com subtítulos de cidades e vilas portuguesas, e uma outra "Através da Europa", ocupavam lugar destacado em termos de espaço (...). À partida, a intencionalidade informativa (e não tanto interpretativa) era dominante: tratava-se de dar a conhecer aos Portugueses espalhados pelo mundo notícias dos seus compatriotas que viviam noutros lugares - com destaque, naturalmente, para os do Portugal metropolitano -, dos seus conterrâneos cujo contacto se perdera na distância. O estreitar de laços entre as comunidades portuguesas era conseguido pela fixação e difusão de fragmentos de memória local e regional, memória imediata dos homens , de pequenos eventos da vida quotidiana, de afectos - a alimentar a saudade da terra natal." (A Vida Quotidiana na Ericeira, pp.10-11). (Continua...)

Fontes:
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, vol.9, pp.931-933 e vol.15, p.982;
  • Nova Enciclopédia Larousse, Círculo de Leitores, vol.9, p.2638;
  • Guia de Portugal - Lisboa e Arredores, Fundação Calouste Gulbenkian, pp.569-572;
  • A Vida Quotidiana na Ericeira nos Começos da I República - vista através da correspondência de Jaime Lobo e Silva para a "Mala da Europa", Mar de Letras, col. Lugares de Memória, 1998.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Conhecendo Portugal - Sítio das Fontes II

Eis mais algumas fotografias do local. Agora é possível observar a bela paisagem junto ao rio.
Quando lá voltar (porque quero mesmo lá voltar), tenho de levar o meu guia de identificação de aves. Este é realmente um hotspot para amantes de aves realizarem birdwatching. Aliás, na primeira fotografia observa-se um bando de aves repousando nas calmas águas do rio.
Esta é uma sugestão de visita para estas férias, quem sabe. Vão acompanhados com amigos, com os namorados, com a família ou mesmo sozinhos. Levem o farnel e deliciem-se nas sombras do Parque das Merendas. Levem o fato de banho e ainda podem refrescar-se nas tranquilas águas envolventes da paisagem. Vão ver que vale a pena.









Conhecendo Portugal - Sítio das Fontes I

É verdade que em termos de área, o nosso país é pequeno. No entanto, não é menos verdade, que apesar do seu tamanho existem locais pouco conhecidos, locais esses merecedores da nossa atenção e da nossa visita, nem que seja apenas uma vez na nossa vida. Alguns desses locais podem acabar por revelar-se autênticos paraísos.

Pretendo deste modo dar a conhecer alguns desses locais, que não nos enriqueçam somente na perspectiva do lazer, mas também com o intuito de dar a conhecer a geografia, a fauna, a flora e a história desses recantos.
O leitor mais atento pode constatar que nas etiquetas deste post encontra-se a etiqueta "História Regional".
Isto tem uma razão de ser. Para além de ocasionalmente fazer menção à história do local, também colocarei fotografias. E, citando um documentário exibido hoje no canal História: "Fotografia é História" (1). Neste caso é a História da região visitada, portanto, História Regional.

Após esta breve nota introdutória, passo a revelar o local escolhido: O sítio das Fontes.

"O Sitio das Fontes localiza-se ao longo das margens de um esteiro da margem esquerda do rio Arade, perto da Vila de Estômbar, do concelho de Lagoa.
Podemos aqui encontrar uma grande diversidade de ambientes representativos da paisagem mediterrânica - o sapal, o paúl, o matagal, uma pequena lagoa temporária, zonas agrícolas abandonadas e os planos e linhas de água.
É importante do ponto de vista histórico-cultural porque ali se encontram vestígios de actividades humanas que datam de tempos remotos. Os dois moinhos de água são testemunhos mais eloquentes dessa actividade humana. A antiguidade de pelo menos um deles está documentada no "Livro do Almoxarifado de Silves" do século XV." (2)








Nestas fotografias podemos ver o Parque das Merendas, uma imagem do riacho, o moinho de água (em tempos idos, moinhos deste tipo foram muito importantes para a economia local) e o anfiteatro ao ar livre.

(1) Esta afirmação surgiu no contexto de que se não tivessem sido tiradas fotografias em determinadas alturas de acontecimentos como testes nucleares, bombas dissimuladas durante as guerras em objectos do quotidiano, ou o processo de demolição das torres gémeas após o atentado do 9/11, poderia não haver qualquer outro tipo de registo destes acontecimentos, logo, nada que comprovasse que estes acontecimentos realmente ocorreram. Assim, as fotos funcionam como fontes para futuros jornalistas, historiadores, ou outros profissionais interessados. Daí a afirmação "Fotografia é História".

(2) Retirado de "http://municipiodelagoa.net/website/?Concelho:Ambiente:S%EDtio_das_Fontes"

domingo, 13 de abril de 2008

História Regional de Portugal - os protagonistas menos visíveis II

No seguimento das considerações anteriores sobre os protagonistas da História Regional, vem a propósito falar de alguns portugueses da Bairrada. "A divisão administrativa que modernamente recebeu o nome de Beira Litoral, proposto já no século passado por Barros Gomes, inclui nas suas sub-regiões uma zona interior, fertilíssima, de pequeno relevo orográfico, limitada a Leste pelo Buçaco; constituem-na, essencialmente, os concelhos de Oliveira do Bairro, Anadia e Mealhada, mas ocupa ainda um pouco dos concelhos de Águeda e de Cantanhede, e uma pequena parcela do concelho de Coimbra, ao Norte, até a povoação de Souselas: a Bairrada." (1) No início do século XX, a Bairrada era uma zona de indústria cerâmica, já que era favorecida pela constituição argilosa do solo; aí se produziam igualmente bons vinhos, fortes, maduros, encorpados, taninosos, que eram exportados com sucesso para África e para o Brasil; nesse tempo, a abundância de pinheiros oferecia matéria-prima ao trabalho de algumas serrações e a oliveira inseria no mercado notáveis azeites. Isto, brevemente, quanto à caracterização física da região. (2) Quanto à sua riqueza humana, a Bairrada foi o local de nascimento e de trabalho de várias gerações de figuras notáveis. Lembremos, por exemplo, o poeta arcádico Francisco Joaquim Bingre (1763-1856), que viajou pela Bairrada, tendo morado em Ílhavo em 1801; o poeta António Feliciano de Castilho (1800-1875), que viveu em Águeda de 1826 a 1834 e escreveu influenciado pelo ambiente bairradino; António de Lima Fragoso (1897-1918), compositor, nascido em Cantanhede, notavelmente dotado, sem, porém, ter tido tempo de amadurecer a sua arte; Tomás da Fonseca (1877-1968), escritor republicano, que percorreu a Bairrada e divulgou um outro artista - o poeta popular Manuel Alves (1843-1901), de Anadia, cujos Versos dum Cavador fez publicar; a escritora e professora Ercília Pinto (1914-1980), que publicou poesia, crónicas, teatro, ensaios. Finalmente, relembramos o Padre Acúrsio Correia da Silva (1889-1925), um homem de ampla cultura, que organizou a Plêiade Bairradina (1918), um grupo cultural que colaborava no semanário Gente Nova e cujas obras literárias pessoais, ao que parece, estão infelizmente perdidas. Muitos mais haveria a recordar, mas receamos não ser aqui o espaço próprio para esse trabalho. Sobre estas e outras figuras da Bairrada, que enriqueceram o património humano da sua terra e de Portugal, existe uma obra recente: Figuras das Letras e Artes na Bairrada, Arsénio Mota, 2001. A ler e a aprofundar, a bem da nossa História.


(1) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.4, p.17.
(2) Para estas referências, idem, pp.17-18.

sábado, 12 de abril de 2008

História Regional de Portugal - Os protagonistas menos visíveis I

Se a História é o relato fundamentado em provas ou indícios convincentes do passado, é também certo que os factos não ocorrem sem uma origem: pode ser, por exemplo, uma tempestade, gerada pela Natureza, mas pode também ser um facto humano, que só tem lugar porque um Homem agiu de certo modo. À História têm interessado essencialmente os factos humanos. Em Portugal são publicadas todos os anos várias obras que divulgam factos novos ou que colocam outros pontos de vista sobre os mesmos problemas. Porém, a História Regional continua, em geral, mal conhecida. Pode dizer-se que Afonso Costa (1871-1937), político, foi um republicano que influenciou o País em geral, mas o que fazer à memória de homens como António Pinto Rodrigues (1864-1934), de origens alentejanas, oficial do Exército, republicano e Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Portalegre em 1911? (1) É óbvio que um homem que ocupava cargos tão relevantes influenciava a sociedade do seu tempo e, portanto, merece tanto uma referência como Afonso Costa. Ficarmo-nos pelo dito "essencial" da História, pelo elementar, é esquecer que a Memória é a lembrança que devemos não a um grupo restrito de indivíduos, mas a uma sociedade inteira de pessoas que, nas suas vidas, fizeram do nosso País o que ele foi. Além disso, a História de Portugal será sempre desconhecida e incompleta, enquanto não se reunirem todos os factos e protagonistas que em todos os tempos e lugares fizeram este País Total. Neste sentido, é inútil discutir se Afonso Costa foi mais ou menos importante do que António Pinto Rodrigues, pois ambos fizeram parte do mesmo todo e dele são igualmente inseparáveis. Assim, o Armarium Libri pensa que é um serviço que prestam à nossa História aqueles que se têm dedicado à memória das regiões. Porque em História não há personagens principais e secundárias, mas uma comunidade em que uns, por força das circunstâncias, ficaram, para a memória futura, menos visíveis que outros.


(1) António Ventura, A Maçonaria no Distrito de Portalegre, Caleidoscópio, 2007, pp. 142-143