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terça-feira, 25 de junho de 2013

Infusão de Ciência




Informação recebida do Jardim Botânico de Coimbra:

Sabia que as plantas têm uma vida íntima e sexual ativa? Mas como o fazem se não podem sair do mesmo local e procurar um “namorado/a”? A Infusão de Ciência propõe uma viagem para dar conhecer a diversidade fabulosa das plantas e as suas estratégias de reprodução. 
Para mais informações consulte o site do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (JBUC) em www.uc.pt/jardimbotanico 

Investigadores: Sílvia Castro, Ruben Torices e João Loureiro
Data: 26 de junho de 2013
Hora: 18h00
Local: Portão do JBUC junto aos Arcos do Jardim

Mais informações aqui

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Campanha do Priolo


Está a decorrer uma campanha de CrowdFunding, para a preservação do Priolo, organizada pela SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

O Priolo é uma ave em risco, nos Açores. Nos últimos anos a SPEA tem desenvolvido diversas campanhas de conservação desta espécie, e os resultados têm sido extremamente positivos, graças à colaboração de todos os envolvidos: técnicos, biólogos, voluntários, instituições locais, entre outros. 
Os resultados deste trabalho beneficiaram não só a espécie, mas toda a ecologia local, e a floresta laurisilva em particular. Também nós podemos usufruir deste trabalho através do ecoturismo. Lembro-me deste trabalho ter sido bastante elogiado quando trabalhei na Universidade de Coimbra. 

No entanto, há mais para fazer, e a SPEA e o Priolo precisam da nossa ajuda. Se puderem, contribuam para esta campanha de crowdfunding. Agradecia-se ajuda na divulgação.

Mais informações em baixo:


Campanha de crowdfunding
O priolo está a sensibilizar as pessoas, tendo a campanha já ultrapassado os $5000 de contribuições (cerca de 4000 Eur.) na sua primeira semana. Contudo, este valor ainda está longe dos $28000 estabelecidos como objectivo necessário para garantir a continuação deste projeto a curto prazo, mas é sem dúvida um arranque interessante e um sinal de esperança, demonstrando interesse da sociedade por um projeto de referência na conservação da natureza na Europa.



Fotografia retirada do site da SPEA 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Figura Gigante e reflexão sobre o valor do Homem

O livro Figura Gigante, de Nico Orengo (Lisboa, Quetzal Editores, 1987) conta a história dos dois irmãos italianos Ugo (1876-1916) e Antonio Battista (f.1914), que no início do século XX fizeram as delícias dos públicos ignorantes, irracionais e curiosos e a fortuna dos oportunistas que souberam explorar o seu valor financeiro. De facto, tiveram a desdita de nascer gigantes; e numa época em que a diferença parecia ser ou degeneração ou espectáculo. Ugo Battista, descoberto por um empresário, exibia o seu gigantismo, por vezes acompanhado de anões, fazendo sucesso em Paris. "...o empresário era um comerciante de cerveja antes de ser um empresário de atracções. Até àquele momento tivera um chimpanzé, um anão e um malabarista. O chimpanzé morrera de febre em Cannes, o anão fugira com um Lorde inglês, o malabarista, por amor, começara a beber vinho e já não conseguia apanhar um único anel. O empresário vira o seu sonho ruir diante das fraquezas humanas." (p.17) No entanto, apareceram-lhe os dois rapazes, como por milagre. Ugo Battista não tardou a envolver um irmão, também gigante (Antonio), nesse modo de vida. Ugo ainda conseguirá trabalhar em Nova Iorque, mas o irmão morre-lhe em 1914. Para trás ficava a terra de que sempre terá saudades - Vinadio. O público atraído pela invulgar estatura de Ugo, acorre a vê-lo. É uma figura fascinante, cuja morte, com uma persistente frieza, alguns cirurgiões - mais ou menos autorizados a sê-lo - vão aguardando para se poderem apoderar do cadáver e dos seus segredos. O gigantismo de Battista e de seu irmão, naturalmente encarado na terra em que nasceram, torna-se na sua única característica face às plateias: nada mais têm, nem pensamentos nem ódios nem afectos, são apenas gigantes. "Em Roviera, na terceira classe da escola primária, a professora mostrara as figuras de todos os mamíferos do Universo. O maior de todos chamava-se Baleia. Ugo desenhara-a no quadro com o dorso alto e forte e dissera: «Grande como é, não deve ter medo de ninguém». Também ele, naquela altura, não tinha medo de ninguém. (...) Agora, vinte e nove anos volvidos, tinha medo de todos e sentia-se sem força. Parecia-lhe ser uma velha baleia arrastada para uma praça, debaixo dos olhos de demasiada gente" (p.21). Não era, porém, a única atracção: "No mundo, para além dos Gigantes, existiam homens-animais: como Zip, o Macaco-humano, rapazes com cara de cão, como Jo-Jo; Homens-cobra e Homens-lagarto; Grace McDaniels, a Mulher-mula e John Merrick, o Homem-elefante" (p.34). Ugo Battista acabará por morrer nos EUA, um tanto ingloriamente e sem regressar à sua terra. A leitura deste livro, mais próximo, no estilo, da Literatura do que da História, fez-nos lembrar o que há poucos dias escrevemos sobre o Perdidos na Tribo. Poderíamos referir igualmente as diversas modalidades de Big Brother que já passaram na televisão ou ainda o Peso Pesado. Passaram 100 anos sobre as exibições dos irmãos Battista (referimos só este exemplo) e continuamos a dar audiência a estes espectáculos de degradação humana que nos oferecem as televisões. De que servirá combater a barbárie da tourada, se as pessoas ainda se deixam explorar da mesma forma - quer assumindo a posição de títeres anormais, quer deslumbrando-se com diferenças facilmente explicáveis pela Ciência? A Biologia e a Medicina, felizmente, já conseguem explicar o gigantismo dos Battista, tal como a obesidade dos concorrentes do Peso Pesado. A Antropologia e a História disponibilizam muitos milhões de quilómentros de prateleiras com monografias que igualmente explicam as culturas de quaisquer povos, por muito isolados que vivam (caso do Perdidos na Tribo). Se a informação já existe e se é livremente consultável, não conseguimos perceber a razão pela qual persiste o fascínio degradante pelas diferenças, quer culturais, quer físicas dos Seres Humanos. Ser Homem é precisamente ser único dentro de uma espécie igual, ser diferente numa pátria comum. É, pois, necessário que as pessoas decidam alargar os seus horizontes mentais - começando pelas televisões e terminando na população - para que percebam que se anda a tratar com excepção aquilo que constitui a nossa regra.

domingo, 5 de junho de 2011

Breve comentário sobre o programa "Perdidos na Tribo"

Na revista TV do passado 6 de Maio de 2011, que sai com o Correio da Manhã, dizia-se: “Durante três semanas, doze figuras públicas são enviadas para alguns dos locais mais remotos do Mundo e inseridas em três tribos com tradições e costumes completamente diferentes. Longe da civilização, os famosos têm de seguir o modo de vida dos nativos, o que inclui, entre outras, beber sangue de animais, cobrir o corpo com argila e fazer a higiene com cinzas de ervas queimadas. O enorme choque cultural gera situações curiosas e até hilariantes, que pretendem cativar os telespectadores. É precisamente esse o objectivo de “Perdidos na Tribo”, o novo reality show que a TVI estreia este domingo (8 de Maio) à noite, para competir com “Peso Pesado” da SIC. Durante dez semanas, os telespectadores poderão votar na sua tribo favorita por telefone ou SMS. O valor acumulado por cada tribo reverte a favor de uma instituição associada à mesma.” (p.12) São as premissas do programa Perdidos na Tribo que estreou recentemente na TVI. Consistiu, como se verificou, em enviar 12 pessoas famosas, divididas em grupos de 4, para a Namíbia, a Etiópia e as Ilhas Vanuatu, para viverem junto de três povos remotos e, logo, fundamentalmente diferentes dos Ocidentais. Cabe aqui reflectir sobre o interesse que pode ter um programa de televisão assim. Depois de o termos visto, confessamos, ficámos com algumas dúvidas. O programa é decerto interessante por mostrar alguns dos hábitos de outros povos, ainda para mais vivendo num acentuado isolamento que lhes permite ir conservando com assinalável solidez as suas culturas. No entanto, há várias reservas que se podem levantar. Primeiro, enviar um grupo de famosos (actores e figuras do jet 7) é manifestamente um chamariz para audiências. Porque não enviar um grupo de antropólogos, que realmente sabem o que estão a fazer? Bem, nesse caso, converter-se-ia um programa popular num documentário da National Geographic e todos sabem como estes são aborrecidos, porque neles fala-se realmente de Cultura. Em segundo lugar, colocar um grupo de europeus subitamente no meio de uma outra civilização para assistir ao choque cultural (que já se sabe verificar), só por si, parece-nos pobre. Se pusermos um gato doméstico a viver no gelo do Pólo Norte, também sabemos que morrerá de frio, pelo que fazer a experiência não traz interesse maior. Terceiro, nada verdadeiramente aprende o telespectador sobre esses povos, já que a justificação para as suas atitudes nunca é explicada. Porque acreditam naqueles seus deuses? Porque têm rituais mágicos em caso de doença? Porque têm uma alimentação diversa da ocidental? Porque é o seu regime familiar como se vê? Fica uma noção algo vaga do atraso dessas civilizações em relação à nossa. É óbvio que a nível tecnológico os Ocidentais conseguiram uma complexidade incomparável. Mas os Himba, os Hamer e os Nakulamené: que poderiam ensinar-nos sobre a relação entre os Homens e a Natureza, hoje por cá muito esquecida? Não há, pois, fórmula simples que conduza à verdade em matéria cultural. Infelizmente, este programa parece ter tido tal sucesso que em Espanha, na Antena 3, já se tenta a modalidade oposta: vêm os indígenas atrasados visitar as nossas cidades avançadas e fazer-nos rir com o seu deslumbramento face à civilização superior. Estas fórmulas televisivas explicam-se fundamentalmente pela falta de princípios a que conduz a ambição descabelada das televisões, actualmente. Haverá limites para a torpeza com que todos os dias os canais insultam a inteligência da população?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Exposição "Profissões com História" no Centro Cultural D. Dinis, em Porches

Segue um texto da minha autoria, editado na Gazeta de Lagoa, sobre a exposição "Profissões com História":

"Está patente no Centro Cultural D. Dinis, em Porches, a exposição “Profissões com História”, que teve início a 8 de Novembro e continuará aberta ao público até Fevereiro de 2011. Esta iniciativa de cariz privado, mas com o apoio da Junta de Freguesia que cedeu o espaço, tem como objectivo dar a conhecer o património histórico-cultural da região, assim como sensibilizar para a criação de um Museu Etnográfico no Concelho de Lagoa, como salienta Virgílio Monteiro, organizador do projecto.
Tudo começou com um desafio do presidente da Junta para montar a réplica do interior de uma Escola Primária Centenária no Festival do Caracol, em Porches”, recorda Virgílio. A adesão das pessoas foi imediata ao verem a carteira, o quadro negro de ardósia e os antigos manuais escolares, lembrando os tempos de estudante. O sucesso repetiu-se, pouco depois, na FATACIL, e na FNAC do Centro Comercial da Guia, onde esteve exposta durante trinta e três dias, na abertura do ano escolar.
Agora em exibição encontra-se um espólio mais completo relativo a várias actividades profissionais, dividido em diversas secções – há o lugar dos professores, do sapateiro, do barbeiro, dos vinhos, do barro e da alfaiataria. “Foi essencialmente o entusiasmo das pessoas nas iniciativas anteriores que me motivou a continuar”, explica o organizador.
Também o presidente da Junta de Freguesia está satisfeito com o trabalho demonstrado e felicita a iniciativa. Quanto a um possível Museu localizado em Porches, essa é uma luta da Junta há cerca de vinte anos e que deve continuar a ser incentivada. No entanto, o presidente alerta para a necessidade de se encontrar um local apropriado e haver disponibilidade financeira. Só depois se poderá avançar.
Na primeira semana, o Centro Cultural já recebeu várias dezenas de visitantes, e a expectativa é que venham ainda muitos mais. A exposição está aberta todos os dias das 10h até 12h30, e à tarde com marcação prévia. A entrada é gratuita.

Nota: O Organizador agradece profundamente o apoio do Presidente e dos membros da Junta de Freguesia de Porches, assim como dos populares que têm manifestado o apoio constante a esta iniciativa, contribuindo com sugestões e ainda com objectos que complementam a exposição. A todos um grande bem-haja."

Fonte: Gazeta de Lagoa, Director e Editor: Arthur Ligne, Sexta-feira, 19-11-2010, 22º ano, Nº 1045

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Como falamos - breve nota sobre o valor patrimonial dos dialectos ou falares portugueses


Não são pacíficos os conceitos exactos de “dialecto” e “falares”. Uma língua estabelece uma unidade em vários sentidos num determinado território, mas apresenta frequentemente numerosas variações. A essas variações se chama “dialectos” ou “falares”. Autores como José Leite de Vasconcellos e Luís Lindley Cintra dizem que dialecto é a variedade de uma língua verificada numa região[1] e reservam os “falares” para a especificidade linguística de uma localidade[2]. Matos Silva e Paiva Boléo preferem chamar “falares” aos “dialectos”. Não nos cabe neste espaço adiantar mais a este respeito. Os conceitos podem ser aprofundados e debatidos em obras da especialidade. Para o efeito, apenas deixaremos estas noções sustentadas pelos dois cientistas. A localização geográfica, com todos os contactos que permite, é uma das principais origens das variações na mesma língua. Dela decorrem a mentalidade, a cultura, a tecnologia e o evoluir do falar, adaptado à comunidade humana que serve. A língua portuguesa demonstra uma considerável riqueza. “Na área vastíssima e descontínua em que é falado[3], o português apresenta-se como qualquer língua viva, internamente diferenciado em variedades que divergem de maneira mais ou menos acentuada quanto à pronúncia, à gramática e ao vocabulário.”[4] Em Portugal, que agora nos interessa, as maiores diferenças vêem-se nos sotaques (pronúncia) e nos regionalismos (vocabulário)[5]. Deve-se a José Leite de Vasconcellos, etnógrafo, a primeira proposta de classificação dos dialectos portugueses, em 1893, criando assim, nas palavras de Lindley Cintra, a “dialectologia científica” no nosso país[6]. Porém, data de muito antes a noção destas diferenças. É com base num conjunto de referências e de vocabulário regional eminentemente beirão que alguns autores defendem que está aí, no centro de Portugal, a terra do dramaturgo Gil Vicente (c.1465-depois de 1536)[7], o que revela uma tipicidade linguística ainda no século XVI. No mesmo sentido, uma nossa gramática antiga (1536) diz: “... os da Beira têm umas falas e os do Alentejo outras.”[8] Actualmente, há perfeita consciência das diferenças regionais do português e alguns sotaques são bem conhecidos. São estas mais um elemento de identidade regional, ao lado dos trajos, da gastronomia e de outras tradições. A língua e as suas variações são inseparáveis das populações que servem e são o reflexo da complexidade social, estão associadas à vida das pessoas, ao trabalho, aos divertimentos e aos ritos (religiosos ou outros). Actualmente, é com algum desgosto que vemos desaparecer estes elementos a favor de uma globalização uniformizadora que não pode entender o valor das identidades nem respeitá-lo. A televisão, por exemplo, veicula quase integralmente o português padronizado, chamado “português padrão europeu”, que “segue a norma ou conjunto dos usos linguísticos das classes cultas da região Lisboa-Coimbra”[9]. O trajo popular já quase só pertence aos grupos folclóricos e a alguns idosos que não deixaram os costumes antigos. E o património dialectal pode perder-se mais cedo do que seria desejável, já que a modernidade não contempla nem as antiqualhas da História nem os usos da Etnografia, tendendo a padronizar todos os aspectos da vida dos povos, a que retira o verdadeiro espírito das tradições com a sua invasão violenta, indiscriminada e vazia de significado. Só o povo pode contrariar estas tendências, cultivando, mais que nunca, a sua natureza, o seu ser português, conservando-a, estudando-a e pensando-a. A propósito das nossas pronúncias, dizia Jaime de Magalhães Lima (1859-1936), jornalista, político e literato português, “que, em determinados casos, a maneira especial de pronunciar alguns vocábulos definia muito melhor uma ideia ou um sentimento, do que o seu enunciado dentro dos padrões normalizados. Entre outras situações, o caso da velha que, ao pretender que o filho lhe ouça um conselho, em lugar de dizer “escuta filho”, suaviza o imperativo da ordem mantendo a pronúncia antiga (com um i a mais), para que assim resulte mais carinhosa e meiga a forma “escuita filho.”[10] É também neste sentido, talvez menos científico, mas mais emotivo e próximo das nossas vivências, que são importantes os trabalhos de recolha de José Leite de Vasconcellos, ou o já citado “Dialecto Alentejano”, editado pela Colibri, que descreve a pronúncia do Alentejo no início do século XX, a partir precisamente dos apontamentos daquele etnógrafo, alguns ainda inéditos. “Já de si pouco separativas, as diferenças entre (...) dialectos atenuaram-se muito mais: o padrão tinha então [pelo início do século passado] menos falantes, estava circunscrito a uma parte apenas da população de algumas cidades, não se distinguia da norma culta. (...) O padrão era inacessível à maioria dos portugueses, que podiam atravessar a vida inteira falando o dialecto aprendido dos pais e modificando-o muito pouco. Não iam à escola, não viajavam, os familiares que emigravam não regressavam mais, não ouviam rádio, nem viam televisão. As condições de conservação de um dialecto eram, assim, do egoísta ponto de vista da ciência, muito boas.”[11] A autora nomeia os agentes uniformizadores: “A escola e os meios de comunicação social foram identificados como os principais agentes da mudança. Escrever e falar “bem” passaram a ser sinónimos de português padrão. Assim se foram abandonando, pouco a pouco, os traços específicos dos diferentes dialectos e a língua passou a ser cada vez mais normalizada. Os estudos no âmbito da dialectologia são, desta forma, um contributo para mostrar que as diferenças também são salutares num mundo que tende cada vez mais para a uniformização.”[12]

Notas:

[1] Tomando como exemplo a terceira classificação dos dialectos portugueses apresentada por José Leite de Vasconcellos e publicada num volume dos “Opúsculos” (1929), a região meridional apresentaria um dialecto, ou seja, uma variação da língua-padrão (português), sendo que um dos sub-dialectos seria o alentejano, o qual ainda apresentaria três variedades: Alto, Baixo e Central.
[2] Dialecto Alentejano – contributos para o seu estudo, Manuela Florêncio, Colibri, 2ªed., Colibri, 2005, pp.16-18. A referência da nota anterior também vem daqui. A imagem reproduzida vem da capa.
[3] Os autores referem-se também às terras que constituíam o império ultramarino português e onde a língua continua a falar-se e teve evolução própria.
[4] Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 18ªedição, Edições João Sá da Costa, 2005, p.9.
[5] Os dialectos portugueses falados na Ásia e em Timor, influenciados pelas línguas nativas, terão variações mais importantes em termos de gramática, ibidem, p.23-24.
[6] Para estas referências, Dialecto Alentejano, p.16.
[7] V., por exemplo, Joaquim Ferreira, História da Literatura Portuguesa, 2ªedição, Editorial Domingos Barreira, pp.204-205.
[8] Cit. em Dialecto Alentejano, com a grafia actualizada, uma vez que a própria autora actualizou uma parte. A referida gramática é tida como a primeira entre nós e é da autoria do gramático Fernão de Oliveira (1507-depois de 1581).
[9] Nova Gramática do Português Contemporâneo, p.10.
[10] João Pequito, “A Nossa Pronúncia”, in “Voz da Minha Terra”, Ano XXXIV, nº423, p.11. Trata-se de um jornal regional do conselho de Mação, a propósito do qual o autor faz uma reflexão sobre a beleza e o significado do sotaque daquela zona. A obra em que Magalhães Lima se refere ao assunto (J. Pequito não a nomeia) será, talvez, “A Língua Portuguesa e os seus Mistérios”, 1923.
[11] Ivo Castro, Curso de História da Língua Portuguesa, 1991, cit. em “Dialecto Alentejano”, pp.84-85.
[12] Ibidem, pp.85-86.

domingo, 5 de abril de 2009

Visita ao Museu Nacional de Etnologia (2006)

1.Visita ao Museu Nacional de Etnologia

O texto que agora se apresenta é o de uns breves apontamentos que tirámos durante uma visita ao Museu Nacional de Etnologia, em Maio de 2006. Na altura, o tempo de que dispúnhamos e a observação demorada das peças apenas permitiu a impressão cuidada de duas colecções: a da panaria guineense e cabo-verdiana e a das máscaras do Mali. Acrescentamos hoje, porém, alguns dados indispensáveis para a contextualização das notas, nomeadamente sobre a criação do M.N.E. Apesar do tempo que já passou, achámos que valia a pena partilhar este escrito, quanto mais não fosse para tentar despertar a curiosidade de visitar o Museu.

2.O Museu

“O Museu Nacional de Etnologia é indissociável da história da antropologia portuguesa. Nele se vem a projectar uma dimensão fundamental do trabalho dos pioneiros desta disciplina no país. A partir do Centro de Estudos de Etnologia, que dirige desde 1947, Jorge Dias e aqueles que o irão acompanhar nos anos subsequentes, Margot Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, entre outros, iniciam uma pesquisa extensiva e continuada sobre os elementos da cultura material que, anos mais tarde, viriam a ser igualmente recolhidos para constituir as colecções do museu. O trajecto daquele antropólogo vai conduzi-lo e a Margot Dias ao norte de Moçambique onde, em sucessivos períodos de trabalho de campo, com início em 1957, vão construir uma sólida etnografia sobre o povo Maconde. O resultado parcial daquela investigação será objecto de uma exposição realizada em Lisboa em 1959 e é neste contexto que surge a intenção explícita da criação de um Museu de Etnologia. Em 1965 o Museu é criado com o ambicioso programa de representar as culturas dos povos do globo não se restringindo, pois, nem a Portugal nem aos domínios ultramarinos sob a sua administração.”[1] O acervo do M.N.E. é hoje formado por cerca de 30.000 peças, que procuram responder ao objectivo de universalidade. Assim, entre elas estão alfaias agrícolas portuguesas – algumas a cair em desuso, por causa da modernização na agricultura –, uma colecção de olaria que cobre todo o País, uma colecção de máscaras e marionetas do Mali, vários objectos de povos da Amazónia, conjuntos também de Angola, Moçambique, Timor e outras. Há uma preocupação notória de alternar peças propriamente ditas com extractos de filmes ou fotografias, que expliquem e completem o significado e a utilidade daquelas.
O Museu tem uma biblioteca especializada na área da Antropologia, com títulos de estudos, teses e revistas, para acesso dos interessados em aprofundar os seus conhecimentos nestas matérias.
Há um Serviço Educativo ligado ao M.N.E. que visa dar a conhecer as suas colecções ao público, através de visitas guiadas, preparação de visitas com docentes, publicação de obras sobre o acervo e espaços lúdicos e culturais para os mais jovens.

3.Etnologia

Entende-se por Etnologia o estudo cultural do Homem. Neste ramo do saber se abordam a técnica e as realizações materiais, a organização social, a religião, a magia, a arte “e, sob certos aspectos, também, a ciência”, entendidas como “unidade funcional”, ou seja, partes inseparáveis do conjunto de conhecimentos e valores que fazem uma cultura humana[2]. Alguns cientistas distinguem-na de Etnografia. Esta é a recolha e descrição de elementos vários e aquela a comparação das culturas, através da sua evolução histórica. A Etnografia fornece a descrição de costumes e tradições dos povos à Etnologia. Esta constrói teorias e leis com base nelas. Em princípio, os povos que interessam à Etnologia são aqueles que vivem com meios técnicos elementares, ou, também se diz, em “estado natural”. Os esquimós, algumas tribos africanas ou americanas, por exemplo, inserem-se nessa classificação. As mesmas matérias referentes aos chamados povos “mais avançados” tecnologicamente são estudadas por ciências à parte, como “a Orientalística, a Indologia, a Sinologia”[3] e também a História. Porém, é de crer que estes povos também podem ter as suas etnologia e etnografia, dadas as suas produções mais primitivas – o que não quer dizer desaparecidas – presentes ainda nas zonas rurais, desde alfaias, até à poesia popular, matérias quase intocadas e em contacto quase directo com tempos muito antigos[4].
As peças que adiante descrevemos são, portanto, manifestações materiais da cultura e da mentalidade, longamente construídas pelos povos inseridos nos seus territórios, como forma espontânea de entender o ambiente e de lhe responder. Obviamente, ambientes diferentes originam respostas diferentes: daí a diversidade de culturas.
Não tivemos oportunidade de acompanhar a visita guiada que se fez à Sala das Alfaias de Portugal, mas visitámos a Sala dos Panos e a Sala das Marionetes.

4.Através dos Panos

Esta sala expõe uma colecção de panaria guineense e cabo-verdiana do Museu Nacional de Etnologia, recolhida, na maioria, por António Carreira entre 1960 e 1970.
Os panos, no contexto tribal africano, são bens que definem o prestígio de quem os usa. Os panos assinalam os ciclos de vida, definem as formas das relações sociais e formalizam os seus momentos cerimoniais e rituais.
As meadas ou os panos são tradicionalmente tingidos com pigmentos vegetais, como a urzela[5], o índigo[6] ou o anil[7], que permitem obter vários tons de azul.
No século XVI, Portugal, já na senda dos Descobrimentos, e apercebendo-se do valor das matérias-primas e da panaria, impôs restrições comerciais visando o controlo exclusivo da exploração e comercialização do algodão e dos panos. Isto deu origem ao contrabando, praticado entre os autóctones e os tripulantes dos navios. A partir dos séculos XVIII e XIX, vários factores como as secas, a ascendente influência económica estrangeira, a abolição da escravatura, a inovação tecnológica e a circulação do pano industrial a um custo inferior, fizeram com que decrescesse o cultivo de algodão e, consequentemente, se produzisse menos panaria tradicional. Actualmente, verifica-se o uso crescente de meadas de algodão industriais ou de fio sintético, às vezes importadas de outros países, mais acessíveis em custo e fáceis de trabalhar. Apesar deste claro benefício, ainda para mais para carteiras pobres, sente-se que é perdida uma parte da tradição na confecção actual dos panos. Se já não são produzidos desde a plantação até à conclusão do tecido, apaga-se uma parte essencial do ciclo de vida de uma arte inimitável, o que é uma desvantagem da vida moderna. Tem-se vindo a substituir o que é tradicional, justificando isso pelo baixo custo ou pela rapidez de confecção. Apesar de algumas medidas proteccionistas dos governos, a tradição não é ainda mantida e protegida essencialmente senão pelos interessados. E só tem verdadeiro valor tradicional a peça, qualquer que seja, que respeite todos os passos da criação primitivos.
Os panos expostos são, no geral, coloridos e têm motivos variados que vão desde a expressão mais tradicional, a temas modernos. Alguns têm como tema um animal representativo, como a jibóia, outros têm barcos – como aqueles que no século XV foram vistos pela primeira vez em África –, e há até a expressão de aspirações políticas recentes – de facto, um dos panos tem tecida a imagem de Amílcar Cabral, datado de 1996 e recolhido na Guiné-Bissau.

5.Nota sobre as Designações dos Panos

As definições dos panos derivam da sua origem, tipo de confecção, motivos decorativos ou modo de uso.
Ao pano de Cabo Verde chama-se pano di terra, alusão à origem. Este pode ainda ser pano d’obra, se tiver um padrão complexo e minucioso; ou pano bicho se tiver por motivo um animal.
Os panos guineenses também têm designações. Valem aqui as referidas para os panos cabo-verdianos. Mas há designações específicas guineenses: pano lanceado, de padrão simples, por exemplo, xadrez, que requer poucos liços[8] e dispensa a presença de um ajudante; pano frisado, de fabrico complexo, com muitos liços, sendo o fabrico assistido por ajudantes.
É curioso notar que as sucessivas medidas dos governos para recuperar a tecelagem tradicional e o interesse que ela suscita entre a população criaram um novo olhar sobre os panos, cuja forma se generalizou em cortinados, toalhas de mesa, malas, saias, camisas e outras peças quotidianas. Também a internet vulgarizou motivos de panaria tradicional em muitos acessórios. Tudo isto constitui mais do mesmo desvio que tem sido imposto às peças tradicionais, as quais têm como característica principal o facto de serem únicas. Embora, deste modo, a tradição passe a estar mais presente, em múltiplos suportes, e não seja esquecida.

6.Máscaras e Marionetes do Mali

Dadas as circunstâncias particulares da nossa História, em Portugal conhecemos melhor países como a Guiné e Moçambique, pelo que se justifica uma breve introdução sobre o Mali. A República do Mali fica no oeste do continente africano e faz fronteira com a Argélia (norte), o Niger (este), o Burkina Faso (sul), a Costa do Marfim (sul), a Guiné (sudoeste), o Senegal e a Mauritânia (ambos a oeste). A capital é Bamako, tem uma superfície de 1 240 000 km2, 11 130 000 habitantes (os malianos) e a língua oficial é o francês. As religiões predominantes são o islamismo e o animismo. O regime político é parlamentar, o Presidente da República é o Chefe do Estado e do Governo, eleito por sufrágio directo, por cinco anos. Existe um órgão legislativo que é a Assembleia Nacional com 129 deputados, eleitos por cinco anos.
O país situa-se numa zona seca e a agricultura cobre menos de 2% da sua superfície total. Cultiva-se o arroz, o milho, o amendoim, o algodão, a cana-de-açúcar e verduras. Pratica-se a criação de gado e a pesca, cujos bens se exportam para a Costa do Marfim e para a Guiné, especialmente. A indústria é pouco desenvolvida e está concentrada na capital, abrangendo áreas como os textéis, o sector alimentar, os químicos, o tabaco, a mecânica e o calçado. Há ainda recursos como o ouro e sal-gema, retirados das minas. As comunicações pouco desenvolvidas dificultam o crescimento económico. O país é um dos mais pobres do Mundo, tendo uma balança comercial constantemente deficitária e um largo endividamento externo. Depende, portanto, de ajudas internacionais[9].

O Mali, obviamente, tem a sua história e as suas tradições. Têm elas expressão no Museu Nacional de Etnologia em marionetes que tanto representam figuras humanas como animais. Entre aquelas que representam animais temos, por exemplo, antílopes, macacos, serpentes, búfalos e outras feras indefiníveis, por vezes acompanhadas por um caçador. As marionetes humanas são caçadores, anciãos – cuja importância social é expressa, ou cujos defeitos são acentuados, como a má-língua –, ou simplesmente pessoas que usam vestuário típico. As cenas de caça esculpidas em madeira ou as cabeças de animais são o reflexo de uma paisagem intocada, que vive ao ritmo natural e primário da Natureza e, quando não reconstituem histórias ouvidas ou presenciadas, são a expressão de um imaginário cultural.
As figuras humanas revestem-se essencialmente de importância ritual e são usadas em cerimónias, simbolicamente. Cèkòròba, por exemplo, é o grande ancião que representa o tempo antigo, a tradição como saber orientador da vida. Porém, estas marionetes podem também ter um objectivo crítico, ainda que não percam a carga simbólica: o velho maldizente da região de Ségou é não só alguém em quem o artista pense quando concebe a peça, mas talvez também aquele que ficou azedo em vez de sábio. Ou então, dizemos nós, é alguém que lamenta o desprezo com que têm sido tratados os valores antigos, desde que a vida moderna e os seus costumes têm destruído ou deixado esquecer o património tradicional e cultural, esse acervo único dos povos.

7.Final do dia

O pensamento invariável no final do dia é que vale a pena ver, conhecer e aprender com uma cultura tão diferente da nossa, ocidental, europeia e portuguesa. É, sem dúvida, importante aquilo que cada um absorve para si de uma tradição diferente, mas é ainda mais importante saber que não vivemos sós no Mundo, que há mais para além do que vemos. A grande lição a retirar é a da tolerância: nenhuma mentalidade, tradição, cultura no Mundo se pode arrogar superior a outras; mas o contacto pode favorecer a conservação das mesmas e reforçar a admiração e a amizade entre os povos que convivem nesta grande casa que é o Planeta Terra. Diz na Enciclopédia Meridiano-Fischer de Etnologia: “As antigas designações, inteiramente inadequadas, de «bárbaros» ou «selvagens» desapareceram, felizmente, não só da terminologia científica, mas também da linguagem corrente. Não existem selvagens. Mais ainda: do ponto de vista etnológico não existem povos «sem cultura», nem tão pouco povos «culturalmente pobres».”[10] Só existem diferenças que, mais do que separar-nos, deviam unir-nos, através do respeito devido ao espaço a que cada um de nós tem direito.

Notas:
[1] Do site do Museu Nacional de Etnologia: http://www.mnetnologia-ipmuseus.pt/Museu.html.
[2] Etnologia (Enciclopédia Meridiano Fischer), Editora Meridiano, 1972, p.7.
[3] Ibidem.
[4] Neste sentido, recordem--se as recolhas que fizeram J.L. de Vasconcellos, Arruda Furtado, Rocha Peixoto,etc., em Portugal.
[5] Urzela: espécie de líquen tintorial que fornece uma cor azul-violácea.
[6] Índigo: matéria corante de cor azul escura, ligeiramente violácea, extraída de diversas plantas tropicais.
[7] Anil: cor azul extraída do índigo.
[8] Liço: Cada um dos fios de metal entre dois liçaróis (travessas que seguem os liços do tear), através dos quais passa a urdidura de tear.
[9] Nova Enciclopédia Larousse, vol.15, Círculo de Leitores, 1998, pp.4442-4443; Lexicoteca – Moderna Enciclopédia Universal, vol.12, Círculo de Leitores, pp.172-173.
[10] P.7.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Francisco de Arruda Furtado (1854-1887)


“Retomando a ordem cronologica que iamos seguindo, e que foi necessario interromper, encontramos agora outro antropologo, que, como Ferraz [Dr. Francisco Ferraz de Macedo, médico e antropólogo, f. 1907], trabalhou sòzinho: Arruda Furtado, o qual em 1884 publicou em Ponta Delgada “Materiaes para o estudo anthropologico dos povos açorianos («Observações sobre o povo michaelense»), seguidos, em 1886, de “Notas psychol. e ethnol. Sobre o povo português. Nos “Materiaes”, além da parte antropologica, anunciada no titulo, ha uma parte etnografica.”[1] São as breves palavras que sobre o cientista açoriano nos deixa José Leite de Vasconcelos (1858-1941), na magistral “Etnografia Portuguesa”. Se a comemoração dos 200 anos sobre o nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos sobre a 1ª edição do seu importante livro mais méritos não tivesse, teria ao menos o de ter lançado repentinamente para a celebridade um esquecido cientista português que se correspondeu com ele. Uma parte da exposição dedicada ao célebre britânico, que ainda está na Fundação Calouste Gulbenkian, é sobre Francisco Arruda Furtado e até uma peça de teatro em que ambos aparecem foi já publicada. O investigador açoriano nasceu a 17 de Setembro de 1854, em Ponta Delgada (ilha de S. Miguel) e iniciou a carreira profissional como aspirante da Repartição de Fazenda dessa cidade. Em 1877 demitiu-se e tornou-se empregado de escritório. Desde novo o interessaram a literatura, a arte e as ciências – campo em que se tornou uma figura de referência, por causa dos seus estudos sobre a população e a Natureza dos Açores. Em 1882 foi vogal da comissão organizadora da Exposição de Artes, Ciências e Letras, que se realizou no liceu de Ponta Delgada e expôs desenhos seus sobre fauna e flora. Esteve em Lisboa em 1884 e, por seu mérito, foi nomeado adido (funcionário agregado como auxiliar) à Secção Zoológica do Museu de Lisboa (depois Museu Barbosa du Bocage). Contribuiu ainda para a fundação do Museu de Ponta Delgada, foi sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa e só não o foi da Academia das Ciências (proposto por Barbosa du Bocage), por ter falecido por essa altura. A razão de ter voltado ao conhecimento geral é tão fútil como ter-se correspondido com Darwin, quando, na verdade, os seus trabalhos científicos bastariam e sobejariam para lhe registar o nome, dispensando o patrocínio estrangeiro. Deve, no entanto, referir-se que se norteou pelas ideias darwinistas, nomeadamente em trabalhos sobre moluscos, mas não foi o único. Ficam na penumbra outros cientistas portugueses, como Júlio Henriques, Júlio de Matos e Jaime Batalha Reis. O primeiro, por exemplo, especulou em 1866 sobre a “aplicação da teoria da evolução por selecção natural à espécie humana, no que se antecipou em cinco anos ao próprio Darwin”[2]. Apesar de a ciência portuguesa do século XIX ter tido períodos de imobilidade, continua a ser uma injustiça esquecer aqueles que em Portugal, mal ou bem, se dedicaram a estes trabalhos. Voltando à correspondência, “na primeira resposta [ao cientista açoriano], o famoso naturalista diz-se velho de mais para poder usar directamente as observações do português, «mas esse facto não diminui o interesse que tenho por elas»(...). Segue-se uma série de conselhos de como conduzir as investigações nas ilhas.”[3] Arruda Furtado carteou-se também com Gustave Le Bom, Perrier, Crosse, J. L. de Vasconcelos, Teófilo Braga, Adolfo Coelho, entre outros. Vão, em baixo, alguns dos títulos por si publicados, o que demonstra os seus amplos horizontes mentais:

Zoologia (Malacologia) – Indagações sobre a complicação das maxilas de alguns Hélices, 1880;
A propósito da distribuição dos moluscos terrestres nos Açores, 1881;
O Homem e o Macaco, 1881;
Materiais para o estudo antropológico dos povos açorianos, 1884;
Catálogo Geral das colecções de moluscos e conchas do Museu de Lisboa, 1886;
Notas psicológicas e etnológicas sobre o povo português, 1886;
O macho e a fêmea no reino animal, 1886;
Sur une nouvelle espèce de céphalopode appartenant au genre Ommatostrephes, 1887;
Açores e açoreanos (manuscrito);
História da Zoologia em Portugal (manuscrito);
Classificação de Moluscos (manuscrito);
...

Além do que vem mencionado, colaborou em publicações periódicas, como: “Era Nova”, “O Positivismo”, Jornal de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais” (pub. da Academia de Ciências), “A República Federal”, “A Gazeta Açoreana”, “Século”, “A Voz do Operário”.[4]
Arruda Furtado faleceu precocemente a 21 de Junho de 1887.

Sobre Arruda Furtado, veja-se o que vem no site do Instituto Açoriano de Cultura (IAC): http://www.iac-azores.org/biblioteca-virtual/arruda-furtado/index.html
Estão a sair por estes tempos dois livros sobre o cientista açoriano. Um é uma biografia e outro é a sua obra científica completa, a acrescentar à sua correspondência científica já publicada.

[1] Vol.1, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p.70. É daqui a imagem reproduzida acima.
[2] Luís Tirapicos, National Geographic Portugal, Fevereiro de 2009, vol.8, nº95, p.46.
[3] Ibidem, p.43.
[4] A fonte principal deste texto foi a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.3, pp.393-394.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Os Nok

Os Nok

Em 1928 foram descobertas na Nigéria Central (v. este país assinalado a azul no mapa), mais precisamente na localidade chamada Nok, situada “nas colinas do mesmo nome, próxima de Jos, na meseta de Bauchi”[1], várias estátuas de terracota (barro cozido no forno), que são as mais antigas terracotas do continente. Os homens que as produziram – denominados Nok – eram principalmente agricultores sedentarizados que cultivavam o inhame (para alimentação) e produziam óleo de palma, sendo provável que não criavam gado. Parecem ter sido pioneiros também na metalurgia, já que foram os primeiros ao sul do Sara a fundir o ferro. “A língua Nok estava possivelmente ligada à dos Protobantos, que enxameavam toda a África Central e Meridional. (...) Precedendo de vários séculos a cultura de Ifé, a civilização de Nok constitui um elo essencial para o conhecimento da antiquíssima história do continente africano. Nada se sabe sobre como terá desaparecido esta cultura, se de forma brutal ou na sequência de um progressivo declínio.”[2] Os Nok habitaram uma ampla área de “480 quilómetros por 160 quilómetros”[3] a norte da confluência do rio Níger com o Benué, entre cerca de 500 e 200 a. C.

A arte Nok

A sua arte tem algumas características que se devem assinalar. Os Nok representaram pessoas e animais. As cabeças humanas são modeladas segundo as formas geométricas em uso: esféricas, cónicas e cilíndricas; são em tamanho quase natural[4] e as feições são estilizadas. “As cabeças humanas, mesmo quando mostram alguma tendência para o naturalismo, nunca são retratos. Em contrapartida, os animais são tratados de forma realista, o que leva a pensar que as representações humanas se afastam da realidade voluntariamente e não por falta de habilidade dos artistas.”[5] De facto, há estudiosos que sugerem que existia uma recusa em fabricar retratos, pois o modelo poderia ficar exposto à acção de forças maléficas. Ainda assim, há uma preferência pela representação humana, embora tenham aparecido elefantes, macacos, serpentes e carraças.

A Cabeça de Jemaa

A peça considerada mais importante da cultura Nok é a Cabeça de Jemaa, descoberta em 1942. Modelada em forma esférica, a cara é uma superfície lisa, com olhos triangulares e nariz pouco saliente a que adere o lábio superior; os olhos, o nariz e a boca são perfurados e as orelhas estão “no ângulo do maxilar”[6].











A Arte Antiga da Nigéria

A arte Nok precedeu o aparecimento de outras manifestações importantes na Nigéria, como os bronzes de Igbo-Ukwu (IX-X d. C.), os mais antigos da África Ocidental; as referidas estátuas de Ifé (desde, pelo menos IX d. C. até XIV ou XV), em terracota e bronze, os únicos retratos da África Negra, representando monarcas e dignitários; as terracotas de Owo (entre Ifé e Benim), pelo século XIV, de temas macabros; e, já no Benim, estátuas e ornamentos em bronze e adereços cerimoniais de marfim.



No mapa podem ver-se a meseta de Bauchi e Jos, sítio perto do qual fica Nok, no centro país; Ife no sudoeste; Owo a sudeste de Ife; e Lagos - a capital, onde o Museu Nacional guarda estas peças arqueológicas - a sudoeste de Ife e Owo.





[1] Moderna Enciclopédia Universal, Círculo de Leitores, vol.14, p.41.
[2] Memória do Mundo – Das Origens ao Ano 2000, Círculo de Leitores, 2000, p.98.
[3] Idem.
[4] A cultura de Ifé foi, com a Nok, a única que também nos deixou terracotas destas dimensões.
[5] Idem, p.99.
[6] Idem.

Nota: Os mapas vêm da Moderna Enciclopédia Universal, idem, pp. 26 e 27; a imagem da Cabeça de Jemaa vem de Memória do Mundo, p.98.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Jogos Populares Portugueses

Os jogos populares fazem parte da vida quotidiana dos povos. Quando não estão a trabalhar as pessoas acham-se a conviver e a entreter-se. O divertimento, claro está, deve ser encarado com a espontaneidade com que é criado e com o à-vontade que ele mesmo cria. Porém, como é próprio dos seres humanos irem guardando todas as informações relativas ao seu universo, fica existindo também o ponto de vista académico, mais ou menos informado, completo, erudito. O entretenimento é assim estudado como parte da cultura de um povo, ao lado do trabalho e de outras manifestações. E os jogos populares são um capítulo relevante na cultura portuguesa da diversão. Entre nós há numerosos jogos populares, alguns tão populares que não têm regiões, outros mais restritos e, destes todos, as variantes, a adaptação local de jogos conhecidos em muitas terras. Está publicado sobre o assunto, entre outros, o livro Jogos Populares Portugueses - de jovens e adultos, de António Cabral, Editorial Notícias, 3ª ed., 1998. A obra contém a breve descrição dos jogos populares nacionais (com notas sobre jogos em Goa, Macau, Moçambique e na Galiza), algumas notas históricas, e referências a modos de divertimento que não sendo propriamente considerados jogos, se lhes aproximam por características parecidas, sendo claro o cuidado do autor em demonstrar a existência das variantes. Da malha, por exemplo, jogo popular que consiste no derrube de pinos com uma chapa de metal (a "malha"), diz António Cabral: "São muitas, de norte a sul de Portugal, as variantes deste jogo, o que lhe dá uma grande riqueza cultural, mas dificulta os torneios entre equipas de várias zonas, inclusivamente dentro da mesma região. Num torneio organizado pela ex-Junta Central das Casas do Povo de Braga foi um bico-de-obra acertar as regras entre os representantes dos diversos concelhos da zona. Mas é exactamente isso que é desejável: os traços culturais de uma comunidade devem ser respeitados. E nunca os técnicos promovam pura e simplesmente a uniformização, pois essa tentativa é desculturante." (p.41) É importante sensibilizar os jovens, nomeadamente nas escolas e no âmbito alargado da Educação Física, para a existência destas tradições portuguesas, para que não estranhem o que também lhes pertence e as possam escolher e preferir em substituição de passatempos menos pedagógicos e humanizantes. O livro contém bibliografia (pp.275-276). Do Autor publicou-se também a obra Jogos Populares Infantis.