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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Dia de Darwin


No dia 12 de Fevereiro, celebraram-se os 205 anos do nascimento do naturalista britânico Charles Darwin. Esta efeméride foi comemorada em diferentes países e Portugal não foi excepção, com diferentes atividades a decorrer de norte a sul do país. 

Deixo aqui um resumo das iniciativas, tal como relatado pela Rita Ponce, do Núcleo de Educação e Divulgação de Evolução, da Associação Portuguesa de Biologia Evolutiva (NEDE-APBE):




As celebrações do dia de Darwin 2014

Todos os anos, a 12 de Fevereiro, data do nascimento de Darwin, relembra-se em todo o mundo este grande cientista e o contributo da sua obra para o conhecimento científico e para a nossa forma de ver o mundo.

A celebração da data é igualmente uma excelente oportunidade para divulgar a importância da evolução biológica e também este ano, à semelhança do ano passado, o NEDE-APBE associou-se à celebração deste dia, dinamizando várias atividades, em colaboração com outras instituições, escolas e biólogos de todo o País. Este ano as atividades já foram mais e mais variadas – e possivelmente serão um estímulo para a adesão de mais instituições e de mais escolas a esta iniciativa nos próximos anos!

Em Lagos, o Centro Ciência Viva em parceria com o NEDE-APBE, realizou oficinas de evolução com seis turmas do 1º ciclo.

Em Almada, no 2º Torrão na Trafaria, o Clube  “Ciência a Todo Vapor” em parceria com o NEDE-APBE, realizou atividades dirigidas ao público em geral.

No Porto, no Palacete dos Viscondes de Balsemão, elementos do NEDE-APBE organizaram a apresentação do livro "A minha viagem com Charles Darwin”, de António Vieira, editado pela Associação Viver a Ciência.

Nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto, decorreram várias atividades sobre a biodiversidade dos jardins com três turmas do 1º ciclo, numa colaboração entre o NEDE-APBE, o Centro de Educação Ambiental dos Jardins do Palácio de Cristal e o centro de investigação CIBIO-UP.

Também no Porto, na Escola Secundária Aurélia de Sousa, em colaboração com a professora Lucinda Motta e o CIBIO-UP, um elemento do NEDE-APBE apresentou uma palestra para alunos e professores sobre os impactos da evolução biológica no dia a dia, e dinamizou um workshop para professores sobre ensino da evolução biológica.

Em Lisboa, na Escola da Voz do Operário da Graça, os alunos do 1º ciclo viram o filme de animação "Nós os fantásticos seres vivos". Os meninos do 2º ano, com a participação de dois elementos do NEDE-APBE, fizeram o Jogo da Evolução e ouviram o relato da fantástica viagem de Charles Darwin a bordo de Beagle e das suas descobertas.

Em Oeiras, o Colégio S. Francisco de Assis, os alunos do pré-escolar e primeiro ciclo viram o filme de animação "Nós os fantásticos seres vivos" e tiveram uma longa conversa sobre a vida e obra de Charles de Darwin e sobre conservação da natureza com um elemento do NEDE-APBE.

Em Vila do Conde, na Escola Básica de Vairão, um elemento do NEDE-APBE falou sobre a vida e a obra de Charles Darwin e fez os jogos de Seleção Natural com os alunos do 1º ao 4º ano.

Outros investigadores juntaram-se às celebrações e dinamizaram atividades:

No Seixal, no Colégio Atlântico em Pinhal de Frades, a Sara Francisco (ISPA-UIEE) realizou atividades com os alunos do 2º ano, explicou como actua a seleção natural e fizeram os Jogos de Seleção Natural.

Nas Caldas da Rainha, a Carla Sousa Santos (ISPA-UIEE) fez várias atividades com a turma do 2º ano do Colégio Infancoop. Falou-lhes da vida e obra de Darwin. Viram também o filme "Nós, os fantásticos seres vivos" e jogaram ao jogo da Seleção Natural.
E ainda fomos referenciados num artigo do jornal Público.

Para o ano há (muito) mais!

Rita Ponce

Links úteis:


International Darwin Day http://darwinday.org

Associação Portuguesa de Biologia Evolutiva http://www.apbe.pt



Filme de animação "Nós, os fantásticos seres vivos" http://www.youtube.com/watch?v=lAM6bkeNne4

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Lobos, Tubarões e Micróbios


Para quem se interessa pela estudo da natureza e da biodiversidade, tem a possibilidade de ir assistir às palestras proferidas por investigadores do CIBIO-UP (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, da Universidade do Porto). 

Alguns dos temas estão relacionados com o estudo dos Lobos, dos Tubarões, dos Micróbios ou dos Anfíbios.

Esta iniciativa terá lugar na Casa Andresen, no Jardim Botânico do Porto, no mesmo local em que está a decorrer a exposição A Invasão da Casa Andresen, sobre animais selvagens e taxidermia.

A entrada para as palestras é gartuita.
Se quiser visitar a exposição, o custo é de 2,5€ por adulto e 1,5€ por criança (menores de 6 anos é gratuito).

Mais informações:


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

In memoriam: Carl Woese


Faleceu, no último domingo, o cientista Carl Woese (1928-2012).

Um dos seus grandes contributos para a ciência foi precisamente na área da biologia evolutiva, explicando que os organismos extremófilos, isto é que habitam em condições extremas de temperatura ou salinidade, os Archaea são extremamente diferentes das bactérias, ao contrário do que se pensava. Woese, foi o responsável por incluir estes organismos num grupo diferente, o chamado terceiro ramo da árvore da vida. Esta conclusão foi obtida através da sequenciação de moléculas do ADN dos Ribossomas.

Hoje, os cientistas agrupam os seres vivos em 3 domínios: os Eukarya ou eucariontes, organismos com núcleo individulizado; as Eubactéria (ou simplesmente Bacteria) e as Archaea.

Para mais informações, consultar a notícia do Público, aqui.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A vida "marciana" da Terra


Alguns dos locais mais inóspitos do nosso planeta podem ter características que se assemelhem àquelas de Marte. A descoberta de vida nestes locais permite fazer algumas especulações sobre putativas formas de vida que poderiam viver nesse mítico planeta. Esse é um dos campos de estudo da Astrobiologia, o ramo da ciência que procura compreender a origem das moléculas que funcionam como material de construção dos seres vivos, como estas se combinam para gerar a vida, como e onde pode surgir a vida (e quais as interacções entre estes seres vivos "primitivos" e o seu meio ambiente) e como é possível que a vida se expanda para além do seu local de origem. A Astrobiologia é, portanto, muito mais que a procura de sinais de vida fora do nosso planeta.

Uma das vertente vulcânicas de Atacama (Crédito: Steve Schmidt)

A novidades que nos chega dos EUA é que foram encontrados mais um conjunto de organismos extremófilos que vivem nas encostas de vulcões, com condições de tal forma inóspitas que são comparáveis às do planeta Marte. Os extremófilos, como o nome indica, são seres vivos que vivem em condições extremas, isto é, onde a maior parte dos outros organismos morreriam.

Desta feita, um grupo de cientistas da Universidade de Colorado - Boulder estudou os solos de vários vulcões na região de Atacama (América do Sul) e, para sua surpresa, descobriu indícios de vida nesse terreno extremamente seco e inóspito, a mais de 6000 metros acima do nível do mar. O trabalho foi publicado na revista científica Journal of Geophysical Research.

Os microorganismos encontrados são fungos, bactérias e arquea. As arquea eram anteriormente chamadas de arqueobactérias, porque se pensava que fossem um tipo de bactérias já que, como estas, também são diminutos seres unicelulares sem núcleo ou organelos. Mas, com o advento dos estudos de genética molecular, descobriu-se que eram seres completamente diferentes e que, ainda que remotamente, estavam mais aparentados com os seres humanos do que com as bactérias. As arquea são também famosas por serem frequentemente encontradas em ambientes extremos, como o fundo dos oceanos ou efluentes extremamente ácidos de minas.

Estas novas espécies agora descobertas vivem num ambiente com variações diárias de temperatura que podem superar os 70°C, radiação UV muito intensa (o dobro da medida num deserto "típico" de baixa altitude) e um solo paupérrimo em nutrientes (por exemplo, os níveis de azoto são tão baixos que não é detectável pelos instrumentos de medição usados). Não foram encontrados seres fotossintéticos, que consigam usar a energia do Sol, e portanto especula-se sobre qual será a fonte de energia que alimenta este débil ecossistema microbiano. É possível que usem uma fonte química de energia, com base no monóxido de carbono e gases de enxofre, mas esta é ainda uma hipótese por comprovar.

Para além de esta poder ser uma importante descoberta para a Astrobiologia, tem também o potencial de poder levar à descoberta de novas formas de obtenção de energia.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Elefantes do passado


Texto publicado no jornal O Baluarte de Santa Maria no âmbito do projecto


Existem três espécies de elefantes no mundo: o elefante-da-savana (Loxodonta africana), o elefante-da-floresta (Loxodonta cyclotis) e o elefante-asiático (Elephas maximus). E como eram aquelas espécies que já desapareceram? Existem muitos fósseis que permitem conhecermos melhor o seu aspecto. Mas, seria o seu comportamento comparável ao dos elefantes actuais? Sabe-se que hoje os elefantes têm uma estrutura social complexa, com segregação sexual e centrada em grupos matriarcais. Há quanto tempo é que este comportamento existe?

O comportamento dos animais extintos é difícil de estudar porque, ao contrário dos seus ossos, carapaças ou concha, não fossiliza. No entanto, algumas pistas muito raras dão-nos, por vezes, a conhecer vislumbres dos hábitos dos animais extintos.


Reconstrução da manada de Mleisa 1, tendo como base a espécie Stegotretrabelodon como origem das pegadas (© Mauricio Antón)


Este é o caso de uma recente descoberta feita num local chamado Mleisa, nos Emirados Árabes Unidos, por uma equipa internacional liderada por Faysal Bibi, hoje a trabalhar na Universidade Humboldt em Berlim. Este paleontólogo e a sua equipa descobriram uma pista com muitas pegadas fossilizadas de Proboscídeos, a família a que pertencem os elefantes.

Porque é que esta descoberta é tão interessante? Porque o número e disposição das pegadas permite-nos inferir muito acerca do comportamento social dos animais que por aquele local passaram há entre 6 a 8 milhões de anos.
O primeiro facto que esta descoberta nos transmite é que as pegadas seriam dos antepassados dos actuais elefantes, que se estima terem divergido há cerca de 6 milhões de anos. Depois, com base no tamanho e espaçamento das pegadas dos pelo menos 13 indivíduos, foi possível estimar o tamanho dos animais, que resulta ser comparável ao dos elefantes africanos.

No que diz respeito ao comportamento, o facto das pistas serem paralelas, indica que os animais estavam a viajar lado a lado, em grupo e, portanto, já teriam alguma estruturação social. Há ainda uma outra pista, de um animal solitário, que se cruza com as demais. Este animal era maior, pelo que os autores especulam que poderia ser um macho. A confirmarem-se as suspeitas de que a manada era constituída por fêmeas (a distribuição de tamanhos sendo similar à das manadas actuais) e que o animal solitário era um macho, isto implica que os elefantes ancestrais já viviam de forma similar à das espécies atuais e, portanto, que o seu sistema social tem uma história bem longa.

Procuram-se, pois, novas pistas de elefantes para continuar a reconstrução da evolução do comportamento social!





Referências:

domingo, 26 de fevereiro de 2012

OS CAVALOS QUE ENCOLHEM OU OS EQUÍVOCOS SOBRE A EVOLUÇÃO BIOLÓGICA




Texto também publicado no blog AstroPT.



Acham que “A Selecção Natural  faz com que os indivíduos se modifiquem para se adaptarem ao seu meio”?

Numa primeira leitura, esta frase até pode parecer fazer sentido...Não é certo que nós vamos tentando adaptar-nos às circunstâncias cambiantes conforme necessário? Sim. Mas, por mais que esta visão algo antropocêntrica nos agrade, ela não é a evolução por selecção natural.
Esta é uma visão que vem ainda da teoria de evolução proposta pelo naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck, que implicava a hereditariedade de características adquiridas. O que quer isto dizer? Bem, quer dizer que os seres vivos, ao tentarem adaptar-se ao seu meio ambiente, sofriam alterações anatómicas, por exemplo, e que essas alterações (ou novas características) eram passadas às sua descendência. Esta explicação há muito foi abandonada pelos biólogos evolutivos e só ocorre em casos muito raros (por exemplo, quando a radiação afecta as células das linhas germinais, os gâmetas, causando mutações).

Como funciona então a Selecção Natural, o mecanismo proposto pelo grande naturalista inglês Charles Darwin e que é hoje aceite como um dos processos responsáveis pela evolução biológica?
Sejamos um pouco antropocêntricos, só por um momento, e pensemos na nossa espécie, Homo sapiens. São todos os indivíduos da nossa espécie iguais? Não: há pessoas de diferente altura, com diferente cor de cabelo, de olhos, de pele, etc. Estas diferenças que nos parecem tão evidentes na nossa espécie existem em todos os seres vivos! Desde a mais diminuta bactéria até ao gigante elefante africano. E, pequenas diferenças na anatomia ou no comportamento levam a que diferentes indivíduos tenham diferente capacidade para sobreviver e se reproduzir. Num determinado momento e num determinado local, certos indivíduos têm uma pequena vantagem de sobrevivência, reproduzem-se mais facilmente e deixam mais descendentes. Os seus descendentes vão naturalmente herdar as características dos progenitores e, deste modo, aumentar a frequência dessas características na população. Ao longo do tempo, temos a “ilusão” de que a espécie se foi modificando. Na verdade, assim nascem novas espécies! Mas não é pela transformação individual, mas sim pela sobrevivência diferencial de indivíduos com certas características que lhes trazem vantagens.


Equus vs. Sifrhippus, de Danielle Byerley (Florida Museum of Natural History). A foto pode ser algo enganadora porque dá a ideia de que os cavalos actuais se transformaram nessa espécie anã.



E que tem isto a ver com os cavalos que "encolheram"?

Pois esse é um exemplo recente de como uma interessante notícia acerca da mudança observada numa espécie devida a alterações climáticas (semelhantes às que tudo indica estarem a ocorrer actualmente) foi algo erroneamente transmitida pela comunicação social e blogosfera em geral.
Há excepções, claro. E aqui podem ler, em inglês, uma boa descrição do que é que os cientistas descobriram.

Leu-se então nos últimos dias, no jornal Público, por exemplo, a notícia de que os cavalos teriam diminuído de tamanho devido às alterações nas condições ambientais de há 56 milhões de anos atrás, nomeadamente o aumento da temperatura que se verificou no período do Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno.

Primeiro, há que perceber que esses cavalos nem sequer eram do mesmo género que existe atualmente, o género Equus, mas sim de um outro género primitivo chamado Sifrhippus (sim, a notícia do Público não tem o género bem escrito!). Os primeiros fósseis destes pequenos cavalos indicam que pesavam cerca de 6Kg. No entanto, verificou-se que, com o passar do tempo e o aumento da temperatura do planeta, os fósseis encontrados são de animais cada vez mais pequenos, até atingirem cerca de 4Kg (uma redução de 30%). Com a diminuição da temperatura, voltam depois a aumentar de tamanho para cerca de 7Kg (em média). Isto ocorreu ao longo de quase 200  mil anos.

Neste vídeo, podem ver um resumo dos resultados e como foram obtidos.




E como se explica isto correctamente, à luz da Teoria da Evolução?

Na população inicial de cavalos Sifrhippus, havia indivíduos de diferentes tamanhos, mas com uma média de 6Kg. Com o aumento gradual da temperatura, os cavalos que eram ligeiramente mais pequenos tinham algumas vantagens de sobrevivência (se calhar, por exemplo, porque comiam menos vegetação ou eram menos propensos a doenças – especulação minha!). Sobreviviam portanto durante mais tempo, reproduziam-se melhor e tinham mais descendentes. Esses descendentes herdavam as características dos progenitores e eram, portanto, também pequenos. Ao longo de milhares de anos, o resultado que hoje observamos é que o tamanho médio da espécie diminuiu. Não porque os indivíduos diminuíram de tamanho, mas porque a proporção de indivíduos de tamanho mais pequeno na população foi aumentando significativamente, mudando o tamanho médio observado. Com as mudanças ambientais posteriores em sentido contrário, o tamanho voltou a aumentar.

Mas não foram os indivíduos acalorados que encolheram!


NOTA: Para melhor perceber a evoluçao biológica, podem recorrer a este site de referência: Understanding evolution

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Divulgar a Evolução


Por vários dos autores serem biólogos, já aqui escrevemos sobre sobre a temática da evolução das espécies e sobre o naturalista Charles Darwin. Já apresentámos textos explicativos e já sugerimos a leitura de excelentes livros de divulgação sobre o tema. Trago agora um vídeo musical para complementar os trabalhos anteriores, que merece ser visionado.
No video em baixo reecontramos o grande divulgador de ciência David Attenborough, a quem já nos habituámos a ver e a ouvir nos documentários da BBC sobre a vida selvagem; e o biólogo britânico Richard Dawkins. O título da música, "The Greatest Show on Earth", é uma homenagem ao trabalho de divulgação de Dawkins, que escreveu um livro com o mesmo nome, em 2009. O livro está traduzido para português, com o título "O espectáculo da vida".



terça-feira, 15 de novembro de 2011

Naturalista britânico aos tiros em Portugal


Reproduz-se aqui um texto da minha autoria, publicado hoje no Diário de Coimbra, no âmbito do projecto "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva". Trata-se de uma apreciação do livro "Darwin aos tiros... e outras histórias de ciência". Actualmente encontra-se no Top10 da FNAC (8º lugar), comprovando que o público interessa-se cada vez mais por ciência.


“Darwin aos Tiros”

Por João Lourenço Monteiro (Biólogo)

"Foi muito recentemente publicado o livro de divulgação científica “Darwin aos Tiros e outras Histórias de Ciência”, da autoria do professor de Física da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais e do Bioquímico David Marçal.

Se o leitor é um ávido curioso pela Ciência e pela História, então vai encontrar aqui o melhor dos dois mundos, desvendando os segredos da História de várias disciplinas como a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química, a Geologia, a Biologia, a Medicina e ainda um alerta para as pseudociências. As pseudociências são crenças que se pretendem valorizar alegando basear-se em factos científicos, mas que na realidade não têm qualquer apoio por parte da ciência, sendo os exemplos mais conhecidos a astrologia ou a homeopatia.

Na apresentação do livro, que teve lugar em Lisboa, o editor Guilherme Valente relatava um telefonema que havia recebido do professor Fiolhais, em que o lente afirmara que estava a preparar um novo livro que seria um tiro; qual não foi o espanto do editor quando recebeu um esboço do livro intitulado “Darwin aos Tiros”. Afinal o professor de Física, a brincar, falava a sério.

Importa esclarecer a origem do título: Charles Darwin foi um importante cientista britânico do século XIX, que realizou uma circum-navegação ao globo na qual aproveitou para estudar várias espécies da fauna e flora mundiais. Como a viagem demorou cinco anos e a tripulação não levava mantimentos suficientes, era necessário capturar algumas das espécies que iam encontrando, para servirem de alimento. Nessas situações, Darwin demonstrou que não era apenas um cientista curioso e atento, mas também um exímio caçador. E mais não revelo, para não estragar o prazer da descoberta.

De salientar que a ciência relatada no livro também teve origem em Portugal, com cientistas do calibre de Pedro Nunes, Amato Lusitano, Diogo de Carvalho Sampayo, Garcia de Orta, sem esquecer, como recordam os autores, o importante papel que tem tido a Universidade de Coimbra, formando ou acolhendo muitos dos notáveis aqui mencionados.

Neste livro, a História das Ciências é contada aos leitores em jeito de breves estórias, e com uma certa dose de sentido de humor, o que tornará a leitura desta obra, creio, bastante agradável. Nestes dias frios e chuvosos, em que nos vemos forçados a permanecer grande parte do tempo na clausura do nosso lar, este livro promete ser uma companhia prazenteira. Boas leituras."

sábado, 20 de agosto de 2011

Teresa Avelar e a Evolução das Espécies


Como os leitores do blog puderam acompanhar nos últimos meses, lendo os nossos textos, decorreu no Porto a exposição científica “A Evolução de Darwin”, que terminou no dia 17 de Julho. Posso dizer que foi um sucesso, repetindo o que acontecera em Lisboa (2009), na Fundação Calouste Gulbenkian.

Serve isto para dizer que do contacto que estabeleci com as pessoas, concluo que estas encontram-se extremamente receptivas a exposições de cariz científico, e que possuem um entendimento razoável desta temática particular da evolução das espécies. De facto, o conhecimento geral está presente na visão que as pessoas têm desta importante teoria, o que falha são alguns pormenores, alguns detalhes – que obviamente não se espera que o público em geral domine, mas para isso é que existem exposições como esta e bibliografia de divulgação disponível, para informar e esclarecer.

No que concerne a bibliografia, existem inúmeros livros estrangeiros sobre o tema publicados em Portugal, e muitos deles já traduzidos, mas não são esses que vou abordar hoje. Tenciono divulgar duas obras de uma cientista portuguesa, a professora universitária Teresa Avelar, que tem dedicado boa parte do seu tempo a esclarecer esta temática importante não só para a Biologia, como para todos nós, pois elucida-nos sobre a natureza que nos rodeia.

O primeiro livro que vou abordar é “Evolução a duas vozes” (2009), escrito em colaboração com o padre e teólogo Joaquim Carreira das Neves. Quando menciono este livro junto do público, sou frequentemente interpelado com a afirmação de que se tratará de uma visão evolucionista (T. Avelar) e outra criacionista (J. C. das Neves). Ora, nada mais errado, porque, como logo explico às pessoas, o padre não defende uma visão criacionista, assim como a igreja católica também não o faz. Já agora, esta visão não é apenas característica do catolicismo, mas também de outras variantes cristãs, algumas protestantes (1). Ou seja, para as religiões tolerantes, e que estão abertas a um diálogo com a esfera científica, existe uma aceitação e compreensão desta temática, aceitando a evolução como um facto, que é – actualmente não se faz uma interpretação literal do Génesis, o primeiro livro da Bíblia (2). Na minha opinião, este é um dos livros mais importantes publicados em Portugal sobre esta temática, pois, de um lado, a professora Teresa Avelar explica de um modo claro as ideias da Teoria da Evolução das Espécies, e, noutro lado, o padre J. Carreira das Neves transmite a visão da religião sobre o mesmo tema, assim como sobre a interpretação do Génesis. As duas opiniões em conjunto contribuem para um necessário esclarecimento da sociedade, através de uma leitura acessível a qualquer público.

Outro livro da autoria da professora universitária é intitulado “A Evolução culminou no Homem?” (2010), que pretende desmistificar alguns preconceitos e elucidar sobre os pormenores, os tais detalhes que mencionei acima, sobre a evolução. O título, bastante sugestivo, reflecte a crença generalizada de que o homem é a espécie “mais evoluída” (??) e que a evolução culminou no homem, o que é um erro. Se por mais evoluído entendermos mais complexo, então é necessário dizer que estruturas é que se estão a comparar e com que seres vivos. Por exemplo, a nível genético as plantas possuem mais cromossomas que os seres humanos, nessa perspectiva são mais complexas. Além disso, a evolução não se dá de forma linear começando nas bactérias e acabando nos humanos, a evolução é ramificada (este tema já foi aqui abordado, em textos anteriores). Este é um excelente livro para quem pretende complementar o seu conhecimento desta temática.(3)

Estes livros encontram-se facilmente à venda na FNAC ou na Bertrand, assim como no WOOK:

Notas:
(1) – ler Richard Dawkins, “O Espectáculo da Vida – a prova da evolução”, Casa das Letras, 2009 – no capítulo 1.

(2) – A excepção vai para alguns círculos cristãos menos informados, e para uma corrente Evangélica com bastante peso nos Estados Unidos da América.

(3) – Teresa Avelar é ainda co-autora de “Quem tem medo de Charles Darwin” (2004), da Relógio d’Água, e de “Evolução e Criacionismo – Uma relação impossível” (2007), da Quasi Edições. Neste último livro, a maioria dos capítulos são da sua autoria. Também traduziu a "Autobiografia" de Charles Darwin.

sábado, 9 de julho de 2011

"A Evolução de Darwin"

Informa-se que está quase a terminar a exposição "A Evolução de Darwin", no Porto (termina no dia 17 de Julho). Esta exposição, embora semelhante à que decorreu em Lisboa, em 2009, apresenta algumas diferenças, pelo que será interessante revisitá-la, ou dar uma saltada ao Porto se não teve oportunidade de a ver na Fundação Calouste Gulbenkian.

A exposição encontra-se dividida em quatro partes: a primeira parte permite fazer uma contextualização das ideias relacionadas com a visão da vida antes do século XVIII até ao século XIX; a segunda parte dá-nos a conhecer o jovem Charles Darwin, o que estudou, por onde viajou, como chegou à sua teoria da Evolução por Selecção Natural, e que outros trabalhos publicou; a terceira parte relaciona-se com os contributos da genética para esta temática; e na quarta parte, localizada nas estufas do jardim botânico, é possível encontrar animais vivos, como as suricatas, peixes-saltadores-do-lodo (que respiram dentro e fora de água) e tatus, entre muitos outros animais.

Como já foi mencionado neste blog, existem diferenças consideráveis entre esta exposição e a que esteve patente em Lisboa. Esta fica situada na Casa Andresen (que pertenceu aos familiares da escritora Sofia de Mello Breyner Andresen), em pleno Jardim Botânico do Porto, portanto, um espaço por si só admirável tanto do ponto de vista cultural como científico. Os animais embalsamados em exposição são provenientes do Museu de História Natural do Porto. Na secção dedicada à evolução humana há mais informações sobre este tema. Para além de tudo isto, existe ainda uma sala dedicada à aceitação das ideias darwinistas em Portugal na transição do século XIX para o século XX. Existem, portanto, razões de sobra para visitar esta exposição. Venha sozinho, traga os seus amigos, ou a sua família. Verá que vale a pena.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O olho humano e a complexidade irredutível


A propósito deste artigo publicado na revista Scientific American(1), esta parece-me uma boa ocasião para,
uma vez mais, desmistificar esta falsa questão: como foi possível a evolução do olho humano?

Segundo os proponentes do ‘Design Inteligente’ e do conceito de ‘Complexidade Irredutível’, o olho humano seria o exemplo perfeito de uma estrutura que não funcionaria sem todas as suas partes e, portanto, com uma complexidade irredutível, que não pode ser reduzida em nenhum dos seus componentes sem o risco de deixar de cumprir a sua função por completo.

Já em 1987, Richard Dawkins, no seu documentário The Blind Watchmaker(2), deitava por terra este argumento, demonstrando com uma simples experiência de óptica como era possível, em pequenos passos, chegar desde uma estrutura foto-receptora simples até ao complexo olho dos vertebrados (e do polvo).


(ver min 7:55)


Em 2010, Dawkins volta a abordar esta questão neste programa da BBC:



Na verdade, como o Prof. Dawkins bem explica, no reino animal encontramos espécies com diferentes graus de desenvolvimento das suas estruturas foto-receptoras (os olhos). Por si só, uma evidencia da evolução do olho.

Ainda assim, este argumento de William Paley continua a ser usado pelos criacionistas (disfarçados de 'cientistas da criação') como evidência da existência de um designer para a vida e, desta forma, negarem a teoria da evolução.

O artigo supracitado apresenta uma série de resultados científicos obtidos ao longo dos últimos anos na área da embriologia e da genética que inclusivamente sugerem que “o nosso olho ‘tipo-câmara’ tem uma origem muito mais antiga que o até agora suposto e que, antes de operar como um órgão visual, servia como um detector de luz que modulava os ritmos circadianos dos nossos distantes ancestrais”.

Será que desta vez, definitivamente, se abandona o uso desta “prova” pseudo-científica a favor do Criacionismo (perdão, Design Inteligente)?


Referências:

(1) Lamb, T. D. 2011. Evolution of the Eye. Scientific American July

(2) The Blind Watchmaker, 1987. BBC. [Também em livro: Dawkins, D. 1986. The Blind Watchmaker: Why the Evidence of Evolution Reveals a Universe without Design. W. W. Norton & Company, 496pp]

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Os Fabulosos Grant: A Selecção Natural e a Especiação



No passado Sábado passado tive ocasião de assistir uma vez mais a uma excelente palestra de Peter e Rosemary Grant, desta feita na Fundação de Serralves, no Porto (evento organizado pelo CIBIO-UP no âmbito da exposição 'A Evolução de Darwin'). Este casal de investigadores ingleses, professores da Universidade de Princeton nos EUA, ficarão para sempre associados ao estudo dos tentilhões de Darwin, os interessantes tentilhões das Ilhas Galápagos. E esse lugar na história da ciência é bem merecido.








Desde a década de 70 do século passado, ano após ano, o casal muda-se para a pequena ilha desértica Daphne Maior durante vários meses. Aí, seguiram ao pormenor as populações de três das catorze espécies de tentilhões que povoam este arquipélago, capturando e anilhando milhares de indivíduos, medindo-os e retirando amostras de sangue que permitiram fazer um seguimento fisiológico e genético destes pequenos pássaros. Com este estudo detalhado puderam verificar a acção “em directo” da selecção natural, devida às brutais variações climáticas que sofrem estas ilhas, principalmente no que diz respeito à pluviosidade.



Em 1977, por influência do El Niño, a ilha sofreu uma seca extrema e 80% da população de tentilhões desapareceu. Que indivíduos é que sobreviveram? Aqueles que tinham o bico maior, mais forte, que lhes permitia quebrar os duros frutos da planta do género Tribolium e chegar às suas sementes, o único alimento disponível. Estes investigadores assistiram em poucos anos, à mudança de morfologia na população de Geospiza scandens nesta ilha. Alguns anos mais tarde, em 1984-85 a intensa pluviosidade levou de novo a uma mudança extraordinária na flora da ilha, a ponto de os tão típicos cactos ficarem imersos em trepadeiras. Nesta ocasião, a acção da selecção natural levou a um processo inverso: desta vez, tinham vantagem os pássaros com o bico mais pequeno que podiam aproveitar todas as pequenas sementes das plantas que floresceram com a chuva…e de novo, a morfologia da espécie mudou nas gerações seguintes.



Esta parte da história é possivelmente já bem conhecida por muitos leitores deste blog. Um pouco menos conhecida será a respeitante aos trabalhos que têm desenvolvido nos últimos anos a respeito dos processos de especiação que parecem estar a ter lugar nesta pequena ilha.



Em Daphne Maior existem três espécies de tentilhões: Geospiza scandens, Geospiza fortis (tentilhão-terrestre-de-bico-médio) e, chegada mais recentemente, Geospiza magnirostris (tentilhão-terrestre-de-bico-grande). G. magnirostris destaca-se bem das outras duas pelo seu tamanho (pesa cerca de mais 10 gr em média). G. scandens e G. fortis têm tamanho (aproximadamente 20 gr) e aspectos similares, mas variam na forma e tamanho do seu bico.











Para além disso, os machos das três espécies cantam canções completamente diferentes. Estes investigadores puderam verificar que G. scandens e G. fortis mantinham o isolamento reprodutivo com um bom reconhecimento específico tanto a nível da morfologia como da canção. Durante vários anos, não foram encontrados híbridos destas duas espécies. As poucas excepções de hibridação davam-se quando uma cria macho aprendia, por engano, a canção de outra espécie (por exemplo, se o seu pai falecesse e ela ouvisse a canção de um “pai vizinho”). Este macho iria crescer a cantar a canção errada e portanto poderia acasalar com uma fêmea de outra espécie. Ainda assim, na maior parte dos casos, estes machos eram atacados pelos outros (da espécie “verdadeira”) quando cantavam, não chegando a reproduzir-se.



Mas houve uma excepção! Há alguns anos, os Grant detectaram um novo indivíduo, não marcado, com características diferentes: era maior que um G. scandens ou G. fortis, mas não tão grande como um G. magnirostris; todo negro; e cantava uma canção completamente nova. Como todos os indivíduos da ilha estavam marcados e os seus marcadores genéticos tinham sido analisados, “facilmente” foi possível comprar este desconhecido com o resto da população. Seria ele um emigrante de outra ilha? Não. Verificaram que este era um híbrido entre G. scandens ou G. fortis, maior, mais forte, com uma nova canção e com hábitos alimentares absolutamente generalistas. Tudo indicava ser um caso de ‘vigor híbrido’. Mas seria ele capaz de se reproduzir? Pois parece que sim. Agora, após sete gerações seguidas atentamente pelos investigadores e a sua equipa, tudo indica que este indivíduo deu origem a uma nova linhagem, quiçá uma nova espécie! Após um primeiro retrocruzamento (backcross) com uma das espécies parentais, a descendência tem vindo a acasalar entre si, dando indicação da existência de isolamento reprodutivo em relação às espécies parentais. Um caso raro de especiação por fusão (em vez de fissão).



E isto leva rapidamente à pergunta: mas então se duas espécies hibridaram não são “verdadeiras espécies”, não é? E aí entra a complicada explicação de “o que é uma espécie”? Nós temos tendência a querer ter o conhecimento bem organizadinho e ordenado em categorias fáceis de identificar. E o esforço na definição de espécie é um belo exemplo disso. Mas, na verdade, a natureza não é organizada e ordenada, mais bem o contrário. Então, não faz sentido falar em espécie como categoria? Faz. Os seres vivos, na sua maioria, parecem discriminar entidades que grosso modo coincidem com o nosso conceito de espécie mais comum: populações de indivíduos semelhantes que estão reprodutivamente isoladas de outras populações. No entanto, há excepções a esta norma e as excepções são bem-vindas porque são elas próprias sinais da evolução! As espécies, e as populações que as constituem, não são entidades estáticas. Se o fossem, não existiria evolução. E, como Peter Grant bem explicou no Sábado, seria uma simplificação brutal deixar de chamar “espécie” a muitos grupos em que se verificou fenómenos de hibridação; seria até um desrespeito pela sua história e complexidade evolutiva. E eu estou plenamente de acordo com a sua resposta.



Bravo!



Se quiser descobrir mais detalhes, consulte:

Evolution of character displacement in Darwin's finches

Fission and fusion of Darwin's finches populations

The secondary contact phase of allopatric speciation in Darwin's finches

Songs of Darwin's finches diverge when a new species enters the community