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quarta-feira, 21 de março de 2012

Os erros do bispo


No dia 13 de Março, D. António Vitalino Dantas, bispo de Beja, foi notícia em vários jornais devido aos seus comentários sobre o período de seca que estamos a viver (sigo a notícia do site da Rádio Renascença aqui). As afirmações do bispo deixaram-me boquiaberto, tamanha a ignorância revelada pelo mesmo. Bom, façamos uma análise cuidada das suas sentenças, ponto a ponto.

1) Primeiro dá a entender que as orações trazem chuva, o que reflecte uma superstição bacoca. Tentemos explicar ao senhor bispo o que qualquer criança de 10 anos sabe: o ciclo da água.
Devido ao calor fornecido pelo sol, a água dos rios, lagos e oceanos evapora formando nuvens; assim, a água fica armazenada no estado gasoso na atmosfera. Quando estiverem reunidas as condições atmosféricas de temperatura e pressão verifica-se a precipitação sob a forma de água, neve ou granizo, voltando a água aos rios, lagos e oceanos, completando o ciclo. A água que ficar retida nos solos também é importante para o desenvolvimento das plantas, libertando vapor de água durante a fotossíntese, ou para os animais que também libertam vapor de água na respiração e transpiração. Assim se completa o ciclo (ver imagem abaixo). Como se pode ver, neste processo natural não entram orações, e mesmo se entrassem o resultado seria ineficaz.

Ficheiro:Ciclo da água.jpg
Imagem retirada daqui

2)  Como referido pela RR, segundo o bispo, os agricultores têm mais esperança nos subsídios da União Europeia do que em deus: "(...) a maioria da população não acredita na providência divina, mas somente na previdência de Bruxelas". - Eis o meu comentário: e fazem os agricultores muito bem. Nem quero pensar na desgraça que seria se os agricultores estivessem à espera que deus (qualquer um deles) viesse resolver os problemas; da UE pode não vir chuva, mas podem vir subsídios para alimentar famílias. Ou seja, o comentário do bispo, é de uma enorme irresponsabilidade, caso houvesse alguém que fizesse caso do que diz. No entanto, isto deixa-me cheio de esperança, pois mostra a todos que os portugueses têm espírito crítico, sabem pensar por si, e já não seguem cegamente o clero.

3) Não fosse tudo isto suficiente, o bispo continua a insultar a inteligência dos portugueses e a mostrar a sua crendice e obscurantismo, agora referindo-se a Fátima! Segundo o mesmo, os católicos dão menos atenção à Bíblia e à virgem Maria, pelo que afirma, e cito: “Afinal, as recomendações de Jesus no evangelho e de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima, pedindo oração e sacrifícios pela conversão dos pecadores e pela paz no mundo não encontram eco nos nossos ouvidos”. A isto eu digo: pois não, felizmente não encontram eco nos nossos ouvidos.
Será que o bispo pretende ressuscitar a mentira de Fátima? Será que o bispo espera que os portugueses acreditem que o sol bailou na Cova da Iria (fenómeno impossível de acontecer)? E que acreditem que apareceu por lá a virgem Maria, apesar dos inúmeros relatos que afirmam que não aconteceu nada? Pretende que os pobres dos portugueses continuem a gastar as suas parcas poupanças em peregrinações e no negócio de Fátima, em vez de investirem esse dinheiro nas suas vidas pessoais?
Passemos a voz a quem sabe. Termino com um comentário de um padre português:
 


Fontes:
- Site da RR: "Bispo de Beja lamenta falta de orações por chuva"
Outras leituras:
- Luis Filipe Torgal, "As aparições de Fátima", Temas e Debates
- Tomás da Fonseca, "Na cova dos leões", Antígona  

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O olho humano e a complexidade irredutível


A propósito deste artigo publicado na revista Scientific American(1), esta parece-me uma boa ocasião para,
uma vez mais, desmistificar esta falsa questão: como foi possível a evolução do olho humano?

Segundo os proponentes do ‘Design Inteligente’ e do conceito de ‘Complexidade Irredutível’, o olho humano seria o exemplo perfeito de uma estrutura que não funcionaria sem todas as suas partes e, portanto, com uma complexidade irredutível, que não pode ser reduzida em nenhum dos seus componentes sem o risco de deixar de cumprir a sua função por completo.

Já em 1987, Richard Dawkins, no seu documentário The Blind Watchmaker(2), deitava por terra este argumento, demonstrando com uma simples experiência de óptica como era possível, em pequenos passos, chegar desde uma estrutura foto-receptora simples até ao complexo olho dos vertebrados (e do polvo).


(ver min 7:55)


Em 2010, Dawkins volta a abordar esta questão neste programa da BBC:



Na verdade, como o Prof. Dawkins bem explica, no reino animal encontramos espécies com diferentes graus de desenvolvimento das suas estruturas foto-receptoras (os olhos). Por si só, uma evidencia da evolução do olho.

Ainda assim, este argumento de William Paley continua a ser usado pelos criacionistas (disfarçados de 'cientistas da criação') como evidência da existência de um designer para a vida e, desta forma, negarem a teoria da evolução.

O artigo supracitado apresenta uma série de resultados científicos obtidos ao longo dos últimos anos na área da embriologia e da genética que inclusivamente sugerem que “o nosso olho ‘tipo-câmara’ tem uma origem muito mais antiga que o até agora suposto e que, antes de operar como um órgão visual, servia como um detector de luz que modulava os ritmos circadianos dos nossos distantes ancestrais”.

Será que desta vez, definitivamente, se abandona o uso desta “prova” pseudo-científica a favor do Criacionismo (perdão, Design Inteligente)?


Referências:

(1) Lamb, T. D. 2011. Evolution of the Eye. Scientific American July

(2) The Blind Watchmaker, 1987. BBC. [Também em livro: Dawkins, D. 1986. The Blind Watchmaker: Why the Evidence of Evolution Reveals a Universe without Design. W. W. Norton & Company, 496pp]

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Resgatando uma vítima do terramoto de 1755


Esta imagem pintada a óleo que se encontra na exposição permanente do Museu da Cidade de Lisboa, é um ex-voto da segunda metade do século XVIII. Um ex-voto consiste numa oferenda a uma divindade, em agradecimento por uma graça concedida em tempos difíceis. Para os Católicos, tem expressão num objecto primeiramente prometido e depois oferecido a Deus, a Nossa Senhora ou aos Santos, agradecendo uma prece formulada e por algum d' Eles atendida. No caso em apreço, Leonardo Rodrigues, provavelmente residente em Lisboa, dedica esta pintura a Nossa Senhora da Estrela, por ter conseguido encontrar a filha de três anos com vida, entre as ruínas da sua habitação, na sequência do terramoto de 1 de Novembro de 1755. O texto que acompanha a imagem (abaixo reproduzido) é uma expressão notável da fé católica e, pode pensar-se, a súplica deste homem terá tido a atenção dos Céus. Todavia, Leonardo Rodrigues não ficou inactivo: fez a sua promessa e depois pôs-se a procurar a filha, o que lhe demorou sete horas. Isto prova que, para aqueles que têm fé, é mais saudável pensar que a divindade tem um papel, mas que o crente também, pois os desejos não se devem esgotar nas preces. O quadro representa essa mesma ideia: um grupo de homens (entre os quais figurará o pai da criança) removendo os obstáculos das ruínas, com o patrocínio de Nossa Senhora que aparece no canto superior esquerdo.

"A nossa Senhoª da Estrella/voto que no terremoto de 1755 fez/Leonardo Rodrigues; porque fal/tando-lhe huma filha de 3 anos/invocando ajudª Santissima a achou depo/es de 7 horas nas ruinas das su/as cazas com huma tão perigosa/ferida na cabeça, que atribue a sua/vida à intercessão da Soberana/Senhora."

A imagem e a frase vêm reproduzidas no site do Museu da Cidade de Lisboa: http://www.museudacidade.pt/Coleccoes/Pintura/Paginas/Ex-voto-a-Nossa-Senhora-da-Estrela.aspx.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Fanatismo Religioso

O pastor norte-americano, Terry Jones, de uma pequena igreja evangélica, Dove World Outreach Centre de Gainesville, Florida, decidiu assinalar o 9º aniversário do atentado às Torres Gémeas queimando cópias do Corão, livro sagrado dos muçulmanos. Afirma que pretende “enviar uma mensagem clara aos radicais de que não seremos controlados nem dominados pelos medos nem pelas ameaças”, segundo noticia o jornal i (1). – Agora pergunto eu, quem é que está a ser radical?

Os líderes de várias religiões já se manifestaram. O Vaticano, preocupado, já condenou esta iniciativa afirmando que todas as religiões merecem ser respeitadas (2). O líder religioso da comunidade islâmica em Portugal considera esta atitude um desrespeito pela religião, mas acredita que "no mundo os muçulmanos irão reagir pacificamente e com prudência, fazendo orações a deus para que não haja distúrbios nem complicações nas relações entre países islâmicos e o ocidente", citado pelo jornal Diário de Notícias (3).

O governo norte-americano também já se manifestou, argumentando que se a vontade do pastor persistir, o exército americano no mundo árabe pode correr perigo.

Deixo aqui algo para pensarmos: Uma pessoa é cristã porque foi educada numa cultura cristã. Se essa mesma pessoa tivesse nascido e crescido numa cultura árabe, provavelmente seria muçulmana. Não existe nenhuma religião que seja a correcta. Ainda para mais, tendo em conta que as três religiões ocidentais (Judaísmo, Cristianismo e Islão) têm a mesma origem na cultura Semita (como já referido neste blog). Este fanatismo religioso (seja muçulmano ou cristão) resulta da ignorância das pessoas. Por isso a educação é de extrema importância. Para quando um mundo tolerante? Para quando um respeito sério pela Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Termino com uma frase do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Aqueles que queimam livros, acabam por queimar homens”.

(1) - Jornal i, Quarta-feira, 8 Setembro 2010, Ano 2, nº 418, p. 12
(2) - Correio da Manhã, Quinta-feira, 9 Setembro 2010 – versão on-line consultada http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/vaticano-contra-queima-do-corao  
(3) – Diário de Notícias, versão on-line http://dn.sapo.pt/Inicio/interior.aspx?content_id=1658900 consultado no dia 9-9-2010.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Às portas do paraíso

“Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso” (2009), é um livro escrito por Thomas Cathcart and Daniel Klein que explica, através de um diálogo repleto de humor, as reflexões filosóficas de vários pensadores ocidentais sobre a vida, a morte, e a vida depois da morte.
Este é um livro interessante para quem se questiona sobre os temas analisados ou para quem quer conhecer um pouco mais de filosofia. Esta disciplina é aqui tratada de um modo informal e acessível a qualquer leitor. É possível encontrar neste livro o registo de vários filósofos tais como Platão, Descartes, Espinosa, Heidegger, Nietzsche, Camus, Sartre e até mesmo B. Russel.
O capítulo que mais me interessou talvez tenha sido o que faz referência ao conceito de Céu, ou Paraíso. Os autores tentaram compreender a origem deste conceito, e de como evoluiu até às várias concepções que fazemos do mesmo. Por exemplo, analisando o Antigo Testamento constataram que os Hebreus não tinham qualquer noção do que hoje chamamos “Céu” nem da vida depois da morte. Segundo aos autores, quando o profeta Daniel fala de “vida eterna”, refere-se-lhe em termos de ressurreição (1).
Já no Novo Testamento, quando Jesus se refere ao “Reino dos Céus”, ele quer dizer Reino de Deus. Mas como os primeiros cristãos tinham origem judaica, não usavam o nome de Deus por ser considerado demasiado sagrado (2). Assim, o Reino dos Céus, em vez de ser considerado um lugar, deve ser tido em conta como um tempo, um tempo futuro, em que a vontade de Deus se tornaria aceite por todas as pessoas. Como esclarecem os autores, aquando da oração “venha a nós o vosso reino”, entender-se-á venha a nós esse tempo de Deus connosco (3).
Toda esta análise continua até encontrarmos outra ideia que facilmente reconhecemos no nosso imaginário colectivo: S. Pedro com as chaves do Paraíso. Segundo os escritores deste livro, esta ideia surge da junção de duas passagens bíblicas: Jesus diz que dará a Pedro as “chaves do reino dos céus”(4), no Evangelho de S. Mateus; e, de acordo com as visões de João no Livro do Apocalipse, na Nova Jerusalém encontram-se doze portas, sendo cada uma delas paradisíaca – daqui chegamos à imagem de S. Pedro às portas do paraíso.
Também o conceito da estética do Céu varia. Há quem o imagine como um local suspenso nas nuvens, ou então como um magnífico prado relvado. Ambas as imagens chegam ao nosso imaginário colectivo através de representações artísticas da Idade Média e do Renascimento (5). Esta visualização depende ainda da seita ou religião seguida por determinada pessoa.
É claro que o livro aborda outras questões e as várias abordagens por parte dos filósofos ao longo do tempo. A título de exemplo, podemos encontrar as questões sobre o que é viver a vida, a problemática do absurdo da vida, o tema do suicídio, reflexão sobre as vantagens e desvantagens da imortalidade, a relação entre as novas tecnologias e as ciências da saúde, e outros temas.

Fonte:
Cathcart, T. & Klein, D., “Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso”, Publicações D. Quixote, Alfragide, 2010 – tradução de Isabel Veríssimo

Para saber mais:

Notas:
(1) – Como explicado pelos autores, é um regresso à vida, e não a continuação da vida noutro lugar.
(2) – Lembrar de um dos mandamentos do Antigo Testamento, o de não invocar o nome de deus em vão.
(3) – O texto referente a esta discussão pode ser encontrado em: T. Cathcart & D. Klein (2010), pp. 132-143.
(4) – O que se deveria entender é que Pedro iria ter um papel importante no anúncio do novo tempo, ou nova era.
(5) T. Cathcart & D. Klein (2010), pp. 148-164.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O estranho caso do padre ateu

Muito brevemente, refiro a existência de um livro intitulado “Deus maldito” (1999), escrito pelo teólogo Hermínio Araújo. O próprio título é um irónico jogo de palavras, dirigido aos que fazem uma interpretação literal da bíblia (ou seja, uma interpretação incorrecta) (1), encontrando nela, assim, um deus maldito. Isto porque o deus do Antigo Testamento aparenta ser uma entidade vingativa, que castiga e que destrói (em oposição do deus do novo testamento) (2). Defende o teólogo que esta é uma descrição incorrecta do deus cristão, logo, deus torna-se mal dito (ou, como salienta, dito mal). Deste modo, o padre assume-se como ateu, mas ateu perante este deus “mal dito”. Informa o padre que o verdadeiro deus cristão é um deus de amor e de perdão, e é neste deus que ele crê.

Trata-se de um livro bastante curto e com informação sucinta. São sete os capítulos: 1 –Sou ateu; 2 – Deus inútil; 3 – Deus impotente; 4 – Deus imoral; 5 – Deus injusto; 6 – Deus ilógico; 7 – Amor maldito. Esta técnica, utilizada na apresentação dos capítulos, é a mesma usada em alguns sermões para que a audiência se questione e preste atenção ao modo como o orador explicará as suas afirmações (recordar sermões do padre António Vieira). Assim, o padre desmistifica (ou justifica) cada um dos títulos, ou as concepções erradas de deus.

O padre franciscano escreveu este livro com o intuito de apresentar “tópicos para uma reflexão teológica”(3).

Sobre o autor do livro:
“Frade e padre franciscano. Licenciado em teologia (Lisboa) e especializado em ética teológica (Roma). Reitor do Seminário das Missões Franciscanas. Assistente Nacional da Juventude Franciscana Portuguesa e Capelão da Clínica Psiquiátrica de S. José.” (4)

Fonte:
Araújo, H., “Deus maldito”, Editorial Franciscana, Lisboa, 1999

Notas:
(1) – A Bíblia é um conjunto de livros com uma escrita simbólica, não devendo ser interpretada literalmente. Na introdução da maioria das Bíblias (pelo menos nas católicas) vem a informação de que as mesmas não servem como livros de história nem de ciências, são livros de religião, logo, apenas de crenças. A sua interpretação literal (ou de qualquer livro sagrado) tende a levar ao fanatismo religioso.
(2) – O Antigo Testamento tem uma origem na cultura Semita, e é comum às três religiões ocidentais, a saber: judaísmo, cristianismo e islamismo. O Jesus histórico vem criar uma ruptura epistemológica com esta religião e apresentar uma nova doutrina e, por conseguinte, uma nova cultura, logo, também uma nova visão de deus – o deus cristão.
(3) – Hermínio Araújo (1999), p. 9
(4) – Idem, p. 5