terça-feira, 3 de julho de 2012

A vida "marciana" da Terra


Alguns dos locais mais inóspitos do nosso planeta podem ter características que se assemelhem àquelas de Marte. A descoberta de vida nestes locais permite fazer algumas especulações sobre putativas formas de vida que poderiam viver nesse mítico planeta. Esse é um dos campos de estudo da Astrobiologia, o ramo da ciência que procura compreender a origem das moléculas que funcionam como material de construção dos seres vivos, como estas se combinam para gerar a vida, como e onde pode surgir a vida (e quais as interacções entre estes seres vivos "primitivos" e o seu meio ambiente) e como é possível que a vida se expanda para além do seu local de origem. A Astrobiologia é, portanto, muito mais que a procura de sinais de vida fora do nosso planeta.

Uma das vertente vulcânicas de Atacama (Crédito: Steve Schmidt)

A novidades que nos chega dos EUA é que foram encontrados mais um conjunto de organismos extremófilos que vivem nas encostas de vulcões, com condições de tal forma inóspitas que são comparáveis às do planeta Marte. Os extremófilos, como o nome indica, são seres vivos que vivem em condições extremas, isto é, onde a maior parte dos outros organismos morreriam.

Desta feita, um grupo de cientistas da Universidade de Colorado - Boulder estudou os solos de vários vulcões na região de Atacama (América do Sul) e, para sua surpresa, descobriu indícios de vida nesse terreno extremamente seco e inóspito, a mais de 6000 metros acima do nível do mar. O trabalho foi publicado na revista científica Journal of Geophysical Research.

Os microorganismos encontrados são fungos, bactérias e arquea. As arquea eram anteriormente chamadas de arqueobactérias, porque se pensava que fossem um tipo de bactérias já que, como estas, também são diminutos seres unicelulares sem núcleo ou organelos. Mas, com o advento dos estudos de genética molecular, descobriu-se que eram seres completamente diferentes e que, ainda que remotamente, estavam mais aparentados com os seres humanos do que com as bactérias. As arquea são também famosas por serem frequentemente encontradas em ambientes extremos, como o fundo dos oceanos ou efluentes extremamente ácidos de minas.

Estas novas espécies agora descobertas vivem num ambiente com variações diárias de temperatura que podem superar os 70°C, radiação UV muito intensa (o dobro da medida num deserto "típico" de baixa altitude) e um solo paupérrimo em nutrientes (por exemplo, os níveis de azoto são tão baixos que não é detectável pelos instrumentos de medição usados). Não foram encontrados seres fotossintéticos, que consigam usar a energia do Sol, e portanto especula-se sobre qual será a fonte de energia que alimenta este débil ecossistema microbiano. É possível que usem uma fonte química de energia, com base no monóxido de carbono e gases de enxofre, mas esta é ainda uma hipótese por comprovar.

Para além de esta poder ser uma importante descoberta para a Astrobiologia, tem também o potencial de poder levar à descoberta de novas formas de obtenção de energia.

Sem comentários: