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domingo, 19 de junho de 2011

O Castelo de Cartas, de Chardin


Na imagem, quadro de Jean Baptiste Simeon Chardin (1699-1779), O Castelo de Cartas, óleo sobre tela, 60x72 cm, National Gallery of London, 1736-37. Natural de Paris, onde também faleceu, Chardin pintou naturezas-mortas e cenas da vida quotidiana. Os temas do dia-a-dia e o tratamento das cores, que compõem o intimismo dos interiores domésticos, recordam Vermeer (1632-1675). Quadros como o que aqui se reproduz, podem, pelo seu realismo, conter boas informações para a concretização de outras fontes que sejam menos claras e menos visualizáveis. A imagem vem da Web Gallery of Art: http://www.wga.hu/.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Artistas Rebeldes




A primeira geração formada na Academia de Belas Artes de Lisboa (criada em 1836) fez-se representar em 1855, pelo pintor João Cristino da Silva, pintando ao ar livre. “Cinco Artistas em Sintra” representa um acto de revolta liderado por Tomás da Anunciação contra o Mestre Manuel da Fonseca (professor durante 2 gerações na Academia em Lisboa) e contra a falta de recursos financeiros necessários para o investimento dos artistas-aprendizes. Tomás da Anunciação, João Cristino da Silva, José Rodrigues, Francisco Metrass e Vitor Bastos (o único escultor do grupo de pintores) reinvindicam assim a vontade de pintar sobre o motivo (pintar ao ar-livre), criticando deste modo a formação neoclássica conservadora que o Mestre Fonseca trouxera de Roma, baseada em cópias produzidas em atelier, de mestres antigos, de estampas de paisagens e na produção de uma pintura de História apoiada nas iconografias clássicas (considerada ultrapassada pela nova geração).

Do atelier para o ar-livre, os Cinco Artistas fazem-se representar em Sintra (terras do romantismo de D. Fernando e do seu Palácio da Pena) a ensinar o povo, demonstrando um programa simbólico muito significativo, próprio de um novo regime político (fontismo). O campo vai, deste modo, receber esta nova geração sedenta de novas temáticas que olham para a Natureza intocada pelo Homem, para a população rural e seus costumes. Olhando para o contexto europeu, entre as décadas de 50 a 70 de Oitocentos, criou-se a consciência de que se estava a perder a cultura e a tradição camponesa e rural. Criou-se um momento de nostalgia por aquilo que se estava a fazer, o que veio reforçar as temáticas anti-académicas (paisagem e retrato) e abrir caminho para um culto da Natureza.

Estes artistas, apesar de apenas produzirem esboços iniciais ao ar-livre e terminarem as suas obras em atelier sobre fundos de betume (tratamento que permite absorver melhor o óleo mas que acaba por deteriorar as cores), vão abrir caminho para uma nova geração – a geração do Grupo do Leão.

É de referir, no entanto, que o Romantismo em Portugal reside sobretudo na literatura (com Almeida Garrett e Alexandre Herculano) e na arquitectura (Palácio da Pena, Quinta da Regaleira, Buçaco). Por sua vez, a pintura “romântica” iniciada pela geração de Anunciação não tem o pathos romântico que a legitimiza, assim como a temática mística, poética e de ruínas está ausente. É neste argumento que se funda a opinião de alguns autores (como R.H.S), que olham para este ciclo como um pré-naturalismo.

Resgatando uma vítima do terramoto de 1755


Esta imagem pintada a óleo que se encontra na exposição permanente do Museu da Cidade de Lisboa, é um ex-voto da segunda metade do século XVIII. Um ex-voto consiste numa oferenda a uma divindade, em agradecimento por uma graça concedida em tempos difíceis. Para os Católicos, tem expressão num objecto primeiramente prometido e depois oferecido a Deus, a Nossa Senhora ou aos Santos, agradecendo uma prece formulada e por algum d' Eles atendida. No caso em apreço, Leonardo Rodrigues, provavelmente residente em Lisboa, dedica esta pintura a Nossa Senhora da Estrela, por ter conseguido encontrar a filha de três anos com vida, entre as ruínas da sua habitação, na sequência do terramoto de 1 de Novembro de 1755. O texto que acompanha a imagem (abaixo reproduzido) é uma expressão notável da fé católica e, pode pensar-se, a súplica deste homem terá tido a atenção dos Céus. Todavia, Leonardo Rodrigues não ficou inactivo: fez a sua promessa e depois pôs-se a procurar a filha, o que lhe demorou sete horas. Isto prova que, para aqueles que têm fé, é mais saudável pensar que a divindade tem um papel, mas que o crente também, pois os desejos não se devem esgotar nas preces. O quadro representa essa mesma ideia: um grupo de homens (entre os quais figurará o pai da criança) removendo os obstáculos das ruínas, com o patrocínio de Nossa Senhora que aparece no canto superior esquerdo.

"A nossa Senhoª da Estrella/voto que no terremoto de 1755 fez/Leonardo Rodrigues; porque fal/tando-lhe huma filha de 3 anos/invocando ajudª Santissima a achou depo/es de 7 horas nas ruinas das su/as cazas com huma tão perigosa/ferida na cabeça, que atribue a sua/vida à intercessão da Soberana/Senhora."

A imagem e a frase vêm reproduzidas no site do Museu da Cidade de Lisboa: http://www.museudacidade.pt/Coleccoes/Pintura/Paginas/Ex-voto-a-Nossa-Senhora-da-Estrela.aspx.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fotografias Antigas (2): Raquel Roque Gameiro, 1911

Fotografia colorida da Ilustração Portugueza, que saía uma vez por semana com O Século, de 27 de Novembro de 1911. A senhora representada, então com 22 anos, é a pintora e ilustradora Raquel Roque Gameiro (1889-1970), filha do prestigiado artista Alfredo Roque Gameiro (1864-1935). Como pintora, expôs em Lisboa, no Porto e em Londres. Ilustrou obras para crianças, nomeadamente da autoria de Ana de Castro Osório (1872-1935) e de António Sérgio (1883-1969).

Fonte:
AAVV, Percursos, Conquistas e Derrotas das Mulheres na 1ª República, coord. de Teresa Pinto, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa - Grupo de Trabalho para as Comemorações Municipais do Centenário da República - Biblioteca Museu República e Resistência, 2010, p.131.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Menina na Praia, de Ofélia Marques

A pintura da imagem faz parte da obra de Ofélia Marques (1902-1952), esposa de Bernardo Marques (1899-1962), célebre artista moderno. Ofélia Marques começou por se licenciar em Filologia Românica, mas veio a tornar-se numa pintora talentosa, até premiada com o Prémio Souza Cardoso. As cores vivas da Menina na Praia, bem como as formas simples, contribuem para a candura da obra. Assim, o resultado pictórico relativamente elementar, sem definições excessivamente pormenorizadas, e o olhar enigmático da rapariga poderiam ser como que dois traços da memória da infância: a lembrança vaga dos acontecimentos e o encanto, por vezes ambíguo, que lhes são o ambiente.
Fonte: Manuel Alves de Correia, O Grande Livro dos Portugueses, Círculo de Leitores, 1990, p.338.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O mês de Fevereiro no século XV


O realismo de algumas imagens deixadas pelos artistas da Idade Média pode ser tão descritivo como os documentos escritos em que encontramos a vida quotidiana desse tempo. Referimo-nos particularmente às iluminuras das Très Riches Heures du Duc de Berry (1413-1416), da autoria dos irmãos Limbourg. Trata-se de um livro de horas, muito ricamente concebido, já que era para uso ou deleite de um homem dito importante. “Designavam-se por êste nome uns livros para uso dos fiéis, contendo um calendário, os ofícios da missa e as vésperas, os ofícios dos diferentes santos, entre os quais os dos santos protectores do possuïdor, sendo, por isso, além do alto valor artístico que alguns destes preciosos códices em pergaminho, iluminados, tiveram como subsídio para a história da arte, valiosas fontes de informação para a biografia das notáveis individualidades que os mandavam fazer. (...) As horas que deram o nome a êstes livros eram as chamadas horas canónicas, segundo o som das badaladas do sino que anunciava a celebração do ofício”[1]. O livro de horas em questão foi feito particularmente para o Duque de Berry (1340-1416). Chamava-se ele Jean de France, era filho de Jean II, le Bom, irmão do Rei Charles V (1338-1380) e foi um importante mecenas do seu tempo. Os autores das gravuras foram os irmãos Pol, Herman e Jou Limbourg, três artistas de origem flamenga que se estabeleceram em França[2] e que trabalharam na corte do Duque; terão falecido em data desconhecida, mas anterior e próxima de 1416.[3] As gravuras do calendário das Très Riches Heures acompanham o Homem Medieval através do ano e mostram as actividades ligadas a cada época. “Assim a iluminura de Fevereiro [reproduzida junto deste texto], a mais antiga paisagem de neve na história da arte ocidental[4], dá-nos uma imagem lírica e encantadora da vida de aldeia no pico do Inverno, com as ovelhas no redil, as aves esfomeadas esgravatando na eira e uma criada aquecendo as mãos com o bafo, enquanto vai correndo para junto das companheiras à lareira (a parede da frente foi suprimida para benefício do contemplador); a meia distância um aldeão corta lenha para o lume e outro conduz um burro carregado para a povoação ao longe.”[5] Sobre esta época do ano, diz G. D’Haucourt: “Fevereiro, mês do frio, da neve e da chuva. Os calendários mostram-nos o vilão, sentado ao lume, na lareira bem abrigada, decorada com presuntos e chouriças. No Dia na Candelária traziam da igreja o círio bento, cuidadosamente reservado para acender em caso de perigo ou à cabeceira dos moribundos. Também esta festa era, em muitas regiões, época de pagamentos; celebravam-na fazendo filhós. Mais cedo ou mais tarde, conforme o ano, chegava a Quaresma”.[6]

Notas:
(A imagem das Très Riches Heures acima reproduzida vem de André Lagarde e Laurent Michard, Moyen Âge, Paris, Bordas, 1967, p.98.)
[1] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.13, Lisboa - Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, s.d., p.373, s.v. “Hora (Livros de Horas)”.
[2] H. W. Janson, História da Arte, 6ª edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p.357.
[3] Lexicoteca – Moderna Enciclopédia Universal, dir. e coord. de Leonel Moreira de Oliveira, vol.XII, Círculo de Leitores, 1986, p.27, s.v. “Limbourg, irmãos.”.
[4] Destaque nosso.
[5] H. W. Janson, ibidem.
[6] Geneviève d’Haucourt, A Vida na Idade Média, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p.82.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Sarah Affonso, Almada Negreiros e a vida artística portuguesa no século XX, segundo testemunho oral


Quando idosa, a pintora Sarah Affonso (1899-1983) costumava conversar muito com a nora – Maria José de Almada Negreiros – e o tema era, muitas vezes, a Arte, os artistas, os artistas portugueses do século XX, a geração de Orpheu e o que se lhe seguiu. Sarah Affonso estudou pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, ainda aprendeu com Columbano Bordallo Pinheiro (1857-1929) – pintor do naturalismo – e, nas suas primeiras exposições individuais (1928 e 1932) revelou-se uma artista moderna, com um estilo pessoal. Esteve a estudar em Paris (1923-1924 e 1928-1929) e foi casada com o multifacetado Almada Negreiros. Em 1944 ganhou o Prémio Amadeo de Souza Cardoso do SNI.[1] A sua pintura, embora moderna, mantém uma forte ligação a referências portuguesas - expressas em crianças, procissões, festas, coretos - não sendo, portanto, uma arte propriamente cosmopolita ou universalista como a dos pintores que estiveram no Orpheu e que chegaram a Lisboa com as novidades de Paris. Das tais conversas, diz a nora: “Comecei por tomar notas do que Sarah Affonso me contava, logo que chegava a casa. Ainda não pensava em publicar este livro, mas, mesmo para mim própria, não queria esquecer todos aqueles pormenores que me revelavam como era, na sua pequena história, a vida artística portuguesa desde o princípio do século.”[2] A junção de várias conversas recolhidas por um gravador “clandestino” e depois autorizadas pela pintora, deram um volume de cerca de 100 páginas, acessível, e com dados importantes para a compreensão do ambiente artístico português e da vida e personalidade de alguns artistas, cujo título agradavelmente despretensioso é Conversas com Sarah Affonso. Sarah Affonso fala de si mesma, do marido – o pintor, escritor, ensaista, etc., José de Almada Negreiros (1893-1970) – da amizade com Fernando Pessoa (1888-1935), das relações nem sempre lineares com Eduardo Viana (1881-1967), da pintura e aceitação problemática de Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918), da história do casal Delaunay em Portugal, e, entre outras coisas, revela um pouco do que pode ter sido a influência de Santa Rita Pintor (1889-1918) – a quem chama “mestre” (p.24) – na arte de Almada, um tema pouco abordado, não só por causa da sua morte precoce, mas também pela exiguidade de testemunhos do próprio Almada sobre o pintor e pela má vontade com que Santa Rita é ainda hoje visto por alguns estudiosos para quem foi apenas um blagueur, sem realizações práticas de Arte. O texto é, portanto, significativo, não só por causa das revelações históricas, mas também por resultar de uma prática, tanto quanto sabemos, com pouca expressão em Portugal, que é o recurso ao testemunho oral, à experiência individual para a recolha de informações com efectivos aproveitamento e importância científicos.


“K4 QUADRADO AZUL


[Maria José de Almada Negreiros] - Os Delaunays estiveram cá por altura de 14, 15, não foi?
[Sarah Affonso] - Parece-me que vieram em 15. O Delaunay estava isento da tropa, acho que em caso de guerra são chamados na mesma, mas ele saiu de França e veio para cá, com o Amadeu. Foram viver para Vila do Conde. O Zé[3] sem querer tramou-lhes a vida e eles tiveram que fugir para Espanha. Isto porque o Amadeu gostava muito do conto «K4 quadrado azul». Estava-se em plena guerra e K4 parecia mesmo uma sigla misteriosa. O Amadeu gostava muito do K4, eu não gosto, já é uma coisa muito futurista, gosto é da «Engomadeira». Mas então o Amadeu disse ao Zé «olha, eu conheço um tipógrafo no Porto, que te faz isso muito barato». E levou o original com ele para o norte. Levou o manuscrito e nunca mais disse nada e o Zé que era um impaciente, manda-lhe um telegrama: «Dá notícias K4 quadrado azul.» Ao Almada não disseram nada, não sei porquê, mas ao Amadeu foram perguntar o que era aquilo e depois todo o grupo foi interrogado. O Viana esteve preso 15 dias na enxovia. Como não tinha dinheiro para pagar um quarto na polícia, foi para onde vão todos, isso é que é a enxovia. Ficou lá até que um dia se encheu de raiva, estava o juiz ou o polícia lá no gabinete a fazer-lhe perguntas e ele agarrou-se assim à mesa e com a cara dele encostada à do homem: «Você acha justo o que me estão a fazer? Se você tivesse um filho, se o visse aí, deixava-o ficar!?» E então deixaram-no ir embora.
[MJAN] - Mas esteve preso por causa do K4!?
[SA] - Pois, porque as explicações que ele dava não os convencia. E os Delaunays também estiveram presos. Foram eles e o Viana. O Amadeu como era de gente conhecida do Porto, deixaram-no ficar à solta. (...)
[MJAN] - Mas depois ficou tudo esclarecido?
[SA] - Depois, o Amadeu lá os convenceu que não eram espiões de guerra.”[4]



[1] Para estas referências, v. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, vol.1, p.518 e vol. 1 da Actualização, p.112.
[2] Conversas com Sarah Affonso, Maria José de Almada Negreiros, Publicações Dom Quixote, 1993, p.7.
[3] José de Almada Negreiros.
[4] Idem, pp.44-45.
Nota: A imagem acima reproduzida vem da capa da obra citada na nota 2 e é a reprodução de dois auto-retratos, ambos da mesma altura, de Sara Affonso à esquerda (1927) e de Almada Negreiros à direita (c.1927).