terça-feira, 13 de abril de 2010

As Fábulas de La Fontaine, segundo os poetas portugueses e brasileiros

É muito conhecido do público o escritor francês Jean de La Fontaine, autor de um conjunto de fábulas que, desde o século XVII, faz a delícia dos seus leitores. La Fontaine (1621-1695), originário de uma família burguesa, estudou Direito (após ter desistido da vida eclesiástica) e acabou por se instalar em Paris, à procura do sucesso pela via das Letras. Esteve inicialmente ligado à poesia; no entanto, em 1668 publicou as suas primeiras fábulas. Muito do material de que se serviu não era inteiramente novo: já fora divulgado por Esopo, Fedro e outros autores. Aliás, muito deste material literário era transmitido oralmente e atravessava até fronteiras civilizacionais, de modo que La Fontaine, como outros, colheu-o em parte nas obras impressas do seu tempo e decerto em parte no imaginário popular. A proposta de leitura que aqui queremos avançar parece-nos muito interessante, precisamente por causa desta leitura e "devolução" dos temas das fábulas. A Moderna Editorial Lavores publicou em 1996 uma edição das fábulas de La Fontaine, mas trabalhadas por poetas portugueses e brasileiros. Esta edição inclui belas ilustrações de Gustave Doré, desenhador francês do século XIX, de que falaremos no texto seguinte. Tem também uma nota introdutória de Teófilo Braga. Para finalizar, deixamos uma das fábulas adaptadas: a célebre fábula da cigarra e da formiga, aqui em poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805):
"A Cigarra e a Formiga
Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o Verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso Estio.
«Amiga - diz a cigarra -
Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos antes de Agosto
Os juros e o principal.»
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda hora:
-Oh, bravo! - torna a formiga; -
Cantavas? Pois dança agora!»
(pp.3-4)
Referência:
La Fontaine, Fábulas de La Fontaine - traduzidas ou adaptadas por poetas portugueses e brasileiros do século XIX, Porto, Moderna Editorial Lavores, 1996.

1 comentário:

Valdecy Alves disse...

Amigos poetas blogueiros, parabéns por utilizarem a internet como forma de dividir com o mundo o seu pensar, o seu compreender, desempenhando a missão do poeta que é se afirmar como ser humano, sobretudo perante si mesmo, captar os arquétipos coletivos de sua época e princípios universais, permitindo após compreender-se ou não compreender-se, que pela sua obra os da sua época tenham referência alternativa para fazer a leitura do mundo e as gerações posteriores entenderem a própria história da humanidade. Tudo temperado pelo sonho, pela sensibilidade e pela utopia. PASSOU A ÉPOCA DE ESCREVERMOS E GUARDAR NA GAVETA NOSSAS CRIAÇÕES DEPOIS DOS MAIS PRÓXIMOS FINGIREM TER LIDO PARA NOS AGRADAR. Através do meu blog quero aprensentar-lhes a video-poesia, que usa várias linguagens de uma só feita, a serviço do texto. Se gostar divulgue e compartilhe com os seus contatos. Acessar em:

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